Três cenários idílicos


escafandro,

Cenário 1 (à beira de um lago, com patos e cisnes deslizando na superfície calma das águas)

Fazemos voz grossa junto da Troika mas é a fingir. Eles percebem-no imediatamente e mandam-nos ter juízo. Os nossos parceiros europeus não acham piada. Por seu turno, os mercados financeiros reagem (e bem: mostrámos não ser de confiança) e os juros da dívida portuguesa voltam a disparar. Acabamos de cair na situação actual da Grécia.

 

Cenário 2 (numa praia de areia branca, com coqueiros inclinados, um veleiro ancorado ao largo e golfinhos saltando à distância)

Fazemos voz grossa junto da Troika e é a sério. Eles cedem e negoceiam-se novos prazos e montantes, e até um perdão parcial da dívida. Contudo, alguns países financiadores mostram-se relutantes em colaborar, expondo novamente as fracturas existentes a nível europeu, os bancos nacionais encaixam perdas elevadas que levam à necessidade de os recapitalizar com (ainda) mais dinheiro público, os mercados perdem a confiança em nós e os juros da dívida portuguesa voltam a disparar. Esperem… agora é que acabamos de cair na situação actual da Grécia.

 

Cenário 3 (numa cabana de montanha cercada por florzinhas, com o sol a brilhar no céu de um azul intenso, pontuado por uma única nuvem muito branca, junto a um rumorejante regato de água límpida, perto do qual dois cachorros, um São Bernardo e um Serra da Estrela, brincam com uma bola colorida)

Fazemos voz grossa junto da Troika e é a sério. Eles não cedem e nós anunciamos a suspensão de pagamento dos encargos da dívida, uma vez que achamos mais justo usar esse dinheiro para garantir salários e pensões. Os mercados perdem toda a confiança em nós e os juros da dívida portuguesa sobem tanto que se tornam um perigo para a aviação. O BCE, o FMI e os países que nos emprestaram dinheiro também não acham piada e cortam os financiamentos. Mas isto a gente já esperava. O pior é que, como a maioria da dívida se encontra em mãos nacionais, há uma data de instituições que encaixam perdas significativas (o fundo de investimento da Segurança Social, por exemplo) ou ficam à beira da falência (os bancos), tendo que ser salvas pelo Estado. Mas – bolas! – o dinheiro que se poupava ao reter os encargos da dívida destinava-se a pagar salários e pensões, não era? Temos pena. Ainda por cima, em menos de nada a situação atinge foros de histeria: os bancos, absolutamente incapazes de obter financiamento na totalidade do planeta e em alguns arredores, perdem depósitos mais depressa do que o Sporting perde pontos; as empresas que têm negócios com o exterior vêem os fornecedores exigir mais e melhores garantias; o investimento, que já anda baixo, fica negativo (que é como quem diz: toda a gente começa a levar o dinheiro para o estrangeiro ou a metê-lo onde muito já se encontra certamente: debaixo do colchão). A situação torna-se insustentável e a saída do euro inevitável. (É por isto e por mais alguns pormenores que ficaram de fora, entre os quais os de índole política, que constitui uma ilusão pensar que se pode denunciar o pagamento da dívida e permanecer no euro, como os partidos de esquerda e a CGTP parecem considerar.) Fora do euro, imprimem-se paletes de notas fresquinhas que valem bastante mais de manhã do que à tarde – e nem mencionemos o efeito da humidade nocturna. Um Clio bem equipado atinge o preço actual de um Mercedes de gama média (com pintura opaca, vá), o que deixaria Francisco Assis bastante incomodado se, por um lado, com os combustíveis acima dos dois euros por litro, o automóvel ainda fosse uma coisa que se usasse por cá e, por outro, o Parlamento ainda estivesse de pé. Contudo, este cenário tem inegavelmente um ponto positivo: permite-nos escapar à situação actual da Grécia.

23 comentários em “Três cenários idílicos”

  1. A questão é que todas essas situações, embora desagradáveis, são constitucionais, enquanto pagar parece levantar dúvidas de constitucionalidade.

    1. Eu bem tento mas ao fim de dez ou quinze linhas acaba sempre por me escapar uma nota de optimismo… De qualquer modo, neste caso também foi porque queria usar um número redondo e achei que três euros – um aumento de 100% – era ligeiramente exagerado.

  2. Precisamos de eleições em janeiro, para a esquerda tomar rápidamente conta disto; dentro de seis meses a um ano, o cenário3 vai parecer um filme da Heidi.

  3. Cenário 4 – Fala-se muito mansinho à Troika.
    Junho de 2013 torna-se evidente que a recessãos superior a 2% não vai permitir arrecadar impostos. Não há investimento e a economia não para de se contrair.
    O Governo decreta o fim do salário mínimo, do subsídio de desemprrego após o 2º mês e a taxa de IRC a 10% para atrair investimento. Os salários descem mais que os 30% considerados necessários, mas como a maior fatia dos impostos é paga pelo trabalho o défice dispara para valores nunca vistos. Depois de várias revisões que colocam a dívida portuguesa em zzz- torna-se impossível conseguir qualquer financiamento fora da Troika.
    O BCE e o FMI declaram que a pouca qualidade do trabalho português impossibilita qualquer revisão do memorando. Exigem a privatização imediata do SNS e do ensino com exeção de algumas unidades para indigentes (considera-se indigente uma família de quatro pessoas com um rendimento mensal inferior a 100€).
    O colapso da Espanha e a posição de pré colapso da França impossibilitam a atribuição das últimas tranches do memorando por parte da Troika. Para grande espanto do nosso primeiro ministro apesar de Portugal ter sido um aluno aplicado é abandonado à sua sorte.
    O Governo termina as privatizações e demite-se. Os seus membros passam a fazer parte das unidades recém privatizadas.

    1. Jo, a sua visão não parece impossível até porque o final é idêntico ao de anteriores governos, mas nesses tempos a “malta” vivia despreocupada com fundos comunitários que davam para subsidiar tudo e mais alguma coisa, nesses tempos eu chegava a dizer para mim mesmo que só estava faltando um subsidio por andar a pé ou por outro qualquer aspecto natural. Pois hoje vivemos o oposto, só esta faltando um imposto por andar a pé. Hoje vivemos com dinheiro dinheiro emprestado e a pagar juros violentos, se isso não for motivo suficiente para esta gente ter juízo então somos uma porcaria de país.

    2. jo: mais coisa menos coisa, é um cenário possível que, aliás, o encurralamento do governo (por parte do Tribunal Constitucional, da opinião pública, dos comentadores e de muitas corporações) e o assobiar para o lado do PS tornam cada vez mais provável. Ainda assim, eu acho que em relação à Troika só se justificam duas vias: a do PC e do BE (rasgar o memorando, denunciar a dívida, acabar por sair do euro) ou permanecer em diálogo tão construtivo e discreto quanto possível, aproveitando os passos que forem dados a nível europeu, em especial por causa da Espanha.

      1. A ultima parte da sua ultima frase soa bem e demonstra bom senso. Isso sim, é essa atitude que nos faz falta, todos unidos podemos até falhar mas numa coisa nada nem ninguem pode nos pode atingir: esperança.
        (é muito mais eficaz que medo)

  4. E não se pode fazer melhor com Troika? Cumprido compromissos e de forma mais justa? Se não se cortam nas PPP’s, porque não se explica? Se não se corta em outras rendas, porque não se explica? Só deixa a ideia de um governo fraco, incapaz, mal preparado e sem rumo…

    1. Miguel: que o governo já se revelou mal preparado em muitos temas e que, especialmente desde Setembro, parece sem rumo definido, é incontestável. Quanto às PPP, a minha resposta é sim mas sem ilusões de que isso resolveria a situação; as obras foram feitas e têm de ser pagas, a manutenção delas custa dinheiro: apenas as partes referentes a garantias de utilização e outras coisas que tal são verdadeiramente injustas – mas não são a maioria dos custos.
      Na verdade, toda a gente já o sabe: o peso dos salários e das pensões no orçamento é demasiado elevado para que possam escapar a cortes. E ainda que o governo devesse apressar-se a apresentar esses outros cortes (ou, nos casos em que já fez alguma coisa – veja-se a acção do famigerado “Álvaro” nas empresas de transportes – a apresentar cortes mais substanciais: p. ex., nas PPP, no poder local, na RTP, nos institutos públicos, etc, etc) muitas vezes isso é usado para evitar discutir o que, infelizmente, é essencial.

  5. Conclusão: este é o único caminho. Não há alternativas. Resignemo-nos então. Batamos com a cabeça na parede e penitenciemo-nos pelo tempo em que andámos a viver acima das nossas possibilidades.
    Uma vez que não há alternativas, suspendamos a democracia por uns tempos e façamos uma espécie de união nacional, para ver se nos tornamos o primeiro país do mundo sem dívidas.
    Como diria o Salazar, pobrezinhos mas honrados.
    Ou, ainda à maneira do velho ditador, oremos para que o Passos nos livre da terceira guerra mundial, já que não nos consegue livrar da fome.

    1. Há alternativas. Resta saber se são melhores ou piores e, nesse ponto, eu confesso não ter certezas. Ainda assim, a aceitar que precisamos do dinheiro alheio, prefiro a estratégia de não afrontar abertamente a Troika.

  6. Para minha tristeza creio que já é altura de todos os partidos que negociaram e assinaram o memorando da troika, admitirem que não sabiam o que estavam a fazer, não tiveram calculo, entende-se e perdoa-se, qualquer um que seja levado pelo desespero da banca rota perde a cabeça e facilmente cai no hábito do bom português: faz uma adaptação no joelho.
    Nestes cenários idílicos torna evidente que em oposição ao que a esquerda diz: temos de trabalhar e consequentemente ganhar mais para pagar a divida, a direita diz: não, não é assim, temos é que poupar mais para pagar a divida. Mais triste fico quando não há qualquer coisa próximo do centro, que diga: temos de ganhar mais e poupar mais.
    Tanto um lado como o outro tem uma metade da formula, mas separados pela teimosia, qualquer um por si só, vai enterrar ainda mais o país.
    Cenário idílico muito bom seria se parassem para pensar e se unissem por um esforço mutuo. Que diabo! não deve ser impossível cortar na despesa e criar estimulo na economia para aumentar a receita, é que continuando nisto vamos para mais um ano de recessão sem perspectivas de ser o ultimo, alias, isto até promete muitos mais e mais austeros, pois com isto decerto que já estamos cheios de vontades de abandonar este país, o que é triste e para mais do que isso quando afinal somos uma sociedade em que a grande maioria dos seus cidadãos sempre viveu num nível de qualidade de vida abaixo da média europeia.
    -Isso não vos causa uma impressão desagradável?
    -Será que é só por sermos um país pobre materialmente, ou também somos pobres em capacidade intelectual, intelligenza?
    -Ou será que não somos suficientemente solidários para com o próximo para pelo menos, por uma vez, desta vez, nos unirmos todos na resolução deste problema?
    São perguntas que se eu pudesse colocaria a todos os partidos e para todos os portugueses.

    1. A questão do estímulo foi posta em cima da mesa logo de início e pelo FMI: a questão da TSU, com o objectivo de favorecer as exportações. Quanto a estimular a economia tal como ela existia não serviria de nada, como não serviu em 2009 e 2010: as empresas de construção civil resistiriam melhor mas nós não precisamos de tantas empresas de construção civil; o sector do imobiliário resistiria melhor mas já há demasiados imóveis desocupados; etc, etc. apenas se aumentaria o buraco. Um processo de mudança é inevitavelmente doloroso precisamente porque obriga sectores – isto é, pessoas – a mudar de actividade. Dito isto, claro que seria preferível um ajustamento mais lento, em especial de modo a não colocar em risco tantos estabelecimentos comerciais. Mas mesmo aqui muitos teriam de fechar porque os portugueses não produzem o suficiente para poderem permitir-se tanto consumo – que desequilibra a balança comercial e exige crédito.
      Ou seja: eu estou de acordo que o memorando foi mal negociado. Desde logo, todos nos lembramos de que se falava em 80 a 110 mil milhões. Sócrates, numa das suas típicas jogadas de marketing político, preferiu ficar abaixo desses valores e anunciou 78 mil milhões. O prazo também poderia ter sido mais dilatado, como foi na Irlanda. Mas, neste momento, parece-me contraproducente adoptar uma estratégia agressiva junto da Troika.

      1. Estratégia agressiva é o que se vê e se vive actualmente. Ainda ontem o debate da RTP1 mais parecia uma competição de sacudir agua de cima do capote. Não vamos a lado nenhum com isto, linhas vermelhas e a culpa é vossa, foi a única coisa que se conseguiu apurar do despique.
        Por isso sugeri que já é mais do que altura de todos admitirem que erraram e que por um tempo devem dar tréguas. Juntos tratarem de definir planos de acção, tanto ao nível de corte e optimização da despesa como na aposta no fomento à economia.
        Se para isso os dois tiverem de pisar a linha, que pisem. Se para isso tiverem de ceder no orgulho, que cedam.
        Se para isso tiver de haver despedimentos, que os haja. Se para isso tivermos uma boa solução, real, de quem mostra que conhece este país, estou certo que serão capazes até de esticar mais um pouco os prazos de pagamento sem que isso prejudique o objectivo: diminuir o défice. Ou então temos gente incompetente e egoísta que não sabe fazer nada que não seja afundar este país. Pergunto até onde? Escravatura? Não, nem isso, hoje há muita gente que nem de comer tem. Hoje experienciamos um retrocesso civilizacional, andamos para traz na evolução. Obrigado, mas não quero fazer parte desse plano, nem eu nem milhões de portugueses.

  7. O Professor desafia Luisinho:

    – Luisinho, imagine que vai numa rua muito estreita e lhe aparece um touro pela frente. Que faz?
    – Ora… eu corro, corro, corro… e subo a uma árvore!
    – Luisinho, esta rua não tem árvores!
    – Então eu corro, corro, corro… abro um portão e meto-me lá dentro!
    – Luisinho, está numa rua que não tem árvores, não há portões… é uma rua estreita com um muro de cada lado. Mais nada!
    – então corro, corro, corro… e subo ao muro!
    – Luisinho, os muros têm 5 metros de altura e são lisos. Não dá para subir!
    Luisinho desapontado: – está bem, está bem! Já percebi que o Senhor Professor quer é que o touro me foda!!!!!

    1. yap! quando apanhamos um professor assim não há escapatória possível. Casmurros, é livrar deles!

    2. Bom, se não dá para fugir, só há duas soluções:
      – Com voz ríspida, mandar o touro sentar-se;
      – Com voz suave, tentar amansá-lo.
      O problema está precisamente em saber se, na prática, são assim tão diferentes – e, no caso do touro atacar, se é preferível lutar ou fingir de morto.

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