Benicio del Toro
Estima-se que cerca de duzentos idosos sejam abandonados por ano em hospitais, um em cada quatro idosos foi vítima de violência no último ano e só ontem morreram quatro idosos em consequência do frio intenso que se faz sentir e das condições depauperadas dum país que se acha tropical. E não vale a pena culpar o Sócrates, Manuela Ferreira Leite, Durão Barroso que foi comer frites para outro lado, Santana Lopes pelo seu ar dandy, Cavaco Silva pela falta de jeito em articular discurso. Não vale a pena culpar D. Sebastião por se ter perdido algures a Sul, determo-nos em Belém à espera das caravelas que nos hão-de devolver esse esplendor cujas aventuras Camões eternizou ou blasfemar Afonso Henriques que, ao que se sabe, deu umas belas bordoadas na mãe. Esqueçam os poetas, esqueçam os historiadores, esqueçam os políticos. Vale pena reflectir sobre o presente, o aqui e agora, e pensar em que raio de gente nos tornámos, que raio de gente somos nós afinal.
Imagine dois homens num mesmo local com um fito comum. Um deles bem parecido, grisalho e de olho claro. O outro nem tanto. As idades aparentemente aproximadas. O primeiro homem troca umas palavras com o segundo, o segundo com o primeiro e eis se não quando o primeiro pega-se de razões com o segundo, ah como gosto desta expressão, o segundo não se ficou e depois de ter levado um soco chega-lhe também, que um homem não é de ferro, diz ele Ainda tentei dar-lhe dois pontapés. E desengane-se, também gosto desta expressão, se pensa que tudo isto se passou algures no Portugalinho rural, provinciano e incivilizado, num desses locais remotos onde os diferendos se resolvem de arma na mão ou ao soco e pontapé. Os dois homens encontravam-se à espera de embarcar no voo para Varsóvia no Lounge Vip do Aeroporto Internacional de Lisboa, se é para haver bordoada há que escolher um local com estilo, e eram o Seleccionador da nossa mui heróica equipa de rapazes viris que levará como bandeira a alma lusa por terras sul-africanas e um comentador do desporto viril de vinte e dois homens e uma bola. Quando questionado acerca da ocorrência, outro belo eufemismo, o primeiro homem diz que conhece o segundo há vinte anos e que é normal isto acontecer, haver assim uns empurrões. Segunda-feira logo pela manhã vou encostar-me carinhosamente aos meus colegas e amigos seleccionados com critério pelas duas décadas em que travamos conhecimento. E são uns quantos. Há que estar dentro da normalidade.
O Primeiro-Ministro tem todo o direito de processar o "Sol" e o "Correio da Manhã" por terem publicado as escutas que se julgavam convenientemente apagadas e longe da cobiça dos voyeuristas que usam "buracos de fechadura" para fazer jornalismo, tem todo o direito de exigir que sejam feitas averiguações para que se descubra afinal como é que de mãos fiéis e leais as conversas ditas privadas se propagaram como uma peste contagiosa pela opinião pública, tem o direito de processar Mário Crespo por calúnias, injúrias, atentado ao seu bom-nome e falsos testemunhos, tem o direito de se defender, processar, exigir que se averigúe. Mas como Primeiro-Ministro tem o dever de esclarecer os cidadãos deste país sobre o plano salazarento, despótico e abjecto de silenciar a comunicação social, correr com os inconvenientes que ousam atentar contra a sua opinião. Negá-lo, por exemplo, desmenti-lo e tranquilizar-nos a todos, restituindo ao país a dignidade de que são feitas as sociedades democráticas. Ou admiti-lo e demitir-se. São assim os homens de carácter. Até agora, silêncio.
Que Sócrates, os assessores, o gabinete ou alguém por ele, desmentisse o MárioCrespoGate. Pelo menos havia uma esperança. Ténue, mas esperança.
A história é comovente, tão comovente que quase parece ficção. Um líder político, presidente de um país a braços com a reconciliação do seu povo, separado durante 42 anos por um regime vil de segregação racial, um desporto reservado à minoria africânder e desprezado pela maioria negra, símbolo do país oprimido e dividido, e a tentativa de harmonizar as diferenças, apagar cores e construir uma identidade colectiva através desse mesmo desporto, o dealbar de uma nação unida. Esta estratégia de uma raríssima inteligência e intuição catapulta para a ribalta o capitão de equipa que a pedido do Presidente eleva os Springboks e, com eles, a nação, gritando em uníssono por um mesmo objectivo. Negros e brancos finalmente unidos. Nada seria igual dali para a frente. Se juntarmos a este argumento baseado no livro de John Carlin, Playing the enemy – Nelson Mandela and the game that made a nation, a realização de Clint Eastwood, Morgan Freeman no papel de Nelson Mandela e Matt Damon como François Pienaar, o capitão da equipa nacional de râguebi, Springboks, obtemos um filme intenso, com momentos comoventes e empolgantes e a sensação de sermos mais um dos espectadores em Ellis Park a torcer pelos Springboks, sabendo secretamente que torcemos pela igualdade de direitos, pela reconciliação e pelos ideais de liberdade tantas vezes apregoados e outras tantas esquecidos. Martin Luther King orgulhar-se-ia do sonho realizado, o muro das diferenças derrubado não por decreto mas pela comunhão de um mesmo pulsar. E assim, uma nova alma e um novo país.
E diz-se por aí que Invictus não será o melhor filme de Clint Eastwood, depois de Million Dollar Baby e de Gran Torino, mas Invictus é certamente um filme belíssimo, sustentado pelo desempenho sóbrio e inexcedível de Morgan Freeman e Matt Damon. As cenas do jogo de râguebi são de uma rara beleza e mesmo sabendo da história que os Springboks venceram os All Blacks naquele 24 de Junho de 1995, continuamos suspensos e vibramos na expectativa da vitória, metáfora de esperança de um país que consegue finalmente gritar pelo mesmo ideal, um nós que substitui o eles proferido e praticado ao longo de quatro décadas de segregacionismo bóer. E Invictus de William Ernest Henley que perdura no ouvido It matters not how strait the gate/ How charged with punishments the scroll/ I am the master of my fate:/ I am the captain of my soul.
The first thing I learned at school was that some people are idiots; the second thing I learned was that some people are even worse.
Orhan Pamuk, Istanbul. Memories and the City
Agosto escaldante, ainda mais pela hora em que o sol olhava ufano bem lá do alto. Saltos altos e farpela a preceito, assim exigia o enlace matrimonial de uma colega de profissão. O noivo fez-se esperar para quebrar a tradição e desesperar os convidados. Da noiva não se ouviu queixume. Quando ela finalmente entrou na capela decorada com pequenos bouquets de rosas vermelhas e caminhou tranquila, os passos calculados e femininos, sobre a passadeira vermelha com centenas de pares de olhos, humedecidos alguns, todos focados e centrados na entrada da noiva, senti que não, assim não. Repeti a mim própria e avisei a minha progenitora a meu lado que jamais seria capaz de fazer semelhante. Não o casamento, ou talvez ele também, mas a atenção subitamente concentrada em mim, imaginando-me pois no lugar da noiva. O desconforto fazia antever que a única saída plausível, estivera eu naquela situação, seria mesmo a porta dos fundos, a da sacristia certamente. E a música, a música de igreja, talvez a marcha nupcial ou algo semelhante ao que habitualmente condiz com a situação entrava-me miudinha pelo ouvido para piorar tudo. Foi aí, julgo, que terei ouvido Mick Jagger a sussurrar-me ao ouvido, com os lábios que se lhe conhece, como uma brisa entre o pescoço e o cabelo caído em cachos pelos ombros desnudados, um arrepio leve na espinha contrariando a canícula do zénite de Agosto. Os desígnios ocultos e misteriosos raramente são audíveis e perceptíveis a todos. E pelo ouvido, o sussurro, agora evidente, saint of me, you´ll never make a saint of me. A melhor das opções desenhava-se à minha frente. Entrar pela basílica e, bem ao fundo, junto ao altar-mor, em vez das avé-marias e marchas nupciais no esplendor barroco do órgão bento, as pedras rolantes a esgalharem em todo o seu poder Saint of me com Jagger cantando-me por trás do vigário, surgindo de um lado e do outro da beatífica personagem they´ll never make a saint of you. Assim, sim.
Este texto foi repescado dos confins da memória tudo por causa do Pedro e desta sua canção do século. Esta é uma das minhas
Uma mulher passa dos quarenta, uma mulher anda no mundo, lê umas coisas, vê umas coisas, tem os olhos abertos, é naturalmente curiosa pelo universo em redor, e embora não descarte nunca a hipótese de ser surpreendida pela positiva e pela negativa, acontece com frequência nos dias que correm, vê-se de repente apanhada de surpresa pela imbecilidade dos súbditos do tio Sam. Dir-me-ão que vive em mim uma rapariga ingénua, as cretinices da Terra das Oportunidades não devem constituir novidade para quem se toma como desperto e informado mas a mais recente idiossincrasia, nada como recorrer aos eufemismos, do povo que se diz livre deixou-me estupefacta e surpreendida.
Que caça, pesca e observação de pássaros fazem parte dos passatempos preferidos lá para terras do Tio Sam não consitui novidade. Contudo, e segundo uma organização recentemente criada, a actividade saudável de observação de passarinhos e passarinhas nada tem de inocente e imaculada. Muito pelo contrário. Há quem se esconda nas moitas, nos bosques e florestas, por trás das árvores, entre os arbustos para observar a passarinhada em actos da maior intimidade, caramba, não podiam praticar essas obscenidades longe dos olhares alheios? e que obtenha gratificação sexual das investidas dos passarinhos. É que um homem não é de ferro, mulheres também não, americanos muito menos, e a observação das aves em pleno acasalamento suscita em alguns corpos mais excitáveis desejos secretos e erecções improváveis. Há quem procure as moitas para se satisfazer e perante esta manifestação impúdica dos ímpetos carnais que se disseminou nas matas e parques americanos, o americano decidiu tomar uma atitude e banir a actividade de observação de passarinhos e passarinhas. Se pensarmos que cerca de quarenta e oito milhões de americanos gostam de observar passarinhos e se, como diz a organização Stop Bird Porn, birdwatching is bird porn, há muito voyeur taradão, perverso e depravado atrás das moitas, espalhados pelos bosques e florestas, aos ais e uis de binóculos nas mãos, numa pelo menos, enquanto o passarinho e a passarinha se passarinham. E isto é que acho fantástico, que alguém viva uma experiência erótica a observar passarinhos em acasalamento e que, por outro lado, alguém se preocupe em fundar uma organização para banir a observação de aves. God bless America.
E estava tudo a correr muito bem. A mesa oval exemplarmente posta. Um castiçal altaneiro que se entretinha a iluminar os rostos do lado de lá. Duas rosas brancas no centro. Comensais à altura do momento festivo. O belo sexo como pontilhado entre a testosterona delituosa.
E estava então a correr tudo muito bem, dizia eu, quando algo de previsível mas entretanto adormecido entre o perfume das rosas e o cintilar da vela aconteceu. Quem? Há alguém novo? Ninguém. Nove comensais repetentes e reincidentes nesta arte de bem delituar. Quem, então? E foi aí que senti um arrepio, um leve sopro no pescoço, o aviso e a certeza de que seria esta vossa escriba, até aí entregue ao delito de muito tagalerar, a relatar a ocasião festiva. Não tendo à mão um bloco de apontamentos, uma folha de papel, um moleskine de papel quadriculado, ou talões de multibanco em número e tamanho suficientes, a escriba estremeceu ao ver-se empossada de tamanha responsabilidade e entregue à sua parca memória em momento de celebração.
Estão pois, caríssimos delituosos faltosos e estimados comentadores dedicados, entregues à memória desta vossa escriba que se adivinha toldada pelo momento emotivo vivido ontem pela calada da noite gélida de Janeiro menino.
Por ordem de entrada em cena compareceram o Carlos Barbosa de Oliveira, inestimável cavalheiro e anfitrião, o Luís M. Jorge, amante confesso de uma das minhas cidades preferidas, Veneza, a Cristina Ferreira de Almeida, um prazer imenso revê-la, a Teresa Ribeiro, quem sabe, Teresa, se António Lobo Antunes não figurará entre os Giros e Talentosos, o Pedro Correia, o grande timoneiro deste delito irrecuperável, olheiro-mor da blogosfera, elegantíssimo para assinalar a efeméride, e o nosso filósofo, José Gomes André, com quem partilho e partilhei linguajares germanófonos e o fascínio por Berlim. Já à mesa brindou-nos com a sua presença a ala autárquica do Delito, o Adolfo Mesquita Nunes, viajante sem recuperação à vista, e o André Couto, com o sorriso genuíno de sempre.
Sentados em torno da mesa, que quase podemos considerar nossa, iniciou-se o repasto opíparo com um exótico torresmo de bacalhau em batatinha nova e uma deliciosa morcela com puré de maçã. Por esta altura a conversa fluía solta. A blogosfera, o mundo lá fora, a política, ai a política, Cavaco e Sócrates também foram chamados à liça e, como seria de esperar, destilei os meus desamores pela Primeira Dama. Para cortar a densidade dos assuntos surgiu um lúdico momento cor-de-rosa, e como surgiu, mantido no segredo dos delituosos, pois claro. Terá sido por esta altura que alguém sentado a meu lado se terá eptitetado a lenda da monogamia, ouviram muito bem, mas cuja identidade me escuso a revelar. E viagens, cidades, países, livros, escritores.
Estava então na altura, talvez saltitássemos entre Sócrates e Istambul, a bloga e o Saramago, de degustarmos um suculento pernil em cama de lombardo com batatas salteadas. Aprovadíssimo. E mais conversa, conversa, sempre muita conversa, o condimento imprescindível para um jantar festivo de cumplicidades várias. Giros e talentosos e belle toujours foram as séries mais comentadas do Delito de Opinião e objecto de um escrutínio minucioso, não sem terem sido lançadas umas farpas certeiras a ambos os sexos. Uma verdadeira Guerra dos Sexos a la Delito: sem ofensas, sem agressões, alguma argumentação e umas quantas gargalhadas. Portámo-nos bem, nós, as mulheres, em minoria mas sempre à altura das provocações arremessadas pelos nossos congéneres masculinos. Para finalizar mousse de chocolate ao Porto com telha de Bolo-rei. E poupo-vos a mais pormenores. Revelo apenas que houve discurso proferido pelo Pedro, um brinde a este caminho que trilhámos em conjunto e a certeza de que valeu de facto a pena tantos posts, tantos comentários, tantas conversas. Somos um caso sério.
Poema de Natal
Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos –
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos –
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai –
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte –
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
Vinicius de Moraes