Paulo Pires
Eles andam aí. Nunca os vemos, sentimo-los a maior parte das vezes e podem assumir diversas formas. Quase sempre anónimos ou com nicks inventados invadem as caixas de comentários e só têm um único objectivo relativamente ao mundo que os rodeia: chatear, e um outro objectivo do foro pessoal, dar um sentido às suas tristes e miseráveis vidas sem rosto. Consultem este delicioso catálogo de trolls. Vale a pena. Quem sabe não encontrarão alguém familiar.
A Língua Inglesa, não fugindo à semelhança de outras, tem muitas variantes. Ele há Inglês jamaicano, australiano, indiano, americano, canadiano, britânico, neozelandês, mas para gáudio dos linguistas, creio até que David Crystal estará já reflectindo e pesquisando sobre este extraordinário e inusitado fenómeno, surgiu nos últimos anos uma nova variante: o inglês socratino. Teve a sua origem em parte incerta, foi amplamente elogiado numa universidade que passa diplomas ao Domingo, prestou provas de inquestionável qualidade perante esse ícone da inteligência e sofisticação, George W. Bush, o seu discurso de inegável interesse linguístico foi até publicado na página da Casa Branca e é conhecido por dar iguais provas de criatividade em castelhano. Agora, apesar das advertências de outro douto ser especializado em linguagem gestual, Manuel Pinho, Ó Sócrates, não te ponhas a falar Inglês, rapaz, que vai dar caca e eu tenho uma reputação a defender aqui na casa, o ser criativo resolveu fazer uma laracha, além de criativo é bem-humorado, na Universidade de Columbia, Nova Iorque, U. S. of A., e fazer o seu discurso em Inglês, na sua variante mais nobre e rica, o socratino. Aguarda-se ansiosamente o discurso nas Nações Unidas. Os linguistas não terão mãos a medir, quiçá mudarão a segunda vogal desta nova variante, um bem merecido e em vez de um a.
Sentava-se à minha frente, era baixa e magricela, sempre preocupada com a indumentária, o rímel e o baton, dona e senhora do seu nariz, determinada e de conversa directa com poucos eufemismos. Chegou-me um dia irritada, terá largado um desabafo enquanto nos preparávamos para mais uma incursão na língua alemã e largou um furioso Mas é injusto. É injusto, pronto! Questionada sobre a injustiça que tanto lhe acossava os ânimos atirou-me lesta Stora, eu é que faço os trabalhos da minha vizinha e nuns meses ela tem o décimo segundo ano, enquanto eu tenho de andar aqui três anos. Por mais que lhe tentasse explicar os óbvios benefícios daqueles três anos nada a demoveu contra o resultado final independentemente do processo: o diploma de conclusão do Ensino Secundário, o tal conseguido por uns em três anos e outros em seis meses. E concluiu Então também vou esperar até aos vinte e três anos, assim é fácil.
Quando me deparei com esta notícia, a entrada no Ensino Superior numa vantagem escandalosa relativamente a quem tem de fazer cinco ou seis exames para conseguir aprovação e uma vaga no Ensino Superior, constatei o previsível e percebi claramente a revolta da minha magricela espevitada. Se, em casos muito específicos o processo de RVCC, vulgo Novas Oportunidades, pode fazer algum sentido, noutros não é senão uma enorme injustiça, legítima, pois, toda e qualquer indignação, e não porque os alunos do ensino regular tenham de cumprir três anos de escolaridade, continuo a acreditar que aprender é das experiências mais gratificantes e enriquecedoras, mas porque seis meses e um exame nacional são manifestamente pouco e podem colocar estes candidatos em vantagem no ingresso ao Ensino Superior. Justiça e equidade devem ser conceitos desconhecidos lá para os lados da vinte e quatro de Julho.
Numa das inúmeras entrevistas em que Carlos Cruz se tem desdobrado para clamar a sua inocência e limpar a sua imagem, deparei com a desgraça que se abateu sobre a família Cruz e que terá provocado uma mudança substancial no seu modo de vida. Foi numa dessas revistas que povoam as salas de espera dos médicos, também assíduas nos salões de cabeleireiros que adquirem os mais variados epítetos ao contento das tendências contemporâneas de nomenclaturas do género. Carlos Cruz era amante de gadgets, afirma-o, e agora, pobre dele, não tem dinheiro para o vício. Diz que queria um iPad mas que não pode. Que pena. Proponho que se faça um peditório nacional.
O blogue desta semana dispensa grandes apresentações, aliás, dado o sucesso dispensa qualquer apresentação. É irreverente, sarcástico, incisivo e não há meias palavras. Aconselho a todos aqueles que são sensíveis a linguagem mais forte que se mantenham arredados, contudo, aviso desde já, não sabem o que perdem. Além de belissimamente ilustrado, fala-se de tudo um pouco, de livros e das aventuras de um livreiro a contas com leitores curiosos. É por estas e por outras, também pelo manifesto anti-pontos de exclamação, que o meu blogue da semana é o Irmão Lúcia. Os meus parabéns ao Pedro Vieira.
Pode ser preconceito, se for assumo-o sem problemas mas isto das mulheres a falar de futebol pode parecer algo estranho. Não é a primeira vez que o faço mas sempre que o faço é pelo factor surpresa. E foi isto lá pela tarde por causa do sorteio de grupos, seja lá o que isso for. Pelo que lhe calhou em sorte, o Futebol Clube do Porto terá de se defrontar com o Beşiktas de Istambul, o CSKA de Sofia, e o Rapid de Viena. A propósito desta má sorte, Carlos Manuel afirmou que o problema para os jogadores eram as viagens. Ora como se sabe nenhuma das três dista a mais de umas quatro ou cinco horas de voo. Ou o Carlos Manuel tem com as coordenadas trocadas ou não recuperou às Provas de Recuperação à disciplina de Geografia, repetitiva, eu sei, mas nada a fazer. Andam estes viris rapazes a ser pagos a peso de ouro para se queixarem de uma viagenzita de avião ali mesmo na esquina da Europa. Meninas, é o que é.
Desde que se começou a aventar a hipótese de se fazer uma revisão ao Estatuto do Aluno, até ela ser efectivamente feita e finalmente promulgada pelo Presidente da República que não se fala de outra coisa. A bandeira principal, a pólvora, a panaceia que poria fim a todos os males do mundo, assim como uma banha da cobra que iria erradicar as enfermidades do mundo educativo estava aí, prestes a surgir e a repor a verdade do mundo e a justiça do universo: a distinção entre faltas justificadas e injustificadas. Da esquerda à direita, os líderes, sub-líderes, assessores dos líderes, amigos dos líderes e animais domésticos dos líderes políticos encheram as balofas bocas com palavras doutamente ignorantes e o povo cordato e obediente regozijou em júbilo com a mais esparvoada das mentiras. A distinção entre faltas justificadas e injustificadas existia no antigo Estatuto do Aluno. Os pais, encarregados de educação, e/ou quem os substitui, conhecem muito bem as folhinhas brancas A5, modelo do distinto Ministério da Educação onde escrevinham dias, horas, datas e causas da ausência dos seus educandos e que por vezes acompanham com atestados médicos ou declarações médicas. E para quê? Para que as faltas sejam justificadas naturalmente. E o que acontecia se assim não fosse? Acontecia que as faltas não eram justificadas e, não o sendo, os alunos teriam de realizar Prova de Recuperação quando ultrapassassem o dobro das horas semanais da disciplina a que faltou. Se as faltas fossem justificadas, apenas quando ultrapassassem o triplo teriam de se sujeitar a esse bicho burocrático e inane conhecido como Prova de Recuperação e que, convenhamos, terá ajudado muito às estatísticas socráticas que como sabemos é a sua preocupação principal. E depois da mesma mentira repetida como eco sempre que se aborda o assunto, fica claro que os nossos líderes e outros precisavam de uma Prova de Recuperação para recuperarem as aprendizagens, sim, o pleonasmo impõe-se, é para isso que serviam. Algo me diz que não recuperariam, mesmo com o Plano XPTO, para se porem ao fino. É sempre mais fácil pegar em chavões do que averiguar a verdade. O povo gosta.