Cogitações


cronicasnofeminino,

Depois de tanto se malhar no Sócrates, pergunto-me em quem se irá malhar depois de domingo à noite. É bom que se vá pensando num substituto sob pena de se sofrer uma insuportável síndroma de privação. Sete anos de bordoada não se esquecem facilmente e o homem é um animal de hábitos, diz-se.

Crise? Qual crise?


cronicasnofeminino,

Vinte e oito mil euros em quatro noites em Nova Iorque, trezentos mil euros em festas de luxo, deslocações em limusinas num custo de cento e dez mil euros, jóias compradas na Tiffanny´s, desconhece-se o valor gasto. No total foram oito milhões de euros. E desengane-se quem acha que tamanho desmiolanço foi obra de um sheik das Arábias ou um oligarca lá para o Leste da Europa, esbanjando euros como quem come tremoços ou se abalança num belo prato de caracóis. À cabeça desta comandita temos o portuguesíssimo, lusitaníssimo Durão Barroso e o resto dos implicados neste fantástico caso uma ‘coisa’ que dá pelo nome de Comissão Europeia.

Conversa da treta


cronicasnofeminino,

A direita acusa a esquerda, a esquerda acusa a direita, Passos Coelho acusa Sócrates, Sócrates acusa Passos Coelho, Paulo Portas acusa Passos Coelho de ter sido “muleta” do PS, diz que não é muleta de ninguém, o Assis diz que vai ser uma desgraça se o Sócrates sair, Sócrates também acha que vai ser uma desgraça se sair, uma parte do país concorda com Sócrates e com Assis outra está empenhada em pôr o Sócrates a banhos lá para onde foi o Catroga. Enquanto tudo isto, neste país pequeno de acusações e discussões estéreis e inúteis, este desfile inane da gente que nos (des)governa há quase quatro décadas, duas em cada cinco crianças vivem em situação de pobreza. E ‘isto’ devia ser o essencial. Quase quatro décadas depois, alguém, à esquerda ou à direita, já devia ter conseguido resolver este país. Deixem-se de tretas.

25 de Abril


cronicasnofeminino,

 

Esta é a madrugada que eu esperava

O dia inicial inteiro e limpo

Onde emergimos da noite e do silêncio

E livres habitamos a substância do tempo.

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

Ai se o ridículo matasse


cronicasnofeminino,

Depois dos abraços comovidos que todos estes dirigentes deram a José Sócrates, ao longo do dia, as palavras do clássico «That’s What Friends are For» resumiram tudo em verso.
«Continua a sorrir, continua a brilhar/ Sabendo que podes sempre contar comigo, sem dúvida/ É para isto que servem os amigos/ Nas horas felizes e nos tempos adversos/ Estarei sempre a teu lado/ É para isto que servem os amigos».

 

Ao vivo e a cores no Congresso desses rapazes socialistas tão amigos.

A tragédia da classe económica


cronicasnofeminino,

Raramente terei começado post algum com tanta vontade de escarrapachar nomes, assim uma espécie de anúncio à moda do Velho Oeste: WANTED mas hoje, ai hoje, logo hoje, passados uns meros dias sobre o anúncio fatídico da vinda desse tal FMI ou FEEF ou outra coisa qualquer que, surpreendam-se, vai ajudar a Banca, deu-me esta ímpeto. Foi logo pela fresca quando no meu mural facebookiano me anunciaram que nove dos nossos deputados europeus votaram contra uma proposta para que os voos com duração inferior a quatro horas passassem a ser em classe económica. E agora os nomes e os partidos, já agora: José Manuel Fernandes, Paulo Rangel, Regina Bastos, Carlos Coelho, Mário David, Maria do Céu Patrão Neves e Nuno Teixeira do PSD e Luís Manuel Capoulas Santos e António Fernando Correia de Campos do PS votaram contra. Numa altura em que são pedidos mais sacrifícios do que o conseguimos suportar não ficaria nada mal aos senhores doutores engenheiros arquitectos deputados, uma verdadeira realeza que não se pode sentir encunicada durante umas reles quatro horas e precisa desta afirmações bacocas de uma dignidade vã, dar o exemplo. Desengane-se quem acha que este país ainda tem viabilidade com gente desta. Não tem.

Blogue da semana


cronicasnofeminino,

É despretensioso, condição primeira, a par da boa escrita e do bom humor, para lhe devotar uma visita diária, se não diária pelo menos assídua, fala-se de tudo um pouco sem se restringir demasiado a um assunto, é actualizado a uma velocidade estonteante, tem um título muito sugestivo nos dias que correm de polivalência de tudo o que é coisa, e, como se tudo isto não bastasse, o João Eduardo Severino é dos bloggers que mais nos acarinha nesta selva indomável de posts e comentários. Apresento-vos o meu blogue da semana: Pau para toda a obra

Adeus 2010


cronicasnofeminino,

 

Concentremo-nos no essencial. Harmonia, tranquilidade, saúde, lucidez e preseverança para que 2011 se afirme como um ano positivo. A todos os comentadores, visitantes e aos meus companheiros de escrita, votos de um feliz e pleno Ano Novo.

O sumo da austeridade


cronicasnofeminino,

Numa altura em que nada se faz e se diz sem zurzir nas medidas de austeridade e antecipar de forma dramática o difícil ano da graça de 2011 há que ir para a rua e ouvir esse povo em permanente alerta meteorológico e económico ou financeiro, o mesmo que vivendo à espera de um Sebastião qualquer que o salve da miséria, tem elegido desde há três décadas a esta parte uma outra estirpe de portugueses incapazes de governar este rectângulo luso. A panóplia de estratégias de poupança não é muito grande e oscila sempre entre arremessar as crianças para o antro da escola pública, deixar de comprar tanta roupa e começar a comprar produtos de marca branca, o que, há que admiti-lo, é apenas uma questão do mais elementar bom senso. É espantoso o conceito de apertar o cinto de alguns dos portugueses. Agorinha mesmo, num dos canais de notícias que desfila à minha frente e num suposto programa de economia ou algo que o valha, uma mulher de meia-idade, alourada como convém, e com o que parecia ser o neto, afastado dela uns passos, afirmou que para poupar ia deixar de comprar sumos e arremessou à criança estacionada no passeio Olha, vais deixar de beber sumo. O que é uma pena. Tendo em conta que refrigerantes não fazem falta a ninguém e que não os beber só pode contribuir para a não ingestão de uma quantidade considerável de açúcar e corantes, a criança só pode beneficiar deste arremesso impiedoso e desta medida extrema de austeridade. Estranho conceito de poupança.

Sonhos


cronicasnofeminino,

E os sonhos de que são feitos? Penso nisso enquanto o dia se aconchega na noite e a tarja de mar prateado cintila lá longe pela janela da cozinha. Será Natal do outro lado do mar? Um tacho, claro, largo, como todos os tachos, preto e pesado, naturalmente. Um copo de leite, uma pitada de sal, uma colher bem cheia de manteiga. Manteiga, jamais margarina. Deixar ferver sob olhar vigilante. Os sonhos são caprichosos, qualquer desvio pode derrotá-los ainda meninos. Retirar do lume. Acrescentar a medida do leite em farinha. A tarja de mar desaparece-me no horizonte entretanto. Levar ao lume outra vez e envolver vigorosamente todos os ingredientes com uma colher de pau, enquanto o calor se encarrega de os ligar. Deitar para um recipiente largo e, quando começar a arrefecer, ir juntando ovos inteiros: um, dois, três, quatro, cinco, seis. Os ingredientes de que os sonhos são feitos devem abundar em quantidade e qualidade, é sabido. Escureceu de repente. Da janela da cozinha escuro apenas. Momento improvável para acalentar sonhos. Depois as mãos na massa, os sonhos que se querem sonhos querem-se batidos com o vigor da vida, amassados com as próprias mãos, já se sabe. Com perseverança, sem desistir, até chegarem ao ponto exacto, difícil de explicar na palidez do ecrã para que escrevo e na noite que ouço lá fora, silenciosa e soturna. Depois a fritura. Aquecer o óleo e ir deitando pequenas porções na fritadeira. O óleo nem muito quente nem muito frio, um dos segredos mais bem guardados. E eis que se avolumam e crescem. Os sonhos devem crescer, pois claro. Envolver com açúcar e uma quantidade muito generosa de canela. E assim são os sonhos, envolvidos com carinho, batidos com robustez e saboreados com a doçura do açúcar e o exotismo da canela. O aconchego possível para a noite imensa que se pôs lá fora.

A pedido da Ana Vidal como legenda para esta delícia.

Com os dias contados


cronicasnofeminino,
É velho, é gordo, usa sempre a mesma roupa, só trabalha dois ou três dias por ano, nada que abone em favor dele, nos tempos que correm há que trabalhar muito, estar muito ocupado e cumprir tarefas múltiplas com afinco, velocidade e stresse, muito stresse, tem barba, não apara ou retoca as sobrancelhas e, ainda por cima, como se as características citadas não fossem o suficiente, é míope.

Tem o péssimo hábito de andar permanentemente de barrete, igual se em casa ou na rua, aparentemente não se coíbe de coisa alguma entre estranhos, usa botas altas, o que, embora seja tendência corrente entre o público feminino seguidor dos ditames da moda, não torna o velho gordo a mais elegante das criaturas, alguém que o leve a um fashion stylist, não se lhe conhece outra roupa e desconhecem-se-lhe companhias, femininas ou masculinas. Passa a vida rodeado de animais, razão pela qual, muito provavelmente, é parco em palavras e profere ocasionalmente sons monocórdicos e repetitivos, aos três de cada vez.

Pode ser encontrado com mais frequência a partir de Novembro, embora já tenha sido avistado em Outubro, em Dezembro faz aparições frequentes em centros comerciais, na televisão, em revistas, folhetos publicitários, podemos encontrá-lo em esforços hercúleos pendurado em varandas, parapeitos, paredes de prédios e chaminés, mais uma vez, uma figura nada dignificante e pouco abonatória, teme-se acusação de home jacking, serve amiúde como arma de arremesso, uma ameaça constante à vida infantil, nos dias que correm é crime ameaçar crianças, há que lhes deixar fazer tudo o que lhes passa pela cabeça, e continua tranquilo cumprindo as tarefas costumeiras, ano após ano. O velho tem os dias contados, porém.

O velho é velho, nos dias que correm ninguém é velho. O pobre velho ver-se-á em breve num desses programas televisivos que operam verdadeiros milagres e declaram guerra feroz às imperfeições. Veremos o velho de boca aberta, entrapado com um turbante e, se tudo correr como esperado, teremos um velho que já não é velho, igual a todos os outros velhos que já o foram, e com uma lista invejável de plastias: abdominoplastia, rinoplastia, o nariz rotundo é muito pouco elegante, uma blefaroplastia para um olhar mais jovem.

O velho é gordo. Nestes dias, gordura é um pecado quase tão mau e hediondo como a velhice, dois pontos negativos imperdoáveis, velho e gordo. O velho será submetido a um intenso programa de cardio-fitness com um regime alimentar equilibrado com as percentagens sensatas de hidratos de carbono, fibras e proteínas.

O velho e gordo tem o péssimo hábito de ser transportado por renas, nos dias correntes, ninguém é transportado por renas, sob pena de ser processado pelas organizações de protecção dos animais e o velho adora compras, um comprador compulsivo sem comparação, outra falta reprovável particularmente em tempos de crise. O velho além de velho, gordo e comprador compulsivo tem outra característica inadmissível: a generosidade. Com tudo o resto pode viver-se. Com a generosidade não. O velho tem os dias contados.