Foi acaso puro o que naquele dia de Dezembro gélido me levou a estar frente a frente com os frescos na Karlskirche em Viena. A igreja estava a ser restaurada e havia andaimes. Podia chegar-se bem perto, ver com outra acuidade. Esta subida aos céus, entre anjos e a mãe de Cristo, deixou-me inquieta. Havia algo de sensual naquelas imagens que se queriam bentas, talvez por serem gorduchas, a antítese da imagem quase assexuada que fazem passar de expressões sempre piedosas e infelizes. Em Moscovo não precisamos de subir aos céus para nos deixarmos surpreender. Ao contrário de muitos outros sítios, em Moscovo há que descer às profundezas e adentrar as entranhas da cidade. Lá onde o povo segue as suas vidinhas, iguais a todos as outras, longe da luz e do sol, onde todos podem usufruir da arte e do sublime. E contudo tão assombrosamente belo. O Metro, pois claro. O Metro de Moscovo é um daqueles lugares que devíamos ver uma vez na vida. Mandado construir por Stalin, foi inaugurado em 1935 e ultrapassa tudo o que por aqui se poderá dizer. Há lustres, painéis de azulejos e vitrais, abóbadas trabalhadas, tectos com medalhões, estátuas. Já estive em museus mais feios e com mais fama. E eles lá passam, os russos, ensimesmados com as suas interrogações. Tê-las-ão? Lá andam nas suas vidinhas, passando para cá e para lá com um destino definido. Indiferentes. Nem um olhar sequer. Aqui é muito fácil detectar os estrangeiros. Viram as cabeças para o ar, fazem voltas de trezentos e sessenta graus, e deixam cair o queixo literalmente, uns convictamente de máquina fotográfica em punho, outros com elas esquecida, como um pedaço inútil que lhes cai do braço. Impossível abarcar tanta sumptuosidade. Quanta beleza. Mas não para os moscovitas. Não querem saber da Kievskaya. Caminham sem um olhar na Mayakoskaya e a mantêm as carrancas inexpressivas na Novoslobodsakaya. Abrem apenas uma excepção para os cães da Ploshchad Revolyutsii. Dizem que dá sorte fazer uma festa no focinho dos cães de bronze que acompanham as estátuas do povo soviético ali retratado. Eles cumprem, quem diria, e os focinhos estão reluzentes. Por via das dúvidas também eu fui lá dar uma afagadela, gosto de cães, até dos de bronze, isto na impossibilidade de me ter alongado horas perdidas de estação em estação, tanta harmonia, quase apetece dançar uma valsa na Komsomolskaya. Belo. Belo. Belo. Tudo ao nosso alcance, apenas com um simples bilhete de metro, tão barato e tão para todos. Muito bem. Estes russos não param de me surpreender.


O Metro de Moscovo é uma das razões por que quero ir à Rússia. A outra, claro, é São Petesburgo.
Vale a pena, Ana. Todas as palavras ficam aquém.
Bela foto, Leonor, parabéns e pelo texto (os vários) também. A primeira vez que fui a moscovo estavam 35 graus e fui entrevistar a pianista Tatiana Nicolaiv que, mais tarde, veio tocar para o Cavaco Silva – então PM – no dia da Europa, ou algo assim. O frio era tanto que só andei de metro! Beijo e bom domingo
Obrigada, Patrícia. Estive e digerir a minha experiência russa durante uns meses para depois vertê-la em palavras. Felizmente apanhei bom tempo mas um mês antes de ir estavam -22. Nem faço ideia do que será. Beijo e bom domingo também.
Que bela fotógrafa me saíste, Leonor. Parabéns!
Obrigada, Teresa. Correu bem desta vez. Andava a fazer experiências com a máquina. Ainda hesitei entre pôr esta e uma outra toda bonitinha do Metro mas achei esta bem mais expressiva.
Leonor: ando a ler um belíssimo livro, intitulado ‘Os Filhos de Estaline’, escrito pelo jornalista britânico Owens Matthews, chefe da delegação da ‘Newsweek’ em Moscovo. É um livro em que narra a história da família dele – nascido do amor ‘impossível’ entre uma soviética e um britânico. O avô, dirigente do Partido Comunista, foi uma das vítimas das purgas estalinistas de 1936-38. A mãe ensinou-lhe a língua russa desde o berço: é, pois, um bilingue perfeito e conhece muito bem a sociedade russa.
Escreve assim:
«Muitos russos, segundo creio, transportam consigo uma viscosidade negra constituída por trauma e culpa e esquecimento deliberado. Formam um composto rico no qual se alimentam as raízes de todo o seu hedonismo, da sua perfídia, dos seus prazeres e traições. O mesmo não acontece com os europeus superprotegidos com que cresci, apesar de muitos deles acharem que sofreram com a indiferença dos pais, com a crueldade do cônjuge ou com o fracasso pessoal. Não, o russo médio de dezassete anos, concluí nos anos em que percorri o lado mais negro da nova Rússia, já viu mais agressões, desespero, corrupção e injustiça do que a maioria dos meus amigos ingleses viram numa vida inteira. Para sobreviver e serem felizes, os russos têm de enterrar tudo, de fazer por esquecer. Não é pois de admirar que a intensidade dos seus prazeres e indulgências sejam tão intensos; têm de igualar a qualidade do seu sofrimento.» (Edição portuguesa da Dom Quixote).
Isto talvez explique parte das atitudes que foste encontrando por lá e te causaram tanta perplexidade.
A questão da identidade russa está longe de ser pacífica. Não conseguimos sequer imaginar as mudanças que se operaram nas vidas das pessoas em consequência dos ‘ventos de mudança’ ao longo da História. Os russos são mesmo muito diferentes, Pedro, não que viaje à procura de gente igual a mim. Gosto do contraste e da diferença. Aqueles dias em Moscovo foram muito interessantes a vários níveis.