Adultos


escafandro,

Ora, eu ouvi isto todos os dias da minha educação: são coisas que qualquer pai (e avó) competente repete aos seus filhos. São ilustrações simplistas de uma hierarquia de prioridades saudável. São, também, parte da narrativa católica, da narrativa católica conforme passada às crianças. Foi estranho ouvir aquilo de alguém que falava para adultos, mas não mais do que isso: estranho.

Lourenço Cordeiro, no Complexidade e Contradição, em texto (já referido pela Ana Vidal) sobre a polémica levantada pelas declarações de Isabel Jonet.

 

Caro Lourenço:

Não é assim tão estranho porque muitos adultos parecem hoje pouco mais do que crianças. Não conseguem separar o essencial do acessório, tomam notícias absurdas como verdadeiras, reagem instantaneamente, mantêm uma opinião já depois de se encontrarem na posse de dados suficientes para a perceberem errada, detestam constatar que certas coisas estão fora do seu alcance. Nesta fase de dificuldades económicas, a situação agrava-se. Como a criança que não entende o argumento «é demasiado caro», recusam-se a aceitar más notícias – por exemplo, notícias em que lhes dizem que certas coisas que antes eram possíveis deixaram o ser. Recusam os dados objectivos, acham que é uma injustiça, procuram quem culpar, batem o pé, fazem birra. Crianças. E assim acaba por ser lógico, embora talvez contraproducente, que algumas pessoas comecem a tratá-los como tal.

6 comentários em “Adultos”

  1. Caro jaa,

    Identificar-se-á com a satisfação, que senti ao ler seu post, de se deparar com palavras que parecem ter sido tiradas da sua cabeça, que vive repetindo, mas que julgava ser o único a pensar assim: somos um país de crianças, há muito que penso isso!

    Deixo um excerto de algo que escrevi:

    “… Por exemplo: seremos honestos se, com factos reais, apresentarmos também seu contexto. Seremos ponderados, se atendermos a contra-argumentos e à possibilidade das medidas que nos são amargas serem necessárias. Seremos maduros se… nos conduzirmos como tal. Sendo adultos, e não crianças, devia ajudar. Devíamos poder compreender certos princípios e valores que, curiosamente, tanto gostamos de inculcar aos nossos filhos. Surpreendentemente, quando nos toca a nós, parecemos optar por esquecer que existem.

    Um desses conhecemos bem: qual vacina, nem tudo o que nos dói, nos sabe mal ou nos é desfavorável, nos é necessariamente prejudicial. Sabemos bem que, em alguns casos, antes pelo contrário. Mas levemos isto mais adiante. Quando em causa está um coletivo, seja o condomínio, a comunidade, o país ou o mundo em que vivemos, um amargo-de-boca pode ser-nos pessoalmente desfavorável e, ainda assim, continuar a ser desejável, a bem desse coletivo. Para aqueles que tanto apregoam solidariedade, ei-la aqui na sua forma mais fundamental. Eis o caminho que nos leva do egocentrismo darwiniano à defesa da res publica. Urge “pensar país”!”

    O artigo completo está aqui:
    http://antologiadeideias.wordpress.com/2012/07/03/pensar-pais/

    O Autor
    Blog: http://antologiadeideias.wordpress.com
    Facebook: https://www.facebook.com/antologiadeideias.wordpress
    E-mail: antologia.wordpress@gmail.com

    1. Obrigado pelas palavras. As vacinas são um bom exemplo mas os medicamentos também mostram o contrário: incapazes de suportar qualquer esforço doloroso (físico ou não), atolamo-nos neles à mais pequena perturbação.
      Pessoalmente, tenho uma teoria explicativa para o comportamento dos adultos que parte de duas premissas:
      1. É muito fácil, hoje, constatar tudo aquilo que existe e não se tem (ou não se tem no último modelo);
      2. Muitas coisas que antes se pagavam (música, filmes, jogos, informação) passaram a ser obtidas de graça.
      A conjugação disto com um marketing agressivo faz com que os adulto sejam como crianças dentro de uma loja de brinquedos, desejando sempre mais e achando uma injustiça as coisas custarem dinheiro.

  2. Parafraseando um rei da Baviera, os portugueses podiam dizer “Claude Levy-Strauss já não existe, vivemos em vão”.
    Os tristes (e pobres) trópicos apossaram-se de nós que desejamos, todo o tempo, todas as coisas e a suas contrárias. La pensée sauvage em todo o seu esplendor.
    Falta quem nos anote e publique, naquele francês impiedosamente bem escrito (e, bien sur, sem «acordos ortográficos» coisa de “la bas”).

    1. A sensação de vivermos em vão é muito real – talvez o principal problema. E o pensamento de gente como Sartre, que tanto debateu com Levy-Strauss, tem grandes responsabilidades no facto, ao detestar e destruir valores baseados na fé, no valor do trabalho, na família e na comunidade – para além de ter transformado o consumismo no modo igualizador.

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