É que não são só as palavras, não é apenas o miolo, não conta simplesmente o diálogo entre as personagens e o leitor, por vezes entre o escritor e o leitor. Não é o que se lê, o que sente, o que emociona e enfurece. É o objecto. As centenas de páginas agarradas umas às outras, as capas coloridas, o cheiro, sim, um cliché, eu sei. O texto na contracapa, as palavras insossas nas badanas. O prazer de o abrir e espreitar. Um livro não é apenas palavras. Um livro é uma companhia. E são muitos os que me acompanham casa fora. Os que repousam caoticamente no chão ao lado da minha mesa-de-cabeceira, os que me colorem as estantes cá de casa, os que se espalham por aqui e ali. E depois o prazer. A procura. Os momentos em frente das estantes Estava aqui, guardei-o aqui, tem de estar por aqui. A tranquilidade de horas a folheá-los na senda do excerto perdido, a curiosidade dos minutos à procura de uma novidade entre as páginas, a certeza de se encontrar sempre algo novo. A partilha Olha aqui, o que encontrei. E as memórias Este comprei-o em Salvador, lembras-te? Um pedaço de história de vida encerrada em páginas e lombadas carinhosamente preservado como testemunho de momentos felizes Foi o primeiro livro que comprei no Rio. Os presentes e quem os ofereceu. São os autógrafos dos escritores, as letras desenhadas à sombra dos jacarandás com o Tejo em fundo. E andar com eles na carteira ou entre os dossiers. E são isto os livros. São as dedicatórias. O meu nome bem legível na primeira página, data e local, a marca indelével de posse e a afirmação de território São meus. E isto jamais poderá ser substituído por uma geringonça electrónica. Isso não são livros. Esses não serão nunca os meus livros.
já publicado aqui

Subscrevo. Aliás, há dias discutia esse tema com um amigo no facebook. É verdade que o digital será o futuro, mas acredito que os livros venham a ser os últimos resistentes dessa vaga. Pessoalmente, passo muitas horas na internet – leio jornais, blogues, artigos de natureza diversa -, mas não dispenso as minhas horas de boa e velha leitura. Pensar que essas horas passem a decorrer em frente a um monitor só pode ser boa notícia para o meu oftalmologista, pois para os meus hábitos de leitura seria péssimo.
De resto, e como disse ao meu amigo nessa conversa, de entre a tralha toda que tenho no meu pequeno quarto aqui em Lisboa, aquilo que mais valorizo é precisamente a minha pequena biblioteca. Não a trocava por nada.
Tal como tu, João, também passo muitas horas na Internet mas nada substitui os livros. Duvido que vá algum dia aderir à moda, a menos que os livros desapareçam de todo.
Os livros não desaparecerão. Só desapareceriam quando se eclipsasse a civilização. Vivemos na civilização do Livro: nasceu com ele, morrerá com ele.
Óptimo. Os livros são insubstituíveis.
Completamente.
Nem mais. E o prazer das anotações ao lado, dos sublinhados a lápis “para mais tarde recordar”, dos cantos dobrados naquela página que nos marcou especialmente? Eu sei, sou uma selvagem, mas quando leio um livro de que gosto sou capaz de invadi-lo tanto quanto ele me invade a mim. E só faço isso com os que são meus.
Dobrar os cantos é que não, Ana!!!! Como és capaz? 😀
LOL. Adoro dobrar cantos!! Além disso, não tenho marcadores que cheguem para tudo o que quero reler…
A grande vantagem de se ser passageiro frequente da CP é que marcadores não faltam: bilhetes de comboio servem perfeitamente. Aliás, suspeito que se começar a ver todos os livros que tenho na estante, encontro muitos! 🙂
Nunca dobro cantos aos livros. Mas deixo marcadores em todos os que vou lendo. Marcadores que de algum modo assinalam a época e/ou o lugar em que os li. Cartões de restaurantes, bilhetes postais, bilhetes de transportes ou de algum espectáculo… É um prazer redobrado, quando os revisito, reencontrar também esses marcadores.
Tenho uma caixa cheia de marcadores. Compro sempre quando viajo e cá não lhes resisto. Tal como o Pedro e o João, outros andam espalhados pelos livros. Apesar disso, se precisar de marcar um livro recorro ao que tenho à mão, contas de supermercado, recibos de gasolina, tudo vale menos dobrar-lhes os cantos 😉
Também faço isso com a papelada que tenho à mão, mas dobro na mesma.
É para eles saberem quem manda…
😉
LOL
E faças isso com tudo o que é teu, dobrar para saber quem manda? :)))))))))))))))))))
Ups, agora apanhaste-me!
Nem tudo, nem tudo…
😉
Estou muito mais descansada :)))
Tenho opinião diferente (e a casa a abarrotar de livros em papel) Experimentem o Kindle, depois podemos discutir.
Marcadores, notas, sublinhados, tudo isso é possível. E posso enviar directamente as notas para o computador. E tenho uma biblioteca inteira sempre à mão. Inconvenientes? Sem dúvida. Principalmente o facto de muitos livros portugueses ainda não serem editados como e-books.
Se forem portugueses, são i-buques.
Pois, já dizia Fernão de Oliveira, que nós cá trataremos de as amansar (às palavras de origem estrangeira). Lamento não citar com exactidão, mas não consigo encontrar a Grammatica da lingoagem portugueza no amontoado de livros — talvez algum amigo a tenha levado e esquecido de devolver. Tenho de a conseguir em i-buque. Como se vê, nem tudo é mau nos novos suportes. Interrogo-me, até, se quando surgiu o papiro não terá havido um coro de lamentações em torno dos tijolos: tinham peso, cor, textura, cheiro — e, em caso de necessidade, até serviam para meter cultura pela cabeça dentro…
Não sei se me convence, jose-catarino, mas talvez concordaremos numa coisa: uns não substituem totalmente os outros.
Creio que estaremos de acordo em muito mais coisas: há livros e livros; uns lêem-se, no máximo, uma vez e talvez na diagonal, a outros voltamos frequentemente e sempre descobrimos sentidos que nos tinham escapado em leituras anteriores. É natural que queiramos estes últimos em suporte mais nobre que os zeros e uns do digital.
Livro é um objecto complexo, que se não resume ao seu conteúdo informacional. Há anos não comprei uma edição fac-similada do Cancioneiro da Ajuda por ser cara e ainda hoje me arrependo: era linda e esgotou logo.
(Nunca procuro convencer ninguém: espero que cada qual se convença, ou não, por si.)