Troll catalogue


cronicasnofeminino,

Eles andam aí. Nunca os vemos, sentimo-los a maior parte das vezes e podem assumir diversas formas. Quase sempre anónimos ou com nicks inventados invadem as caixas de comentários e só têm um único objectivo relativamente ao mundo que os rodeia: chatear, e um outro objectivo do foro pessoal, dar um sentido às suas tristes e miseráveis vidas sem rosto. Consultem este delicioso catálogo de trolls. Vale a pena. Quem sabe não encontrarão alguém familiar.

Bad bad English


cronicasnofeminino,

A Língua Inglesa, não fugindo à semelhança de outras, tem muitas variantes. Ele há Inglês jamaicano, australiano, indiano, americano, canadiano, britânico, neozelandês, mas para gáudio dos linguistas, creio até que David Crystal estará já reflectindo e pesquisando sobre este extraordinário e inusitado fenómeno, surgiu nos últimos anos uma nova variante: o inglês socratino. Teve a sua origem em parte incerta, foi amplamente elogiado numa universidade que passa diplomas ao Domingo, prestou provas de inquestionável qualidade perante esse ícone da inteligência e sofisticação, George W. Bush, o seu discurso de inegável interesse linguístico foi até publicado na página da Casa Branca e é conhecido por dar iguais provas de criatividade em castelhano. Agora, apesar das advertências de outro douto ser especializado em linguagem gestual, Manuel Pinho, Ó Sócrates, não te ponhas a falar Inglês, rapaz, que vai dar caca e eu tenho uma reputação a defender aqui na casa, o ser criativo resolveu fazer uma laracha, além de criativo é bem-humorado, na Universidade de Columbia, Nova Iorque, U. S. of A., e fazer o seu discurso em Inglês, na sua variante mais nobre e rica, o socratino. Aguarda-se ansiosamente o discurso nas Nações Unidas. Os linguistas não terão mãos a medir, quiçá mudarão a segunda vogal desta nova variante, um bem merecido e em vez de um a.

Manifesto


cronicasnofeminino,
É que não são só as palavras, não é apenas o miolo, não conta simplesmente o diálogo entre as personagens e o leitor, por vezes entre o escritor e o leitor. Não é o que se lê, o que sente, o que emociona e enfurece. É o objecto. As centenas de páginas agarradas umas às outras, as capas coloridas, o cheiro, sim, um cliché, eu sei. O texto na contracapa, as palavras insossas nas badanas. O prazer de o abrir e espreitar. Um livro não é apenas palavras. Um livro é uma companhia. E são muitos os que me acompanham casa fora. Os que repousam caoticamente no chão ao lado da minha mesa-de-cabeceira, os que me colorem as estantes cá de casa, os que se espalham por aqui e ali. E depois o prazer. A procura. Os momentos em frente das estantes Estava aqui, guardei-o aqui, tem de estar por aqui. A tranquilidade de horas a folheá-los na senda do excerto perdido, a curiosidade dos minutos à procura de uma novidade entre as páginas, a certeza de se encontrar sempre algo novo. A partilha Olha aqui, o que encontrei. E as memórias Este comprei-o em Salvador, lembras-te? Um pedaço de história de vida encerrada em páginas e lombadas carinhosamente preservado como testemunho de momentos felizes Foi o primeiro livro que comprei no Rio. Os presentes e quem os ofereceu. São os autógrafos dos escritores, as letras desenhadas à sombra dos jacarandás com o Tejo em fundo. E andar com eles na carteira ou entre os dossiers. E são isto os livros. São as dedicatórias. O meu nome bem legível na primeira página, data e local, a marca indelével de posse e a afirmação de território São meus. E isto jamais poderá ser substituído por uma geringonça electrónica. Isso não são livros. Esses não serão nunca os meus livros.

já publicado aqui

Conceitos desconhecidos


cronicasnofeminino,

Sentava-se à minha frente, era baixa e magricela, sempre preocupada com a indumentária, o rímel e o baton, dona e senhora do seu nariz, determinada e de conversa directa com poucos eufemismos. Chegou-me um dia irritada, terá largado um desabafo enquanto nos preparávamos para mais uma incursão na língua alemã e largou um furioso Mas é injusto. É injusto, pronto! Questionada sobre a injustiça que tanto lhe acossava os ânimos atirou-me lesta Stora, eu é que faço os trabalhos da minha vizinha e nuns meses ela tem o décimo segundo ano, enquanto eu tenho de andar aqui três anos. Por mais que lhe tentasse explicar os óbvios benefícios daqueles três anos nada a demoveu contra o resultado final independentemente do processo: o diploma de conclusão do Ensino Secundário, o tal conseguido por uns em três anos e outros em seis meses. E concluiu Então também vou esperar até aos vinte e três anos, assim é fácil.

Quando me deparei com esta notícia, a entrada no Ensino Superior numa vantagem escandalosa relativamente a quem tem de fazer cinco ou seis exames para conseguir aprovação e uma vaga no Ensino Superior, constatei o previsível e percebi claramente a revolta da minha magricela espevitada. Se, em casos muito específicos o processo de RVCC, vulgo Novas Oportunidades, pode fazer algum sentido, noutros não é senão uma enorme injustiça, legítima, pois, toda e qualquer indignação, e não porque os alunos do ensino regular tenham de cumprir três anos de escolaridade, continuo a acreditar que aprender é das experiências mais gratificantes e enriquecedoras, mas porque seis meses e um exame nacional são manifestamente pouco e podem colocar estes candidatos em vantagem no ingresso ao Ensino Superior. Justiça e equidade devem ser conceitos desconhecidos lá para os lados da vinte e quatro de Julho.

London calling


cronicasnofeminino,
Eu sou muitas e, nas muitas que sou, tenho sido assaltada amiúde pela viajante turista inquieta que em mim habita e que não me deixa descansada a menos que o meu outro eu que alberga estas almas múltiplas esteja doente, o que felizmente é ocorrência bianual. Tendo em conta que já esgotei a minha quota para o ano que corre lesto a caminho do fim e que o sol me tem iluminado a alma, dou por mim em viagens sortidas, como se fossem um saco de rebuçados de fruta, que sabor vou escolher hoje?, e com uma vontade incontrolável de sair daqui para fora, ver outras cores, sentir outros cheiros. Ir. Partir.

E assim faria, caso me bafejasse o tempo. Apanhava um avião em Lisboa, tenho um problema grave de enfado instantâneo com viagens de carro e rumava a Londres, o sabor eleito do dia. Tirava uma tarde ou uma manhã para me afogar em livros na Hatchard´s ou na Waterstone´s de Piccadillly. Acho até indecente alguém idealizar e ter aberto ao público uma livraria de seis andares de livros, seis, nada mais, nada menos. Seis andares repletos de livros a cheirar a novo, ainda com o perfume de recém-chegado da impressão, as páginas invictas, as capas sem amolgaduras ou vincos, coroadas como o autocolante mágico 3 for 2, a perdição absoluta para bibliófilos bulímicos, outra das múltiplas que me inferniza o juízo, e para qualquer carteira comum.

Abandonava a livraria a contra gosto, é sempre assim, provavelmente chamada insistentemente Anda!, quem sabe arrastada metaforicamente pelas melenas, Anda lá! e fazia pés à estrada, aconchegada em casacos e cachecóis, atafulhada em luvas e mitenes em camadas como casca de cebola para afugentar o frio. Descia Whitehall de encontro ao Big Ben, atravessava a Westminster Bridge e largava-me margem abaixo até à Tate Modern apenas para tomar um café ou mais provavelmente um chá acompanhado de um muffin de chocolate, na varanda em frente ao Tamisa. E aí ficaria enrolada no meu cachecol, o tempo subitamente suspenso, a vê-lo passar indiferente como todos os rios, majestoso com uma grande parte dos que beijam algumas capitais europeias. Do outro lado Saint Paul’s Cathedral e os turistas com formiguinhas trabalhadoras em vai-vém sobre a Millennium Bridge, há algo de estranhamente magnético naquela ponte.

Ficaria até me começar a gelar o nariz embalada na música da cidade em fundo para descer ao andar térreo e fazer-me à rua mais uma vez. Atravessava a Millennium Bridge, apanhava o Metro e eis-me em Covent Garden para sentir o bulício da tarde a cair, gosto de bulício do fim de tarde e da agitação de cidades policromáticas. Um passeio a pé com passagem em Charing Cross e uma espreitadela na Blackwell´s, há sempre um livro em falta, e uma olhadela a Leicester Square. Talvez agora fosse tempo de tomar uma cask ale num pub, passar em revista as vistas percorridas pelos pés e pela alma e entreter-me com mapas e caderninhos.

Ao outro dia, Portobello Road, não há Londres sem Portobello Road. Deixar-me encaminhar pela multidão em peregrinação e meter o nariz em tudo o que é banca para me inundar de rebuliço, aromas e cores e o resto do dia para fazer exactamente o que me passasse pela cabeça, talvez uma espreitadela ao Museu Britânico, morro de amores pelo Great Hall e pela Pedra da Rosetta. E assim seria. Sem a pressa de quilómetros a calcorrear ou checklists de símbolos para preencher. Apenas eu e a cidade para rever e redescobir.

Peditório nacional


cronicasnofeminino,

Numa das inúmeras entrevistas em que Carlos Cruz se tem desdobrado para clamar a sua inocência e limpar a sua imagem, deparei com a desgraça que se abateu sobre a família Cruz e que terá provocado uma mudança substancial no seu modo de vida. Foi numa dessas revistas que povoam as salas de espera dos médicos, também assíduas nos salões de cabeleireiros que adquirem os mais variados epítetos ao contento das tendências contemporâneas de nomenclaturas do género. Carlos Cruz era amante de gadgets, afirma-o, e agora, pobre dele, não tem dinheiro para o vício. Diz que queria um iPad mas que não pode. Que pena. Proponho que se faça um peditório nacional.

Blogue da semana


cronicasnofeminino,

O blogue desta semana dispensa grandes apresentações, aliás, dado o sucesso dispensa qualquer apresentação. É irreverente, sarcástico, incisivo e não há meias palavras. Aconselho a todos aqueles que são sensíveis a linguagem mais forte que se mantenham arredados, contudo, aviso desde já, não sabem o que perdem. Além de belissimamente ilustrado, fala-se de tudo um pouco, de livros e das aventuras de um livreiro a contas com leitores curiosos. É por estas e por outras, também pelo manifesto anti-pontos de exclamação, que o meu blogue da semana é o Irmão Lúcia. Os meus parabéns ao Pedro Vieira.

E o Porto ali tão perto


cronicasnofeminino,

Pode ser preconceito, se for assumo-o sem problemas mas isto das mulheres a falar de futebol pode parecer algo estranho. Não é a primeira vez que o faço mas sempre que o faço é pelo factor surpresa. E foi isto lá pela tarde por causa do sorteio de grupos, seja lá o que isso for. Pelo que lhe calhou em sorte, o Futebol Clube do Porto terá de se defrontar com o Beşiktas de Istambul, o CSKA de Sofia, e o Rapid de Viena. A propósito desta má sorte, Carlos Manuel afirmou que o problema para os jogadores eram as viagens. Ora como se sabe nenhuma das três dista a mais de umas quatro ou cinco horas de voo. Ou o Carlos Manuel tem com as coordenadas trocadas ou não recuperou às Provas de Recuperação à disciplina de Geografia, repetitiva, eu sei, mas nada a fazer. Andam estes viris rapazes a ser pagos a peso de ouro para se queixarem de uma viagenzita de avião ali mesmo na esquina da Europa. Meninas, é o que é.

 

Sem justificação


cronicasnofeminino,

Desde que se começou a aventar a hipótese de se fazer uma revisão ao Estatuto do Aluno, até ela ser efectivamente feita e finalmente promulgada pelo Presidente da República que não se fala de outra coisa. A bandeira principal, a pólvora, a panaceia que poria fim a todos os males do mundo, assim como uma banha da cobra que iria erradicar as enfermidades do mundo educativo estava aí, prestes a surgir e a repor a verdade do mundo e a justiça do universo: a distinção entre faltas justificadas e injustificadas. Da esquerda à direita, os líderes, sub-líderes, assessores dos líderes, amigos dos líderes e animais domésticos dos líderes políticos encheram as balofas bocas com palavras doutamente ignorantes e o povo cordato e obediente regozijou em júbilo com a mais esparvoada das mentiras. A distinção entre faltas justificadas e injustificadas existia no antigo Estatuto do Aluno. Os pais, encarregados de educação, e/ou quem os substitui, conhecem muito bem as folhinhas brancas A5, modelo do distinto Ministério da Educação onde escrevinham dias, horas, datas e causas da ausência dos seus educandos e que por vezes acompanham com atestados médicos ou declarações médicas. E para quê? Para que as faltas sejam justificadas naturalmente. E o que acontecia se assim não fosse? Acontecia que as faltas não eram justificadas e, não o sendo, os alunos teriam de realizar Prova de Recuperação quando ultrapassassem o dobro das horas semanais da disciplina a que faltou. Se as faltas fossem justificadas, apenas quando ultrapassassem o triplo teriam de se sujeitar a esse bicho burocrático e inane conhecido como Prova de Recuperação e que, convenhamos, terá ajudado muito às estatísticas socráticas que como sabemos é a sua preocupação principal. E depois da mesma mentira repetida como eco sempre que se aborda o assunto, fica claro que os nossos líderes e outros precisavam de uma Prova de Recuperação para recuperarem as aprendizagens, sim, o pleonasmo impõe-se, é para isso que serviam. Algo me diz que não recuperariam, mesmo com o Plano XPTO, para se porem ao fino. É sempre mais fácil pegar em chavões do que averiguar a verdade. O povo gosta.