Também n’ A Curva da Estrada
Como o amor
cronicasnofeminino,
Também n’ A Curva da Estrada
A idade tudo traz. Além dos despencanços que diariamente observo nos parcos minutos em que me relaciono com esse objecto que me mostra o que não quero ver, o meu odiado espelho, fui acometida de algo que não poderei negar durante muito mais tempo: incapacidade de ler ao perto. Presbiopia, dizem os entendidos. Por mais que estique os abraços e afaste os objectos de mim está a chegar aquela altura em que os braços me são curtos e os objectos permanecem um borrão ilegível. Terá sido por isto que ontem, quando o transformador do meu computador portátil entregou a alma ao criador e rumei a uma loja na esperança de o substituir, pedi ao empregado que me dissesse qual a potência do dito. Cordata e de transformador em punho, solicitei que me visse e sugerisse um transformador marca branca que me trouxesse à vida o computador moribundo por falta de alimento. A resposta foi lesta, ignorado por completo o meu primeiro pedido. Foi dito sem reservas que teria de comprar um de 90W. O empregado adiantou ainda que já tinha discutido com um cliente porque lhe sugeriu aquele mesmo de 90W. Ora à minha frente tinha um de 70W com as indicações compatíveis com o meu bicho moribundo e nada mas nada me convenceu naquela breve conversa. Uma vez que estava num centro comercial decidi ir dar uma volta e esperar que o turno mudasse. Quando regressei, uma boa meia hora depois, o empregado era outro e, como esperava, a resposta foi outra. Que não, que não era o de 90W, era um de 65W que não havia. Sugeriu que fosse a uma loja especializada de computadores, conselho que segui obediente para me ser dito coisa nenhuma de importante mas que percebi pelas entrelinhas que sim, o de 70W seria adequado. E entrei de fininho na loja, arrebanhei o de 70W e regressei lampeira ao meu notebook ressuscitado. Comprar uns óculos teria sido bem mais fácil, isto se não me saltasse ao caminho um oculista passado que me sugeriu que experimentasse umas lentes de contacto para verificar se eram mesmo aquelas que tinha encomendado. Gente competente não se arranja?Não imagino sequer a angústia dos pais nesta altura do ano em que compram manuais escolares para os filhos. Com ordenados miseráveis quem tiver um filho estará nesta altura a braços com mais uma despesa de sensivelmente duzentos euros, cerca de metade do luxuoso ordenado mínimo neste país da treta. Se tiverem dois filhos, a quantia duplica, quase um ordenado mínimo portanto. Mas este ano, como se não chegassem todas as desgraças que nos caíram em cima, os manuais do Ensino Básico vão aumentar 1,13 por cento, razão de regozijo para a APEL que afirma orgulhosamente que o aumento é abaixo da inflação. O que não se compreende, e em notícia nenhuma que li é explicado, é a razão para este aumento. Tendo em conta que os livros no primeiro e segundo anos estão já escritos segundo o Acordo Ortográfico e que os aumentos se verificam apenas no Ensino Básico fiquei desconfiada. Mas o Acordo Ortográfico é mesmo necessário? Já não nos chegava tudo o resto?
– Você já viu que nunca é culpa deles, é sempre da gente?
– Não, não de vocês todos. Eles dizem que a culpa é dos outros políticos, os adversários.
– Os adversários também, mas a gente é que eles falam mais. Você não fica escutando toda hora que o Mercado caiu, que o Mercado está nervoso, que o Mercado isso ou aquilo? Você tá vendo alguém nervoso aqui? Quer dizer, tem uns nervosos mesmo, mas o Mercado aqui foi reformado e não caiu e quem está nervoso é porque deve e não pode pagar, mas aí toma umas duas e esquece.
– Mas não é o Mercado daqui que eles querem dizer. É o mercado …
– Então é o Mercado Modelo, em Salvador. Só se é no Mercado Modelo, porque aqui ninguém tá fazendo nada pra prejudicar.
– Não é isso, é que …
– Então eles que digam qual é o mercado. Porque o Mercado daqui não tem nada a ver com a raubalheira deles.
João Ubaldo Ribeiro, “Panorama Eleitoral da ilha” in Você me mata, Mãe Gentil.
E hoje apetece-me biscoitos. Chegar à cozinha e o pôr em prática as inúmeras receitas de biscoitos que me entretive a recolher. Chegar à cozinha e entregar-me sem culpas à indulgência de algo tão simples mas sempre tão alquímico, tão acolhedoramente intimo, tão primitivo e feminino, essa coisa de amar alimentando, nutrindo, envolvendo com beijos de açúcar e nuvens perfumadas que pairam invisíveis como um manto pela casa, reminiscência de memórias gratas de infâncias longínquas. E o processo depois. Juntar ingredientes, tanto que serão um só. Envolver, mexer, amassar. Exercer o meu direito de liberdade transgressora, nunca aberto à discussão, e acrescentar algo mais: canela, cardamomo, gengibre, limão ou laranja, raspas de chocolate talvez. Cozinhar é sempre transgressão. Transgressão e liberdade. E amor. Apetecia-me biscoitos, dizia eu.
Também n’ A Curva da Estrada
E havia pessoas. Do lado de cá e de lá do Muro, além de ditaduras, propaganda e sistemas políticos, havia gente. Que nunca nos esqueçamos disso. Ao meio dia também eu ficarei em silêncio pelas vidas estilhaçadas por muros.
fotografia: Gedenkstätte Berliner Mauer, Bernauer Strasse
Cavolário
E as bordoadas fazem um breve interregno de Estio. Voltaremos em Setembro.
Esteija
Otupsiado
68 estouvadas, delirantes, desmioladas e pujantes primaveras.
Aguenta firme, miúdo. É só rock n’roll mas nós gostamos.
Algures num tempo passado quando eu era ainda uma activista convicta no Bookcrossing alguém se terá mostrado muito admirado por eu gostar de José Saramago e de António Lobo Antunes ao mesmo tempo. Este categorização da vida e esta necessidade de viver em alternativas, ou um ou outro, e a preto e branco foi algo que sempre me intrigou. E muito. Nenhum deles se exclui e não há nada num que me faça odiar o outro. Não entendo. Nestes últimos dias em que as notícias da fome no Corno de África, o terrorismo na Noruega e a morte de Amy Winehouse convergiram, esta dicotomia regressou em força, como se lamentar um excluísse um outro e houvesse quotas para a indignação e choque. E eu continuo sem entender.
Camizola
A voz inversamente proporcional à figura excessivamente magra, o cabelo armado com um penteado a que Nicolau Tolentino não ficaria indiferente, beehive, chamam-lhe, Karl Lagerfeld já o lhe teceu comentários elogiosos, considerando-a um ícone do estilo, o corpo esquálido enfiado num vestido que habitualmente lhe sobra, as pernas esguias e finas sobre sapatos de salto alto e a sensação de que os passos sobre os saltos são tão instáveis e periclitantes como o caminho que vai trilhando pela vida pessoal e profissional. E de Amy Winehouse já muito se disse, ou não nos brindasse a estrela que se teme subitamente cadente, com uma verdadeira novela em torno da sua vida pessoal, um enredo trágico prenhe de drogas e álcool, escândalos e amores sofridos, destemperos e hedonismos, conflitos familiares e problemas conjugais que se fundem e forjam as letras de que são feitas as suas canções, particularmente em Back to Black, o segundo trabalho que lhe valeu seis nomeações para os Grammys e que lhe fez arrecadar cinco. Recentemente a sua figura consta entre os notáveis do Museu de Cera mais famoso do mundo, o Madame Tussaud’s em Londres e em Maio último viu a letra de Love is a losing game ser objecto de análise nos exames de Cambridge. Muito, portanto, para uma mulher de apenas 24 anos. Com cinco milhões de cópias, apenas do último CD, vendidas em todo o mundo e um sucesso retumbante e ascensão meteórica, a frágil e jovem diva espalha e desperdiça o talento e divide o mundo entre críticos e solidários, puritanos e admiradores, uma panóplia de adivinhadores da desgraça tal como acontece no site em que são feitas previsões sobre a morte da cantora e uma imensidão de vaticinadores do infortúnio. Amy é tudo menos consenso e se consenso se lhe aplica tem lugar num único ponto: o talento de que a belíssima voz é parte imprescindível. Esqueçamos então a figura controversa, a imagem da mulher desalinhada e desesperada que exibe em palco a tragédia da sua própria vida, patética e decadente, e ouçamos apenas a voz portentosa. Esqueçamos também o seu percurso pessoal e ouçamos o que tem para nos dizer. Love is a losing game, por exemplo, é um hino às adversidades do amor, Back to black, o lamento da perda e do amor infeliz, Wake up alone, a solidão que se abate como o sol poente no quotidiano, Tears dry on their own, um tema perfeito para as mulheres que já experimentaram as lágrimas secar por si, muitas de nós, acredito. Há mais em Amy do que apenas Amy. Existe um sentimento muito feminino, intemporal e transversal de perda, solidão e rejeição. Quanto de nós não é Amy também?Inormes
Enquanto o povo se esmifra para fazer render ordenados, há quem esteja tranquilamente acima destas aflições. Este país não tem jeito.
Burrise
“Education is the great engine of personal development. It is through education that the daughter of a peasant can become a doctor, that a son of a mineworker can become the head of the mine, that a child of farm workers can become the president of a great nation. It is what we make out of what we have, not what we are given, that separates one person from another.”
Nelson Mandela