A manhã estava agradável. Céu azul, não muito frio, nada que um cachecol e umas luvas não resolvessem, mas os russos não são rapazes que se deixem impressionar pelo sol e céu azul. Colhi esta impressão logo pela fresca, quando decidi dar um salto à Praça Vermelha. Não era longe, tinha lido, umas três ou quatro estações de metro, uns quinze minutos de viagem. A Partizankaya não é a mais bela das estações de metro, uns dias à frente perceberia na plenitude por que é que o Metro de Moscovo é tão famoso, mas era monumental e grandiosa e reparei, quando desci pelas escadas, que tinham deixado cravos vermelhos nas estátuas erigidas aos soviéticos que resistiram aos nazis. Afinal têm coração, os russos. Terão sorrido? A mulher que estava a vender bilhetes nesta estação não sorria. Era cedo e estava uma manhã bonita, mas ela permanecia carrancuda lá no casinhoto escondido e quando os três espanhóis à minha frente, duas mulheres e um homem, pediram bilhetes, ela desabou em ira. Gritos, raiva, esbracejar. Os pobres espanhóis pareciam cada vez mais pequenos e atarracados perante a explosão de fúria da mulher que usava uma bata de empregada doméstica. Atrás de mim, alguém se impacientava e depois de vociferar algo, fugiu para outro guichet. Bem-dispostos e pacientes. Quando chegou a minha vez, usei da táctica já usada no dia anterior no restaurante e com os dedos indiquei o número de bilhetes. Nem bom dia nem sorriso. Nem obrigada nem por favor, das poucas palavra em russo que tinha treinado em casa. Conseguimos. Há que ser bruto portanto. Quando cheguei à Ploshchad Revolyutsii ia cansada do episódio matinal, tanta ira e impaciência, e pensei que raio de gente, sim que raio de gente aquela. Pensei isto outra vez numa outra manhã. Desta vez não foi no metro. Desta vez meteu-se-me na cabeça que para vencer distâncias talvez não fosse má ideia ir de autocarro. Saquei do inefável Top10 Moscow e confirmei, sim, ali, na parte de baixo da Catedral de São Basílio, antes da ponte, passava o autocarro que nos levaria ao destino, desta vez sem estação de metro perto. Chega o autocarro. Uma carripana velha com um homem magro e seco de cabelo grisalho ao volante. Estendemos-lhe o dinheiro e eis que irrompe num episódio de ódio sem precedentes. Mais vociferar, mais berrar, mais esbracejar. Uma verdadeira sorte não perceber russo, o que não sabemos não nos pode magoar, mas pressenti que não nos estivesse a elogiar, sim, que manias tinham os estrangeiros de visitar Moscovo. Depois de lhe darmos mais dinheiro, o ser vociferante e irado calou-se. Quanto ódio. Tanta ira até lhe faz mal. Os russos não gostam de estrangeiros. Nem de manhãs.
Partizanskaya.
fotografia minha


Leonor, não sei se me convences a visitar a Rússia com estes posts… Mas continua, é sempre divertido ler sobre vicissitudes alheias. 🙂
Não sei se tive azar. Li algures que eles detestam os do Cáucaso e que têm trunfas escuras como eu, não sei se foi disso, mas foi o único sítio onde não me senti bem-vinda. É claro que se não precisares de falar com eles, não te fazem mal. Só falam russo em 98% dos casos. Mesmo assim, gostei da experiência e o Metro é mesmo avassalador. Conheço quem lá tenha estado na mesma altura que eu e não ficou com esta impressão. E ainda, se fores numa daquelas viagens organizadas por agências não tens esta sensação porque acabas por ser poupado a tanta exposição. Apesar de tudo prefiro assim. E para terminar, ando a ler um livro do Kaminer, um russo que se mudou para Berlim no inicio dos anos 90 e que escreve em alemão, e ele também fala dos modos ‘simpáticos’ dos moscovitas.
“numa daquelas viagens organizadas por agências”
Brrrrrrrrr…
E do Kaminer tenho algures o Militärmusik, que a Cavalo de Ferro publicou logo no início de actividade, mas nunca o li.
Pois. Não há paciência.
Esse mesmo. Ele escreve imenso, embora seja um bocadinho mais do mesmo.. O que estou a ler chama-se “Os meus vizinhos russos” mas não está traduzido. É giro e acaba por ser bem informativo 🙂
Não posso deixar de concordar – os russos não parecem gostar de estrangeiros. A minha experiência em dois dias, nem tanto, de Petersburgo, foi responderem-me em russo, aos gritos e com um ar furioso, cada vez que ousei pedir uma informação.
Deve haver outra maneira de interagir, mas não sei qual é.
Fiquei mesmo com a impressão de que não gostam de estrangeiros, Gi, e nem têm paciência alguma para quem não é igual a eles. Sentem-se importunados com qualquer questão nos sítios onde é esperado que isso aconteça. São brutos e antipáticos, pelo menos os moscovitas.