José Luís Peixoto
I learned that courage was not the absence of fear,
but the triumph over it.
The brave man is not he who does not feel afraid,
but he who conquers that fear.
Nelson Mandela
Nos 92 anos de Nelson Mandela. Um homem ímpar.
Treino preparatório para o próximo jantar delituoso.
Só no país dos brandos costumes é que se continua pacífico com esta belíssima notícia. Com cinco milhões de pobres que não sofrerão melhorias nas suas vidas e a quem se pedem sacríficios e, espantem-se, que poupem, os funcionários do Banco de Portugal vão ser aumentados. Tudo isto debaixo dos nossos olhos com a brandura que nos caracteriza.
Foi aprovado hoje na Assembleia o corte em 5% aos salários dos assessores de gabinete, governadores civis e autarcas. Contudo, como gosto desta adversativa, com o voto contra do Partido Socialista. O que ainda me surpreende é a total ausência de pudor da bancada socialista. Não aprendem, nem têm vergonha.
Odeio, odeio de raiva e fúria, água gelada e mar frio, não tanto as ondas, porque tendo aprendido a nadar na Figueira da Foz e sendo frequentadora assídua das praias que tenho aqui a dez minutos de casa, não há como não me ter habituado ao mar batido e furioso. Mas o frio. O frio é que me mata. Matava, passemos então a usar o pretérito, porque depois do cefalópode germânico, Paul de seu nome, ter adivinhado o resultado de todos os jogos onde os audazes rapazes teutónicos se envolveram com outros onze rapagões, nas vitórias e nas derrotas, incluindo o recentíssimo infortúnio holandês contra nuestros hermanos, sou eu mesma, eu mesminha da silva, que me porei no encalce de um polvo adivinho nestas águas gélidas da Ericeira. Com os políticos que temos prefiro acreditar em polvos e com as presidenciais quase à porta há que precaver o futuro. Assim que tiver novidades sobre os desígnios deste país darei novas. O pior que pode acontecer é convidar-vos para um opíparo arroz de polvo.
Se entrar numa livraria não tenho este problema. A certeza de que só vou encontrar livros prepara-me para o que vou encontrar e quase intuitivamente separo os títulos e autores e corro ao encontro do desejado, pode ser apenas um desejo súbito e arrebatador, se o autor me agradar, a capa for apelativa e o título sugestivo. Contudo se me encontrar com os livros num hipermercado, no que desgraçadamente frequento encontram-se na entrada logo à direita, nutro por eles um sentimento diferente. É claro que não resisto a um olhar cirúrgico à procura de novidades, dão cabo de mim as novidades, mas de seguida separo a Nora Roberts, a Jodi Picoult e o Nicholas Sparks, às vezes tenho até vontade de os rearrumar nas estantes e os separar da Toni Morrison e da Doris Lessing, não sei porquê, mas acho que não ficam bem ao lado uns dos outros. Hoje, por exemplo, havia uma biografia no meio dos livros do Mia Couto e não me pareceu bem aquela intromissão. Também já estive para chamar a assistente e explicar-lhe que não, que Em Busca da Felicidade, um dos livros que mais me arrependo de ter comprado, não é um livro de auto-ajuda, ouviu? E que o Nagib Mahfouz também não tem nada que ombrear com as espiritualidades, ainda não entendi porque o colocam sempre ali. Outros dias embirro com as celebridades que deram em escritores e escritoras. Toda a gente sabe, muita pelo menos, que nada daquilo interessa ao mais pintado, mas também toda a gente sabe que o autor vende e não há quem resista aos esgares da Fátima Lopes perante os pobrezinhos e desvalidos do mundo que se adivinham entre as páginas. Mas hoje foi diferente. Hoje aconteceu-me ter vontade de esbofetear um livro. Sim, é verdade, insólito e até um pouco embaraçoso para quem tem os livros nos genes, outra mania com que vim equipada de origem, mas nada como admiti-lo. Ocupava um lugar de destaque, o parvalhão, e gritou-me Desculpa, mas vou chamar-te amor. Ai não vais, não. AMOR? Virei-lhe as costas e fui irritada aos deliciosos biscoitos crocantes de coelho, aves e legumes que fazem as delícias da população felina cá da casa. Que título mais ridículo. Parvalhão.
Portugal tem dois milhões de pobres e três milhões que vivem no limiar da pobreza. Metade dos portugueses são, portanto, pobres. Dois terços dos portugueses vão passar as férias em casa e desconfio que não será por causa dos conselhos do Presidente da República. O IVA aumentou, provocando uma subida nos preços de tudo e mais alguma coisa, ele é gás, pão, água, luz, tudo, rigorosamente tudo. Os salários sofreram uma redução anunciada, fazendo cumprir as tão elogiadas medidas de austeridade. Aproxima-se a passos largos a época do ano que os pais são extirpados de uma quantia ofensiva em manuais escolares que tão a propósito também sofreram um aumento acima da inflação. E neste cenário miserável o Ministro das Finanças vem pedir aos portugueses para pouparem. Só pode ser brincadeira. Gostava de saber como e mais concretamente em quê. Talvez se passasse um mês com o ordenado mínimo ou com os cerca de oitocentos euros que constituem o salário médio neste país, com contas para pagar, filhos em idade escolar e já agora uma vida digna para viver, entendesse a falta de respeito que o pedido encerra. E por falar em poupar, podiam dar o exemplo e poupar-nos a todos estas inanes afirmações.
Para uma leiga como eu, o mundo do futebol é um mundo estranho, muito estranho, tão estranho que se torna difícil decifrá-lo. É que não é só o facto de vinte e dois homens correrem como desalmados atrás duma bola, com mais um ou dois ou três a fiscalizar o seu comportamento, não vão fazer traquinices, não é só o mistério do balneário que freudianamente imagino coroado de homens em trajes menores, bem menores, benzós deus, com os corpinhos atléticos e esculturais, ainda luzidios da prática do desporto viril e que contraditoriamente com o faro de perdigueira com que vim equipada de origem me causa até vómitos só de pressentir os odores acres a machos exaustos. Não é só o futebolês, essa linguagem única, cheia de prognósticos depois do jogo ou quadrados que se fazem com três. O que me inquieta neste desporto que há quem diga rei, não é apenas isso, porque como se sabe sou uma republicana empedernida e sou contra cargos que não sejam eleitos por essa massa desalmada chamada povo.
O mundo estranho do futebol caracteriza-se por linhas de orientação onde a palavra pode será sancionada, cortada, calada, proibida. Vejamos Deco. Deco não jogava na posição costumeira, Deco não estava habituado, Deco diz que não estava habituado com aquele seu ar doce de cachorrinho abandonado. Ora se isto fosse num mundo normal não havia nada de mal, o rapaz nunca tinha jogado naquela posição e ao afirmá-lo reportou-se apenas a uma evidência facilmente comprovável, sim, eu sei que reina por aqui uma redundância, mas apeteceu-me. Errado. Deco teve de retratar-se como se tivesse caluniado alguém o Queiroz Almighty, esse Obi Wan Kenobi do futebol luso, o Gandalf dos esféricos lusitanos. Outro exemplo: Hugo Almeida. O jovem e viril rapaz diz que não estava esgotado quando o Almighty Queiroz o substituiu. Contudo, o contraditório surgiu e Queiroz, o Grande, afirmou “Quando eu digo que um jogador está cansado, é porque está cansado.” Livrai-vos pois rapazes de afirmações análogas. Deve ter sido o que aconteceu com Nani “Quando eu digo que tens uma lesão na clavícula, tens uma lesão na clavícula” e por aí fora. Preocupante. Muito preocupante. Imagine-se o que poderá acontecer com todos estes rapazes à mercê das vontades queirozianas e restringidos a duas palavritas apenas Heil Queiroz!
E sendo Queiroz quem é, o Timoneiro da Redondinha, cabem-lhe as decisões técnico-tácticas, reparem nesta propriedade de linguagem, portanto se põe os rapazes a jogar onde não devem, tira os que estão a render e põe os coxos, quando a coisa não corre bem, de quem é a responsabilidade? Pois, desse mesmo. Todos sabem mas ai de quem ousar atravessar essa tormenta da verbalização do óbvio. Coube desta feita ao nosso rapagão que quando questionado por uma justificação para a faena letal dos nuestros hermanos respondeu “Perguntem ao Carlos Queiroz”. Ai dele! Ai de todos nós! Até esse rapaz valoroso que vende pequenos-almoços por insignificantes quantias, o tal que algures em 2002 terá ameaçado sair da selecção do seu país porque tinha um nome a defender, veio apunhalar o derriço da mulherio, a mascote que transpira testosterona e põe os estrogénios em desvairo. Se o futebol não é um mundo estranho, não sei o que é, mas democrático não é com toda a certeza.
“Sinto-me sozinho a puxar pelo País”
José Sócrates
Faltaram-lhe duas palavrinhas: para baixo.
Cavaco Silva, Presidente da República Portuguesa, Presidente de todos nós e vós, o mesmo que gosta de alardear a isenção e que se mostra incapaz de exprimir uma opinião para não ferir susceptibilidades, não esteve presente nas exéquias de José Saramago. Desconheço o sentido de Estado deste Presidente, desconheço onde parará a tão alardeada isenção. Não é preciso Cavaco Silva ter lido José Saramago, duvido até que o tenha feito, muito menos que partilhe das suas convicções políticas ou religiosas mas Saramago, quer se goste ou não, é um vulto da literatura e cultura deste país, reconhecido e lido internacionalmente, seria muito pedir ao Presidente da República que largasse a alcatra e o bolo lêvedo e estivesse presente? Não seria mas não esteve. Deve ter esgotado a quota de sacrifícios ao aprovar em nome da estabilidade, seja lá o que isso for, o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Fiquei esclarecida quanto à isenção e sentido de Estado deste senhor.
E por falar em educação: fui só eu ou mais alguém viu que Isabel Alçada foi em visita oficial a Timor a propósito das comemorações do 10 de Junho, levou Ana Maria Magalhães, aproveitou para promover os seus livros e ainda apara recolher elementos para um próximo volume?
A avaliação de professores continua a estrebuchar. Como um mal crónico ou uma aflição recorrente, a verdade é que continua por aí a dar que falar. Depois da querela que opôs mais uma vez sindicatos e Ministério da Educação, uma vez que ambos não conseguiram chegar a acordo no que respeita ao efeito da avaliação nos concursos para o próximo ano lectivo, eis que o Ministério decidiu que a dita terá efeitos práticos nas vidas dos professores e das escolas, alunos e pais, já se sabe, ou seja, contará para os concursos. O mais insólito condensa-se nas últimas linhas da notícia que cito: ”quanto aos professores que não foram avaliados, assegurou [o Secretário de Estado] que estão “em pé de igualdade” com os avaliados”. Concluo pois que é igual ser ou não avaliado. O que eu gostava que alguém conseguisse deslindar este imbróglio.
Sempre achei que havia algo errado, algo subtilmente desacertado nesta minha vontade de ir, partir, sair, mas como o nosso Presidente da República é um rapaz chistoso e amigo do seu amigo para resolver problemas alheios, brindou-me hoje com a resposta para este mal que me atormenta há décadas. Começou pela situação do país, acrescentou-lhe uns palavreados da economia, et voilá: passar férias fora significa agravamento da dívida externa, (…) passar férias em Portugal é uma atitude patriótica. Fiquei pois a saber que não fui equipada de origem com esse condimento de devoção extrema à ditosa Pátria. Por este andar ainda nos restringem as viagens ao estrangeiro, o Infante Dom Henrique acabará esconjurado por ter tido a veleidade de se aventurar mares afora ou adentro, mais os navegadores todinhos, e os poetas naturalmente, que o Camões não se satisfez aqui pelo burgo e o Pessoa, que eram logo aos quatro ou mais, também já tinha andado lá pela África do Sul. Cambada de desvairados. Isso faz-se à pátria, seus ímpios?
Nada faria prever que num simplérrimo voo Madrid–Lisboa eu fosse aprender uma palavra que me tem dado tanto jeito e que hoje se me apresenta como uma verdadeira revelação. Algures nos lugares traseiros do avião, também conhecido aqui e ali por aeronave, e depois de umas horas num outro vinda de Istambul, fui atacada por um bando de turistas. Traziam às costas uma mochila indicadora de que vinham em grupo, uma peregrinação, apurei depois, e falavam aquela linguagem típica do português típico quando faz viagens típicas acompanhado de portugueses típicos a sítios típicos. Pareciam ter comprado este mundo e o outro, já que além da mochila cor-de-laranja da magnânima agência de viagens que os levou a ver o sítio onde a Virgem nasceu e Petra, imagine-se, e Israel, não querem lá ver, desdobravam-se em sacos e malas que a custo queriam fazer caber nos overhead compartments – gosto disto, nada como uma palavritas em inglês para condimentar a coisa. Quando finalmente assentaram arraiais a conversa deslizou fluida com um sem número de queixumes que incluía, por exemplo, o passeio de burro, Nunca mais! Balha-me Nossa Sinhora! e a escala manhosa em Madrid Ai quem dera a minha casinha! e ainda uma tal de mulher de quem ouvi frequentemente dizer E depois eu disse-lhe, bem à laia de reprimenda e remoque, como quem esgrime um combate. E estava a coisa a correr bem, tudo sentado, à espera de partir, quando de repente a ocupante do lugar à minha frente se lembrou, achou, sentiu, pressentiu e teve a certeza que o seu banco, esse mesmo onde ia sentada, estava com as costas demasiado rebatidas. Fazendo uso do seu habitual desenrascanço sentou-se no banco, agarrou as costas do dito vigorosamente e começou a abaná-lo com igual intensidade. É que para este ser o material não tinha sempre razão, logo havia que repor, a bem ou mal, a ordem das coisas. A companheira do lado com quem partilhara a viagem de burro pela Terra Santa e os queixumes da vida malvada ainda tentou avisar que não valia a pena. Em vão, contudo. Quando ela alegou que íamos apertados ali atrás, ainda esbocei um sorriso e larguei umas palavras Deixe estar, não incomoda nada, mas o mais divertido foi quando se virou para o passageiro a meu lado e disse Oh coitado do sinhor! Até bai aí todo encunicado!. E pronto, lembrei-me desta magnífica palavra, uma verdadeira pérola lexical, porque julgo ser esse o problema dos nossos deputados para viajarem em executiva, primeira ou outra presunção manhosa tão típica dos povos do Sul, em voos longos. Não querem ficar encunicados lá entre os bancos do povão, o mesmo povão que lhes paga as mordomias.