E estava tudo a correr muito bem. A mesa oval exemplarmente posta. Um castiçal altaneiro que se entretinha a iluminar os rostos do lado de lá. Duas rosas brancas no centro. Comensais à altura do momento festivo. O belo sexo como pontilhado entre a testosterona delituosa.
E estava então a correr tudo muito bem, dizia eu, quando algo de previsível mas entretanto adormecido entre o perfume das rosas e o cintilar da vela aconteceu. Quem? Há alguém novo? Ninguém. Nove comensais repetentes e reincidentes nesta arte de bem delituar. Quem, então? E foi aí que senti um arrepio, um leve sopro no pescoço, o aviso e a certeza de que seria esta vossa escriba, até aí entregue ao delito de muito tagalerar, a relatar a ocasião festiva. Não tendo à mão um bloco de apontamentos, uma folha de papel, um moleskine de papel quadriculado, ou talões de multibanco em número e tamanho suficientes, a escriba estremeceu ao ver-se empossada de tamanha responsabilidade e entregue à sua parca memória em momento de celebração.
Estão pois, caríssimos delituosos faltosos e estimados comentadores dedicados, entregues à memória desta vossa escriba que se adivinha toldada pelo momento emotivo vivido ontem pela calada da noite gélida de Janeiro menino.
Por ordem de entrada em cena compareceram o Carlos Barbosa de Oliveira, inestimável cavalheiro e anfitrião, o Luís M. Jorge, amante confesso de uma das minhas cidades preferidas, Veneza, a Cristina Ferreira de Almeida, um prazer imenso revê-la, a Teresa Ribeiro, quem sabe, Teresa, se António Lobo Antunes não figurará entre os Giros e Talentosos, o Pedro Correia, o grande timoneiro deste delito irrecuperável, olheiro-mor da blogosfera, elegantíssimo para assinalar a efeméride, e o nosso filósofo, José Gomes André, com quem partilho e partilhei linguajares germanófonos e o fascínio por Berlim. Já à mesa brindou-nos com a sua presença a ala autárquica do Delito, o Adolfo Mesquita Nunes, viajante sem recuperação à vista, e o André Couto, com o sorriso genuíno de sempre.
Sentados em torno da mesa, que quase podemos considerar nossa, iniciou-se o repasto opíparo com um exótico torresmo de bacalhau em batatinha nova e uma deliciosa morcela com puré de maçã. Por esta altura a conversa fluía solta. A blogosfera, o mundo lá fora, a política, ai a política, Cavaco e Sócrates também foram chamados à liça e, como seria de esperar, destilei os meus desamores pela Primeira Dama. Para cortar a densidade dos assuntos surgiu um lúdico momento cor-de-rosa, e como surgiu, mantido no segredo dos delituosos, pois claro. Terá sido por esta altura que alguém sentado a meu lado se terá eptitetado a lenda da monogamia, ouviram muito bem, mas cuja identidade me escuso a revelar. E viagens, cidades, países, livros, escritores.
Estava então na altura, talvez saltitássemos entre Sócrates e Istambul, a bloga e o Saramago, de degustarmos um suculento pernil em cama de lombardo com batatas salteadas. Aprovadíssimo. E mais conversa, conversa, sempre muita conversa, o condimento imprescindível para um jantar festivo de cumplicidades várias. Giros e talentosos e belle toujours foram as séries mais comentadas do Delito de Opinião e objecto de um escrutínio minucioso, não sem terem sido lançadas umas farpas certeiras a ambos os sexos. Uma verdadeira Guerra dos Sexos a la Delito: sem ofensas, sem agressões, alguma argumentação e umas quantas gargalhadas. Portámo-nos bem, nós, as mulheres, em minoria mas sempre à altura das provocações arremessadas pelos nossos congéneres masculinos. Para finalizar mousse de chocolate ao Porto com telha de Bolo-rei. E poupo-vos a mais pormenores. Revelo apenas que houve discurso proferido pelo Pedro, um brinde a este caminho que trilhámos em conjunto e a certeza de que valeu de facto a pena tantos posts, tantos comentários, tantas conversas. Somos um caso sério.


snif.
Foi pena não teres ido, Ana Margarida.
É bem feito! Quiseste ficar a estudar em casa, não provaste a morcela com maçã…
Belíssimo relato, vi o filme todo, Leonor. Isso é que foi uma festa bem animada;))
Apreciei a ementa – “pernil em cama de lombardo” – muito sugestivo. Embora já conhecesse outras “telhas” achei o máximo à “telha de bolo rei”;))
A festa foi bem animada, é verdade.
A cama de lombardo são palavras minhas, Maria
Melhor ainda;))
Ora bem, vamos lá então a isto:
1- Mesmo toldada pela emoção ou pelos “rouges”, Leonor, deste muito bem conta do recado. O suficiente, pelo menos, para eu ficar cheia de inveja de vocês.
2- Deixando de lado os torresmos e as telhas (mais uma vez, a inveja a falar), quero saber tuuuuuuuudo sobre essa fofoca delituosa: um lúdico momento cor-de-rosa, dizes tu? Quem? Onde? Com quem? Porquê?
3 – Sobre essa lenda da monogamia também tenho o maior interesse. Antropológico, note-se. As espécies em extinção têm de ser acarinhadas e protegidas. Fora os gansos, não conheço outra espécie animal que possa orgulhar-se de tal feito sem sevícias, jujuns e mesmo assim muitos pecados (se não em actos, pelo menos em palavras, pensamentos e omissões…)
E fico-me por aqui, à espera de que alguma das belles toujours ou algum dos giros e talentosos me satisfaça a curiosidade…
🙂
jejuns, claro.
Ora então vamos lá:
1. Só te perdoo a ausência por ter sido mesmo por força maior mas foi sentida a tua falta.
2. Não posso revelar esses pormenores em público.
3. Idem, sob pena do mulherio se perder e dar cabo da lenda :)))
Beijocas
Looool. Bem respondido ao ponto 3, Leonor.
Vou ao próximo jantar, nem que seja de arrastadeira!
Beijos
🙂
Não cheguei atrasado ao jantar, mas chego atrasado à caixa de comentários, fruto de afazeres inadiáveis que me impediram de blogar durante o dia de ontem.
Soberba descrição Leonor! Já sabia que eras uma verdadeira “caçadora de talentos”, fiquei agora a saber que és Mestra no “suspense”.
Já imagino a Ana a roer os dedos entre dois Ben-u-ron ( as melhoras, Ana!) e o João , lá na Terceira, a fazer a reserva na Tap para não falhar o próximo jantar. Que venha rápido. O Carnaval é já em Fevereiro, podemos fazer o jantar seguido de um baile de máscaras.
A proposta do baile, é para o João não dizer que eu só penso em comer!
Nunca chegas atrasado, Carlos. Um baile de máscaras é excelente. Até podia ser em Veneza, que achas?
Veneza não está mal, mas preferia Nice, se não te importas. é que depois é só um saltinho até à Córsega.
Que delícia este relato!
Quem lá esteve não faria melhor, quem não esteve não poderia ficar com menos bichos carpinteiros debaixo do rabo assente na cadeira, não é Ana?
Temos pena, talvez se fores ao próximo! 🙂
Grrrrrrrr, André…
Com essa fervura matas o bicho num instante!
Queres parar de me irritar, delfinzinho?
🙂
E o jantar ainda foi melhor, André
Grrrrrr…
Olha, olha! Também se falou de ti no jantar, talvez a única omissão não premeditada da Leonor…
Claro, temos de fazer o João sofrer, pode ser que assim venha aos nossos jantares
Pois esperem-lhe pela volta. E hei-de aparecer com aquele ar de passado presente que se impõe.
Já estou com fome! Feliz Aniversário!!!
Obrigada
Excelente reportagem, Leonor. Ainda bem que fui ao jantar. Teria ficado cheio de inveja se lesse este saborosíssimo relato sem ter conseguido lá estar. Em directo, ao vivo e a cores.
E tu podias porventura faltar?
Ah, é verdade. Obrigado por teres referido que somos Giros e Talentosos, Leonor (foi pelo menos isso que inferi das entrelinhas). E vocês não são menos que isto: Belles Toujours.
Que cavalheiro, Pedro :))))
Mas algo me diz que abunda ironia nessas tuas palavras.
Pas d’ironie. Pas du tout.
Não podia ter havido melhor relato Leonor 🙂
Temos de arranjar rapidamente outro pretexto para novo jantar!
Depois de três crónicas de grande qualidade, a Leonor apresenta-nos este excepcional relato… Vocês estão a subir muito a fasquia para os próximos…
Hum. Desconfio que o próximo te calha a ti.
E eu. Aliás, neste safei-me por milagre. Mas já me estou a habituar à ideia de que tenho de fazer o próximo…
Prepara-te!
Assino por baixo! Que venha o próximo 🙂
Ah, e o jantar foi mesmo muito bom… Pela comida, pelo local e pela companhia. Cinco estrelas. Um abraço a todos!
Querem parar de trocar galhardetes e dar corda aos sapatos? quer dizer, aos dedos? Há gente à espera de posts, que raio!
(Relato delicioso, Leonor. Parabéns!)
Eheheh. Sempre resmungão, Mike!
Sempre a refilar, Mike. Que mau feitio…
Li deliciado este “relatório e contas” do vosso jantar de aniversário.
Grande abraço a todos e sim, são um caso sério!
Abraço também, Pedro.
Depois deste relato e dos comentários que li, não desfazendo neles, a quem daqui envio um abraço, a única coisa que posso dizer é que as mulheres deste blogue são o máximo.
Não só pelo que escrevem, mas sobretudo pelo humor, pela elegância e inteligência com que o fazem, e pela forma como contribuem para o equilíbrio e a sanidade desta casa em que coabitamos.
Pela parte que me toca, agradeço, Sérgio. E devolvo o galhardete: os homens deste blogue também são o máximo. E viva a diversidade!
Muito obrigada pela parte que me toca, Sérgio. Agora quem ruborizou fui eu.
Protesto! Protesto contra estes “delinquentes” que se banqueteiam alarvemente e que não preparam jantares de aniversário extensivos aos publicitários e propagandistas do Delito de Opinião…
Só depois de te ter feito os elogios no post anterior é que reparei. Então sou inestimável? Sniff, sniff!
Sniff porquê, Carlos? Inestimável no sentido de o teu valor ser tanto que nem se pode calcular. É mau? è que mudo já, para irrepreensível, por exemplo.
Eu percebi assim, nesse seu sentido, Leonor, aliás, do Carlos acho que não poderia dizer outra coisa:))
É calro que não se podia dizer outra coisa, Maria. Plenamente de acordo.
Estava a brincar contigo e com as traições da língua portuguesa, Leonor! Inestimável, também pode ser entendido como pessoa não estimável…
Ah, o jeito que os talões Multibanco também me fazem para tomar notas! Adorei a crónica, Leonor. E adorei estar com vocês todos. Beijo daqui para o Sérgio, que também me fez corar 🙂
Ó Leonor, isso tudo deve ter saido muito caro! Posso perguntar-lhe quanto é que custou?