Idulo
Cinquenta bordoadas na língua de Camões (17)
cronicasnofeminino,
Idulo
Impercionante
Está tudo parvo ou é só este? É que não faltava mais nada, senhor comissário.
Opurtunidade
Começo a ter medo de viver neste país e isto porque tudo mas tudo, rigorosamente tudo, se não foi taxado com impostos, sobretaxas e tributos solidários, poderá vir a sê-lo e tudo o que se tinha como garantido pertence ao passado. Já aumentaram tudo o que podia ser aumentado, ou quase, e quando o povo, de pé ligeiro e estômago vazio, se preparava para esquecer as agruras e descarregar o stress numa sessão tórrida de sexo ou amor, meia hora de alienação total e entrega desalmada, corpos enleados na alcova da intimidade, eis que surge esta nova medida. Voltemos a medir temperaturas, contar dias e a cuscar viscosidades várias à procura da linguagem do corpo, entreguemo-nos à prática, que se não é milenar bem podia sê-lo, do coito interrompido. Quem está a esfregar as mãos de contente é a Igreja Católica. Este Governo vai fazer mais pelos pecadores do que cem homilias na Quaresma. Se não estivéssemos tão mal até julgaria que era um incentivo à maternidade. Já que mal nos deixam comer ao menos que nos deixassem entregarmo-nos a outros verbos acabados em –er. Mas não. Além de pobre e faminto, o povo quer-se bento e casto. Muito bem. Há que pôr o povo na linha, esses badalhocos.
Enquanto o povo estrebucha com os cortes de tudo e mais alguma coisa, exactamente no dia em que se soube um filho vale a generosa quantia de uma dúzia de euros quando chegar a altura de nos levarem o subsídio de Natal, mantenho-me estupidamente a tentar pensar noutras coisas. Se assim não for não chegarei sã ao Natal e não tenho dinheiro para gastar com maleitas da alma que eu própria poderei evitar se inverter a tendência suicida de ter pensamentos catastrofistas e derrotistas e outras coisas mais em -istas. Neste meu devaneio terapêutico arredo furiosamente a hipótese de uma ilha tropical, na verdade nunca foi possibilidade mas apetece-me dizer isto, e entretenho-me a pensar na tentação imensa desta rentrée – odeio esta palavra- literária. Este mês de Setembro faz-me ter vontade de um Outono aconchegado, refastelada no sofá, enquanto não tenho de o penhorar para pagar a luz e a água, e rodeada das novidades. Ah, as novidades! Perdoem-me esta exclamação inflamada mas eu sou rapariga que gosta de novidades, desde que não seja o Vítor Gaspar a dar-mas evidentemente. E o que vem aí é muito tentador. Mário de Carvalho, Valter Hugo Mãe que se converteu às maiúsculas, logo agora que já me tinha habituado às minúsculas e José Luís Peixoto andarão por aí a espalhar a palavra escrita aos leitores com títulos muito sugestivos, Quando o Diabo Reza, O Filho de Mil Homens e Abraço respectivamente. Sairá ainda Comissão das Lágrimas de António Lobo Antunes e Uma Mentira Mil Vezes Repetida de Manuel Jorge Marmelo que me deixou curiosa. Isto para não falar de mais um livro de contos de José Eduardo Agualusa. Nos escaparates dos livreiros, sim, também gosto de acalentar esta ideia peregrina de que há livrarias à antiga com estantes de madeira até ao tecto e silêncios apenas entrecortados com o restolhar dos casacos e o virar das páginas, brilharão as capas novinhas em folha ainda perfumadas de tinta. Haverá melhor? Dream on.
Imagem: Quint Buchholz
Prossimos
Troser
Chegar não é meter a chave na fechadura, largar as malas à porta de casa, abri-las e esventrá-las, desabar-se em trabalhos múltiplos de máquinas de roupa imensa para lavar e arrumar as tralhas, souvenirs e traquitanas, sacudir a areia ainda entranhada na bagagem, se o destino tiver sido de praia, ou arejar o perfume do protector solar agarrado em abraço às mais ínfimas peças de roupa, se houve exposição solar. Chegar não é só abrir as janelas de par em par para arejar os odores acumulados. Chegar não é descarregar as fotografias para o computador, mostrá-las aos amigos, enviar uma ou outra por e-mail. Chegar não é apenas contar as peripécias da estadia órfã de trabalho e trabalhos, sem horários a cumprir, maldizer o guia de viagem, se guia de viagem houve, blasfemar contra a carestia de vida a sul ou a norte, injuriar a água porque estava muito fria ou elogiá-la porque estava muito quente, insultar o mar porque estava muito bravo ou muito manso, maltratar a nortada que leva tudo pelos ares. Chegar não é a nostalgia do que se deixou, a depressão pós-férias ou pré-trabalho, mistérios incompreensíveis da pressa de catalogar estados de alma cinzentos. Chegar é o doce sentimento de entrar por uma vida que nos espera vindos de uma que não se esgotou nos momentos efémeros de prazer e que reviverá, por certo, em palavras escritas, impressões trocadas com cheiro a maresia e a clorofila. Chegar é abrir portadas e janelas e cumprimentar os vizinhos, fazer festas ao cão Cãozinho lindo, tiveste saudades minhas? Abafar as gatas com festas Quem é a gatinha da dona, quem é? E depois calçar os chinelos e sair pela porta de trás. Descalçá-los de novo e assentar a planta dos pés sobre a relva, dar uma olhadela na passiflora Como cresceu! Seguir a ronda pelo maçaroco Dará mais flor este ano? E rumar à gardénia, espera-se ainda viçosa e perfumada. E chegar é espreitar o mar lá ao fundo, uma tarja brilhante, uma língua prateada ainda mais flamejante em tempos de Verão final, partilhar um gin tónico na quietude do dia salpicado de palavras e silêncios. Reencontrar os livros, pôr em dia leituras ocasionais e deambular sem destino fixo entre lombadas expectantes. Chegar é retomar a vida que se deixou antes de partir e transformá-la numa vida nova, uma sucessão de chegadas e partidas, um movimento pendular entre o ir e o vir, chegar e partir. Chegar é pertencer.
Foi acaso puro o que naquele dia de Dezembro gélido me levou a estar frente a frente com os frescos na Karlskirche em Viena. A igreja estava a ser restaurada e havia andaimes. Podia chegar-se bem perto, ver com outra acuidade. Esta subida aos céus, entre anjos e a mãe de Cristo, deixou-me inquieta. Havia algo de sensual naquelas imagens que se queriam bentas, talvez por serem gorduchas, a antítese da imagem quase assexuada que fazem passar de expressões sempre piedosas e infelizes. Em Moscovo não precisamos de subir aos céus para nos deixarmos surpreender. Ao contrário de muitos outros sítios, em Moscovo há que descer às profundezas e adentrar as entranhas da cidade. Lá onde o povo segue as suas vidinhas, iguais a todos as outras, longe da luz e do sol, onde todos podem usufruir da arte e do sublime. E contudo tão assombrosamente belo. O Metro, pois claro. O Metro de Moscovo é um daqueles lugares que devíamos ver uma vez na vida. Mandado construir por Stalin, foi inaugurado em 1935 e ultrapassa tudo o que por aqui se poderá dizer. Há lustres, painéis de azulejos e vitrais, abóbadas trabalhadas, tectos com medalhões, estátuas. Já estive em museus mais feios e com mais fama. E eles lá passam, os russos, ensimesmados com as suas interrogações. Tê-las-ão? Lá andam nas suas vidinhas, passando para cá e para lá com um destino definido. Indiferentes. Nem um olhar sequer. Aqui é muito fácil detectar os estrangeiros. Viram as cabeças para o ar, fazem voltas de trezentos e sessenta graus, e deixam cair o queixo literalmente, uns convictamente de máquina fotográfica em punho, outros com elas esquecida, como um pedaço inútil que lhes cai do braço. Impossível abarcar tanta sumptuosidade. Quanta beleza. Mas não para os moscovitas. Não querem saber da Kievskaya. Caminham sem um olhar na Mayakoskaya e a mantêm as carrancas inexpressivas na Novoslobodsakaya. Abrem apenas uma excepção para os cães da Ploshchad Revolyutsii. Dizem que dá sorte fazer uma festa no focinho dos cães de bronze que acompanham as estátuas do povo soviético ali retratado. Eles cumprem, quem diria, e os focinhos estão reluzentes. Por via das dúvidas também eu fui lá dar uma afagadela, gosto de cães, até dos de bronze, isto na impossibilidade de me ter alongado horas perdidas de estação em estação, tanta harmonia, quase apetece dançar uma valsa na Komsomolskaya. Belo. Belo. Belo. Tudo ao nosso alcance, apenas com um simples bilhete de metro, tão barato e tão para todos. Muito bem. Estes russos não param de me surpreender.
A manhã estava agradável. Céu azul, não muito frio, nada que um cachecol e umas luvas não resolvessem, mas os russos não são rapazes que se deixem impressionar pelo sol e céu azul. Colhi esta impressão logo pela fresca, quando decidi dar um salto à Praça Vermelha. Não era longe, tinha lido, umas três ou quatro estações de metro, uns quinze minutos de viagem. A Partizankaya não é a mais bela das estações de metro, uns dias à frente perceberia na plenitude por que é que o Metro de Moscovo é tão famoso, mas era monumental e grandiosa e reparei, quando desci pelas escadas, que tinham deixado cravos vermelhos nas estátuas erigidas aos soviéticos que resistiram aos nazis. Afinal têm coração, os russos. Terão sorrido? A mulher que estava a vender bilhetes nesta estação não sorria. Era cedo e estava uma manhã bonita, mas ela permanecia carrancuda lá no casinhoto escondido e quando os três espanhóis à minha frente, duas mulheres e um homem, pediram bilhetes, ela desabou em ira. Gritos, raiva, esbracejar. Os pobres espanhóis pareciam cada vez mais pequenos e atarracados perante a explosão de fúria da mulher que usava uma bata de empregada doméstica. Atrás de mim, alguém se impacientava e depois de vociferar algo, fugiu para outro guichet. Bem-dispostos e pacientes. Quando chegou a minha vez, usei da táctica já usada no dia anterior no restaurante e com os dedos indiquei o número de bilhetes. Nem bom dia nem sorriso. Nem obrigada nem por favor, das poucas palavra em russo que tinha treinado em casa. Conseguimos. Há que ser bruto portanto. Quando cheguei à Ploshchad Revolyutsii ia cansada do episódio matinal, tanta ira e impaciência, e pensei que raio de gente, sim que raio de gente aquela. Pensei isto outra vez numa outra manhã. Desta vez não foi no metro. Desta vez meteu-se-me na cabeça que para vencer distâncias talvez não fosse má ideia ir de autocarro. Saquei do inefável Top10 Moscow e confirmei, sim, ali, na parte de baixo da Catedral de São Basílio, antes da ponte, passava o autocarro que nos levaria ao destino, desta vez sem estação de metro perto. Chega o autocarro. Uma carripana velha com um homem magro e seco de cabelo grisalho ao volante. Estendemos-lhe o dinheiro e eis que irrompe num episódio de ódio sem precedentes. Mais vociferar, mais berrar, mais esbracejar. Uma verdadeira sorte não perceber russo, o que não sabemos não nos pode magoar, mas pressenti que não nos estivesse a elogiar, sim, que manias tinham os estrangeiros de visitar Moscovo. Depois de lhe darmos mais dinheiro, o ser vociferante e irado calou-se. Quanto ódio. Tanta ira até lhe faz mal. Os russos não gostam de estrangeiros. Nem de manhãs.
Partizanskaya.
fotografia minha
Os russos, querida Io, os russos.
Da janela do avião avisto as palavras inconfundíveis como um frenesi inesperado, uma pequena centelha no coração, o passado que nos cutuca. As palavras que durante a minha puberdade e adolescência apareciam amiúde na televisão a preto e branco, sempre a preto e branco, lia-as agora ao vivo, mas não a cores, um manto cinzento cobria o céu sobre Moscovo indiferente às palavras da adolescência e ao pequeno frenesi de mais uma vez me encontrar com a memória e cumprir um desejo antigo. Москва. Seguindo fielmente as indicações de sites e livros, guias e outros pedaços de escrita, reservámos pela net um táxi. Do lado esperava-nos um homem jovem, talvez nos quarenta, com um cartaz com o meu nome. Cumpridas as formalidades, cumprimentos e boas tardes, seguiu à nossa frente, impávido, sem um sorriso ou algo que pudesse indiciar, sei lá, como lhe chamar, um contacto amistoso, o sorriso tão comum entre outros povos deste mundo em ebulição. Nada fez mover o russo. Uma verdadeira parede de aço. Nem sequer um gesto cordial para ajudar nas malas. Não que fosse antipático ou grosseiro, não, ainda não. Uma total ausência de emoção, de sentir, de tudo o que tivesse a ver com a parte sensorial da vida, os músculos da cara hirtos, não sei se também o coração. A russa seguinte com a qual contactei, era uma mulher pequena, algures nos cinquenta anos, de olhos azuis e cabelo louro e não falava uma única palavra de Inglês. O facto de se estar numa zona turística, com alguns hotéis em volta, tão soviéticos como soviético se pode ser, ou não tivessem sido erigidos para albergar os atletas das Olimpíadas de 1980, as tais em que o Mischa foi estrela. Ao entrar no restaurante e meter a cabeça perguntei Do you speak English? A mulher sorriu, uma lança em África tendo em conta o russo anterior, a parede de aço impassível durante quase duas horas pelos arrabaldes de Moscovo, e respondeu No English. English Menu! Pronto estava safa. Quando veio o English Menu, apenas uma parte estava traduzida e como! Portanto restava-nos um ou dois pratos de galinha, salmão e pouco mais. O sítio era aprazível, pequeno, cheio de fumo, essas modernices da Europa ainda não chegaram à Rússia, com mesas de madeira e um ambiente acolhedor. A língua não era problema ali. Bastava-nos um sorriso, o dedo indicador sobre o palavreado que nos iria saciar a fome depois da viagem longa, e mais dedos para indicar a quantidade, um, dois, três. Havíamos de voltar.
Também n’ A Curva da Estrada
Orhan Pamuk, O Museu da Inocência.