Cem escritores que deviam ter ganho o Prémio Nobel (92)
Pedro Correia,
«Eu sou eu e a minha circunstância, e se não a salvo a ela não me salvo a mim.»
José Ortega y Gasset (1883-1955)
6 comentários em “Cem escritores que deviam ter ganho o Prémio Nobel (92)”
Boa escolha! A frase vem no “O Tema do Nosso Tempo”(1923) Eu, distinto das coisas à volta, mas aberto à realidade como ela é. Mas ao mesmo tempo só é circunstância pelo … eu. Compreender a circunstância, é compreender-me.A Vida é a circunstância radical, primordial.Daí a importância da teoria. para nos possuirmos no concreto sem absolutizá-lo.
Autor de “O que é a Filosofia?”, um livrinho ímpar, grandioso.
No seu livro “Estudos sobre o Amor”, satiricamente classificou os homens em três grupos : – os que se acham “Don Juans”; – os que julgam que o foram; e – os que acreditam piamente que o poderiam ter sido, mas não o quiseram ser.
“Rebelião das Massas”, cap. XIII (trad. minha):
Adverte-se qual é o processo paradoxal e trágico do estatismo? A sociedade, para viver melhor, cria, como um utensílio, o Estado. Depois, o Estado se sobrepõe, (…) A isso conduz o intervencionismo do Estado: o povo se converte em carne e massa que alimenta o mero artefato e máquina que é o Estado. O esqueleto come a carne que o rodeia. O andaime se torna proprietário e inquilino da casa. (…) O estatismo é a forma superior que tomam a violência e a ação direta constituídas em normas. Através e por meio do Estado, máquina anónima, as massas actuam por si mesmas. As nações europeias têm diante de si uma etapa de grande dificuldade em sua vida interior, problemas económicos, jurídicos e de ordem pública sobremodo árduos. Como não temer que sob o império das massas se encarregue o Estado de esmagar a independência do indivíduo, do grupo, e extinguir assim definitivamente o porvir? Um exemplo concreto deste mecanismo achámo-lo num dos fenómenos mais alarmantes destes últimos trinta anos: o aumento enorme em todos os países das forças de Polícia. O crescimento social obrigou iniludivelmente a isso. Por muito habitual que nos seja, não deve perder seu terrível paradoxismo ante nosso espírito o fato de que a população de uma grande urbe actual, para caminhar pacificamente e atender a seus negócios, necessita, sem remédio, uma Polícia que regule a circulação. Mas é uma inocência das pessoas de “ordem” pensar que essas “forças de ordem pública”, criadas para a ordem, vão contentar-se com impor sempre o que aquelas queiram. O inevitável é que acabem por definir e decidir elas a ordem que vão impor — e que será, naturalmente, o que lhes convenha. Convém que aproveitemos o ensejo desta matéria para fazer notar a diferente reação que ante uma necessidade pública pode sentir uma ou outra sociedade. Quando, em 1800, a nova indústria começa a criar um tipo de homem — o operário — mais criminoso que os tradicionais, a França apressa-se a criar uma numerosa Polícia. Em 1810 surge na Inglaterra, pelas mesmas causas, um aumento da criminalidade, e então os ingleses percebem de que não têm Polícia. Governam os conservadores. Que farão? Criarão uma Polícia? Nada disso. Preferem agüentar, até onde se possa, o crime. “As pessoas conformam-se em se adaptar à desordem, considerando-a como resgate da liberdade”. “Em Paris — escreve John William Ward — têm uma Polícia admirável, mas pagam caro suas vantagens. Prefiro ver que cada três ou quatro anos se degola meia dúzia de homens em Ratclife Road, a estar submetido a visitas domiciliárias, à espionagem e a todas as maquinações de Fouché(71).” São duas idéias diferentes do Estado. O inglês quer que o Estado tenha limites.” — Noutra altura, no mesmo livro:
“ …O egoísmo é labiríntico. Compreende-se. Viver é ir arrojado para alguma direção, é caminhar para uma meta. A meta não é o meu caminhar, não é a minha vida; é algo a que ponho esta e que por isso mesmo está fora dela, mais além. Se resolvo andar só por dentro de minha vida, egoisticamente, não avanço, não vou a parte alguma; dou voltas e mais voltas em um mesmo lugar. Isto é o labirinto, um caminho que não leva a nada, que se perde em si mesmo, de tanto não ser mais que caminhar por dentro de si. Depois da guerra, o europeu fechou-se em seu interior, ficou sem empresa para si e para os demais.”
Por último, recomendo escrito em castelhano e em alemão, por Ortega,
“Carta a un alemán pidiendo un Goethe desde dentro/ Brief an einen deutschen Um einen Goethe von innen bittend”..Editorial: Editorial Biblioteca Nueva, S. L.
Li há muitos anos ‘O que é a Filosofia’ e ‘A Rebelião das Massas’, além de vários textos ensaísticos desgarrados de Ortega, o mais influente pensador espanhol dos últimos cem anos. Obrigado pelos trechos que aqui nos trouxe e pela óptima tradução.
Boa escolha!
A frase vem no “O Tema do Nosso Tempo”(1923)
Eu, distinto das coisas à volta, mas aberto à realidade como ela é. Mas ao mesmo tempo só é circunstância pelo … eu.
Compreender a circunstância, é compreender-me.A Vida é a circunstância radical, primordial.Daí a importância da teoria. para nos possuirmos no concreto sem absolutizá-lo.
Autor de “O que é a Filosofia?”, um livrinho ímpar, grandioso.
No seu livro “Estudos sobre o Amor”, satiricamente classificou os homens em três grupos :
– os que se acham “Don Juans”;
– os que julgam que o foram; e
– os que acreditam piamente que o poderiam ter sido, mas não o quiseram ser.
“Rebelião das Massas”, cap. XIII (trad. minha):
Adverte-se qual é o processo paradoxal e trágico do estatismo? A sociedade, para viver melhor, cria, como um utensílio, o Estado. Depois, o Estado se sobrepõe, (…) A isso conduz o intervencionismo do Estado: o povo se converte em carne e massa que alimenta o mero artefato e máquina que é o Estado. O esqueleto come a carne que o rodeia. O andaime se torna proprietário e inquilino da casa.
(…)
O estatismo é a forma superior que tomam a violência e a ação direta constituídas em normas. Através e por meio do Estado, máquina anónima, as massas actuam por si mesmas.
As nações europeias têm diante de si uma etapa de grande dificuldade em sua vida interior, problemas económicos, jurídicos e de ordem pública sobremodo árduos. Como não temer que sob o império das massas se encarregue o Estado de esmagar a independência do indivíduo, do grupo, e extinguir assim definitivamente o porvir?
Um exemplo concreto deste mecanismo achámo-lo num dos fenómenos mais alarmantes destes últimos trinta anos: o aumento enorme em todos os países das forças de Polícia. O crescimento social obrigou iniludivelmente a isso. Por muito habitual que nos seja, não deve perder seu terrível paradoxismo ante nosso espírito o fato de que a população de uma grande urbe actual, para caminhar pacificamente e atender a seus negócios, necessita, sem remédio, uma Polícia que regule a circulação. Mas é uma inocência das pessoas de “ordem” pensar que essas “forças de ordem pública”, criadas para a ordem, vão contentar-se com impor sempre o que aquelas queiram. O inevitável é que acabem por definir e decidir elas a ordem que vão impor — e que será, naturalmente, o que lhes convenha.
Convém que aproveitemos o ensejo desta matéria para fazer notar a diferente reação que ante uma necessidade pública pode sentir uma ou outra sociedade. Quando, em 1800, a nova indústria começa a criar um tipo de homem — o operário — mais criminoso que os tradicionais, a França apressa-se a criar uma numerosa Polícia. Em 1810 surge na Inglaterra, pelas mesmas causas, um aumento da criminalidade, e então os ingleses percebem de que não têm Polícia. Governam os conservadores. Que farão? Criarão uma Polícia? Nada disso. Preferem agüentar, até onde se possa, o crime. “As pessoas conformam-se em se adaptar à desordem, considerando-a como resgate da liberdade”. “Em Paris — escreve John William Ward — têm uma Polícia admirável, mas pagam caro suas vantagens. Prefiro ver que cada três ou quatro anos se degola meia dúzia de homens em Ratclife Road, a estar submetido a visitas domiciliárias, à espionagem e a todas as maquinações de Fouché(71).” São duas idéias diferentes do Estado. O inglês quer que o Estado tenha limites.”
—
Noutra altura, no mesmo livro:
“
…O egoísmo é labiríntico. Compreende-se. Viver é ir arrojado para alguma direção, é caminhar para uma meta. A meta não é o meu caminhar, não é a minha vida; é algo a que ponho esta e que por isso mesmo está fora dela, mais além. Se resolvo andar só por dentro de minha vida, egoisticamente, não avanço, não vou a parte alguma; dou voltas e mais voltas em um mesmo lugar. Isto é o labirinto, um caminho que não leva a nada, que se perde em si mesmo, de tanto não ser mais que caminhar por dentro de si.
Depois da guerra, o europeu fechou-se em seu interior, ficou sem empresa para si e para os demais.”
Por último, recomendo escrito em castelhano e em alemão, por Ortega,
“Carta a un alemán pidiendo un Goethe desde dentro/ Brief an einen deutschen Um einen Goethe von innen bittend”..Editorial: Editorial Biblioteca Nueva, S. L.
Li há muitos anos ‘O que é a Filosofia’ e ‘A Rebelião das Massas’, além de vários textos ensaísticos desgarrados de Ortega, o mais influente pensador espanhol dos últimos cem anos. Obrigado pelos trechos que aqui nos trouxe e pela óptima tradução.
tão verdadinha nos dias que correm…
Sem dúvida, Marta.
Um grande autor, sem dúvida!
Infelizmente hoje pouco lido, Ana.