Nada faria prever que num simplérrimo voo Madrid–Lisboa eu fosse aprender uma palavra que me tem dado tanto jeito e que hoje se me apresenta como uma verdadeira revelação. Algures nos lugares traseiros do avião, também conhecido aqui e ali por aeronave, e depois de umas horas num outro vinda de Istambul, fui atacada por um bando de turistas. Traziam às costas uma mochila indicadora de que vinham em grupo, uma peregrinação, apurei depois, e falavam aquela linguagem típica do português típico quando faz viagens típicas acompanhado de portugueses típicos a sítios típicos. Pareciam ter comprado este mundo e o outro, já que além da mochila cor-de-laranja da magnânima agência de viagens que os levou a ver o sítio onde a Virgem nasceu e Petra, imagine-se, e Israel, não querem lá ver, desdobravam-se em sacos e malas que a custo queriam fazer caber nos overhead compartments – gosto disto, nada como uma palavritas em inglês para condimentar a coisa. Quando finalmente assentaram arraiais a conversa deslizou fluida com um sem número de queixumes que incluía, por exemplo, o passeio de burro, Nunca mais! Balha-me Nossa Sinhora! e a escala manhosa em Madrid Ai quem dera a minha casinha! e ainda uma tal de mulher de quem ouvi frequentemente dizer E depois eu disse-lhe, bem à laia de reprimenda e remoque, como quem esgrime um combate. E estava a coisa a correr bem, tudo sentado, à espera de partir, quando de repente a ocupante do lugar à minha frente se lembrou, achou, sentiu, pressentiu e teve a certeza que o seu banco, esse mesmo onde ia sentada, estava com as costas demasiado rebatidas. Fazendo uso do seu habitual desenrascanço sentou-se no banco, agarrou as costas do dito vigorosamente e começou a abaná-lo com igual intensidade. É que para este ser o material não tinha sempre razão, logo havia que repor, a bem ou mal, a ordem das coisas. A companheira do lado com quem partilhara a viagem de burro pela Terra Santa e os queixumes da vida malvada ainda tentou avisar que não valia a pena. Em vão, contudo. Quando ela alegou que íamos apertados ali atrás, ainda esbocei um sorriso e larguei umas palavras Deixe estar, não incomoda nada, mas o mais divertido foi quando se virou para o passageiro a meu lado e disse Oh coitado do sinhor! Até bai aí todo encunicado!. E pronto, lembrei-me desta magnífica palavra, uma verdadeira pérola lexical, porque julgo ser esse o problema dos nossos deputados para viajarem em executiva, primeira ou outra presunção manhosa tão típica dos povos do Sul, em voos longos. Não querem ficar encunicados lá entre os bancos do povão, o mesmo povão que lhes paga as mordomias.
Pérolas lexicais
cronicasnofeminino,

Fantástico texto, Leonor. Até eu me fui encunicando todo à medida que ia evoluindo a línguagem livre e fluida do povão que já voa. Encuniquei-me, pronto.
Até agora, encunicado é a minha palavra de 2010, João. Ri-me a perder com a desenvoltura da peregrina. Com as aulas a acabar prevejo a retoma dos meus hábitos de escrita.
Eis uma grande decisão.
Já há muito que não me ria tanto!
Realmente enternecedora, uma viagem assim.
Esta descrição perfeita do que acontece nestas viagens, daria um excelente filme.
Um óscar pela realização!
Ainda bem, macarvalho, também eu me fartei de rir, baixinho encunidada atrás do banco 🙂
Beijinho
Pois eu continuo a rir-me…
Depois de uma semana de trabalho inenarrável, em que nem o feriado escapou, soube-me mesmo bem ler este texto, Leonor.
Mas….
Temo seriamente que a grafia não seja essa… eh eh eh eh
É que tenho cá uma desconfiança acerca da etimologia da palavra…
:)))
Ainda bem que se riu, Maria do Sol. Viajar é sempre uma aventura 🙂
Quanto à grafia, também fui à procura da versão correcta e pelo que apurei é mesmo esta. É uma palavra galega. Deve ter entrado no vocabulário português pela proximidade, já que me pareceu que eram de Viana do Castelo.
excelente naco de prosa!
como transmontano que sou muito folgo em que a sua palavra do ano (até agora…) seja um termo que também usamos por aqui.
quanto ao fundo da questão… bem, sem dúvida que se muitos daqueles que escolhemos para nos governarem (a todos os níveis) tivessem que se encunicar…
palpita-me que lhes fazia um bem danado!
abs
Abs? E os travões são bons, José? Eheh…
Muito obrigada. Desconhecei totalmente a palavra mas adoptei-a com carinho. Curioso também ser usada em Trás-os-Montes.
E concordo consigo, o que lhes falta é encunicarem-se como nos acontece a nós.
Beijinho
Encunicadissima estou eu de tanto rir, balha-me Nossa Sinhora.
:))
Também me ri muito na altura mas foi bem encunicada no banco para não me verem, ariel 🙂
Leonor: o seu divertido post tem aquele ‘gostinho especial’ da bela prosa a que já nos habituou. Quanto à ideia daqueles senhores se meterem a viajar (seja em que meio de transporte seja) junto do “povão”, será bom que pensem duas vezes antes de o fazer. É que mesmo que não fiquem «encunicados» pelo exíguo espaço disponível, vão ficá-lo irremediavelmente pelos belos e merecidos apertões que vão levar. Se forem de avião, o melhor então será mesmo levarem pára-quedas…
Um abraço 😉
Obrigada 🙂
Pois eu acho que só lhes fazia bem e a nós todos voarem em económica. Não sei que têm a mais para tanta mordomia. Além disso é bom que travem contacto com o povo que os elegeu, se bem que esta talvez não seja a melhor altura…