Desconheço o nome da criatura. Apanhei-a pela manhã durante o pequeno-almoço, enquanto cumpria o vício e o ritual de me actualizar sobre o estado do país e do mundo. Dever-me-ei assustar com este gosto masoquista? Dizia então a criatura, e foi logo após as novas medidas do governo Sócrates, que os reformados deviam sofrer mais cortes e isto, segundo a dita comentadora, porque já não tinham encargos com a educação dos filhos e tinham uma redução de despesas. Portanto, e assim sendo, os reformados que não vivem declaradamente pobres ou no limiar da pobreza devem pagar a crise. Já que não têm filhos para alimentar nem para comprar livros nem gadgets nem roupa de marca nem saídas à noite, só têm é que pagar mais do que os restantes cidadãos. Argumento curioso, tão curioso quanto inane e injusto. Não interessa se os reformados, pensionistas ou como lhes queiram chamar, descontaram já uma vida inteira para a sua reforma, ou se já contribuíram com o melhor dos seus anos para este país. Nem todos vivem à custa de reformas chorudas de lugares ao sol por via de amigos, amiguinhos e amigalhaços. Há quem tenha trabalhado honestamente e muito, com dedicação e empenho, e cumprido a sua missão.
O que mais me encanitou, e se encanitou, foi, por um lado, o preconceito de que os velhos são mesmo velhos, seres a quem a força da gravidade foi lesta e os deixou de carnes dependuradas, desgraçadamente sem plásticas, e mentes toldadas pela neblina da memória embaciada, e que não têm vida própria nem o direito de, se lhes apetecer, ir a banhos para as Caraíbas ou ficar em casa a devorar os livros que não conseguiram durante a vida activa ou ainda fazer rigorosamente o que lhes der na gana. Por outro lado, esta ingerência na vida privada dos cidadãos não me deixou a mais calma das criaturas. E que temos nós a ver como e em quê os reformados gastam o dinheiro e que direito se tem de fazer inferências sobre a vida alheia apenas porque são velhos? E se não forem saudáveis e se precisarem de cuidados ou de pagar um lar? Nada disso interessa para a jovem e enxuta criatura, ainda com as carnes no lugar e a boca rápida em cuspir disparates. Neste país ser velho é igual a não ter qualquer dignidade. Pobre, destituído de tudo. Além de serem abandonados nos hospitais, vítimas de maus-tratos e de abusos têm também de pagar a crise. E por que não exterminá-los? Raio de gente.

Leonor,
essa criatura também há-de chegar a velha. Talvez nesse momento pense duas vezes sobre o disparate que disse. Sobretudo se tiver uma reforma como boa parte dos idosos portugueses tem. Mais: isso da redução das despesas é um mito para muitos. Na minha terra, conta-me um amigo farmacêutico, há já idosos que não conseguem comprar todos os medicamentos de que precisam, pois se o fizerem, não lhes resta dinheiro para se alimentarem durante todo o mês. E muitos são aqueles que vão pedindo para “pagar no início do mês”…
Enfim, a criatura decidiu provar que a inteligência, de facto, não se encontra distribuída de forma igualitária. Mas isso não há remédio ou reforma que resolva.
Gostava de lhe ter feito uma única pergunta:
– Foi você que pediu um estalo na cara?
Não consigo perceber se é desta gente que saem os actuais líderes políticos, se os actuais líderes políticos é que servem de exemplo, inspiração e formação a esta gente.
Peço desculpa pelo que vou dizer, subretudo à Leonor. ” É assim que os chulos começam”
Não peça, zeparafuso, tem razão. Como digo no fim do texto ‘raio de gente’ e estou a ser simpática.
Isto anda tudo ligado, João, é o que é.
Claro, João. Não sei onde foi buscar esta ideia peregrina. Não incluo aqui os reformados que têm pensões imorais de tão baixas, incluo os que conseguem viver confortavelmente mesmo não tendo pensões chorudas. Que temos nós a ver com isso? Fiquei irritada.
Dizes que era uma criatura. Não seria antes uma cavalgadura?
Certamente, Pedro.
Infelizmente, apesar de essa fulana também chegar um dia a velha, e de ser inqualificável, parece ter alguma razão. O ministro das finanças disse que é intenção do (des)governo aproximar a tributação em IRS da dos rendimentos H (pensões de reforma) dos rendimentos A (trabalho).
Já nada me surpreende vindo de Sócrates e Teixeira dos Santos.
Vai ser cada vez pior. Em casa onde não há pão… não faltará gente a propor solução. Na maior parte das vezes, os outros que paguem a crise.
São sempre os outros a pagar a crise, josé-catarino, o problema é os outros somos sempre nós.
Aplaudo e cumprimento.
Obrigada.
Estou de acordo com a maioria dos comentários que aqui foram escrito, que não deverão ser os reformados(com baixas reformas ou mesmo aqueles com reformas mais graudas) a pagar a crise.
Não posso, no entanto, de deixar de concordar que de alguma forma os que recebem reformas avultadas (exemplo: superiores a 4.000€) ou mesmo os que têm de ordenado mais que isso, se em apenas 1 mês, só recebessem os ditos 4.000€ os cofres do estado deveriam aumentar substancialmente, podendo assim os jovens, desempregados ou quem recebe menos que isso não ter de viver com o IVA a 23% ou mesmo os funcionários públicos com ordenados miseráveis verem os seus ordenados reduzidos em 7%.
Bem sei que estas ideias são controversas, mas num país em que se proclama tanto a democracia então se há referendos para tudo que se faça um referendo para saber o que o povo quer!
Querem mais impostos ou preferem que os ricos sejam menos ricos para que todos possamos ter uma vida minimamente digna?
Esta semana deparei-me com uma imagem (http://www.facebook.com/photo.php?pid=1 461407&id=1499906644&oid=483035515295#!/photo.php?pid=3086451 3&fbid=1393738889947&op=1&o=all&view=all&subj=483035515295&aid=-1&oid=483035515295&id=1426423300) com os ordenados mensais de certos gestores e fiquei boquiaberta quando vi alguns com ordenados de 250.000€.
É revoltante!
Não precisa de ficar boquiaberta. Se está a referir-se a gestores de empresas públicas, eles são compensados com bónus e prémios de gestão no fim do ano…
Os que auferem (palavra linda…) reformas “avultadas”, como diz a Rita Figueiredo, são – em regra – os que andaram uma vida inteira a descontar para isso. O estado não deve tratar os cidadãos de uma forma na hora de sacar e de forma diferente na hora de pagar.
Escandalosos, isso sim, são casos como o do menino RPS, ex-dirigente da JS e ‘protégé’ do PM, que saiu com uma ‘indemnização’ milionária da PT, após uns anitos na administração da empresa, onde só fez aquilo que sabemos e bem poderia ser resumido numa palavra de cinco letras.
Desta vez, discordo. Não vejo porque é que a esses que ” andaram uma vida inteira a descontar para isso” não devem ser exigidos sacrifícios. Desde 1973 que faço descontos e não só não tenho direito a reforma sem penalização gravíssima, como vejo outros, colegas de profissão bem mais novos, reformarem-se aos 52 anos (sim, os educadores de infância e professores do 1º Ciclo) com reformas como eu jamais terei, mesmo que trabalhe até aos 70. Por outro lado, há casos de acumulação de reformas; não pretendo ter a razão toda, mas isto que em tempos escrevi a propósito das reformas múltiplas não andará muito longe da verdade: 010/06/das-reformas-multiplas.html
http://jose-catarino.blogspot.com/2
Mas os educadores de infância e professores do 1º Ciclo ainda se podem reformar mais cedo que os outros, jose-catarino? Pensava que isso já tivesse acabado. Se não acabou, devia acabar. Só somos iguais quando dá jeito.
A fazer fé no meu amigo Ramiro Marques, profundo conhecedor da educação e do sistema, sim: as-inconvenientes.html
http://www.profblog.org/2010/09/pergunt
Mas olhe que duvido que haja algum professor nos tempos que correm a reformar-se com 52 anos e a ter uma reforma de 3.000 euros ilíquidos. Um professor no topo da carreira no Secundário ganhará isso, contudo terá de trabalhar até aos 65 anos para conseguir a reforma por inteiro e ter também anos de serviço (já não sei auntos agora). É verdade que há uns anos, muito poucos, isso acontecia aos professores do 1º Ciclo. Uma vez que eram precisos 35 anos de serviço acontecia que se reformavam cedo mas, por outro lado, os ordenados eram inferiores.
Lista de aposentados (Caixa Geral de Aposentações) de Outubro e respectivas reformas: 0/4620446229.pdf
http://dre.pt/pdf2sdip/2010/09/17400000
Disponível aqui:
http://www.cga.pt/cgaInicio.asp
Sobre os vencimentos: os valores são ilíquidos. Um professor no topo da carreira, seja ele do Secundário ou do 1º Ciclo, ou Educador de Infância (10º escalão, índice 340) ganha actualmente cerca de 3000 euros brutos, 2000 líquidos. Os ordenados não são inferiores no 1º C. E esses colegas continuam a beneficiar de um regime de excepção no que concerne às aposentações.
Aí já é diferente, porque estamos a pensar no valor da reforma e não a fazer contas à vida de cada um, como se tivéssemos esse direito. Contudo se já descontaram não sei porque o hão-de fazer outra vez, mesmo ganhando muito bem.
Quanto às reformas milionárias, parece-me que o problema é estrutural e aí é que era preciso que o governo tivesse coragem de moralizar o sistema.
Também me parece injusto que seja igual que o desconto de 10% seja igual num funcionário que ganha 2.000 euros e noutro que ganha, como deu o exemplo, 250.000. Essa coragem não vejo.
Poupava-se ainda mais se se matassem os velhos. Alguém já deve ter pensado nisso em S. Bento…
Assertiva como sempre, neste textos que nos fazem descer ao mais profundo da nossa existência, e ” sofrer ” com o tamanho destas injustiças.
Como diz, Leonor, os velhos são mesmo uns trapos velhos, para pisar, e porque não, bater ? São fracos, pelo que é sempre melhor bater naqueles que o peso dos anos já curvou, chegam mais rápido ao chão.
A nossa vingança é que os verdadeiros ” trapos ” que nem gente são e que hoje são novos, um dia chegará a vez deles se curvarem para levar cacetada, dos governos, das famílias, dos vizinhos, dos falsos amigos….
Eu já ouvi também comentários idênticos ao que escutou e não tenho palavras…sinto um enorme nojo por essas pessoas.
Leonor, percebi por este e outros posts seus que é uma pessoa preocupada com os ” velhos ” de hoje, lembrando-se que amanhã, nós e os nossos amigos estaremos também pagando uma factura qualquer. Tiro-lhe o meu chapéu por isso, porque também partilho essa preocupação, odeio quando vejo descarregar nos mais frágeis essa ira ignóbil.
E não vale a pena, que venham aqui lembrar-se dos velhos que recebem 5000 euros de reforma, porque isso é não entender nada do seu texto, nadinha mesmo.
Estou consigo!