O HOMEM MAIS SOLITÁRIO DO MUNDO
O futebol permite imortalizar imagens que nos acompanham vida fora. Imagens de implacáveis derrotas e vitórias redentoras que nada têm a ver com a abstracta “justiça dos resultados” tantas vezes invocada em vão pelos comentadores da modalidade. Porque o que se joga num relvado, sobretudo numa competição com a amplitude de um campeonato do mundo, transcende largamente um resultado desportivo, tornando-se uma espécie de alegoria do destino humano. São momentos de glória e desespero que perpetuam famas, boas e más. Momentos como aqueles segundos finais desse fantástico jogo que foi o Gana-Uruguai, ontem disputado em Joanesburgo.
Os ganeses desejavam ser a primeira selecção africana a atingir as meias-finais de um Mundial. Os uruguaios, arredados desde 1970 de uma meia-final, ambicionavam resgatar o brilhante passado futebolístico do seu país, campeão mundial em 1930 e 1950. Motivações diferentes, mas suficientemente mobilizadoras para empolgar os atletas. Naqueles instantes, cada um deles transportava os sonhos de milhões.
Foi aí que tudo aconteceu. A pressão atacante ganesa rompeu a exausta defesa uruguaia: com o guarda-redes Muslera batido, Luis Suárez – a estrela da equipa – impediu duas vezes consecutivas a bola de entrar na baliza. Mas à segunda actuou à margem das leis futebolísticas.
Como se pode falar em “injustiça” no futebol? Neste jogo disputado com os pés, Maradona tornou-se um deus do Olimpo ao marcar com a mão contra a Inglaterra em 1986. Thierry Henry conduziu fraudulentamente a França ao Mundial da África do Sul ao meter também a mão à bola. E foi igualmente com as mãos que Suárez alterou o curso da história, impedindo o Gana – o primeiro país da África negra a tornar-se independente no ciclo pós-colonial – de chegar ao pódio mundial do futebol.
Tudo mudou naquele fragmento final do jogo. O árbitro português, Olegário Benquerença, assinalou o inevitável penálti. E todo o peso do mundo caiu de imediato sobre os ombros do ganês Asamoah Gyan, encarregado de o marcar. O destino decide-se numa fracção de segundos, em poucos centímetros de terreno. Como às vezes numa guerra mundial. Como às vezes no mais banal acto do nosso quotidiano. Se marcasse, Gyan veria o seu nome inscrito para sempre na galeria dos heróis; se falhasse, tornar-se-ia símbolo de fracasso a perdurar por gerações. Que o diga o guarda-redes Moacir Barbosa Nascimento, o guarda-redes que deixou entrar o fatal golo uruguaio na final do Maracanã, em 1950, ditando o traumático adeus do Brasil ao título na sua própria casa.
Gyan tomou balanço, partiu para a bola – e rematou à barra.
Nada mais havia a fazer.
Seguiu-se a roleta das grandes penalidades que sempre ocorre quando o desafio termina empatado, como este terminou (1-1). Mas era óbvia a vantagem do Uruguai: o falhanço anterior arrasara psicologicamente os jogadores do Gana, enquanto os sul-americanos se sentiam ungidos pela graça de Deus.
Levaram a melhor, claro.
No futebol, a fraude pode compensar: ganhou quem merecia perder. Mas o estranho sortilégio deste jogo passa também por isto.
O rosto de Gyan, devassado pelos grandes planos televisivos, era uma máscara de dor: uma etapa crucial da vida dele fechou-se para sempre quando aquela bola bateu na barra. Naquele momento, não havia ser humano tão fotografado no planeta. Naquele momento, não havia ser humano tão solitário no mundo.



Asamoha Gyan , poderia não o Mundo todo do lado dele, pelo menos os uruguaios não estariam, certamente, mas tinha todo o Continente Africano. A 11m dos 7,20×2,44 . foi o que separou o Gana das meias-finais do campeonato. Tinha feito história, nunca nenhum país africano tinha chagado tão longe. Mas o certo é que as traves e as barras fazem parte do jogo. Ingloriamente o Gana ficou pelo caminho, mas vai ser recebido com honra quando chegar. Se fosse a selecção portuguesa como seria ?
A selecção portuguesa foi recebida pelos energúmenos do costume, que a cobriram de insultos. Não acredito que aconteça o mesmo com a do Gana, que justificou em campo ter merecido ir às meias-finais. A selecção uruguaia até me merecia alguma simpatia, mas a partir de agora já não. Estou contra.
Para mim, até agora, o momento do Mundial que o Pedro Correia enquadrou de forma límpida (aliás, como é hábito). Aqui fica o meu “enquadramento”:
Com essa bola defendida
no final do prolongamento,
a partida foi decidida
nesse dramático momento.
Esse momento de solidão,
após um penálti frustrado,
é de enorme ingratidão
para um esforço prostrado.
Obrigado, meu caro. Concordo consigo. Foi o momento mais vibrante e mais emocionante do Mundial. Irrepetível.
Já vi que perdi um jogo fundamental. Ainda bem que deixaste aqui a crónica.
Garanto-te que perdeste, Cláudia. Com um final épico – e trágico. Um enorme jogo de futebol, digno de um Mundial.
Este texto remeteu-me para a questão das faltas estratégicas, chamemos-lhes assim. E a única coisa que consigo dizer é que as regras que regulamentam o decurso do jogo, são feitas por homens pelo que contêm todas as suas imperfeições. O aperfeiçoamento constante das regras é assim importante porque, além das suas repercussões tácticas, têm de ser avaliadas também quanto às suas consequências éticas. Só nos (à Fifa neste caso…) resta um caminho: tentar aperfeiçoar as regras sabendo que é um caminho sem fim, mas que tem de ser precorrido.
As faltas estratégicas merecem mesmo uma boa discussão, que me sinto incapaz de fazer, note-se.
:))
Esperemos que a FIFA retire as devidas lições deste Mundial, Maria do Sol. Não faltam pistas de reflexão.
Pedro, creio ser injusto equiparar esta situação com as de Maradona e de Henry: nesses casos a mão na bola não foi punida, aqui sim. As regras foram todas cumpridas: uma mão na bola intencional na área por um jogador de campo é punida com uma grande penalidade e um cartão vermelho. Se algo está errado é a regra, não o que se passou. Talvez se pudesse introduzir uma regra como no basquetebol, que tem o “goal tending”. A regra é aplicada quando a bola lançada ao cesto é bloqueada durante a trajectória descendente. Nesse caso o bloco não é considerado legal e o cesto é atribuído (sem punição extra, no entanto). Talvez no futebol se pudesse atribuir o golo e dar o vermelho ao infractor.
Em todo o caso acho injusto ver o Uruguai (ou simplesmente Luis Suaréz) como o vilão da história. Cometeu a infracção e foi punido. Quantos de nós fariam algo de diferente na situação dele, no entanto? Gyan teve uma oportunidade de ouro para vencer, mas não a conseguiu concretizar. É pena para ele e para o Gana, mas não vou criticar o Uruguai por isso.
João, os casos são comparáveis no plano da verdade desportiva. A verdade é que´Suárez praticamente tirou a bola de dentro da baliza. Era golo certo do Gana, era passagem automática do Gana às meias-finais. Estou de acordo com a adaptação dessa regra do basquetebol ao futebol, sobretudo no último quarto de hora de jogo, como foi o caso. Ali já nem havia sequer hipótese teórica de recuperação do Uruguai pois faltavam poucos segundos para terminar a partida.
Claro que eu faria o mesmo se estivesse no lugar do Suárez. Do ponto de vista dos interesses do Uruguai, ele cumpriu a sua obrigação. O Uruguai ganhou. Mas o futebol vai perdendo sempre um pouco com tudo isto.
Quando li o título «O HOMEM MAIS SOLITÁRIO DO MUNDO» coma fotografia de Asamoah Gyan até pensei que fosse uma referência aos seus jogos. O Gana jogou sempre com uma equipa em bloco compacto e com Gyan quase sempre só contra os centrais adversários. Nessa função, de ponta de lança isolado, talvez tenha sido o melhor jogador do mundial, com a sua inteligência a ocupar espaços, a usar o corpo, a esperar pelos companheiros e a lançá-los. Durante o Mundial foi o Homem Mais Solitário do Gana. Não merecia, de facto, tornar-se o Homem Mais Solitário do Mundo.
Não merecia, de facto. Mas no futebol não há “justiça”: o herói da véspera torna-se o vilão de hoje, e vice-versa. Tudo depende da contingência dos resultados. O mais curioso é que grande parte do sortilégio do futebol vem precisamente disto.
Um belíssimo artigo sobre um excelente jogo, que tive a oportunidade de ver.
Senti o mesmo, estive de alma e coração com o Gana, pela força, pela garra e pela vontade, apesar de não serem as estrelas do mundial. Mereciam ir mais longe.
O penalti não concretizado, foi demolidor. A sucessão de penalties ficou então marcada pelo desânimo e pela frustração. Psicologicamente inferiores, nada havia a fazer, nem quando houve uma luzinha de esperança.
Mereciam mesmo ir mais longe!
Sintonia, caríssima: também torci pelo Gana, como aliás se depreende pelo que escrevi.