Tentáculos e oráculos


cronicasnofeminino,

Odeio, odeio de raiva e fúria, água gelada e mar frio, não tanto as ondas, porque tendo aprendido a nadar na Figueira da Foz e sendo frequentadora assídua das praias que tenho aqui a dez minutos de casa, não há como não me ter habituado ao mar batido e furioso. Mas o frio. O frio é que me mata. Matava, passemos então a usar o pretérito, porque depois do cefalópode germânico, Paul de seu nome, ter adivinhado o resultado de todos os jogos onde os audazes rapazes teutónicos se envolveram com outros onze rapagões, nas vitórias e nas derrotas, incluindo o recentíssimo infortúnio holandês contra nuestros hermanos, sou eu mesma, eu mesminha da silva, que me porei no encalce de um polvo adivinho nestas águas gélidas da Ericeira. Com os políticos que temos prefiro acreditar em polvos e com as presidenciais quase à porta há que precaver o futuro. Assim que tiver novidades sobre os desígnios deste país darei novas. O pior que pode acontecer é convidar-vos para um opíparo arroz de polvo.

 

Ai não vais não


cronicasnofeminino,

Se entrar numa livraria não tenho este problema. A certeza de que só vou encontrar livros prepara-me para o que vou encontrar e quase intuitivamente separo os títulos e autores e corro ao encontro do desejado, pode ser apenas um desejo súbito e arrebatador, se o autor me agradar, a capa for apelativa e o título sugestivo. Contudo se me encontrar com os livros num hipermercado, no que desgraçadamente frequento encontram-se na entrada logo à direita, nutro por eles um sentimento diferente. É claro que não resisto a um olhar cirúrgico à procura de novidades, dão cabo de mim as novidades, mas de seguida separo a Nora Roberts, a Jodi Picoult e o Nicholas Sparks, às vezes tenho até vontade de os rearrumar nas estantes e os separar da Toni Morrison e da Doris Lessing, não sei porquê, mas acho que não ficam bem ao lado uns dos outros. Hoje, por exemplo, havia uma biografia no meio dos livros do Mia Couto e não me pareceu bem aquela intromissão. Também já estive para chamar a assistente e explicar-lhe que não, que Em Busca da Felicidade, um dos livros que mais me arrependo de ter comprado, não é um livro de auto-ajuda, ouviu? E que o Nagib Mahfouz também não tem nada que ombrear com as espiritualidades, ainda não entendi porque o colocam sempre ali. Outros dias embirro com as celebridades que deram em escritores e escritoras. Toda a gente sabe, muita pelo menos, que nada daquilo interessa ao mais pintado, mas também toda a gente sabe que o autor vende e não há quem resista aos esgares da Fátima Lopes perante os pobrezinhos e desvalidos do mundo que se adivinham entre as páginas. Mas hoje foi diferente. Hoje aconteceu-me ter vontade de esbofetear um livro. Sim, é verdade, insólito e até um pouco embaraçoso para quem tem os livros nos genes, outra mania com que vim equipada de origem, mas nada como admiti-lo. Ocupava um lugar de destaque, o parvalhão, e gritou-me Desculpa, mas vou chamar-te amor. Ai não vais, não. AMOR? Virei-lhe as costas e fui irritada aos deliciosos biscoitos crocantes de coelho, aves e legumes que fazem as delícias da população felina cá da casa. Que título mais ridículo. Parvalhão.

Poupai-nos


cronicasnofeminino,

Portugal tem dois milhões de pobres e três milhões que vivem no limiar da pobreza. Metade dos portugueses são, portanto, pobres. Dois terços dos portugueses vão passar as férias em casa e desconfio que não será por causa dos conselhos do Presidente da República. O IVA aumentou, provocando uma subida nos preços de tudo e mais alguma coisa, ele é gás, pão, água, luz, tudo, rigorosamente tudo. Os salários sofreram uma redução anunciada, fazendo cumprir as tão elogiadas medidas de austeridade. Aproxima-se a passos largos a época do ano que os pais são extirpados de uma quantia ofensiva em manuais escolares que tão a propósito também sofreram um aumento acima da inflação. E neste cenário miserável o Ministro das Finanças vem pedir aos portugueses para pouparem. Só pode ser brincadeira. Gostava de saber como e mais concretamente em quê. Talvez se passasse um mês com o ordenado mínimo ou com os cerca de oitocentos euros que constituem o salário médio neste país, com contas para pagar, filhos em idade escolar e já agora uma vida digna para viver, entendesse a falta de respeito que o pedido encerra. E por falar em poupar, podiam dar o exemplo e poupar-nos a todos estas inanes afirmações.

O mundo estranho do futebol


cronicasnofeminino,

Para uma leiga como eu, o mundo do futebol é um mundo estranho, muito estranho, tão estranho que se torna difícil decifrá-lo. É que não é só o facto de vinte e dois homens correrem como desalmados atrás duma bola, com mais um ou dois ou três a fiscalizar o seu comportamento, não vão fazer traquinices, não é só o mistério do balneário que freudianamente imagino coroado de homens em trajes menores, bem menores, benzós deus, com os corpinhos atléticos e esculturais, ainda luzidios da prática do desporto viril e que contraditoriamente com o faro de perdigueira com que vim equipada de origem me causa até vómitos só de pressentir os odores acres a machos exaustos. Não é só o futebolês, essa linguagem única, cheia de prognósticos depois do jogo ou quadrados que se fazem com três. O que me inquieta neste desporto que há quem diga rei, não é apenas isso, porque como se sabe sou uma republicana empedernida e sou contra cargos que não sejam eleitos por essa massa desalmada chamada povo.

 

O mundo estranho do futebol caracteriza-se por linhas de orientação onde a palavra pode será sancionada, cortada, calada, proibida. Vejamos Deco. Deco não jogava na posição costumeira, Deco não estava habituado, Deco diz que não estava habituado com aquele seu ar doce de cachorrinho abandonado. Ora se isto fosse num mundo normal não havia nada de mal, o rapaz nunca tinha jogado naquela posição e ao afirmá-lo reportou-se apenas a uma evidência facilmente comprovável, sim, eu sei que reina por aqui uma redundância, mas apeteceu-me. Errado. Deco teve de retratar-se como se tivesse caluniado alguém o Queiroz Almighty, esse Obi Wan Kenobi do futebol luso, o Gandalf dos esféricos lusitanos. Outro exemplo: Hugo Almeida. O jovem e viril rapaz diz que não estava esgotado quando o Almighty Queiroz o substituiu. Contudo, o contraditório surgiu e Queiroz, o Grande, afirmou “Quando eu digo que um jogador está cansado, é porque está cansado.” Livrai-vos pois rapazes de afirmações análogas. Deve ter sido o que aconteceu com Nani “Quando eu digo que tens uma lesão na clavícula, tens uma lesão na clavícula” e por aí fora. Preocupante. Muito preocupante. Imagine-se o que poderá acontecer com todos estes rapazes à mercê das vontades queirozianas e restringidos a duas palavritas apenas Heil Queiroz!

E sendo Queiroz quem é, o Timoneiro da Redondinha, cabem-lhe as decisões técnico-tácticas, reparem nesta propriedade de linguagem, portanto se põe os rapazes a jogar onde não devem, tira os que estão a render e põe os coxos, quando a coisa não corre bem, de quem é a responsabilidade? Pois, desse mesmo. Todos sabem mas ai de quem ousar atravessar essa tormenta da verbalização do óbvio. Coube desta feita ao nosso rapagão que quando questionado por uma justificação para a faena letal dos nuestros hermanos respondeu “Perguntem ao Carlos Queiroz”. Ai dele! Ai de todos nós! Até esse rapaz valoroso que vende pequenos-almoços por insignificantes quantias, o tal que algures em 2002 terá ameaçado sair da selecção do seu país porque tinha um nome a defender, veio apunhalar o derriço da mulherio, a mascote que transpira testosterona e põe os estrogénios em desvairo. Se o futebol não é um mundo estranho, não sei o que é, mas democrático não é com toda a certeza.

Uma troca de marretadas


cronicasnofeminino,
Há nacos de prosa, bocados de texto, excertos de livros e citações isoladas que me acompanham como pequenas cartilhas, um almanaque oculto e íntimo pronto a saltar nos momentos mais inusitados. Quando deambulo em passeios blogosféricos pelas caixas de comentários existe uma citação que me acompanha e que se impõe. Apanhei-a há uns bons onze anos, também em périplo bibliófilo e ficou-me para sempre: Um dia, Gronk, o Cro-Magnon do Norte, disse (logo depois de ter inventado a linguagem) a Bonga-Bonga, Cro-Magnon do Sul: “mim diferente tu”. O que poderia ter sido o início de uma afirmação inteligente tomou-se, desde logo, razão para uma troca de marretadas porque Gronk acrescentou: “tu diferente mau, mau”. Desde então enraizou-se cada vez mais, através da longa história da estupidez humana, a ideia de que as diferenças entre seres humanos são uma coisa negativa. Isso aparece espelhado em frases, muitas vezes repetidas, acerca de “diferenças inconciliáveis” ou pessoas que se agrediram entre si por “não conseguirem resolver as suas diferenças”.*

Sendo a blogosfera um local de abertura total de comunicação, um lugar onde todos podem dizer tudo, aquilo que podia ser a priori uma vantagem transforma-se, dependendo do tipo de blogues e do tipo de comentadores, um exercício de reafirmação de diferenças irreconciliáveis e, citando o texto, uma troca de marretadas. Alguns porém não se enquadram de todo neste perfil arruaceiro, são cordatos, educados, inteligentes, por vezes afectuosos, comentam o que sabem e remetem-se ao silêncio quando não sabem.

Por essa blogosfera fora encontram-se, pois, vários tipos de comentadores. Os comentadores profissionais não têm habitualmente blogue mas comentam, muito e tudo sobre uma pletora de temas. Certamente constará do Curriculum Vitae destas criaturas sapientes Comentador credenciado de blogue. Há também os trauliteiros, os que têm acima de tudo uma intenção: entrar a matar, dar bordoada em tudo ou não fossem trauliteiros. Também há os trauliteiros selectivos. Esta estirpe acumula a trauliteirice com a selectividade dos temas. Aparecem em certos assuntos apenas, educação, por exemplo, sexo, aborto ou religião, como se estivessem a vigiar o blogue atentamente para saltar sempre que soa uma das palavrinhas mágicas. Em todos os outros temas mantêm-se no silêncio e nem damos pela sua existência. Os salazarentos são também uma espécie muito comum. Têm tendência para ver a vida a preto e branco e concluir com os seus botões com a mais célebre de todas as frases Quem não é por mim é contra mim. Assim, se não concordarmos com o Sócrates é porque somos a favor de Pedro Passos Coelho, logo, contra. Podem acumular com a trauliteirice com a cobardia pungente de se esconderem atrás do anonimato, de falsos sites, blogues e identidades condicentes com esta sua lamentável ausência de carácter. Estes salazarentos trauliteiros têm um acréscimo de agressividade naturalmente. Por fim, os vampíricos, não escrevem nada de seu e passam a vida a fazer posts com os posts dos outros para dar mais bordoada. São cumulativamente mestres na arte de linkar. Finalmente vêm os pavlovianos. Os pavlovianos caracterizam-se por comentários intempestivos sempre que ouvem alguma palavra da área semântica do seu interesse ou inquietação. São semelhantes aos trauliteiros selectivos mas mais comedidos na agressividade e peroram mesmo depois das discussões terem acabado.

Estas sete estirpes, os profissionais, os trauliteiros, os trauliteiros selectivos, os salazarentos, os salazarentos trauliteiros, os vampíricos e os pavlovianos são espécimes muito comuns na blogosfera. Para eles tudo serve para uma troca de marretadas. Afinal tão perto do Gronk, o Cro-Magnon do Norte e do Bonga-Bonga, Cro-Magnon do Sul.

*RODRIGUES, Vítor, ( 1995), A Nova Ordem Estupidológica, Lisboa, Livros Horizonte.

O algarvio a bolo lêvedo


cronicasnofeminino,

Cavaco Silva, Presidente da República Portuguesa, Presidente de todos nós e vós, o mesmo que gosta de alardear a isenção e que se mostra incapaz de exprimir uma opinião para não ferir susceptibilidades, não esteve presente nas exéquias de José Saramago. Desconheço o sentido de Estado deste Presidente, desconheço onde parará a tão alardeada isenção. Não é preciso Cavaco Silva ter lido José Saramago, duvido até que o tenha feito, muito menos que partilhe das suas convicções políticas ou religiosas mas Saramago, quer se goste ou não, é um vulto da literatura e cultura deste país, reconhecido e lido internacionalmente, seria muito pedir ao Presidente da República que largasse a alcatra e o bolo lêvedo e estivesse presente? Não seria mas não esteve. Deve ter esgotado a quota de sacrifícios ao aprovar em nome da estabilidade, seja lá o que isso for, o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Fiquei esclarecida quanto à isenção e  sentido de Estado deste senhor.

A intangível arte de avaliar


cronicasnofeminino,

A avaliação de professores continua a estrebuchar. Como um mal crónico ou uma aflição recorrente, a verdade é que continua por aí a dar que falar. Depois da querela que opôs mais uma vez sindicatos e Ministério da Educação, uma vez que ambos não conseguiram chegar a acordo no que respeita ao efeito da avaliação nos concursos para o próximo ano lectivo, eis que o Ministério decidiu que a dita terá efeitos práticos nas vidas dos professores e das escolas, alunos e pais, já se sabe, ou seja, contará para os concursos. O mais insólito condensa-se nas últimas linhas da notícia que cito: ”quanto aos professores que não foram avaliados, assegurou [o Secretário de Estado] que estão “em pé de igualdade” com os avaliados”. Concluo pois que é igual ser ou não avaliado. O que eu gostava que alguém conseguisse deslindar este imbróglio.

Ditosa Pátria minha Amada


cronicasnofeminino,

Sempre achei que havia algo errado, algo subtilmente desacertado nesta minha vontade de ir, partir, sair, mas como o nosso Presidente da República é um rapaz chistoso e amigo do seu amigo para resolver problemas alheios, brindou-me hoje com a resposta para este mal que me atormenta há décadas. Começou pela situação do país, acrescentou-lhe uns palavreados da economia, et voilá: passar férias fora significa agravamento da dívida externa, (…) passar férias em Portugal é uma atitude patriótica. Fiquei pois a saber que não fui equipada de origem com esse condimento de devoção extrema à ditosa Pátria. Por este andar ainda nos restringem as viagens ao estrangeiro, o Infante Dom Henrique acabará esconjurado por ter tido a veleidade de se aventurar mares afora ou adentro, mais os navegadores todinhos, e os poetas naturalmente, que o Camões não se satisfez aqui pelo burgo e o Pessoa, que eram logo aos quatro ou mais, também já tinha andado lá pela África do Sul. Cambada de desvairados. Isso faz-se à pátria, seus ímpios?

Pérolas lexicais


cronicasnofeminino,

Nada faria prever que num simplérrimo voo Madrid–Lisboa eu fosse aprender uma palavra que me tem dado tanto jeito e que hoje se me apresenta como uma verdadeira revelação. Algures nos lugares traseiros do avião, também conhecido aqui e ali por aeronave, e depois de umas horas num outro vinda de Istambul, fui atacada por um bando de turistas. Traziam às costas uma mochila indicadora de que vinham em grupo, uma peregrinação, apurei depois, e falavam aquela linguagem típica do português típico quando faz viagens típicas acompanhado de portugueses típicos a sítios típicos. Pareciam ter comprado este mundo e o outro, já que além da mochila cor-de-laranja da magnânima agência de viagens que os levou a ver o sítio onde a Virgem nasceu e Petra, imagine-se, e Israel, não querem lá ver, desdobravam-se em sacos e malas que a custo queriam fazer caber nos overhead compartments – gosto disto, nada como uma palavritas em inglês para condimentar a coisa. Quando finalmente assentaram arraiais a conversa deslizou fluida com um sem número de queixumes que incluía, por exemplo, o passeio de burro, Nunca mais! Balha-me Nossa Sinhora! e a escala manhosa em Madrid Ai quem dera a minha casinha! e ainda uma tal de mulher de quem ouvi frequentemente dizer E depois eu disse-lhe, bem à laia de reprimenda e remoque, como quem esgrime um combate. E estava a coisa a correr bem, tudo sentado, à espera de partir, quando de repente a ocupante do lugar à minha frente se lembrou, achou, sentiu, pressentiu e teve a certeza que o seu banco, esse mesmo onde ia sentada, estava com as costas demasiado rebatidas. Fazendo uso do seu habitual desenrascanço sentou-se no banco, agarrou as costas do dito vigorosamente e começou a abaná-lo com igual intensidade. É que para este ser o material não tinha sempre razão, logo havia que repor, a bem ou mal, a ordem das coisas. A companheira do lado com quem partilhara a viagem de burro pela Terra Santa e os queixumes da vida malvada ainda tentou avisar que não valia a pena. Em vão, contudo. Quando ela alegou que íamos apertados ali atrás, ainda esbocei um sorriso e larguei umas palavras Deixe estar, não incomoda nada, mas o mais divertido foi quando se virou para o passageiro a meu lado e disse Oh coitado do sinhor! Até bai aí todo encunicado!. E pronto, lembrei-me desta magnífica palavra, uma verdadeira pérola lexical, porque julgo ser esse o problema dos nossos deputados para viajarem em executiva, primeira ou outra presunção manhosa tão típica dos povos do Sul, em voos longos. Não querem ficar encunicados lá entre os bancos do povão, o mesmo povão que lhes paga as mordomias.