Entretanto, na gruta socrática


Rui Rocha,

Sócrates: Alors, pá. Mostra lá os resultados das audiências. Deve ter sido um massacre.

Silva Pereira: Lá isso foi.

Sócrates: Deixa cá ver… Va te faire Paulô Futre!!!!

Silva Pereira: Tentei avisar-te…

Sócrates: Isto é do Car…rilhô. Plus une semaine comme ça e ainda acabo a apresentar o Preço Certo. Em escudos.

Silva Pereira: Deixa lá, Zé. A culpa não é tua.

Sócrates: Claro que não. Il te donne para cada uma. De quem é que achas que é?

Silva Pereira : É da apresentadora.  Não é que as pessoas prefiram os comentários do Marcelo. Gostam é da Judite.

Sócrates: Pois é. De qualquer maneira, temos de fazer quelque chose.

Silva Pereira : Podias aconselhar uns livros.

Sócrates: Não te armes em crétin. Ganhei aversão à leitura desde os tempos dos parâitres do Tribunal de Contas.

Silva Pereira : E se fizesses uns números de ilusionismo.

Sócrates: Isso dos números e do ilusionismo era com o Teixeira dos Santos… e não vou dar ao gajô o gosto de me deslier o telefone dans la trombe.

Silva Pereira : Sim, até porque o gajo era capaz de o fazer literalmente… Podias serrar um gajo ao meio em directo.

Sócrates: Tinha de ser um gajô sem colomne vertebral para ser mais fácil…

Silva Pereira : O Lello?

Sócrates: Est capable de donner… E se depois não conseguir colar o gajô outra vez?

Silva Pereira: Isso é o menos. Ninguém ia reclamar…

Sócrates:  Hmm. Vamos tomar nota dessa. Portanto, quero uma coisa com mais impacto.

Silva Pereira: Já te disse que só em francês é que pourtant vale como adversativa, certo?

Sócrates: De efeitos imediatos. E sucesso garantido.

Silva Pereira: Distribuir magalhães?

Sócrates: Melhor ainda.

Silva Pereira : Não, não estás a pensar em…

Sócrates: Estou.

Silva Pereira : Não eras capaz…

Sócrates: Sabes que sou… No próximo Domingo vou distribuir aumentos aos funcionários públicos. O Marcelo vai ficar a ver bateaux.

Mind the gap


Rui Rocha,

Margaret McCollum levantava-se cedo. Muito cedo. Lawrence morrera há quatro anos. E, desde então, as alvoradas tinham-se tornado penosas. A sua ausência ocupava-lhe os dias. Com o passar do tempo, a outras horas, já era capaz de acomodar as memórias com uma certa doçura. As lágrimas já não vinham sem um sorriso terno. A saudade chegava em vagas plácidas que pareciam procurá-la mais para a reconfortar do que para lhe provocar dor. Mas não fora ainda capaz de transformar o tormento das madrugadas em ternura. Estremunhada, procurava o respirar sereno de Lawrence, a seu lado. O silêncio tornava-se insuportável. Um silêncio físico, rugoso. Que lhe tomava a boca e a garganta. Sufocada, levantava-se em urgência, como fizera tantas vezes para socorrer os seus doentes. Agora, tinha de acorrer ao seu próprio sofrimento. Por vezes, abrir a janela e receber o bafo húmido das manhãs anunciadas de Londres era suficiente para aplacar os sintomas. Como se Oswald estivesse ali a sussurrar-lhe a sua presença. A desatar-lhe os nós da angústia. Noutros momentos, em que a humidade a engasgava e as suas lágrimas ficavam ainda mais ácidas, Margaret sabia exactamente o que fazer. Vestia-se entre soluços, tomava da rua a réstia de luz que já se adivinhava e, aos tropeções, dirigia-se para a estação de Embankment. Ao longo do percurso, o calor regressava lentamente às suas mãos. A certeza de reencontrar a voz de Lawrence reconfortava-a. Já serena, sentava-se no banco junto à plataforma. O mesmo banco onde já se sentava, consumida pela saudade, quando Lawrence se ausentava de Londres, por motivos profissionais, durante alguns dias. Esperava então a chegada da próxima composição. A que lhe traria de novo a voz de Lawrence. Primeiro, a luz ao fundo do túnel. A crescer para ela. A chiadeira da travagem. A mensagem. A mensagem para todos. A voz só para ela. Mind the gap. A distância da composição à plataforma. A distância entre ela e Lawrence preenchida pela recordação da sua voz.

 

* Lawrence Oswald foi a voz da primeira mensagem “mind the gap“ gravada, na década de 60 do século passado, para advertir os passageiros do metro de Londres para a distância entre as composições e a plataforma. Oswald morreu em 2007. Margaret McCollum, a viúva, tinha por hábito dirigir-se à estação de Embankment para ouvir a mensagem e recordar a voz do marido. Em determinada altura, a empresa do metro de Londres decidiu substituir a mensagem de Lawrence por outras. Margaret escreveu à Administração a contar a sua história. A empresa do metro de Londres decidiu repor a mensagem gravada por Lawrence na estação de Embankment. Margaret continua a aparecer por lá para recordar o marido. A notícia pode ser lida aqui.

Seguro demite-se ainda antes de ser eleito


Rui Rocha,

António José Seguro é um caso raro de sagacidade política. Questionado sobre as consequências da decisão do Tribunal Constitucional, foi lesto a declarar-se “disponível para substituir o Governo”. De seguida, instado a explicar as soluções que encontraria para resover o buraco no Orçamento de 2013, foi ainda mais rápido e contundente: “quem criou o problema que o resolva”. Isto é, Tó Zé quer que os portugueses o elejam mas apresenta-se desde já como demissionário da responsabilidade de encontrar soluções. Já uma vez, aqui no DELITO DE OPINÃO, comparei o actual secretário-geral do PS com o cão mais apalermado do Oeste. Dou a mão à palmatória. Fui muito injusto com Ran Tan Plan.

O ministro Vespa Soares deve ter andado de mota sem capacete


Rui Rocha,

De acordo com o ministro Vespa Soares, “percebemos hoje que uma mulher que quer ser mãe pede-nos, mais do que dinheiro, sobretudo mais tempo para acompanhar os seus familiares”. Trata-se de afirmações extraordinárias. Ora vejamos. Portugal tem hoje cerca de 1 milhão de desempregados. E cerca de 600.000 trabalhadores em regime de part-time. Isto é, perto de 30% da população activa ou não trabalha, ou trabalha a tempo parcial. Por outro lado, o país tem um dos salários médios mais baixos da Europa dita desenvolvida e há perto de três milhões de portugueses a viver abaixo do limiar de pobreza. Num cenário destes, afirmar que o motivo da baixa natalidade em Portugal é a falta de tempo, mais do que a falta de dinheiro, só pode ser levado à conta de desconhecimento, de falta de respeito ou de alguma pancada sofrida na caixa dos pirolitos quando circulava de motorizada. No caso, tratando-se do Exmo. Senhor Ministro da Solidariedade e da Segurança Social, descarto de imediato a primeira hipótese por inerência de funções e recuso-me a acreditar na segunda (gente tão preparada e bem formada, não é?). Resta-me a terceira, pelo que me cumpre desejar ao Senhor Ministro uma rápida recuperação dos sentidos e, muito especialmente, do da realidade.

10 notícias que, com um bocado de sorte, ainda lerás em Abril


Rui Rocha,

  1. Tribunal Constitucional adia decisão devido às condições atmosféricas adversas.
  2. Tó Zé Seguro envia à Troika redacção sobre as férias da Páscoa.
  3. Vale e Azevedo inicia espaço de comentário político em horário nobre.
  4. Papa Francisco distribui milhares de notas de 20 euros aos peregrinos reunidos na Praça de S. Pedro.
  5. Jorge Jesus afirma que Benfica continua empenhado em vencer ambas as três competições em que está envolvido.
  6. Passos Coelho discorre sobre os custos de oportunidade.
  7. Vítor Gaspar apresenta cenário macroeconómico baseado no restabelecimento de Hugo Chávez e na estabilidade do sistema bancário de Chipre.
  8. Relvas convida o Hélio para liderar a Direcção Geral de Mobilidade Terrestre.
  9. Sócrates pede renegociação dos prazos e condições de pagamento do empréstimo que contraiu para estudar em Paris.
  10. No âmbito do seu plano de reestruturação, a RTP passa a emitir em formato 4:3 o que implicará uma poupança de vários milhões de pixeis anuais.

Recordações


Rui Rocha,

Há recordações que doem. Descubro, todavia, que não são as do passado que mais me perturbam. São as que prevejo que me encontram mais indefeso. É o que se passa quando olho para as fotografias que tiro aos meus filhos. Sei que um dia, daqui a alguns anos, vou reencontrá-las num álbum, numa gaveta ou num cartão de memória. E dói-me agora a saudade que então vou sentir destes momentos, deles ainda tão nossos. São essas lágrimas futuras que já hoje me tomam os olhos.

Sócrates entrevistado pelo Delito de Opinião


Rui Rocha,

Goste-se ou não, o regresso de Sócrates à RTP constitui um facto político da máxima relevância. Em todo o caso, é justo recordar que  o DELITO DE OPINIÃO obteve em exclusividade, já em Setembro de 2011, a primeira entrevista do anterior primeiro-ministro. Face à relevância histórica desse acontecimento, aqui se recordam as respostas de José Sócrates:

 

DELITO DE OPINIÃO – Religião:

JOSÉ SÓCRATES- Em certas circunstâncias, admito que possa ser um bom investimento. Um dia, talvez possa ter uma. A minha.

DELITO DE OPINIÃO – Felicidade:

JOSÉ SÓCRATES – Sempre. Enquadrada por uma política de Estado destinada a promovê-la e a incentivá-la. No futuro, também a medi-la.

DELITO DE OPINIÃO – Auto-estima:

JOSÉ SÓCRATES – Completamente. Quem inventou o conceito não devia esconder-se na sua modéstia. Mas, não esqueço que a opinião dos outros é a fonte do meu sucesso. É fundamental influenciá-la. Tal e qual como faço com o meu espelho.

DELITO DE OPINIÃO –Arte:

JOSÉ SÓCRATES – Fundamental. Interessam-me todos os artistas ainda vivos. Não existe nenhuma vantagem em dedicar tempo aos clássicos, a todos os que já desapareceram. Nenhum deles pode falar bem de mim. Prescindir dos clássicos deixa-me à vontade para promover todos os que estão vivos e esperar o retorno.

DELITO DE OPINIÃO – Polémica:

JOSÉ SÓCRATES – Indispensável. Encaro-a como instrumento de notoriedade. Tudo o que nos rodeia é tão relativo como o gosto literário. Tornarmo-nos objecto de polémica ou polemizar sobre os mais diversos temas, daí retirando todo o benefício inerente, deveria ser o nosso objectivo prioritário.

DELITO DE OPINIÃO – Convicções políticas:

JOSÉ SÓCRATES – Tenho. Mas, não me revejo nas causas da militância tradicional. A esquerda e a direita são divisões redutoras. A esquerda de quem desce é a direita de quem sobe.

DELITO DE OPINIÃO – Ética:

JOSÉ SÓCRATES – Sou um crítico da ética da responsabilidade. A ética deve ser mediada pelo resultado. Prefiro a ética do cálculo e do benefício. Não há justiça, só êxito. O enriquecimento rápido, que muitos criticam, é para mim prova de competência. É claro que existe sempre uma corrente conservadora que se alimenta de inveja e de escândalos. Os escândalos são para mim, todavia, um sintoma do sucesso.

DELITO DE OPINIÃO – Causas:

JOSÉ SÓCRATES – Todas. Exerço em permanência a minha liberdade de escolha. Escolho as minhas marcas, a moda, as minhas referências. O socialismo de mercado que defendo é isso mesmo. O espaço onde o romantismo das causas e a bolsa de valores se encontram, em síntese, mas com clara prevalência para esta última. É o mercado que nos proporciona o momento da afirmação da nossa identidade.

DELITO DE OPINIÃO – Pobreza:

JOSÉ SÓCRATES – Não gosto. Os intelectuais é que gostam de pobreza. Eu sou um pragmático. É preciso que os pobres tenham tudo o que for necessário para que a minha aspiração de sucesso material tenha legitimidade. Não suportaria um país em que a minha ambição pessoal, as minhas férias, os meus gadgets, os meus jantares, pudessem ser considerados ofensivos por quem não tem nada. É para isso que serve, entre outras coisas, o Estado Social.

DELITO DE OPINIÃO – Filosofia e Pensamento:

JOSÉ SÓCRATES – Senti a vertigem da descoberta ao ler Nietzsche na sua vertente niilista. Para além disso, aprecio muito Des Cartes. E Des Epistoles também.

DELITO DE OPINIÃO –Amizade:

JOSÉ SÓCRATES – Os meus cães. Tenho com eles o entendimento perfeito. Não há competição entre nós, nem conflito de vontades. Eu mando e eles obedecem.

DELITO DE OPINIÃO – Relação consigo próprio:

JOSÉ SÓCRATES – Não podia viver sem mim.