Imagine dois homens num mesmo local com um fito comum. Um deles bem parecido, grisalho e de olho claro. O outro nem tanto. As idades aparentemente aproximadas. O primeiro homem troca umas palavras com o segundo, o segundo com o primeiro e eis se não quando o primeiro pega-se de razões com o segundo, ah como gosto desta expressão, o segundo não se ficou e depois de ter levado um soco chega-lhe também, que um homem não é de ferro, diz ele Ainda tentei dar-lhe dois pontapés. E desengane-se, também gosto desta expressão, se pensa que tudo isto se passou algures no Portugalinho rural, provinciano e incivilizado, num desses locais remotos onde os diferendos se resolvem de arma na mão ou ao soco e pontapé. Os dois homens encontravam-se à espera de embarcar no voo para Varsóvia no Lounge Vip do Aeroporto Internacional de Lisboa, se é para haver bordoada há que escolher um local com estilo, e eram o Seleccionador da nossa mui heróica equipa de rapazes viris que levará como bandeira a alma lusa por terras sul-africanas e um comentador do desporto viril de vinte e dois homens e uma bola. Quando questionado acerca da ocorrência, outro belo eufemismo, o primeiro homem diz que conhece o segundo há vinte anos e que é normal isto acontecer, haver assim uns empurrões. Segunda-feira logo pela manhã vou encostar-me carinhosamente aos meus colegas e amigos seleccionados com critério pelas duas décadas em que travamos conhecimento. E são uns quantos. Há que estar dentro da normalidade.
Normalidade
cronicasnofeminino,

«Isto é normal entre amigos, quanto mais entre pessoas que se conhecem há mais de 20 anos.» Ponham-se a pau: sou vosso amigo.
O que me safa é que não tenho o prazer de o conhecer João! Senão por mera casualidade, encontrava-mo-nos num aeroporto (ou Aerolisboa ou Aeroalcochete ) qualquer e…… fazíamos do Sá Pinto um Sá Santinho!
Safou-se, mas o prazer seria meu.
Se a ética da responsabilidade fosse norma neste país, o seleccionador nacional de futebol tinha ontem mesmo posto o lugar à disposição depois da triste figura que fez num local público e perante diversas testemunhas que presenciaram o lamentável acto de agressão. Mas a ética é cada vez mais uma palavra destituída de sentido na vida pública portuguesa – da política ao futebol. Agora o que está a dar é “porrada” nos jornalistas e nos comentadores que criticam o “chefe”, seja em que domínio for. Estranhamente, com o aplauso de alguns outros comentadores e de alguns outros jornalistas.
Incluo-me naqueles que defendem Carlos Queiroz e que criticam o jornalismo da má língua, por nada contribuir para a credibilidade do jornalismo. Carlos Queiroz qualificou Portugal para a África do Sul. Será crime? Será crime uma pessoa defender-se (mesmo que à chapada) de uma pessoa que utiliza o espaço televisivo para denegrir a sua imagem?
Bonito não é, certamente, mas daí a exigir a sua demissão vai uma grande distância.
Ó meu perigoso esquerdista, é do comportamento do homem que se trata, Carlos. Cada um opina como melhor entender, mas o homem tem de conviver com isso e conter-se, porque quem estava lá não era o Carlos Queiroz – era o seleccionador nacional.
Abraço.
Fui cautelosa no meu comentário porque acho que o C. Queirós nunca devia ter entrado num filme destes. E continuo a achar. O que ganham ao fim de cada mês também é para que suportem as provocações, os insultos, a falta de objectividade e rigor das análises sobre o seu trabalho.
Eu não conhecia o comentador em causa e fiquei perplexa com o seu azedume e má vontade no dia em que Portugal conseguiu o apuramento. Parecia inconformado com o facto de Portugal ter sido apurado. Ao que depreendi, não se confirmaram as suas profecias… Enfim.
A pergunta que me faço é o que é que se terá andado a passar para que o C. Queirós, que é calmo e educado, tenha chegado a este ponto.
Balhamedeus.
É incomparável a responsabilidade – até social – do seleccionador nacional de futebol, modalidade que faz do “fair play” uma bandeira, com a de um comentador desportivo. Uma vez mais, agora a nível da selecção de futebol, repete-se o padrão: fulano X não gosta de ser criticado e resolve o assunto à moda da selva. Não consta que o seleccionador tenha accionado judicialmente o comentador por ter visto o seu bom nome posto em causa, mecanismo ao dispor de qualquer cidadão, sobretudo daqueles que como CQ têm dinheiro para pagar aos melhores advogados.
O seleccionador preferiu mandar o civismo às malvas. É, de facto, um excelente exemplo de ‘fair play’. Qualquer dia decreta-se a proibição da crítica, sob pena de os jornalistas serem esmurrados por quem não gosta do que escrevem. Ou institui-se o “exame prévio”: os comentadores submetem ao douto parecer do seleccionador Y ou do ministro W os seus comentários antes de serem publicados nos jornais ou emitidos nas rádios e televisões.
Caro Pedro Correia
Comecei por dizer que o CQ nunca deveria ter entrado por este caminho. Não imagino o que o levou a “entrar num filme assim” já que razão nenhuma o justifica.
Tudo normalíssimo. De vez em quando, eu e os meus velhos amigos também nos reunimos para desenferrujar os músculos, e damos uns pontapés e murros uns nos outros. É giro, fortalece a amizade.
Balhamedeus. O que levará uma pessoa calma, decente, correcta, cordata, urbana, civilizada, competente, bem parecida … a “entrar” nisto.
Balhamedeus, balhamedeus, balhamedeus.
🙁
Claro que não é normal, Leonor. Interrogo-me sobre o que faz uma pessoa que tenho como cordata, calma, decente, urbana, competente e tal, a “entar” num filme destes.
Um é seleccionador nacional, (mal amado pelos indefectíveis de Scolari que conseguiu a dupla proeza de perder duas vezes com a Grécia, num Euro realizado em Portugal), tem responsabilidades, poucos lhe perdoarão ter conseguido classificar-se para a África do Sul.
O outro é delegado da UEFA, manda uns bitaites na SIC, não tem quaisquer responsabilidades e faz da má língua a sua profissão.
Voltemos então ao tempo dos duelos, que isto de resolver os assuntos à chapada está ultrapassado.
Eu alinho com o Carlos, mesmo que isso faça de mim um perigoso esquerdista. 😉
Deixemo-nos de conversa fiada de ética, cavalheirismo, educação, savoir faire e essas coisas. Dois homens dão uns empurrões e pegam-se ao estalo. Os dois, não é um a dar e outro a levar. Então a seguir um deles vem queixar-se, parecendo um menino do coro, “ó senhores, já viram isto? ele empurrou-me e deu-me um estalo”? Desculpem lá, mas para mim, neste caso estiveram os dois mal mas quem ficou pior foi o menino do coro. Até por ser jornalista e saber que a opinião pública estaria com ele.
Exacto, Mike. Nenhum deles fica bem na fotografia.O mais curioso, porém, é que alguns dos defensores de Scolari, que agora criticam CQ, calaram-se quando o seleccionador nacional enfiou uma murraça num jogador sérvio.
Parece que agora um tipo, porque desempenha um cargo qualquer, tem de ouvir todos os insultos, calúnias e barbaridades de quem tem um espaço de opinião. Um microfone ou uma câmara de televisão deviam dar, a quem usufrui desse privilégio,responsabilidade, não devia servir para ajuste de contas.
Já agora, vael a pena lembrar que Jorge Baptista também é delegado da UEFA. Ou isso para o caso agora não interessa nada?
Leonor, isto de sopapos dados pelas mais improváveis e calmas criaturas acontece amiúde. Estou a lembrar-me de uns valentes sopapos dados pelo eurodeputado, mui ilustre e culto Rosado Fernandes. Devem ter sido dados por uma boa razão. As vezes não há outra forma. Custa a entender nesta nossa cultura do politicamente correcto, mas a vida, felizmente, não é politicamente correcta. Conheço bem o Carlos Queiroz de miúda. Tenho a certeza que houve uma razão de força maior.
Desculpem não responder individualmente mas corria o risco de me repetir. Carlos Queiroz nunca devia ter tido esta atitude. Os diferendos não podem ser resolvidos à chapada, as pessoas tem de se entender civilizadamente. Achei a cena patética e lamentável. Se não conseguimos conviver com a diferença de opiniões e pontos de vista sem partir para a agressão ou para a tentativa de silenciar as vozes dissonantes é porque ainda não se aprendeu uma verdadeira vivência democrática. É um facto que há gente que tem um gene hitleraniano no sangue mas tratem-se e aprendam a respeitar as opiniões alheias mesmo quando elas doem. No caso do Queiroz, deve ser ele a dar o exemplo aos seus jogadores. Lembremo-nos de que foi uma cena pública quando estava ao serviço do país.
Como deixei claro atrás, revejo-me totalmente nas tuas palavras. CQ, por mais razão que pudesse ter, perdeu-a no momento em que assumiu aquela atitude – num espaço público, no exercício de funções. As figuras públicas têm a responsabilidade acrescida de saber conviver com as críticas. É assim pelo menos em democracia. Em ditadura não há problema, já que as críticas são suprimidas à nascença.
Obviamente.