Pois, pois. Tudo muito certo. Mas onde anda a parte do de tarde Verão?
Março, marçagão e tal
Rui Rocha,
Pois, pois. Tudo muito certo. Mas onde anda a parte do de tarde Verão?
Na visão de Andrei Budaev, autor de mais uma paródia política a partir da manipulação tecnológica de obras de arte:
Em 1981, futebol ao vivo ou em directo e de qualidade tinha visto pouco. As memórias mais longínquas traziam um jogo do Lusitano, no Lobito, contra o Catumbela. Depois, já em Portugal, algumas escapadelas inesquecíveis, com o tio Zé e o André, sempre com a oposição da tia Mira, para ver grandes jogatanas do Vilanovense, no velho campo de Gaia. Mais a sério, meia dúzia de jogos em Espinho, a maior parte deles particulares de vida ou de morte, contra rivais como o Feirense ou o Fiães. Era então o tempo do Manuel José e do inigualável Malagueta. Do lado de lá, as vareiras. Na nossa bancada, mais abaixo, o primo Alberto que via os jogos com um periquito impassível no ombro. O periquito trouxera-o ele da Austrália, bem como a muitos outro. Tal como acontecera com a mulher Jaqueline que, presumo, não devia fazer a mínima ideia do que vinha cá encontrar. Depois dos jogos, ao fim da tarde de Domingo, levávamos uma grande panela de caldeirada de peixe do Zagalo ou do Marreta, duas tascas mesmo ali à beirinha do estádio, para casa da minha avó. A caldeirada era saborosa, mas cheirava ainda melhor. Quase tão bem como o frango de churrasco da Alcobaça, que ainda lá está. Pertinho da estação, do lado de cima da linha, embora tenha outro nome. Em Braga, onde vivíamos, a ida ao estádio estava proibida. O meu pai tinha um ódio de estimação ao sempre presente Mesquita Machado e tinha jurado que não seria cúmplice da promiscuidade entre o clube e a autarquia. Na televisão, escasseavam as transmissões em directo e os resumos de Domingo à noite ainda eram a preto e branco. O futebol a sério, o futebol do meu Sporting, era, sobretudo, o dos relatos da rádio. E era a ouvi-los, nos jogos mais complicados, que eu ia fazendo negócios com Deus, prometendo a troca de alguns dos meus tesouros, uma caderneta de cromos, uma espada, um barco de piratas, por um golo ou uma vitória. Para além disso tinha estado, claro, no jogo do célebre golo do Manaca. Esse que vi com estes que também viram o Manaca, no dia seguinte, em Braga, a sair do consultório do oftalmologista Mário Peres, mesmo ali por cima da loja do meu pai, com um olho vendado, resultado directo da incompreensão de um adepto vimaranense mais exaltado. No verão de 81, todavia, o início da época apanhou-nos em Lisboa. Recordo como um dos momentos mais felizes da minha vida aquele do fim de tarde em que o meu pai me anunciou que tinha comprado bilhetes para irmos ver o meu primeiro jogo do Sporting em Alvalade, perante a incredulidade racional da minha mãe que nunca compreendeu como é possível que o entusiasmo de alguém fosse levado atrás de uma bola. A noite caía em Lisboa quando entrámos no velho Alvalade. Enorme, cheio, vibrante, a transbordar de esperança na nova época. Longos minutos de espera, até ao início. Até à iniciação. Na minha cabeça, tantos nomes que uma e outra vez ouvira na rádio. Mas, sobre todos os outros, o de Meszaros. O novo guarda-redes. Na barbearia do Nosso Café, em Espinho, já tinha ouvido o meu pai falar da aquisição com o Sr. Marciano, benfiquista coitado, e com o Beto, portista sofredor como eram todos os portistas por aqueles dias em que as alegrias lhes escasseavam. Que tinha vindo da Hungria, tão distante, tão cheia de nevoeiro, tão comunista. Que tinha sido um cabo dos trabalhos para o conseguir trazer para o Sporting. E não sei mais que histórias de grandes talentos, feitos de magiares e de uma cidade dividida por um rio que tinha do lado de lá Buda e do lado de cá Pest. E a mesma conversa com outros entendidos com quem o meu pai trocava argumentos no Nosso Café enquanto o Leonardo, sempre de macacão azul, lhe engraxava os sapatos e eu comia um bolo-de-arroz. Finalmente, entraram as equipas. Com tanto deslumbramento, recordo pouco do jogo. Mas, nunca hei-de esquecer a camisola tão branca do Meszaros, tão branca como eu nunca tinha visto a de outro guarda-redes. E as suas saídas da grande área para pontapear a bola para mais longe: não é falta papá? Que não, que podia estar descansado. E os seus lançamentos da linha lateral que nunca tinha visto outro guarda-redes fazer, um deles, já no final do jogo, mesmo juntinho à linha do meio campo: não é falta, papá? Que não, que podia estar descansado. O Sporting empatou 2 a 2 com o Belenenses. Mas eu ganhei um ídolo. À saída do velho Alvalade, as opiniões dividiam-se entre a frustração e a esperança. Um adepto, com aspecto de ter visto jogar os cinco violinos, sobrepunha a voz para afirmar queos espanhóis também não gostam de ver bons princípios aos filhos. O tempo viria a dar-lhe razão a ele e ao provérbio espanhol. Uns meses mais tarde, já perto do final da época, o Sporting jogava em Guimarães uma das cartadas fundamentais para a conquista do título. A equipa alojou-se no Hotel Turismo de Braga. Anda daí, vamos dar um abraço ao Jordão, disse o meu pai, perante a incredulidade da minha mãe. Vesti o equipamento do Sporting que os empregados da loja do meu pai me tinham dado há uns meses, pelos anos, com as meias verdes bem puxadas até aos joelhos. Esse mesmo com que marcara um golo com um remate antes do meio campo no torneio da escola. No único jogo que fiz antes de o capitão da equipa, numa decisão justa mas inqualificável, me ter deixado de convocar por falta de jeito. Entrámos no hotel e vimos logo o Jordão. Rocha, pá, estás com bom aspecto, dá cá um abraço, tu também estás bem, pá, vê-se que tens ido aos treinos, este é o teu miúdo?, anda cá Rochita, dá cá um passoubem. A conversa continuou por caminhos de Benguela, que o Raul estava muito bem, a fazer sucesso com o Milo no Duo Ouro Negro, que não sei quantas saudades das histórias do Oliveira Maqueiro e de não sei quem que saía à rua em pijama. A certa altura, aproximou-se o Mister, my friend Rocha, mister. E o Allison, com um sorriso de orelha a orelha, Jordão friend is my friend, Roca, I like roca, meu whiskey sempre on the rocas. Gargalhada antes de seguir em frente, em direcção ao bar, não sem antes me dar um calduço: nice boy. Entretanto, juntara-se o Fidalgo, velho conhecido de Braga, ele que era compadre do Pintinho que trabalhava então na Shop Jeans, ao lado do cinema Acil, do Ding Dong do Luís, benfiquista coitado, e do sogro Senhor Cruz, também benfiquista mas menos doente, coitado, da loja do Paulino fotógrafo e da tabacaria Francar. A conversa tinha seguido por outros caminhos, até os olhos do Jordão repararem em mim. Então, pá, Rochita, estás triste? Na. Estás, pá, que eu estou a ver… não me digas que és do Benfica? Não sou, não sou, eu queria era ver o Meszaros, sussurrei, com a cabeça baixa, enquanto fixava as minhas chuteiras. O Meszaros? Deixa lá ver onde é que o gajo anda… Deve estar no quarto a dormir. Vamos ali à recepção chamá-lo. Pá, Nogueira, diz a esse gajo que venha cá abaixo que está aqui o Rochita que quer conhecê-lo. Minutos depois, a porta do elevador abriu-se e o Meszaros, ensonado mas com um sorriso atrás do bigode, entrou no átrio. Cumprimentos, sorrisos. Prasser, senhorr Roca, darr um abrazo Rocita. Abraço, palavras de circunstância e um autógrafo na minha camisola do Sporting. Mais abraços, desejos de boa sorte, uma gargalhada longínqua do Allison e uma despedida: amanhã vamos ganhar. Na verdade, o Sporting ganhou logo nesse dia, no corredor de minha casa, onde sozinho joguei contra toda a equipa do Guimarães. Fiz de Jordão, que marcou dois golos de bandeira, de Oliveira, de Manuel Fernandes e de Meszaros, em nome de quem realizei três defesas impossíveis. Nessa noite, e em muitas que se seguiram, perante o olhar incrédulo da minha mãe, dormi com a minha camisola do Sporting. No dia seguinte, empatámos em Guimarães, mas acabámos por festejar o título com 7 a 1 ao Rio Ave. E a camisola assinada pelo Meszaros ainda anda lá por casa da minha mãe. Um dia, vou dá-la a um dos meus netos porque o Dinis não gosta de futebol. Se virmos bem, antes isso do que ser do Benfica.
* publicado originalmente aqui.
Devo ser claro. Não acredito na neutralidade política da RTP. E, se alguém por aí acredita, que levante o braço. Alguém? Pois. Ora, é à luz deste ponto de partida e do actual contexto político que deve ser analisado o regresso de Sócrates à RTP. O que temos então? Temos uma televisão pública dependente do poder político. E uma contexto de degradação das condições políticas do actual governo. Olhemos por um momento para o executivo, para percebermos melhor. O primeiro-ministro está, desde o princípio, prisioneiro de promessas eleitorais que foi quebrando, uma a uma. E de um discurso politicamente imberbe ao qual foi adicionando, nos piores momento, uma boa dose de hostilidade em relação aos portugueses (as alusões à pieguice, ao desemprego como oportunidade, etc.), ao mesmo tempo que mostrava uma intolerável complacência com todas as distorções instaladas. O seu putativo braço direito, Miguel Relvas, revelou-se, pelas razões que todos conhecemos, o seu pé esquerdo. Alguma dignidade que restasse, ficou irremediavelmente comprometida quando entendeu partilhar com o país os dotes de barítono, entoando a Grândola. O ministro das finanças está completamente descredibilizado. Chegámos ao ponto de a Ordem dos Cartomantes, na pessoa do bastonário Marcelo Rebelo de Sousa, se permitir mandar o ministro ver se chove. O ministro da economia, por seu lado, é a nulidade que se conhece, perfil aliás absolutamente alinhado com a intenção governativa inicial de estabelecer um diktat das finanças. O resto do governo, bem, é o resto do governo, com Paulo Portas sempre fora, mesmo nas poucas ocasiões em que está cá dentro. No mais, temos uma situação económica e financeira insustentável, uma dívida impagável, e terminaremos, mais cedo ou mais tarde, por embater (ainda mais) violentamente com a realidade. Ora, sendo tudo isto assim, o regresso de Sócrates ao espaço público e mediático só pode ser entendido como um facto ao qual o actual governo não só não se opõe como, na verdade, deseja. À falta de factos relevantes de governação, de reformas estruturais, de presente e, sobretudo, de futuro, nada melhor do que a exposição periódica do responsável pelo passado. Sócrates, completamente descredibilizado pessoal e politicamente, coisa que só os apaniguados mais veementes e o próprio não entendem, é a cortina de fumo ideal para lançar sobre a situação do país, recordando em permanência aos portugueses quem é o principal responsável pela situação. Que o governo participe nesta manobra de diversão, diz bem da sua fraqueza. Que Sócrates se preste a ser exibido publicamente como o Gungunhana de Passos Coelho só será surpreendente para alguns: aqueles que esquecem a sua imensa vaidade, o seu desproporcionado autoconceito e a entranhada falta de vergonha que sempre ostentou.
Aquilo no Chipre está tudo lixado. Ou será que é em Chipre?
Não, lamento mas não. O problema não está em Vítor Gaspar ter-se enganado. Está em Vítor Gaspar ter tentado enganar-nos. O Orçamento de Estado para 2013 era, evidentemente, uma falácia. Quem quer que tivesse um mínimo de destreza no manuseamento de uma calculadora de bolso sabia disso desde Outubro de 2012. Mais difícil é perceber quais os propósitos de tal embuste. É que era também evidente, já então, que o tempo que o governo ganharia com essa manobra de diversão seria pago, à frente, com a perda total da pouca credibilidade que lhe restava. Já no caso particular de Gaspar, a situação é ainda pior. O ministro das finanças já nem como meteorologista se safa. Os meteorologistas falham previsões, é certo. Mas não usam previsões deliberadamente erradas para tentar mudar o estado do tempo.
Artigo de Acemoglu e Robinson de leitura obrigatória.
Quase não vejo televisão. Alguma coisa na SIC Notícias, um ou outro jogo de futebol (apenas grandes competições que até um sportinguista tem limites para o sofrimento que está disposto a infligir a si próprio) e pouco mais. A Adélia dedica ainda menos tempo ao assunto. Agora, descobrimos Sherlock. Há muito tempo que não tínhamos a família reunida em frente ao televisor, genuinamente interessada num programa. A começar na Leonor, talvez de todos a mais entusiasmada, do alto dos seus nove anos. Há muito tempo que não dava comigo a sair do trabalho a pensar em mais um episódio que, graças à ZON Iris e ao AXN, vamos ver depois do jantar. Não tenho dúvidas que é a melhor série policial do momento. E a boa notícia é que começou finalmente a produção da terceira temporada (anúncio já feito pela BBC no Facebook) e que Benedict Cumberbatch (Sherlock) anunciou que a série terá uma quarta temporada. Já tentei telefonar ao Dinis para lhe dar a notícia mas, como sempre, tinha o telemóvel desligado. Deixo-lhe aqui a novidade porque sei que é capaz de dar uma vista de olhos ao DELITO ao fim da tarde. Agora, se me permitem, vou indo. A Leonor é muito rigorosa com os horários e não quero correr o risco de perder o início do sexto episódio da primeira série. Se não apanhar muito trânsito, daqui a uma hora e meia lá estaremos os quatro em frente ao televisor. Pode acontecer que seja desta que o Holmes e o Watson apanham o Moriarty.
Aqui.
Como Thaxton e Pearcey demonstram no livro The Soul of Science [A alma da ciência], por mais de 300 anos, entre a ascensão da ciência moderna no século XVI até o final do século XIX, o relacionamento entre ciência e religião pode ser descrito como de aliança. Até o final do século XIX, os cientistas eram tipicamente cristãos que não viam nenhum conflito entre a ciência e a fé deles (casos de Kepler, Boyle, Maxwell, Faraday, Kelvin e outros).
Em 1896, o presidente da Universidade Cornell, Andrew Dickson White, publicou um livro com o título A History of the Warfare of Science with Theology in Christedom [História da batalha da ciência com a teologia na cristandade]. Por influência de White, a metáfora da “batalha” para descrever as relações entre a ciência e a fé cristã espalhou-se generalizadamente durante a primeira metade do século XX. Do ponto de vista cultural, a visão dominante no Ocidente — mesmo entre os cristãos — passou a ser que ciência e religião não estão aliadas na busca pela verdade, antes são adversárias.
Entretanto, na última parte do século XX inicia-se um florescente diálogo entre ciência e religião nos Estados Unidos e na Europa. O notável físico britânico P. T. Landsberg, por exemplo, passou a explorar as implicações teológicas da teoria da ciência e afirmou: falar das implicações da ciência para a teologia numa reunião científica parece quebrar um tabu; mas os que pensam assim estão desatualizados: esse tabu foi removido ao longo dos últimos 15 anos e, ao falar sobre a interação entre ciência e teologia, estou, na verdade, a acompanhar a maré.
Já na segunda década do século XXI, surge o corolário desta nova abordagem. Jesus (quem mais poderia ser?) avança com a proposta radical da fusão entre as duas áreas, com a apresentação pública dos 5 mandamentos da ciência.
Está um pobre de Cristo com os olhos e os ouvidos postos no Vaticano, sempre em estado de prontidão, à espera de um sinal do Espírito Santo, de uma manifestação do Divino, de uma inspiração do Altíssimo, e eis que a roda dos milagres aponta, pasme-se, para Bragança. Ali nos fazendo ver não um, mas uma catrefada deles. O primeiro consistiu, nada mais, nada menos, no facto de o Bispo de Bragança-Miranda ter voado. Literalmente, não na acepção mística. E sem bater as asinhas. Não muito, é certo. Coisa de 2 ou 3 metros, dizem os que viram e não foram poucos. O segundo no de D. José Cordeiro ter saído ileso de uma aterragem que, tudo somado, teve os seus melindres. O terceiro, mas seguramente not the least, no de o representante do Gabinete de Comunicação da Diocese ser o padre Fernando Calado. O quarto no de este, apesar disso, ter falado. Na ocasião, para esclarecer integralmente o assunto. O quinto no de o nosso Cordeiro de Deus, apesar de toda a pobreza e contrição que prega e vai recomendado, ter encontrado financiamento suficiente para se fazer transportar num Passat CC, sabendo nós, louvado seja o Senhor, ao preço a que está o dinheiro. O sexto no de o voo do Bispo contribuir decisivamente para a revitalização do sector automóvel potuguês. Se formos a ver, foi o Clio do leigo para a sucata e o Volkwagen do Bispo para o estaleiro. Tudo material que fica carecido de substituição. O sétimo no de a Sagrada Família, utilizando como utilizava, um burro como meio de transporte, sem ABS, airbags ou rodas direccionais, ter conseguido sempre escapar a qualquer acidente. O último no de se terem salvo do embate um ninho de cucos e os seus condóminos, coisa que, não sendo verdade, ajuda muito a compor o título.
No Vaticano, os cardeais interromperão o processo de preparação do Conclave para participar numa pequena celebração comemorativa da data. Oito irmãs contemplativas, da Ordem da Visitação de Santa Maria, abandonarão, por não mais de uma hora, o mosteiro Mater Ecclesiae, situado nas proximidades da Praça de S. Pedro. E lavarão os pés dos purpurados, aliviando-os, pela água, do peso que têm suportado que é o do corpo, mas é também o da decisão que nos próximos dias terão de tomar. Se a humanidade continuar a ser o que sempre foi, a irmã Maria Begoña Sancho Navarro não conseguirá conter um levíssimo suspiro quando chegar o momento de enxugar, com uma cálida toalha de fio turco, as calosidades do cardeal Bertone.