Se entrar numa livraria não tenho este problema. A certeza de que só vou encontrar livros prepara-me para o que vou encontrar e quase intuitivamente separo os títulos e autores e corro ao encontro do desejado, pode ser apenas um desejo súbito e arrebatador, se o autor me agradar, a capa for apelativa e o título sugestivo. Contudo se me encontrar com os livros num hipermercado, no que desgraçadamente frequento encontram-se na entrada logo à direita, nutro por eles um sentimento diferente. É claro que não resisto a um olhar cirúrgico à procura de novidades, dão cabo de mim as novidades, mas de seguida separo a Nora Roberts, a Jodi Picoult e o Nicholas Sparks, às vezes tenho até vontade de os rearrumar nas estantes e os separar da Toni Morrison e da Doris Lessing, não sei porquê, mas acho que não ficam bem ao lado uns dos outros. Hoje, por exemplo, havia uma biografia no meio dos livros do Mia Couto e não me pareceu bem aquela intromissão. Também já estive para chamar a assistente e explicar-lhe que não, que Em Busca da Felicidade, um dos livros que mais me arrependo de ter comprado, não é um livro de auto-ajuda, ouviu? E que o Nagib Mahfouz também não tem nada que ombrear com as espiritualidades, ainda não entendi porque o colocam sempre ali. Outros dias embirro com as celebridades que deram em escritores e escritoras. Toda a gente sabe, muita pelo menos, que nada daquilo interessa ao mais pintado, mas também toda a gente sabe que o autor vende e não há quem resista aos esgares da Fátima Lopes perante os pobrezinhos e desvalidos do mundo que se adivinham entre as páginas. Mas hoje foi diferente. Hoje aconteceu-me ter vontade de esbofetear um livro. Sim, é verdade, insólito e até um pouco embaraçoso para quem tem os livros nos genes, outra mania com que vim equipada de origem, mas nada como admiti-lo. Ocupava um lugar de destaque, o parvalhão, e gritou-me Desculpa, mas vou chamar-te amor. Ai não vais, não. AMOR? Virei-lhe as costas e fui irritada aos deliciosos biscoitos crocantes de coelho, aves e legumes que fazem as delícias da população felina cá da casa. Que título mais ridículo. Parvalhão.
Ai não vais não
cronicasnofeminino,

Que abusador, na verdade! Estou a imaginá-la «descalça a ir para a fonte, Leanor pela verdura…», e salta-lhe um malandro destes ao caminho!
Vá fermosa e bem segura, Leonor, e, sim, dê-lhe, dê-lhe com força!…
Dou-lhe, sim, Luis, há lá direito 🙂
Perfeito… 🙂
Beijinho, Ana Paula, obrigada 🙂
Argh… Mas podia ser pior, imagine só que era “Desculpa, mas vou chamar-te môr”…
Aí é que não resistia mesmo 🙂
Na verdade, há livros de supermercado, livros que são só mesmo de supermercado. A Fátima Lopes, como dizes, só devia estar no super. Como a Carolina Salgado. E os jogadores de futebol. E as biografias e autobiografias de quem não viveu bastante e não tem nada para dizer e proliferam como cogumelos. Como ‘os meninos de ouro’, a bem dizer. Os supermercados servem também para isto. Só não sei como é que eles entram nas livrarias.
Há um livro meu que só anda (andou) nas livrarias Almedina, que pediu expressamente o exclusivo. No meu íntimo, continuo a achar que me faltou o sucesso que o supermercado me daria. Se não pelas vendas, ao menos pela proximidade das couves e das abróteas, que são tão populares.
O problema, se é que é, porque há gente que gosta daquilo, é que eles entram pela porta da frente nas livrarias, têm destaque e direito de antena. Ainda há pouco uma actriz da nossa praça lançou um livro a contar como emagreceu, o que me pareceu fantástico. Histórias daquelas há milhões e só interessam aos próprios. Eu também podia escrever um livro desses mas chamando-me Leonor Barros não vou lá, obviamente 😉
As couves e abróteas davam-te um toque de alimentação saudável, tão importante no homem contemporâneo. Mas… um livro teu? E se partilhasses connosco?
Livra! A História da Justiça em Portugal? Ainda se andasses com insónias… Tenho outros sobre Macau bem mais giros. Um dia levo-te um.
Fico à espera, João. Devíamos fazer uma sessão privada de autógrafos: tu, a Ana Vidal e o António Manuel Venda.
Vou arranjar uma chancela igual à do cabeçalho do DO para essa sessão de autógrafos…
E que livro é esse João?
A sério? Bem, lá vai: «O Supremo Tribunal em Portugal – Dois Séculos e Quatro Regimes de Memórias» (só nas Almedina).
LOL. Isso é aquilo a que eu chamo literatura Cyrano: livros que vendem por causa do título, porque ele diz o quem os oferece gostava de dizer e não tem coragem ou… bem, adiante. O mais engraçado é que às vezes são um presente envenenado, quando afinal de contas o miolo não tem nada que ver com o título ou até o contraria. E é muito bem feito, acho eu.
🙂
Com títulos desses, Ana, nem chego ao miolo 😉
Já estou a imaginar o título do futuro livro da menina Carolina Patrocínio, também ideal para as prateleiras de supermercado: “Desculpa, mas vou chamar-te para me tirares o caroço”.
Pois…
Ou então a grande revelação ‘Desculpa, mas vou tirar-te o caroço’ :))))