
Tive a sorte de por razões profissionais ter tido que me deslocar a Washington por duas vezes na altura das eleições presidenciais: em 2000 e em 2008. Da eleição de 2008 recordo apenas a esperada vitória de Obama e o seu memorável discurso em Chicago, quando combinou o slogan de Martin Luther King, “We shall overcome“, com o seu próprio: “Yes, we can“. Lamentavelmente o Obama de 2012 está muito longe de ter a frescura e o brilho de 2008, tanto assim que tem precisado de se apoiar em Bill Clinton, seguramente a grande figura desta campanha.
Memorável foi no entanto assistir à renhida eleição de 2000 entre George W. Bush e Al Gore. Desde o início que se sabia que o vencedor do voto popular poderia não ganhar o colégio eleitoral e que tudo se iria decidir na Florida: “It’s Florida, Florida, and Florida“. Os republicanos apostavam claramente em que iriam vencer nesse Estado, devido ao facto de o Governador ser irmão do candidato: “De que serve ter um irmão Governador, se ele não for capaz de nos assegurar os votos do seu Estado?”. Já os democratas achavam que a Flórida não lhes escaparia, devido à elevada percentagem de pensionistas que residia no Estado.
Na própria noite eleitoral, visitámos o estado-maior democrata reunido no Edifício Watergate. Quando lá chegámos, o ambiente era tétrico. Bush já tinha assegurados 57 votos no colégio e Gore apenas 3. Mas nesse momento as televisões anunciam que Gore tinha vencido na Florida, somando os 25 votos desse Estado. A multidão irrompe em aplausos frenéticos e a nossa delegação foi jantar, estando plenamemente convencidos da vitória de Gore.
Mais tarde, quando ligo a televisão, verifico que afinal a Flórida permanecia indecisa: too close to call. Aliás o mesmo sucedia com uma série de outros Estados, sendo essa a frase mais repetida durante toda a noite. A certa altura o locutor recomendou aos espectadores que acordassem as crianças que a noite era histórica. Curiosamente havia pessoas a telefonar para os estúdios, que não percebiam o sistema eleitoral, e perguntavam como é que Gore, que tinha um avanço de 500.000 votos no voto popular, podia afinal não ser eleito por causa dos Estados. A resposta do locutor foi lapidar: “We are the United States of America. We are not the United Citizens of America“. A Fox a certa altura anuncia a vitória de Bush na Flórida, com um avanço de 20.000 votos, declarando consequentemente a sua vitória no colégio eleitoral, o que leva Gore a telefonar a Bush a assumir a derrota. Mas ao fim da noite os 20.000 votos estavam reduzidos a pouco mais de 200, o que levou Gore a retirar a sua assunção de derrota. E chegou-se ao fim da noite sem se saber quem era o novo presidente. Um jornal publicou em letras gordas “Bush wins” mas no dia seguinte o título já era “Not yet“.
É muito curioso um sistema eleitoral em que a eleição é travada em meia dúzia de Estados decisivos. Houve quem dissesse que o mundo todo deveria votar nas eleições dos Estados Unidos, uma vez que a mesma vai afectar a todos. Mas os próprios americanos devem pensar que todos os americanos também deveriam poder votar na Florida ou no Ohio, os Estados onde no fundo se vai decidir a eleição.

Esses estados também querem o Ohio e a Florida a meterem-se naquilo que fazem?
Os EUA são primeiro uma Republica de Estados só depois uma Democracia.
Apesar de todos os esforços do Partido Democrata -logo o nome- para a tornar numa Democracia com a ajuda muitas vezes do Partido Republicano ao aumentar o poder federal.
Pior ainda, o poder federal depois passa do Congresso para Agências do Governo…sem escrutínio algum.
E aqui está memória do pior de 2008. Como um Hitler poderia chegar ao poder nos EUA.
http://obamamessiah.blogspot.pt/2008_02_ 01_archive.html
um sistema eleitoral em que a eleição é travada em meia dúzia de Estados decisivos
Nos casos em apreço, isso (o facto de a eleição ser travada em meia-dúzia de estados decisivos) não se deve ao sistema eleitoral, mas sim ao facto objetivo de os dois contendores estarem, de qualquer forma, praticamente empatados.
Estando eles praticamente empatados, o desempate será sempre feito por meia dúzia de votos, ou de estados, ou de seja o que fôr, decisivos.
Não é exactamente assim. Há Estados que estão à partida decididos a favor de um dos candidatos. Por exemplo, o Texas para os republicanos ou a Califórnia para os democratas. Nem vale a pena o adversário perder tempo a fazer campanha lá. É por isso que a campanha só se faz nos Estados que ainda podem alterar o seu voto. São estes que decidem a eleição. Aliás há muitos americanos que, se tiverem uma casa secundária num dos “swing states” chegam a mudar a sua residência para lá por saberem que o seu voto no Estado em que habitualmente moram nada decide e no outro Estado pode ser decisivo.
Nesta matéria, a América é plena de “bush(es)” (arbustos e emboscadas).