Há nacos de prosa, bocados de texto, excertos de livros e citações isoladas que me acompanham como pequenas cartilhas, um almanaque oculto e íntimo pronto a saltar nos momentos mais inusitados. Quando deambulo em passeios blogosféricos pelas caixas de comentários existe uma citação que me acompanha e que se impõe. Apanhei-a há uns bons onze anos, também em périplo bibliófilo e ficou-me para sempre: Um dia, Gronk, o Cro-Magnon do Norte, disse (logo depois de ter inventado a linguagem) a Bonga-Bonga, Cro-Magnon do Sul: “mim diferente tu”. O que poderia ter sido o início de uma afirmação inteligente tomou-se, desde logo, razão para uma troca de marretadas porque Gronk acrescentou: “tu diferente mau, mau”. Desde então enraizou-se cada vez mais, através da longa história da estupidez humana, a ideia de que as diferenças entre seres humanos são uma coisa negativa. Isso aparece espelhado em frases, muitas vezes repetidas, acerca de “diferenças inconciliáveis” ou pessoas que se agrediram entre si por “não conseguirem resolver as suas diferenças”.*
Sendo a blogosfera um local de abertura total de comunicação, um lugar onde todos podem dizer tudo, aquilo que podia ser a priori uma vantagem transforma-se, dependendo do tipo de blogues e do tipo de comentadores, um exercício de reafirmação de diferenças irreconciliáveis e, citando o texto, uma troca de marretadas. Alguns porém não se enquadram de todo neste perfil arruaceiro, são cordatos, educados, inteligentes, por vezes afectuosos, comentam o que sabem e remetem-se ao silêncio quando não sabem.
Por essa blogosfera fora encontram-se, pois, vários tipos de comentadores. Os comentadores profissionais não têm habitualmente blogue mas comentam, muito e tudo sobre uma pletora de temas. Certamente constará do Curriculum Vitae destas criaturas sapientes Comentador credenciado de blogue. Há também os trauliteiros, os que têm acima de tudo uma intenção: entrar a matar, dar bordoada em tudo ou não fossem trauliteiros. Também há os trauliteiros selectivos. Esta estirpe acumula a trauliteirice com a selectividade dos temas. Aparecem em certos assuntos apenas, educação, por exemplo, sexo, aborto ou religião, como se estivessem a vigiar o blogue atentamente para saltar sempre que soa uma das palavrinhas mágicas. Em todos os outros temas mantêm-se no silêncio e nem damos pela sua existência. Os salazarentos são também uma espécie muito comum. Têm tendência para ver a vida a preto e branco e concluir com os seus botões com a mais célebre de todas as frases Quem não é por mim é contra mim. Assim, se não concordarmos com o Sócrates é porque somos a favor de Pedro Passos Coelho, logo, contra. Podem acumular com a trauliteirice com a cobardia pungente de se esconderem atrás do anonimato, de falsos sites, blogues e identidades condicentes com esta sua lamentável ausência de carácter. Estes salazarentos trauliteiros têm um acréscimo de agressividade naturalmente. Por fim, os vampíricos, não escrevem nada de seu e passam a vida a fazer posts com os posts dos outros para dar mais bordoada. São cumulativamente mestres na arte de linkar. Finalmente vêm os pavlovianos. Os pavlovianos caracterizam-se por comentários intempestivos sempre que ouvem alguma palavra da área semântica do seu interesse ou inquietação. São semelhantes aos trauliteiros selectivos mas mais comedidos na agressividade e peroram mesmo depois das discussões terem acabado.
Estas sete estirpes, os profissionais, os trauliteiros, os trauliteiros selectivos, os salazarentos, os salazarentos trauliteiros, os vampíricos e os pavlovianos são espécimes muito comuns na blogosfera. Para eles tudo serve para uma troca de marretadas. Afinal tão perto do Gronk, o Cro-Magnon do Norte e do Bonga-Bonga, Cro-Magnon do Sul.
*RODRIGUES, Vítor, ( 1995), A Nova Ordem Estupidológica, Lisboa, Livros Horizonte.


E há também escribas blogueiros ao melhor estilo Cro-Magnon, Leonor. Esses ao menos põem logo o escarro todo na montra, sem se refugiarem em caixas de comentários. Berrando alarvidades do género “abjecto filho da puta”, seguidas de muitos pontos de exclamação, a quem ousa discordar deles. Gente fina é outra coisa.
É, Pedro. Há de tudo.
O inferno são os outros.
Afinal, a Leonor andava a esconder isto da gente, mas é mesmo, como li algures, um pseudónimo do Pacheco Pereira.
Parabéns, meu/minha caro/a amigo/a!
Estou siderado com a sua perspicácia, confesso. Desta vez, apanhou-nos.
Vou ali contar ao Tric, enquanto V. vai ao seu ‘site’ da «unique body wear» e tira os miolos que escondeu dentro daquele ‘soutien’.
E agora que fomos apanhados, que há-de ser de nós?
Estamos perdidos. Resta-nos arranjar uma representação de roupa interior e escolher uma estirpe para começarmos a entrar nas caixas de comentários de blogues importantes.
LOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOL
(Um soutien 32, copa A. Só para esclarecer. Pelo menos as mulheres sabem o que isto quer dizer…)
Onde cabem poucos miolos, portanto. Está certo.
Isso mesmo. Hummm, também percebes do assunto…
😉
Muito bom. E eu digo, convictamente, mais: – não há nada melhor na vida do que uma boa diferença! Com um detalhe: é que a forma é essencial.
E outra coisa: tem de haver em cima da mesa um imaginário aparelho metricial, como aqueles dos jogadores de xadrez, mas desta vez para medir a paridade.
Nem mais, Chloé, a forma é essencial. Da diferença e da diversidade é que nasce a luz.
Ó Leonor, agora também eu fui apanhado! «Não tenho blogue mas comento habitualmente, muito e tudo sobre uma pletora de temas». Devo, portanto, considerar-me incluído no grupo dos «comentadores profissionais»?
Por esta promoção súbita é que eu não esperava, não senhor! ;-))
De forma alguma, Luís. O Luís enquadra-se neste pequeno período: “Alguns porém não se enquadram de todo neste perfil arruaceiro, são cordatos, educados, inteligentes, por vezes afectuosos, comentam o que sabem e remetem-se ao silêncio quando não sabem.” Aliás, diria que a maior parte dos nossos comentadores se enquadra aqui, uns fazem mesmo parte do blogue, como o Luís. São sempre educados, quando aqui vêm é para exprimir uma opinião que nunca resvala para a mínima indelicadeza. Há uma diferença substancial na forma, mesmo quando discordamos:)
Obrigado, Leonor, pelo seu esclarecimento, pela sua cordialidade e, sobretudo, pelas suas palavras gentis.
Um abraço. 😉
Quando li este teu post calculei que viesse a propósito de uma qualquer marretada que me tivesse escapado. Acabo de descobrir o que te inspirou este belo catálogo. Tanta agressividade gratuita deixou-me perplexa. Deve ser da crise, ando tudo a ficar um pouco excitado. Haja paciência!
Sabias palavras.
Este texto já não é novo, Teresa, mas quando o escrevi foi também depois de uma bela sessão de marretada aqui no DO. Há assuntos tabu, religião é um deles e o PR outro, pelo que se viu.
Eu ainda não descobri o que foi que inspirou a Leonor, mas já vou procurar. Seja como for, já valeu a pena: este post está uma maravilha. Na mouche.
Obrigada, Ana.
Não importa se falam bem ou mal o que importa é que falem. E o post é um exemplo disso; é curioso como a reafirmação da diferença inconciliável é susceptível de desencadear sérias deambulações que se propõem proceder a uma classificação dos comentadores que se dedicam à troca de marretadas, incluindo-os por exemplo no grupo dos vampírios ou no grupo dos trauliteiros. Por momentos, pensei (induzida em erro pelo início do 3º parágrafo) que a classificação se iria estender a todo o universo…Percebi então que os restantes comentadores se incluem na categoria alargada dos “cordatos, educados, inteligentes, por vezes afectuosos, comentam o que sabem e remetem-se ao silêncio quando não sabem”. Acertado, afinal não se dedicam à marretada, é quanto basta.
O post tem, de facto, como objeto esses todos que são incapazes de esgrimir argumentos sem saltar para a agressão e ofensa, Sílvia. Talvez seja injusto relativamente à maioria que aqui vem para debater, como a Sílvia e tantos outros. Não entendo de todo por que é que as pessoas não são capazes da vivência da diferença numa perspectiva saudável e enriquecedora. Não concordar é apenas e só isso: não concordar.
Um beijinho, Leonor
:)))
Assim, se não concordarmos com o Sócrates é porque somos a favor de Pedro Passos Coelho, logo, contra.
Oh assim qualquer coisa sem muita imaginação… , isso é comigo ou foi engano? É que, assim como assim, as coisas não se colocam dicotomicamente: assim ou assado. Trata-se, assim, de não simplificar.
Leonor, era o que faltava começarem a aborrecê-la por manifestar a sua opinião. Era o que mais faltava.
:))
Acho que o comentário deve ter estar fora de sítio, Maria do Sol. É uma citação do meu texto, acho.
Pois, Maria do Sol, mas há por aí gente (ou será apenas uma pessoa?) que não admite pontos de vista diferentes e salta logo para a ofensa.
Continua-se a escrever bem por aqui.
Gostei muito, embora existam ainda outras categorizações possíveis. (há sempre, não é?)
Obrigada, Luís. Havia mais categorizações claro 🙂
Em Portugal está instalado um preconceito latente, que leva a que se cataloguem pessoas e situações em função de alinhamentos político-partidários e religiosos. A aceitação da diferença é só da boca para fora, torna-se um bicho de sete cabeças, quando se trata de assunto “a doer”. as opiniões ” extremam-se na razão directa da falta de consistência dos argumentos, no “porque sim”. O ódio larvar de alguns sectores a um homem e escritor como Saramago. só existe porque ele não se enquadra no mainstream , não foi, apesar do Nobel, ou até talvez por causa do Nobel, absorvido por determinados círculos “fazedores de opinião”. Como resultado os idiotas úteis e anónimos do costume fazem aquilo que sabem fazer, insultam. Acresce que os bons exemplos não abundam, quem os devia dar não o faz, e pior, ao não dar o exemplo estimula o comportamento larvar e preconceituoso dessas pessoas. Quando assim é não nos podemos admirar do que quer que seja.
Eu bem sei Leonor, que o post não tem nada a ver com isto, mas olhe, apeteceu-me botar discurso à laia de comentadora credenciada de blogue… penso eu de que…
:)))
Mim concordar tu