Olhó passarinho


cronicasnofeminino,
Uma mulher passa dos quarenta, uma mulher anda no mundo, lê umas coisas, vê umas coisas, tem os olhos abertos, é naturalmente curiosa pelo universo em redor, e embora não descarte nunca a hipótese de ser surpreendida pela positiva e pela negativa, acontece com frequência nos dias que correm, vê-se de repente apanhada de surpresa pela imbecilidade dos súbditos do tio Sam. Dir-me-ão que vive em mim uma rapariga ingénua, as cretinices da Terra das Oportunidades não devem constituir novidade para quem se toma como desperto e informado mas a mais recente idiossincrasia, nada como recorrer aos eufemismos, do povo que se diz livre deixou-me estupefacta e surpreendida.

Que caça, pesca e observação de pássaros fazem parte dos passatempos preferidos lá para terras do Tio Sam não consitui novidade. Contudo, e segundo uma organização recentemente criada, a actividade saudável de observação de passarinhos e passarinhas nada tem de inocente e imaculada. Muito pelo contrário. Há quem se esconda nas moitas, nos bosques e florestas, por trás das árvores, entre os arbustos para observar a passarinhada em actos da maior intimidade, caramba, não podiam praticar essas obscenidades longe dos olhares alheios? e que obtenha gratificação sexual das investidas dos passarinhos. É que um homem não é de ferro, mulheres também não, americanos muito menos, e a observação das aves em pleno acasalamento suscita em alguns corpos mais excitáveis desejos secretos e erecções improváveis. Há quem procure as moitas para se satisfazer e perante esta manifestação impúdica dos ímpetos carnais que se disseminou nas matas e parques americanos, o americano decidiu tomar uma atitude e banir a actividade de observação de passarinhos e passarinhas. Se pensarmos que cerca de quarenta e oito milhões de americanos gostam de observar passarinhos e se, como diz a organização Stop Bird Porn, birdwatching is bird porn, há muito voyeur taradão, perverso e depravado atrás das moitas, espalhados pelos bosques e florestas, aos ais e uis de binóculos nas mãos, numa pelo menos, enquanto o passarinho e a passarinha se passarinham. E isto é que acho fantástico, que alguém viva uma experiência erótica a observar passarinhos em acasalamento e que, por outro lado, alguém se preocupe em fundar uma organização para banir a observação de aves. God bless America.

 

Em termos de pancas, não sei quem é pior, se nós ou os americanos.

 

 

 

 

 

imagem: Ebeth Scott Sinclair, Birdwatching

17 comentários em “Olhó passarinho”

  1. Um amigo meu que tem um apurado sentido de humor, definia já há muitos anos a América como “o país dos disparates”. À medida que as décadas passam, parece que continua cada vez mais cheio de razão, a julgar pela amostra junta. God bless America, anyway. ;-))

  2. Tens a certeza de que isto não é um truque qualquer para receber dinheiro? É que o que se passa ali é uma angariação de fundos para acabar com o birdwatching, e os americanos são peritos nisso, caem que nem uns patinhos nestas esparrelas… só pode ser essa a explicação! Imaginar velhinhos pervertidos a observar pássaros com olhos gulosos é uma coisa que me ultrapassa, caramba. Mas a notícia está bem apanhada e melhor descrita. Ja me ri…

    1. Já me deu foi vontade de chorar.
      Não serei o melhor exemplo de… rapaz bem comportado,
      mas ficar a saber que há gente que se excita a ver passarinhos no passarinhanço, é de loucos, pois claro.

      Panca por panca, prefiro o dogging, se bem que para muitos, estas passarinhas, não voando, são mais difíceis de caçar.

  3. Cara Leonor, após uma breve consulta na net , deparei-me com estes fetiches:
    Furry Fandom; Teratofilia; Urolagnia; Emetofilia; Fetiche de sangue; Coprofilia; Crush Fetish; Clismafilia; Necrofilia; Omorashi
    Voyeurismo com passarinhos e passarinhas? Em face disto, é quase um conto infantil…
    Ainda pensei em transcrever o significado destas práticas, mas depois reconsiderei, quem quiser que vá consultar e ver até que ponto a mente humana é um novelo indeterminável, doente e perverso. Viva a passarinhada….

  4. Oh Leonor, como descreve bem estas histórias de pasmar e de desencantar…
    Parafraseando os nossos amigos irredutíveis gauleses: estes americanos são loucos!
    :))))

  5. Impagáveis, estes americanos. A propensão para a excentricidade está explicada, ou não tivesse essa parte da América sido colonizada pelos ingleses. Já o toque inconfundível de ridículo que acrescentam a certos comportamentos não sei onde foram buscar.

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