Palmadinhas gostosas


escafandro,

Há meia dúzia de anos, um artigo na New Yorker começava logo por explicar em que ponto do livro O Código Da Vinci se consegue perceber que Dan Brown é fraco escritor. Resposta: na primeira frase. Trata-se de algo do género: “O conceituado curador Monsieur Não-Sei-Quantos caminhava no interior do Museu do Louvre” e, evidentemente, a explicação prende-se com o adjectivo: nenhum bom escritor enfia assim à bruta pela garganta dos leitores que uma personagem é isto ou aquilo, antes lhes fornece elementos para que possam chegar a uma conclusão própria, muitas vezes não totalmente coincidente com a que ele imaginou; em parte, é esta relação adulta (mas sem sexo, pelo menos na maioria dos casos) entre autor e leitor que permite que os bons livros tenham tantas interpretações. Lembrei-me hoje desse artigo ao folhear numa tabacaria o número de Setembro da revista Ler (sim, ando um bocadinho atrasado mas a minha médica diz que, sendo gajo, não é grave). Com prazer indisfarçado e meticulosidade estonteante (eu estou a usar os adjectivos de forma irónica, o que faz toda a diferença), Rogério Casanova disseca e destroça (embora, considerando o tema do livro, talvez palavras como «espanca» ou «açoita» viessem mais a propósito) o grande êxito «literário» do ano: As 50 Sombras de Grey, de E. L. James. Dirão os mais discernentes (outro adjectivo, mas admitam que pouco usado): ora, tratando-se de um livro inspirado na série Twilight, só que em pior (!), também não é difícil. Permito-me discordar: é; como Casanova o faz, é bastante difícil, para além de diabolicamente divertido (sim, mais um adjectivo; processem-me). Tão divertido que me deixou a um passo (isto não é um adjectivo mas é uma figura de estilo: até ao balcão eram uns cinco ou seis) de quebrar a promessa de não mais comprar a Ler. Resisti porque continuo a achar que cinco euros é quantia mais do que suficiente para pagar as consoantes mudas. Contudo, se tiverem princípios menos firmes do que os meus (nada de vergonhas; acontece com quase toda a gente) e não forem fãs do livro, comprem-na e divirtam-se. Aliás, pensando bem, comprem-na mesmo que sejam fãs: há uma boa hipótese de, estejam ou não dispostos a admiti-lo, gostarem de ser um bocadinho maltratados.

8 comentários em “Palmadinhas gostosas”

  1. Se fôssemos um país decente Rogério Casanova não precisaria escrever numa revista como a “ler”.
    Comprava para ler o artigo de Casanova, antes de usarem o acordês. Tenho pena de ter deixado de ler os artigos dele, mas não faço qualquer esforço em não comprar: ver a minha língua mutilada porque alguns políticos medíocres e saloios a venderam a um país com 75% de analfabetos é demasiado mau. Mas talvez sejam coisas minhas, que não sou sensato nem cordato (e chego mesmo ao extremo de achar que não se deve ser com quem faz porcarias destas).

  2. como vai reparar, no final do meu comentário, eu até não sou de cá…

    mas as revistas, livros , etc… são para comprar ou para ler?

    “Contudo, se tiverem princípios menos firmes do que os meus (nada de vergonhas; acontece com quase toda a gente) e não forem fãs do livro, comprem-na e divirtam-se. Aliás, pensando bem, comprem-na mesmo que sejam fãs: há uma boa hipótese de, estejam ou não dispostos a admiti-lo, gostarem de ser um bocadinho maltratados.”

    1. “mas as revistas, livros , etc… são para comprar ou para ler?”

      No meu tempo (há muitas, muitas décadas, portanto) eram para ambas as coisas. Agora é tudo mais para usufruir de borla – atitude que, no caso de coisas escritas segundo o AO, merece todo o meu apoio. 😉

      1. é espantoso, realmente, como os tempos mudam e as coisas também…
        hoje em dia até há quem publique recolhas / colectâneas de artigos anteriormente editados, e portanto que já lhes foram pagos e lidos, e de posts que postaram em blogues e se encontram “grátis” na net.
        sempre procurei saber se este tipo de publicações eram lucrativas para os editore (para os autores são, certamente).
        sabe algo sobre isso?
        acredito que não saiba nem queira saber.

        1. Carlos: saber, não sei; mas se algum editor quiser algum dia publicar as divagações que deixo por aqui, ei, por mim é bem-vindo… 🙂

          (Desde que em ortografia pré-acordo e que eu não tenha de assumir parte dos prejuízos, evidentemente.)

  3. Maravilhoso (alerta!alerta! adjectivo) post e excelente (outra vez?) sentido de humor.

    “sim, ando um bocadinho atrasado mas a minha médica diz que, sendo gajo, não é grave”. ahahah

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