Giros e talentosos (32)
cronicasnofeminino,
O mulherio fazia fila para a caixa, não só mulherio, atrás de mim um senhor menos jovem, de pé pequeno pelo que disse, uma mãe entediada com os caprichos da filha adolescente, uma mulher indecisa com a escolha dos brilhantes a aplicar e em torno do quiosque, quiosque talvez, havia um corrupio constante, uma roda imparável, pedidos de números e cores, homens e mulheres experimentando o tamanho e a cor exacta, a cor exacta, jamais aleatória e terá que condizer com as inúmeras fatiotas veraneantes, esvoaçantes ou coleantes que dão cor aos roupeiros lá em casa e a que o sol permite finalmente dar uso. Podia até parecer uma réplica manhosa do Sexo e a Cidade: em vez das quatro magníficas às compras na senda dos últimos Manolo Blahnik ou Jimmy Choo, uma horda de mulheres na capital lusa, pontilhada aqui e ali com a presença masculina, na procura dos seus objectos de desejo para um Verão que se prevê tórrido. Assim era o mulherio desvairado com aquilo que não é necessário mas que, sendo acessório, se pode tornar fundamental e necessário na vida de uma mulher. Acontece a todas ou a quase todas. Acontece-me a mim, por exemplo. Acontece-me ter uma fixação nas mais simples e aparentemente democráticas sandálias que o mundo conhece, esses mesmo que congregaram uma multidão de dimensões moderadas num Sábado pela manhã numa loja da capital. Esta que vos escreve tem uma paixão assolapada pelas sandálias de enfiar o dedo de produção brasileira conhecidas em todo o mundo, um objecto quotidiano transformado em culto, o supra-sumo da liberdade e a afirmação peremptória de que as obrigações estão longe e de que posso finalmente andar sem qualquer salto, arrastando ligeiramente os pés e sentindo-me indescritivelmente livre. Sem horários a cumprir e tarefas a executar, igual se de férias ou de fim-de-semana, as havaianas fazem parte da liberdade a que me permito e representam momentos do mais puro prazer pautados pela entrega ao que melhor me aprouver. E depois vêm as cores, os padrões, os modelos: top, joy, slim, slim season, slim stripes, high, estampadas, florais, hibisco, cartunistas. Nego-me a contar os pares de que sou feliz proprietária, a bem da minha sanidade mental e da manutenção da imagem de que não sou uma mulher frívola e que, ao contrário de uma esbanjadora consumista, não possuo pares que dão para uma equipa de futebol, treinadores e adjuntos incluídos. Se recontar ainda se arranja um par para o apanha-bolas. Naquela cena do filme Notting Hill em que Anna vai ter com William à livraria em Portobello Road podia perfeitamente usar umas havaianas slim. Ficariam a matar com o casaco de malha e a saia direita e em perfeita sintonia com a cena tão simples mas tão carregada de significado I’m just a girl, standing in front of a boy, asking him to love her. E depois vem a publicidade no Brasil. Reynaldo Gianecchini, ele mesmo, sem mais apresentações, passeia-se num shopping usando as legítimas. São precisas mais razões?Nada de confundir o género humano com o Manuel Germano como nos diz Mário de Carvalho, portanto desengane-se quem por acaso for dar ao seu blogue à procura de parafernália com o símbolo do crocodilo, jacaré ou lagarto ou na senda de algo suficientemente sofisticado ou elitista como a marca dos pólos que eram moda no meu tempo de Faculdade e que podiam ser adquiridas em qualquer feira da especialidade. O nome do blogue encerra uma história divertida e declara-se como uma homenagem a todos os que não conseguem dizer low-cost. Partilho com ele a profissão, descobri há pouco, mas bem mais importante do que isso é este fervilhar de destinos, estas borboletas no estômago sempre que se pensa em fazer malas e partir, esta herança cultural que faz com que em cada um de nós exista um D. Henrique, sem chapéu, pois claro, pronto a lançar-se mundo afora, ou um Álvaro de Campos: “Trago dentro do meu coração,/ Como num cofre que se não pode fechar de cheio,/ Todos os lugares onde estive,/ Todos os portos a que cheguei, / Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,/ Ou de tombadilhos, sonhando,/ E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero…” É simpático, responde a comentários, um óptimo anfitrião, razões de peso para que um blogue me faça sentir em casa, e adora viajar. E antes que se cansem deste meu palavreado barroco, declaro o Viagens Lacoste o meu blogue da semana, e como dedicatória ao Hugo esta minha fotografia de Dubrovnik.
Ruskin. John Ruskin. Vinha embalado num volume de capa azul de qualidade duvidosa, bem acompanhado pelos outros profetas vitorianos e, nesse tempo longínquo em que fotocopiar livros era apenas fotocopiar livros e não um atentado de lesa autor, fui buscá-lo ao único sítio possível, à cave da faculdade onde eram anunciadas excursões em autoplumas e a vida transitava tranquila longe dos gadgets contemporâneos. Terá sido por essa mesma altura que o conheci. Ao Ruskin bem entendido e a ele também. A coincidência ter-me-á aliviado a preocupação com as coisas que ele lê e vê por estas alturas e pensei de imediato que ainda teria de ir à garagem desencantar o meu livrinho, pseudo livrinho, pois claro, para melhor entender esta mente multifacetada, este homem que escreve e bem, tira fotografias como ninguém, tem uma gata, muitíssimo importante para quem como eu tem uma queda por felinos, diz que se esqueceu que ia ver os filmes de Bergman por causa das mamas e que também não se lembra se o Marco chegou a encontrar a mãe. Tudo isto frivolidades de uma rapariga morena, dirão, mas quando estamos prestes a acolhê-lo em nossa casa há que nos prepararmos a preceito. Tem um palmarés que dispensa as minhas humildes palavras, um talento reconhecido a quem assenta na perfeição o nosso velho amigo Ruskin “A great thing can only be done by a great person; and they do it without effort” e faz parte das preferências do Delito. Caríssimos comentadores e comentadoras, delituosos e delituosas, dêem as boas-vindas ao José Bandeira. A partir de agora também no Delito de Opinião.
“A nossa política está muito carente de fair-play e de respeito pelos adversários.”
José Sócrates, Primeiro-Ministro, ocasionalmente dá pelo nome de José Trocas-te.
Depois de ameaçarem fazer greve em plena Páscoa, os pilotos da TAP chegaram a um acordo e cancelaram a greve para gáudio dos portugueses já de mala feita ansiosos por ir comer cabrito e folares a outras paragens. O Ministro das Obras Públicas regozijou-se com o facto também, até porque nem estamos em época de contenção, não há por aí um PEC a ameaçar deglutir as nossas vidas e andamos todos leves e frescos com o não aumento de impostos, um eufemismo à medida das inverdades deste governo. O grandioso acordo ficou em coisa de pouca monta, cerca de mais seiscentos euros por mês a cada piloto. Tudo isto numa empresa que dá prejuízo ao Estado. Adivinhem quem vai pagar?
Aplaudo naturalmente esta medida do Ministério da Educação. Para fazer face à violência crescente nas Escolas que atinge professores, alunos e funcionários, não vamos lá com falinhas mansas, psicologia de pacotilha e conversa mole que muitas vezes legitima o indesculpável. Há que agir e para tal urgem mecanismos legais que suportem a actuação eficaz, célere e competente. A segunda parte cabe às Escolas, cabe aos Directores de Turma, cabe aos Directores. É preciso que ouçam de uma vez por todas e que não banalizem as queixas, que as levem a sério, não as desvalorizem ou subestimem e actuem em conformidade. Só leis não chegam.
Depois de ter dito aqui que Colin Firth não iria constar na minha montra de giros e talentosos, mudei de opinião ontem mesmo, após ter visto "Um Homem Singular". Nada como um bom filme para nos fazer mudar de opinião. Aqui está, para que conste.
Tiago Pires, um dos ícones do Surf nacional, foi hoje eliminado na primeira prova do Campeonato Mundial, em Queensland, na Austrália. Pode ter vindo para casa sem prémios para alardear, mas doou os seis mil e quinhentos dólares de prize money às vítimas da catástrofe na Madeira. Um gesto e um exemplo de generosidade e solidariedade louvável do surfista ericeirense, tão válido como qualquer medalha.
Depois de tirar a roupa, atirou-se ao rio e pôs termo à vida, apesar das tentativas dos colegas em impedi-lo. Vítima de bullying, a única saída possível foi a morte. Chamava-se Leandro, frequentava o sexto ano de escolaridade e tinha doze anos. E onde estavam todos? Onde andavam todos enquanto esta criança foi repetidamente agredida pelos colegas? Onde andavam pais, professores, a Escola?
Que lindo. Os seixos do Tejo. Quem sabe não aparecerão as tágides minhas. Com a continuação deste bom tempo ainda poderá ser avistado D. Sebastião a surgir na bruma. As palavras de Cristo, ele próprio, para Pedro, o apóstolo, como inspiração Sobre esta pedra erguerás minha Igreja. E o herdeiro da cadeira de Pedro de costas para o Tejo com o Arco da Rua Augusta em frente a rezar missa para o povo bento e temente, alguns de barriga vazia e pé descalço. Tudo isto pela módica quantia de 200 mil euros para os quais espero não contribuir nem com um cêntimo dos meus impostos. 200 mil euros numa altura de crise, com cerca de 10% de desempregados, salários e subsídios em atraso e dificuldades em levar a vida para a frente de forma condigna. Perdoai-lhes.