E havia pessoas. Do lado de cá e de lá do Muro, além de ditaduras, propaganda e sistemas políticos, havia gente. Que nunca nos esqueçamos disso. Ao meio dia também eu ficarei em silêncio pelas vidas estilhaçadas por muros.
fotografia: Gedenkstätte Berliner Mauer, Bernauer Strasse


O da Faixa de Gaza? Não concordo, aquele que Israel construiu é apenas uma vedação.
São sempre ‘só’ vedações.
Não há “só” vedações, caro Ulisses. Até as dos galinheiros, aparentemente inofensivas, servem para prender as galinhas lá dentro.
Acabada de chegar de Berlim este dia está-me particularmente perto, Ana. Aliás, Berlim está sempre perto sem eu saber explicar muito bem porquê, apesar da minha formação, mas não me restam quaisquer dúvidas que ninguém no seu perfeito juízo pode legitimar uma monstruosidade destas, igual se em Berlim, no México, em Israel ou no Chipre.
Ah, já cá estás! Boa, tens feito falta.
Quanto a muros, vedações e afins, estou totalmente de acordo contigo.
Já cá estou sim 🙂
O que é que é igual?
Não tem uma porta em casa?
Não é diferente uma porta em casa para não deixar sair de lá alguém?
O que é que é ‘igual’? O lugar obviamente. Importante é que estes muros desapareçam.
As bandeiras, aqui na Alemanha, estão hoje a meia-haste. Ao serão, vai passar um filme na TV sobre um casal berlinense oriental que, no dia 13 de Agosto de 1961, foi visitar amigos na parte ocidental. Enquanto lá estavam, o governo da RDA (ou DDR) decretou o fechamento das fronteiras, mais ninguém podia passar de um lado para o outro. O casal fica retido no lado ocidental, o filho deles encontra-se do lado oriental.
Trata-se de uma ficção, mas tem um fundo de realidade. Há 50 anos, ficaram 3000 crianças orfãs na Alemanha de Leste porque os pais se encontravam, nesse dia, do outro lado.
Mesmo que seja ficção há certamente um fundo de realidade. Estive a ver as cerimónias na Bernauer Strasse na Deutsche Welle e fiquei arrepiada. Nada mas nada nem sistema nenhum pode legitimar uma monstruosidade destas. Há cerca de uma semana fiz a pé o percurso entre a Bornholmer Brücke e o Nordbahnhof, lá onde felizmente não há palhaçadas como no Checkpoint Charlie e foi profundamente tocante. Continuo a perguntar-me como foi possível.
Além de monstruoso é absurdo, Cristina.
Mas vi numa notícia que tinham reconstruído uma secção de muro (com placas do muro verdadeiro) para fins turísticos. Acho de mau gosto, e cheira-me que a habitual voracidade por souvenirs vai dar cabo do “monumento” em pouco tempo.
Tens a certeza, Ana? É que pelo que sei existem menos de três quilómetros de Muro, em sítios muito específicos, e não me parece que haja vontade para mais mas adianto que o espalhafato no Checkpoint Charlie e mesmo nas Portas de Brandenburgo é deplorável e até constrangedor e um negócio. Triste, muito triste. Irei fazer uns posts sobre Berlim brevemente. Aquela cidade entra-me na alma.
Também achei estúpido, mas foi o que disseram na reportagem. O muro de Berlim transformou-se numa espécie de santo lenho, vendido a retalho por todo o mundo. É ridículo.
Já nem é tanto isso, embora continuem a ser vendidos bocados do Muro. Há pessoas, homens mascarados de soldados, e que levam dois euros para se tirar uma fotografia a seu lado no Checkpoint Charlie e outros que carimbam um passaporte também a troco de dinheiro, além de outras personagens estranhas. O que é impressionante é que estão sempre ocupados e os turistas quase fazem fila. Detesto mas detesto mesmo o Checkpoint Charlie. Não é assim que se honram pessoas e que se perpetua a memória.
Credo, isso não sabia! É o marketing a tomar conta da História, e a desonrá-la… infelizmente, acontece muito.
Já há três anos era assim mas agora achei pior. Os americanos amam o Checkpoint Charlie.Tenho pena que assim seja.
Embora viva na Alemanha, já não vou a Berlim há sete ou oito anos. Nos primeiros dez anos que aqui vivi, tínhamos lá uma amiga que visitávamos regularmente, mas ela mudou-se para outra cidade.
Foi, por isso, interessante ler esta troca de comentários, não sabia dessas acções turísticas.
Felizmente ainda estão circunscritas ao Checkpoint Charlie e às Portas de Brandenburgo, no Pariser Platz, Cristina. Neste último lugar há gente vestida das mais disparatadas personagens para o lugar, índios, por exemplo. Pelo que li também hoje no Público discute-se agora a disneyficação de Berlim. Contudo e tirando isto continua a ser uma cidade fascinante.
Passei a fronteira no Checkpoint Charlie quando era a sério. Vi o Muro quando estava erguido: todo grafitado no Ocidente e sem um risco em Berlim-Leste. Vi, no lado ocidental, os memoriais das largas dezenas de berlinenses que morreram ao quererem transpor aquele silencioso monstro de betão, abatidos como lebres pelos guardas fronteiriços que tinham ordens expressas de atirar a matar.
Fui ao outro lado. Comparei. Reparei nos rostos tristes, na desolação, na imensa tristeza impressa naqueles rostos graníticos que fingiam não nos ver. Senti a presença da Stasi por todo o lado.
Não esqueço. Jamais esquecerei.
Impossível esquecer, Pedro. Também estive em Berlim, Leste e Ocidental, lá para 1981 ou 82 e fiquei profundamente marcada por esse momento. Compreendo muito bem o que dizes. As diferenças eram abismais. Nunca mais larguei Berlim.
Alguns do memoriais de que falas ainda existem e outros mudaram de lugar. Um que existia julgo que nas costas do Reichstag está do outro lado da rua.
Mas voltando atrás, nessa viagem a Berlim sei que naturalmente a intenção não era apenas mostrar mas fazer propaganda e uma lavagem ao cérebro. Depois de uns dois dias em Berlim Ocidental que nos anos 80 me pareceu Nova Iorque comparativamente com Portugal, pegaram em nós, adolescentes de 16, 17 anos, e levaram-nos um dia a Berlim Oriental. Impossível não criar anti-corpos imediatos.
“Ver para descrer”, como disse o Júlio Pomar numa visita de intelectuais portugueses a Moscovo, a convite das autoridades soviéticas, no tempo do Brejnev.
É. Nada como constatar com os próprios olhos.