Never make a saint of me


cronicasnofeminino,

Agosto escaldante, ainda mais pela hora em que o sol olhava ufano bem lá do alto. Saltos altos e farpela a preceito, assim exigia o enlace matrimonial de uma colega de profissão. O noivo fez-se esperar para quebrar a tradição e desesperar os convidados. Da noiva não se ouviu queixume. Quando ela finalmente entrou na capela decorada com pequenos bouquets de rosas vermelhas e caminhou tranquila, os passos calculados e femininos, sobre a passadeira vermelha com centenas de pares de olhos, humedecidos alguns, todos focados e centrados na entrada da noiva, senti que não, assim não. Repeti a mim própria e avisei a minha progenitora a meu lado que jamais seria capaz de fazer semelhante. Não o casamento, ou talvez ele também, mas a atenção subitamente concentrada em mim, imaginando-me pois no lugar da noiva. O desconforto fazia antever que a única saída plausível, estivera eu naquela situação, seria mesmo a porta dos fundos, a da sacristia certamente. E a música, a música de igreja, talvez a marcha nupcial ou algo semelhante ao que habitualmente condiz com a situação entrava-me miudinha pelo ouvido para piorar tudo. Foi aí, julgo, que terei ouvido Mick Jagger a sussurrar-me ao ouvido, com os lábios que se lhe conhece, como uma brisa entre o pescoço e o cabelo caído em cachos pelos ombros desnudados, um arrepio leve na espinha contrariando a canícula do zénite de Agosto. Os desígnios ocultos e misteriosos raramente são audíveis e perceptíveis a todos. E pelo ouvido, o sussurro, agora evidente, saint of me, you´ll never make a saint of me. A melhor das opções desenhava-se à minha frente. Entrar pela basílica e, bem ao fundo, junto ao altar-mor, em vez das avé-marias e marchas nupciais no esplendor barroco do órgão bento, as pedras rolantes a esgalharem em todo o seu poder Saint of me com Jagger cantando-me por trás do vigário, surgindo de um lado e do outro da beatífica personagem they´ll never make a saint of you. Assim, sim.

 

Este texto foi repescado dos confins da memória tudo por causa do Pedro e desta sua canção do século. Esta é uma das minhas

10 comentários em “Never make a saint of me”

  1. Bravo Leonor – Oh yeah , oh yeah – belíssimo texto. Da canção, também gosto muito – é já posterior ao concerto que assisti deles em 1990 em Portugal – Mick Jagger e sua banda são um caso sério…Agora um segredo – os santos não têm graça nenhuma..;))

    1. Ao altar não, Pedro, é demasiado definitivo. Ainda implorei às minhas amigas quando andava por aí um desses programas manhosos de fazer surpresas às pessoas se davam o meu nome para ir tomar o pequeno-almoço com o Sting ou jantar com este ou lanchar com o Bono, mas nada. Pronto, dediquei-me à escrita.

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