Imagine this


cronicasnofeminino,

 

Our society is run by insane people for insane objectives. I think we’re being run by maniacs for maniacal ends and I think I’m liable to be put away as insane for expressing that. That’s what’s insane about it.

 

John Lennon

Convidados assíduos


cronicasnofeminino,

Salazar e o Rei eram convidados assíduos de lá de casa, pela hora de jantar, em tempo de vida da minha avó. O meu pai não gostava nem de um nem de outro, menos do Salazar, é certo, que arrumava a um canto ou pedia para sair, de forma a que pudéssemos ter uma refeição descansada, sem lápis azul nem a carranca austera. Acresce a isto o facto de a voz aflautada do Botas nunca ter sido do agrado de ninguém lá por casa. Por fim, o Botas arrastava-se, a queda da cadeira deu-lhe cabo das cruzes, e quando o meu pai lhe atirava com Fátima e a Irmã Lúcia e ia buscar Fátima Desmascarada à estante do corredor, vinham-lhe umas tosses cavernosas e a imagem a preto e branco contrastava ainda mais com a nossa vida a cores de meados dos anos 70. A minha avó tolerava o Botas e tinha dias de elogios rasgados. Era ela quem o convidava amiúde e as discussões mantinham-se sempre por causa das estradas que o Botas construíra, a virtude máxima encontrada e citada pela minha avó, e que, não sendo novidade para ninguém em pleno século XX, constituíam o foco de admiração profunda que nutria pelo ditador.

O Rei aparecia mais vezes do que o Salazar. O Rei aparecia quase a qualquer momento, mesmo sem o meu pai em casa, já o Botas só aparecia quando o meu pai lá estava. Acho que o Botas gostava do confronto, porque quando não era o Fátima Desmascarada, o meu pai citava-lhe trechos d´ A Velhice do Padre Eterno do Guerra Junqueiro. Também me lembrei dele, quando um destes dias assisti a uma romaria na vila Olhem ali o nosso Padre Cura… Mas não sei o que era pior. Sei que num desses duelos, Fátima Desmascarada de um lado e A Velhice do Padre Eterno do outro, o Botas começou a empalidecer até se tornar transparente e desaparecer pela janela do hall como uma serpentina de fumo. Foi um descanso o resto do jantar. O Rei aparecia, por exemplo, a meio da tarde, vindo do nada Coitado do rei! Admite-se fazer uma coisa daquelas ao rei! Coitada da rainha! Via-o lá por casa algumas vezes em amena cavaqueira com a minha avó, sempre pesarosa com a crueldade do regicídio. O meu pai não se incomodava muito com o Rei, embora o irritasse aquela mania de tratar todos por tu. O ar bonacheirão, contudo, devia inspirar-lhe confiança e como era dado aos prazeres da vida e às artes, o Sr. Dom Carlos, o meu pai achava-lhe piada e deixava-o contemplar os quadros a óleo da sala de jantar com mares e naturezas mortas. De modo que havia dias lá em casa em que a alternância entre a monarquia, – a desgraça que se abatera sobre a casa real, coitado do Rei, a rainha D. Amélia viúva e o filho assassinado- e a república na pessoa do Botas, o grande mentor das auto-estradas portuguesas, um Ferreira do Amaral dos tempos da ditadura, operava-se com uma rapidez estonteante, assim a minha avó se lembrasse de ambos. E lembrava-se muito.

 

Texto reeditado e repescado da memória.

Os velhos que paguem a crise


cronicasnofeminino,

Desconheço o nome da criatura. Apanhei-a pela manhã durante o pequeno-almoço, enquanto cumpria o vício e o ritual de me actualizar sobre o estado do país e do mundo. Dever-me-ei assustar com este gosto masoquista? Dizia então a criatura, e foi logo após as novas medidas do governo Sócrates, que os reformados deviam sofrer mais cortes e isto, segundo a dita comentadora, porque já não tinham encargos com a educação dos filhos e tinham uma redução de despesas. Portanto, e assim sendo, os reformados que não vivem declaradamente pobres ou no limiar da pobreza devem pagar a crise. Já que não têm filhos para alimentar nem para comprar livros nem gadgets nem roupa de marca nem saídas à noite, só têm é que pagar mais do que os restantes cidadãos. Argumento curioso, tão curioso quanto inane e injusto. Não interessa se os reformados, pensionistas ou como lhes queiram chamar, descontaram já uma vida inteira para a sua reforma, ou se já contribuíram com o melhor dos seus anos para este país. Nem todos vivem à custa de reformas chorudas de lugares ao sol por via de amigos, amiguinhos e amigalhaços. Há quem tenha trabalhado honestamente e muito, com dedicação e empenho, e cumprido a sua missão.

O que mais me encanitou, e se encanitou, foi, por um lado, o preconceito de que os velhos são mesmo velhos, seres a quem a força da gravidade foi lesta e os deixou de carnes dependuradas, desgraçadamente sem plásticas, e mentes toldadas pela neblina da memória embaciada, e que não têm vida própria nem o direito de, se lhes apetecer, ir a banhos para as Caraíbas ou ficar em casa a devorar os livros que não conseguiram durante a vida activa ou ainda fazer rigorosamente o que lhes der na gana. Por outro lado, esta ingerência na vida privada dos cidadãos não me deixou a mais calma das criaturas. E que temos nós a ver como e em quê os reformados gastam o dinheiro e que direito se tem de fazer inferências sobre a vida alheia apenas porque são velhos? E se não forem saudáveis e se precisarem de cuidados ou de pagar um lar? Nada disso interessa para a jovem e enxuta criatura, ainda com as carnes no lugar e a boca rápida em cuspir disparates. Neste país ser velho é igual a não ter qualquer dignidade. Pobre, destituído de tudo. Além de serem abandonados nos hospitais, vítimas de maus-tratos e de abusos têm também de pagar a crise. E por que não exterminá-los? Raio de gente.

Sem cura


cronicasnofeminino,

No novíssimo Campus de Justiça, certamente inaugurado com a pompa e circunstância sem a qual o provincianismo português não pode passar, faltam salas de audiência e ao que parece vários julgamentos, mega-julgamentos, podem ser adiados porque não existem salas com as dimensões suficientes para o número avultado de arguidos e advogados envolvidos. E claro que se se continuasse na Boa Hora ou num tribunal análogo ainda se podia compreender. Inadmissível mesmo é pensar que o dito Campus foi inaugurado em 2009 e que à data terão sido destacadas “a luminosidade e a climatização”. O mesmo se passa, por exemplo, na minha escola, a ser inaugurada pomposamente no próximo dia 5 de Outubro.  Muita luminosidade, é verdade, climatização, confere. A luminosidade é tanta que incide nos olhos dos alunos logo pela manhã e como não há lugar para onde possam mudar dado o número elevado de alunos por turma, há que aguentar. E salas mais pequenas, capacidade  em número de salas de aula igual à anterior, em equipamentos informáticos estamos ainda pior, ai o meu rico manual, que seria de mim sem ele, e sala de professores onde não cabem os professores nos intervalos, gabinetes de trabalho sem mobiliário. Mas o povo é feliz e pasma-se com as obras na escola. Se estivesse com o rabinho sentado numa secretária e longe do que é dar aulas também haveria de gostar ou se passasse pelos corredores largos ou à porta da escola. Tudo lindo em azulejos brancos e azul cueca. Não há cura para o português.

Néctares e zurrapas


cronicasnofeminino,

“Eu penso que os políticos são como os vinhos. Não sabemos porquê. Há boas épocas em que o vinho é esplêndido e outras épocas em que o vinho não presta. Nesta altura nós temos políticos que não prestam.”

 

Mário Soares

 

E que zurrapas que por aí andam.