Sócrates entrevistado pelo Delito de Opinião


Rui Rocha,

Goste-se ou não, o regresso de Sócrates à RTP constitui um facto político da máxima relevância. Em todo o caso, é justo recordar que  o DELITO DE OPINIÃO obteve em exclusividade, já em Setembro de 2011, a primeira entrevista do anterior primeiro-ministro. Face à relevância histórica desse acontecimento, aqui se recordam as respostas de José Sócrates:

 

DELITO DE OPINIÃO – Religião:

JOSÉ SÓCRATES- Em certas circunstâncias, admito que possa ser um bom investimento. Um dia, talvez possa ter uma. A minha.

DELITO DE OPINIÃO – Felicidade:

JOSÉ SÓCRATES – Sempre. Enquadrada por uma política de Estado destinada a promovê-la e a incentivá-la. No futuro, também a medi-la.

DELITO DE OPINIÃO – Auto-estima:

JOSÉ SÓCRATES – Completamente. Quem inventou o conceito não devia esconder-se na sua modéstia. Mas, não esqueço que a opinião dos outros é a fonte do meu sucesso. É fundamental influenciá-la. Tal e qual como faço com o meu espelho.

DELITO DE OPINIÃO –Arte:

JOSÉ SÓCRATES – Fundamental. Interessam-me todos os artistas ainda vivos. Não existe nenhuma vantagem em dedicar tempo aos clássicos, a todos os que já desapareceram. Nenhum deles pode falar bem de mim. Prescindir dos clássicos deixa-me à vontade para promover todos os que estão vivos e esperar o retorno.

DELITO DE OPINIÃO – Polémica:

JOSÉ SÓCRATES – Indispensável. Encaro-a como instrumento de notoriedade. Tudo o que nos rodeia é tão relativo como o gosto literário. Tornarmo-nos objecto de polémica ou polemizar sobre os mais diversos temas, daí retirando todo o benefício inerente, deveria ser o nosso objectivo prioritário.

DELITO DE OPINIÃO – Convicções políticas:

JOSÉ SÓCRATES – Tenho. Mas, não me revejo nas causas da militância tradicional. A esquerda e a direita são divisões redutoras. A esquerda de quem desce é a direita de quem sobe.

DELITO DE OPINIÃO – Ética:

JOSÉ SÓCRATES – Sou um crítico da ética da responsabilidade. A ética deve ser mediada pelo resultado. Prefiro a ética do cálculo e do benefício. Não há justiça, só êxito. O enriquecimento rápido, que muitos criticam, é para mim prova de competência. É claro que existe sempre uma corrente conservadora que se alimenta de inveja e de escândalos. Os escândalos são para mim, todavia, um sintoma do sucesso.

DELITO DE OPINIÃO – Causas:

JOSÉ SÓCRATES – Todas. Exerço em permanência a minha liberdade de escolha. Escolho as minhas marcas, a moda, as minhas referências. O socialismo de mercado que defendo é isso mesmo. O espaço onde o romantismo das causas e a bolsa de valores se encontram, em síntese, mas com clara prevalência para esta última. É o mercado que nos proporciona o momento da afirmação da nossa identidade.

DELITO DE OPINIÃO – Pobreza:

JOSÉ SÓCRATES – Não gosto. Os intelectuais é que gostam de pobreza. Eu sou um pragmático. É preciso que os pobres tenham tudo o que for necessário para que a minha aspiração de sucesso material tenha legitimidade. Não suportaria um país em que a minha ambição pessoal, as minhas férias, os meus gadgets, os meus jantares, pudessem ser considerados ofensivos por quem não tem nada. É para isso que serve, entre outras coisas, o Estado Social.

DELITO DE OPINIÃO – Filosofia e Pensamento:

JOSÉ SÓCRATES – Senti a vertigem da descoberta ao ler Nietzsche na sua vertente niilista. Para além disso, aprecio muito Des Cartes. E Des Epistoles também.

DELITO DE OPINIÃO –Amizade:

JOSÉ SÓCRATES – Os meus cães. Tenho com eles o entendimento perfeito. Não há competição entre nós, nem conflito de vontades. Eu mando e eles obedecem.

DELITO DE OPINIÃO – Relação consigo próprio:

JOSÉ SÓCRATES – Não podia viver sem mim.

3 comentários em “Sócrates entrevistado pelo Delito de Opinião”

  1. Eu diria que esta entrevista não é necessariamente de Sócrates, poderia ser de Cavaco Silva e, de facto, poderia ser de muitas das pessoas que, desde os tempos em que Cavaco foi primeiro-ministro, se instalaram bem na vida em Portugal (incluindo alguns afamados gangsters).
    Eu diria que é uma verdadeira entrevista da casa da coelha.

  2. … e renunciar a esse “Sócrates” que há em nós?

    O protótipo está previsto pela teoria, se houve novidade foi ver personificações de personagens teóricos.
    Fica difícil perceber se são bonecos, ou se podem mesmo ter vida para além da programação estudada que adoptaram como modo de vida.

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