Portugal tem dois milhões de pobres e três milhões que vivem no limiar da pobreza. Metade dos portugueses são, portanto, pobres. Dois terços dos portugueses vão passar as férias em casa e desconfio que não será por causa dos conselhos do Presidente da República. O IVA aumentou, provocando uma subida nos preços de tudo e mais alguma coisa, ele é gás, pão, água, luz, tudo, rigorosamente tudo. Os salários sofreram uma redução anunciada, fazendo cumprir as tão elogiadas medidas de austeridade. Aproxima-se a passos largos a época do ano que os pais são extirpados de uma quantia ofensiva em manuais escolares que tão a propósito também sofreram um aumento acima da inflação. E neste cenário miserável o Ministro das Finanças vem pedir aos portugueses para pouparem. Só pode ser brincadeira. Gostava de saber como e mais concretamente em quê. Talvez se passasse um mês com o ordenado mínimo ou com os cerca de oitocentos euros que constituem o salário médio neste país, com contas para pagar, filhos em idade escolar e já agora uma vida digna para viver, entendesse a falta de respeito que o pedido encerra. E por falar em poupar, podiam dar o exemplo e poupar-nos a todos estas inanes afirmações.
Poupai-nos
cronicasnofeminino,

Nem mais.
Infelizmente, João.
De facto, Leonor, só pode ser brincadeira. E de muito mau gosto. Se há coisa a que devíamos todos ser poupados é a governos incompetentes.
Também, Pedro.
Excelente, Leonor.
Só quanto a essa história das férias é que tenho dúvidas. É que os portugueses têm das taxas mais altas de segunda casa, a chamada casa de férias. Portanto, para todos os efeitos, passam férias “em casa” – mas na praia… Isto é só uma suposição, estou completamente de acordo com a tua leitura.
Mas os cino milhões que vivem neste estado lamistável não terão grandes alternativas, Ana Margarida. Alguns terão de usar esse dinheiro para comprar manuais escolares, por exemplo. Pergunto-me muitas vezes como é que as pessoas vivem e isso angustia-me. Muito.
Percebo o que dizes. E partilho dessa angústia. Aliás, não sei se já assististe a pessoas a deixar coisas no supermercado, com o dinheiro contado a não chegar (e não, não falamos de supérfluos).
Outra coisa: a minha bolsa, paga pelo Estado (FCT), em regime de exclusividade (não posso ganhar mais nada) está pouco acima desse valor.
Pois. Resta saber como é que acham que se vive assim.
Nunca assisti, Ana Margarida, mas já dei por mim a fazer fotócopias dum manual escolar e oferecê-lo a uma aluna porque ela não tinha dinheiro para comprar livros. Eu sei que é errado fazer fotocópias mas perdi todo o pudor perante situações destas. Horrível. Fiquei sempre com um peso na consciência por não o ter feito mais cedo.
“Talvez se passasse um mês com o ordenado mínimo ou com os cerca de oitocentos euros que constituem o salário médio neste país, com contas para pagar, filhos em idade escolar e já agora uma vida digna para viver…” muito bem Leonor. A questão é que a interiorização e consciencialização desta terrível realidade tem de passar por todos nós, não só pelos políticos do governo, mas por todos em geral, oposição, jornalistas organizações sociais. E que tivéssemos todos um pouco de pudor e de vergonha de nos queixarmos das nossas pequenas misérias, nós os que vivemos com conforto, quando nem sequer imaginamos como poderá ser o dia a dia da esmagadora maioria das famílias portuguesas que vivem com oitocentos euros, para já não falar no desespero dos desempregados…
Concordo inteiramente, Ariel, não suporto queixumes. Todos temos problemas, situações mais ou menos difíceis mas os que vivem com conforto, mesmo sendo absolutamente legítimo aspirar sempre a uma situação mais justa e equalitária e não abdico disso, apenas conseguirão imaginar o drama destas famílias. Como sou professora, vou-me apercebendo aqui e ali, mas como nem sempre conseguimos chegar aos miúdos e numa coisa não abdico nunca, respeitar a privacidade e a dignidade de cada uma, nem sempre se consegue ajudar. Angustiante.
Obrigado pela clareza lúcida do comentário, Leonor.
Obrigada pelo seu comentário, Ana Paula.
Pois e Leonor, o que tu apontaste aqui, a pobreza em que grande parte dos Portugueses se encontra e uma coisa que tambem me faz muita confusao. Como e que as pessoas conseguem viver com uma media de 800 eur por mes ? casa, agua, luz, gaz , comida, roupa, livros escolares, despesas de saude , transportes etc . Nao consigo entender. Mas, o governo e quem as pessoas la poem .</a> E se nao poem .</a> deviam de por. Sei que a taxa de abstencao e muito alta. Tambem nao admira, as pessoas estao muito decepcionadas com tudo. Mas tambem se nao derem a sua opiniao , nada acontece, e o que esta mal continua a estar mal ou pior. Eu ja quis votar e nao puder por ter que me deslocar a embaixada que fica a 650 km do sitio onde vivo. Faze-lo no consulado a 10 km, nem pensar, e pelo correio, complectamente impensavel. Sera que nao se deveria acabar com certas borucracias , como esta que impede um cidadao de exercer o seu direito de voto?? No proximo outono vou votar para as autarquicas da Noruega e vou poder faze-lo via internet!
Mencionas o preco dos livros escolares. E uma vergonha dizerem que a educacao e gratis .</a> Gratis onde? os pais tem que comprar os livros todos e mais os cadernos e lapiz e etc por ai fora. Aqui na Noruega o ensino basico e GRATIS. O que quer dizer que os livros sao alguns dados (os que sao para escrever) e os outros, por exemplo textos, sao emprestados. Ao fim do ano, devolvidos a escola para voltarem a ser utilizados. Para isso, as criancinhas tem como primeiro trabalho de casa do ano escolar, forrar os livros para nao se estragarem, e o programa escolar nao esta constantemente a mudar de tal forma que seja necessario estar sempre a comprar livros novos. Todos os cadernos para escrever, lapiz , canetas, borrachas sao a escola que da. Isto sim, e ensino gratis .</a> que deveria ser aplicado em Portugal. Mas tambem e preciso dizer que para se ter ensino gratis .</a> entre outros bens sociais, e preciso pagar impostos. E os impostos aqui nao sao brincadeira. Em Portugal as pessoas gritam sempre que os impostos sofrem um aumento. Compreendo que gritem, devido as dificuldades dos demais. Mas o que deviam fazer era tirar do governo e outors postos de gestao , os incapazes de organizar as financas do pais de forma aque va em bem da populacao e nao em bem do bolso de quem la esta. E para isso so ha duas hipoteses. Ou fazem uma outra revolucao , ou entao na proxima vez que forem votar, facam para que as pessoas se dirijam as bancas de voto ou mesmo modernizar o sistema de forma a que quem gostava de votar pudesse votar. Assim como eu.
Olá, Fernanda! Gosto tanto de te ‘ver’ por aqui 🙂
A situação cá em Portugal está mesmo muito difícil. O que dizes em relação à particpação dos cidadãos tem a ver com o que dizes, reina um profundo descrédito nos políticos e instalou-se a ideia de que os políticos só querem poleiro e um ‘encosto’ para o resto da vida. A verdade é que a actuação deles não nos permite ter esperança.
A burocracia é um cancro neste país. Finalmente as pessoas vão tentando usar as novas tecnologias e há uma tentativa ainda que ténue de melhorar as coisas, mas os hábitos são velhos, estão muito inculcados e leva tempo. Mas também há o reverso da medalha e até parece que emperrar a máquina e exigir formulários e idas e vindas às repartições é uma forma de exercer poder sobre os outros. Só para teres uma ideia: quando o meu pai morreu quisemos fechar a conta dele num banco. Foi de tal forma complicado que, depois de várias idas ao dito banco, nos chegaram a dizer que só o próprio. Não se compreender
A questão do ensino ser grátis é treta, porque como digo no post o preço dos manuais é um abuso, a pressão das editoras e dos livreiros para que se compre tudo o que são materiais de apoio imensa. Este ano aqui na Escola sou eu mesma que vou à papelaria avisar que os alunos SÓ precisam mesmo do manual, o aviso irá ser feito também no site da escola e durante as matrículas. Só para teres uma ideia, o livro custa cerca de 25 euros, mas com tudo o resto que querem impingir e que não é determinante para que os alunos aprendam mais e haja mais sucesso, custará 40 euros. Um absurdo. Isto apenas para uma disciplina, neste caso Inglês. Cá na escola está a organizar-se uma banco de manuais usados, de forma a que quem já não os queiram possa doá-los para servirem a outros que os entregam no fim do ano. Contudo, é uma acção isolada.
Quanto aos impostos, o problema principal, além da fuga que considero inaceitável, é sentir que estamos a pagar impostos para suportar ordenados estapafúrdios dos administradores de alguns organismos públicos e a sensação e certeza de que não são usados em prol da comunidade mas para favorecer alguns. Não conheço de todo a Noruega mas por exemplo na Alemanha, há a preocupação e responsabilização perante os cidadãos. Um exemplo de que nunca me esqueço foi aquando duma visita de uma delegação de Leimen a Mafra (estamos geminados), a delegação inteira, Burgomestre incluído, viajou numa low-cost. Cá seria impensável, porque até daqui a Alemanha, Paris ou Londres tudo abaixo de executiva é ralé e indignificante para os nossos governantes/autarcas. Quem paga isto somos todos nós.
Ainda em relação aos biscates, servirão para uma minoria apenas, acho.
Beijinhos
Mil vezes as tuas fotocópias fora-da-lei do que este beija-mão aviltante que se tornou a marca da nossa desistência. Beijo e admiração deste teu amigo que há muitos anos sabe o quanto sofres com estes miúdos que te atiram para as mãos (e – desculpa a nota ligeira, sabes que não resisto – a promessa de que irei visitar-te à cadeia se a tanto chegar).
Beijos, Zé, o que me vai safando são os miúdos que me atiram para as mãos, é por eles que lá estou 🙂 Se me fores vistar à cadeia leva-me uns livritos, umas tortas de azeitão, chamuças e uma sopita de cação, se não for pedir muito. Sabes que esta tua amiga continua a ser rapariga de muito alimento. Obrigada pelas tuas palavras carinhosas.