Lá em Baixo, como Uma Vizinha
Se eu não fosse eu e me ouvisse lá em baixo, como se fosse uma vizinha, a falar com ele, diria para comigo que me sentia muito feliz por não ser ela, por não dizer as coisas como ela diz, com uma voz como a voz dela e opiniões como as suas opiniões. Mas não posso ouvir-me lá em baixo, como se fosse uma vizinha, não posso ouvir como não devo falar, não posso sentir-me feliz por não ser ela, como sentiria se pudesse ouvi-la. Por outro lado, uma vez que ela sou eu, não lamento estar aqui em cima, onde não posso ouvi-la como se fosse uma vizinha, onde não posso dizer para comigo, como diria se estivesse lá em baixo, como me sinto feliz por não ser ela.
Amigos Maçadores
Só conhecemos quatro pessoas maçadoras. Os nossos outros amigos parecem-nos muito interessantes. Todavia, a maior parte dos amigos que achamos interessantes acham-nos maçadores: o mais interessante é o que nos acha mais maçadores. Desconfiamos dos poucos que adoptam de certo modo uma posição de meio-termo, com os quais partilhamos um interesse recíproco: sentimos que, a qualquer momento, poderão tornar-se demasiado interessantes para nós – ou nós, demasiado interessantes para eles.
Lydia Davis, Contos Completos. Edição Relógio D’Água (em português pré-AO), com tradução de Miguel Serras Pereira e Manuel Resende.


Belíssima sugestão, Jaa. Pela amostra vou gostar de ler, além de que gosto muito de contos.
Considerando os teus contos ínfimos, já estava à espera que apreciasses. O livro, porém, tem contos de vários tamanhos. 🙂
Mas eu não gosto só de microcontos, Jaa… embora eles sejam um desafio suplementar, tanto para quem escreve como para quem lê.
Eu sei, Ana. O meu comentário prendia-se apenas com o facto de uma pessoa que escreveu a série de contos ínfimos ter de gostar destes dois contos…
Claro, eu percebi. E tens razão, era impossível eu não gostar deles. 🙂
Serviço público, JAA. Incluindo, naturalmente, a indicação de que é uma obra editada num português sem erros (do Miguel Serras Pereira não esperava outra coisa).
Obrigado, Pedro. O caso da Relógio D’Água é interessante. Há uns meses editou pelo menos um livro (já não me lembro qual) segundo o AO. Mas depois parece ter recuado e nas edições mais recentes optou pela ortografia correcta.
PS: Usei “correcta” por ser uma palavra com uma consoante muda – e para espicaçar o Luís Lavoura. 🙂
Este vai já direitinho para a minha lista de Natal. Gostei muito da amostra.