Blogue da Semana


Rui Rocha,

Bom humor, crítica mordaz, bisturi incisivo sempre pronto para rasgar os biombos que protegem os porões da corriqueira portugalidade e tudo à volta. Incluindo o, como ali se diz, Vaticano S.A. e o sucessor de Pedro, quem quer que ele seja. Não há dia em que o Provas de Contacto do João Lisboa não me faça sorrir e é, por isso, o blogue desta semana.

O farol que os guia


Rui Rocha,

Contudo, no sábado passado, pela primeira vez, o Presidente foi aplaudido. Porquê? Certamente porque percebeu – e sentiu – o que ocorreu na Aula Magna e resolveu dizer que vai mandar para o Tribunal Constitucional o regime de convergência de pensões. 

Mário Soares em 26 de Novembro de 2013

 

O Papa disse que isto vai resultar em violência dois dias depois de eu dizer.

Mário Soares em 27 de Novembro de 2013

 

Pela minha parte, esmagado pela capacidade que Soares tem de influenciar o curso da história e a história dos discursos, aguardo com ansiedade que possa dedicar alguns minutos do seu tempo a dizer umas palavras  sobre a imperiosa necessidade de uma vitória do Sporting no campeonato.

Soares e o bulliyng preventivo


Rui Rocha,

Agora que já passaram uns dias sobre as declarações de Mário Soares na Aula Magna talvez já seja possível discutir isto com alguma serenidade. Vejamos. Ou o intitulado pai da democracia sabe o que diz, ou nem por isso. Confesso que não tendo encontrado grande lucidez nas posições que foi assumindo desde que me interesso pelo debate político (a partir do início dos anos noventa, portanto), sou levado a considerar como pouco provável que tenha adquirido por estes dias uma renovada clarividência. Todavia, devo admitir que num país em que o primeiro-ministro é Passos Coelho e o líder da oposição é TóZé Seguro devemos estar preparados para todo o tipo de fenómenos. O certo é que devemos ser coerentes. Os que consideram que Mário Soares está mais lúcido do que nunca, devem também assumir integralmente o teor das suas afirmações. Com esse pressuposto, estas não podem ter duas interpretações. Desde logo, Mário Soares legitimou a utilização de violência. Aconselhar alguém a demitir-se para evitar uma eventual agressão sem condenar o comportamento agressivo não pode ter outro entendimento. Note-se que o conselho não é dirigido a potenciais agressores no sentido de não adoptarem uma conduta violenta, mas ao eventual agredido recomendando-lhe que adapte o seu comportamento face a uma eventual agressão. Mais do que isso, é óbvio que as palavras de Mário Soares incitam à violência. A antecipação de um evento violento como possível e legítimo por alguém como Mário Soares, nos termos descritos, certifica-o como desejável para um certo tipo de públicos. O ponto é assim o de considerar Mário Soares inimputável ou não. Se é responsável pelo que diz, as suas palavras podem ser objecto de repúdio ou de adesão e o acto fica, nesse caso, com que o pratica. Todavia, e curiosamente, foram sobretudo alvo de branqueamento: que não, que Mário Soares apenas pretendeu avisar os destinatários da mensagem (que amiguinho que está, não é verdade…). Ora isto é que é francamente inaceitável. Os defensores da tese do aviso colocam Mário Soares na posição do pai que pratica bullying preventivo em casa para preparar o filho para as agruras dos comportamentos agressivos dos colegas de escola. Convenhamos que isto, como conceito, é razoavelmente ridículo.

Rui Rocha entrevista Fernando Moreira de Sá


Rui Rocha,

Rui Rocha: Na entrevista que deste à Visão referes uma operação de descredibilização de Paulo Rangel. Queres dar-nos mais pormenores?

Moreira de Sá: Sim, vou contar-te tudo. O verdadeiro Rangel é um tipo expansivo, com uma capacidade de comunicação brutal, uma pessoa capaz de arrastar multidões com meia-dúzia de palavras. À altura de um Kennedy, de um Obama.

Rui Rocha: A sério? Pois olha que vendo assim à distância…

Moreira de Sá: Pois é isso mesmo. Trabalho meu. Consegui construir a imagem de que o Rangel é um chato. Um tipo que só se entusiasma com discussões à volta da hermenêutica constitucional. Que usou botas ortopédicas em criança. E que anda com os pés para o lado, como os  pinguins.

Rui Rocha: O Rangel não anda com os pés para o lado?

Moreira de Sá: Népias. Essa é a imagem pública dele que eu próprio construí. Ahahah. O gajo tem os pés mais direitos que uma régua.

Rui Rocha: E também vais dizer que não usa aquela barba à vocalista dos Azeitonas?

Moreira de Sá: Ihihih. Usa, usa. Essa tem muita piada. Fizemos uma edição pirata da Monocle só para o Rangel: o líder do Século XXI tem pêlo na venta. Até fui eu que a entreguei lá em casa. Depois, foi tiro e queda. O dono da farmácia ao lado do prédio dele diz que só no primeiro mês foram mais de vinte embalagens de colagénio hidrolisado. O tipo agora até tem pêlos nas palmas das mãos. Ainda hoje a única sobremesa que o gajo come é gelatina. Gelatina, pá. Gelatina há não sei quantos anos para os pêlos crescerem mais fortes, tás a ver?

Rui Rocha: P-porra! Essa é mesmo do caraças. E com a Manuela Ferreira Leite? Ela é mesmo assim ou também estamos a ser influenciados pelo teu trabalho na sombra?

Moreira de Sá: Oh pá! Eu sou um gajo que conhece os seus limites. Não estou aqui a pôr-me em bicos dos pés, nem nada. Se o Abreu Amorim podia ter ganho em Gaia se tivesse feito o que eu lhe disse? Podia, claro. Por exemplo, não tinha nada que ir ter ao almoço dos velhotes em Fátima. Assim parece que andava só à caça de votos. Devia ter ido logo no autocarro, ali no meio, a cantar O Menino Era Eu do  Tony Carreira e essa tralhas. É assim que se ganha legitimidade. Aparecer só para o almoço não dá. Agora a Manuela Ferreira Leite não. Não há ali manipulação nenhuma. Ela é mesmo assim. Parece que está sempre a sair de um banho de naftalina. Não consigo criar uma percepção pior do que essa. Eu sou só consultor de comunicação. Milagres? Não faço.

Rui Rocha: E o Sócrates? As “manobras” continuaram?

Moreira de Sá: Pá, isso agora é pedir muito, não posso entrar aqui em pormenores confidenciais…

Rui Rocha: Tudo bem, tudo bem. Não podes dizer, não digas.

Moreira de Sá: Não, pá. Tu és mesmo terrível. Insistes, insistes, e um gajo acaba por descair-se. Pareces a Judite a entrevistar o brasileiro do Ferrari. Só te vou dizer isto: continua. Eh, pá. Não ponhas esse olhar, que me intimidas. Pronto. Vou dizer-te tudo. A coisa do mestrado do Sócrates…

Rui Rocha: Não pode ser…

Moreira de Sá: Fomos nós que arranjámos os 120.000€ para o gajo ir para Paris estudar e lhos pusemos na conta.

Rui Rocha: Bah! Nessa não acredito. O tipo diz que foi a CGD que lho emprestou!

Moreira de Sá: Eheheh. Que és um menino, é como te digo. Então acreditas que a Caixa emprestava 120.000€ a um tipo  sem rendimentos, nem subvenções… Tsk, tsk…

Rui Rocha: Bem, vistas as coisas assim…

Moreira de Sá: Fomos nós, pá. Acredita no que te digo.

Rui Rocha: Nós?

Moreira de Sá: Pois. Bem, plural majestático. E a tese fui eu que escrevi.

Rui Rocha: Não. Essa não. A tese do gajo está bem escrita. Até o Paulo Otero a elogiou no Diário de Notícias. E a tua, pelo que vi, está cheia de vírgulas fora de sítio, tem erros constantes de concordância…

Moreira de Sá: É mesmo genial, não é? Enviei a tese em nome do gajo à Sciences Po e entalei-o. Primeiro, o tema. Ihihih. A tortura. Tema de meninas. E depois sólida e bem escrita. Ninguém acredita que é dele. No final, a chave de ouro. Entrego em Vigo uma tese minha que não vale um chavelho. Só para despistar. Até o Óscar Mascarenhas caiu. E o Sócrates obrigado a defender aquilo. Eheheh. Teve que ler o Kant dez vezes.

Rui Rocha: Caramba!

Moreira de Sá: Olha, Rui… A conversa tá boa, mas vou mesmo ter de ir. Vou jantar com uma malta de Braga. Grande cidade. Fui eu que estive à frente da Capital  Europeia de qualquer coisa com o … como é que se chama, o Mesquita Machado. São os maiores. Comigo a puxar os cordeinhos. Estão à minha espera.

Rui Rocha: Filet-mignon?

Moreira de Sá: Naa, francesinha. Bem vou mesmo indo. Toma lá o meu cartão. Para o que precisares. Desculpa não te cumprimentar, mas gosto de ter um portátil da Apple numa mão e apetece-me ter a outra pousada entre o peito e a barriga, como o Napoleão.

Rui Rocha: Fernando…

Moreira de Sá: Han?

Rui Rocha: O cartão que me deste é de um tal Artur Baptista da Silva… Por acaso…

Moreira de Sá: Oh, caraças. Enganei-me. Eheheh. Fui eu que apresentei o Artur ao Nicolau Santos, coitado.

A prova de Crato e a longa marcha


Rui Rocha,

As principais reacções à divulgação do Guia da Prova para acesso a funções docentes tendem a ridicularizar o seu conteúdo e o reduzido grau de dificuldade que, pelos exemplos de questões apresentados, esta terá. Creio que quem assim faz apenas leu o texto mas não entendeu nem o contexto, nem o sub-texto. Vejamos. A realização da prova provoca uma enorme tensão entre os (candidatos a) professores e os seus representantes (se os têm), as instituições formadoras e o Ministério da Educação. Um cenário de contestação intensa colocaria Nuno Crato numa posição política muito delicada, obrigando-o eventualmente a recuar (com as consequências inerentes) ou a persistir com danos também evidentes. A apresentação pública de um modelo de prova facilitista esvazia uma boa parte do sentido da contestação. A coisa é tão fácil que mal se compreenderia na opinião pública que os professores se recusassem a responder: quem não sabe responder a isto não merece mesmo ser professor. E o receio de insucesso que muitos dos avaliados pudessem ter fica também adormecido, sendo provável que sintam menos resistência à participação. Uma prova fácil é, nas condições políticas actuais, a melhor garantia de que esta se realizará sem que surja uma contestação políticamente insuportável. E esse é o objectivo essencial de Crato nesta altura. O momento crítico do processo é o da realização da primeira prova. Se esta tiver lugar sem tensão significativa, a existência da prova deixará de ser contestada daí em diante. Mas, dirão alguns, sendo assim a prova não serve para nada. Errado. Ainda que tenha um baixíssimo grau de exigência, a prova deixará de fora um conjunto de candidatos que não têm um mínimo de condições para leccionar. E todos estaremos de acordo que isso será desde logo um benefício para o sistema de ensino. Mas há mais. O Guia publicado diz respeito apenas à prova de conhecimentos genéricos. Na verdade, não há uma prova, há duas. A segunda, destinada a avaliar conhecimentos específicos, realizar-se-á no final do primeiro trimestre do próximo ano. Ora, nada impede que a parte genérica da prova seja pouco exigente e que a parte específica tenha um grau de dificuldade mais elevado. Mas aí, o potencial de contestação estará esvaziado pela participação na primeira parte da prova. Mais, a(s) prova(s) terão periodicidade anual. Nada impede também que o grau de exigência vá aumentando de ano para ano. Quem ridiculariza esta primeira prova de Crato parece não entender o valor que uma longa marcha sempre tem para um antigo maoista.

10 primeiras páginas que, com um bocado de sorte, ainda lerás em Dezembro


Rui Rocha,

  1. Fernando Moreira de Sá entrevista-se a si mesmo, recusa a publicação da entrevista, denuncia-se publicamente por censura e contrata um detetive para se investigar.
  2. Rui Tavares abandona o LIVRE e funda o LIVRE-TRÂNSITO, um novo partido situado à esquerda do centro, mais exactamente a meio caminho para o PS.
  3. Inspirada pelo exemplo de frugalidade do Papa Francisco, Igreja Portuguesa decide pintar todos os objectos de ouro de que é proprietária em tons de cinzento.
  4. César das Neves pega fogo a um pensionista e acusa-o de ser inflamável.
  5. Poiares Maduro e Aguiar Branco promovem Alto Douro Vinhateiro.
  6. Crato lança o Parque Escolher, um programa de reabilitação de escolas particulares que pretende lançar as bases para uma efectiva liberdade de escolha no ensino.
  7. Soares detido depois de lançar falsa ameaça de pomba.
  8. Canceladas as buscas iniciadas há mais de 30 dias na sequência do desaparecimento de Tózé Seguro.
  9. Luanda e Lisboa decidem construir monumento para celebrar as boas relações entre os dois países. Director do Jornal  de Angola atirará a primeira pedra.
  10. Operação Regresso salda-se com mais duas entrevistas de José Sócrates.

As notícias de capa dos jornais no caso de Portugal não se apurar


Rui Rocha,

Jornal de Notícias: Caxinas preparam homenagem a Hélder Postiga.

 

Público: saiba como as políticas da igualdade de género aplicadas na Suécia contribuíram decisivamente para o resultado de ontem.

 

Correio da Manhã: a noite louca de Ronaldo depois da derrota em Estocolmo.

 

Diário de Notícias: Soares acusa governo de massacrar o meio-campo da selecção.

 

I: conheça a história do carteiro de Helsingborg que pedala seis horas por dia, treina duas vezes por semana e derrotou Portugal com um pontapé de bicicleta.

 

O Jogo: Pinto da Costa completamente recuperado.

 

SOL: Durão Barroso na calha para ocupar cargo de seleccionador.

 

Expresso (edição do próximo Sábado): selecção nacional apura-se para o mundial do Brasil – ver desenvolvimento na última página e análise de Nicolau Santos no caderno de economia.

Livros de Cabeceira (24)


Rui Rocha,

Em rigor, o Casate y Sé Sumisa ainda não está na minha mesa de cabeceira e, se tudo correr bem, não ficará por ali muito tempo. O meu objetivo é, conto com a vossa discrição, comprá-lo o mais depressa possível e colocá-lo lá como quem não quer a coisa. Depois é só esperar que a curiosidade feminina faça a sua parte. Se tudo correr bem, em menos de duas horas o livro terá transitado para as mão da belíssima proprietária da mesa de cabeceira situada do lado de lá da cama. A partir daí, e com a ajuda da providência divina e da editorial Novo Início, ligada ao Arcebispado de Granada, os ensinamentos ali recolhidos começarão a produzir efeitos. Bem sei que são 16 euros de investimento e a vida não está para loucuras. Mas o livro, originalmente publicado em Itália por Constanza Miriano e ali recordista de vendas, contém de acordo com os editores a fórmula, dirigida exclusivamente ao elemento feminino do casal, da obediência leal e generosa: a submissão. Uma pechincha, portanto. Já antecipando o sucesso desta iniciativa, colocarei também na minha mesa de cabeceira, em jeito de reforço da mensagem, o nº 167 (Janeiro de 1948) da saudosa revista Menina e Moça. Mais uma vez, conto com a curiosidade feminina como cúmplice. Se assim for, a belíssima proprietária da mesa de cabeceira situada do lado de lá da cama estará em breve a ler passagens tão inspiradoras como esta:

(…) Por conseguinte, a mulher ideal deverá ser boa dona de casa mas sem massar os outros com os acontecimentos caseiros, compreensiva dos gostos e necessidades alheios, afectuosa para a família do marido, pontual, discreta, económica, sincera e leal, com bom génio, dócil, séria, pouco tagarela e sem usar baton. 

 

É certo que os tempos são outros. Será caso de aligeirar um pouco a nota e creio que a utilização do baton poderá admitir-se em certas e restritas ocasiões. Mas, em tudo o mais, estaremos de acordo que a mensagem tem ainda uma espantosa actualidade. Se tudo correr bem, a minha vida mudará radicalmente. É que, como dizia Brecht (este já tenho à cabeceira) em a Apologia da Dialéctica,  a continuação da opressão depende de nós. E eu, pela minha parte, conto com o sucesso deste plano genial para mudar as coisas cá por casa. Agora, se não se importam, vou indo. Está na hora de fazer uma máquina de roupa. Branca.

A prova dos docentes


Rui Rocha,

Peço desculpa, mas até este momento não ouvi um único argumento válido contra a prova de avaliação dos docentes. E, antes de mais, devo esclarecer que em meu entender Portugal precisa de uma escola pública de qualidade. Só quem vive fora da realidade pode desconhecer o papel determinante que a escola pública tem no tecido social português. Em Portugal, a escola pública é, para além do mais, o suporte básico de vida de largos milhares de crianças e jovens. Só a escola pública lhes permite aspirar a uma vida diferente, só a escola lhes permite escapar a uma condenação de miséria. Tantas vezes, só a escola pública lhes permite comer. Acrescento que, mesmo num contexto de extrema dificuldade como o que vivemos, algumas medidas do presente governo são absolutamente criminosas. É evidente que mais do que 22 a 24 alunos por turma é uma enormidade que só com agudo sentido de hipocrisia Nuno Crato pode defender. E mais. Num país em bancarrota, é incompreensível que continue a existir dinheiro para uma frota automóvel pública colossal e que, em contrapartida, a falta de recursos seja invocada para justificar a existência de mais de 30 alunos por turma. Não é demagogia da minha parte. São opções da parte de quem as toma. Isto dito, regresso ao princípio. Não colhe o argumento de que a existência da prova descredibiliza as entidades formadoras. Muitas dessas entidades estão há muito descredibilizadas e a si próprias o devem. E, infelizmente, isso não sucede apenas relativamente às Escolas Superiores de Educação. Há muitas outras instituições que formam professores que não reúnem os requisitos mínimos para o fazer. Só a cegueira ideológica, o oportunismo político ou o corporativismo mais básico podem fazer calar esta evidência que se comenta e demonstra nas mais diversas salas de aula por esse país fora. Por outro lado, também não colhe o argumento de que a frequência de um curso com especialização em ensino torna a prova uma redundância. Vejamos. A conclusão de uma licenciatura em Economia atesta um determinado nível de conhecimentos. Mas, ninguém se escandaliza se, para preencher uma vaga numa empresa privada, esta submeter os candidatos a diversos testes e provas que avaliem o raciocínio numérico, verbal, diagramático e outras competências de um candidato. E não é o facto de a empresa escolher o candidato formado na Faculdade A em detrimento do licenciado pela Faculdade B que, só por si, retira credibilidade formadora a esta última. Pode-se discutir a natureza da prova. Mas reconheça-se que qualquer outra alternativa encerraria um nível de subjectividade bem superior (entrevistas, testes, dinâmicas de grupo?) do que uma prova de conhecimentos gerais e específicos corrigida de acordo com critérios objectivos. O sistema de ensino público deve viver para os alunos e com os professores, mas não pode estar ao serviço destes últimos. Independentemente das considerações que se possam fazer, o certo é que o sistema não está a absorver cerca de 50.000 professores anualmente. Se assim é, o fundamental é garantir o acesso dos mais preparados. A prova constitui uma garantia adicional de que será assim.  Aliás, o interesse dos alunos exigiria, levado às últimas consequências, que a prova fosse aplicada não só aos professores contratados, mas também aos do quadro. Para um país com recursos tão escassos como Portugal, é tão grave ter turmas sobredimensionadas como professores impreparados.

Machete, o maquiavélico


Rui Rocha,

Com que então o Machete está balelas, não é… Ah e tal que já não assa quantas espeta, arrasta as botas e caladinho é que era uma casa cheia? Pois vai-se a ver e não. Que também é para isto que existem os jornais de referência. Para nos dar a basezinha. De acordo aqui com este doutor (não se deixem enganar pelo olhar mortiço), as afirmações de Machete fazem parte de um plano magistral que visa, de forma deliberada, chamar a atenção de Passos Coelho. Ou mesmo derrubá-lo, em conluio com Belém, dependendo do parágrafo que estiverem a ler. Imagino que era isso ou vestir-se de lantejoulas, cores garridas e ceroulas pelo joelho (isto, claro, se nos ativermos ao parágrafo de acordo com o qual a intenção era chamar a atenção). Vejamos, que não há nada que consiga reproduzir a luminosidade do raciocínio espelhado nas palavras do próprio escriba:

Foi este comentário de Rui Machete um acidente, um lapso, um flop comunicacional? Não creio: julgo que foi intencional. Rui Machete com a sua experiência, com o seu descomprometimento, quis chamar a atenção a Passos Coelho. Machete, inteligente como é, pensou muito bem nas consequências políticas das suas declarações. Passos Coelho está muito arrependido de o aceitar, a pedido de Cavaco Silva, no seu Governo.

Vai-se a ver e quando Machete pediu desculpa a Angola o que pretendia era desestabilizar Moçambique. E o certo é que passaram uns dias e foi o que se viu. E quando se esqueceu da coisa das acções queria, ai o sacana que agora é que o topo, desencadear uma guerra pela sucessão no Grupo Espírito Santo. Pois aí a temos. Ou não? Confessem lá que não tinham pensado nisto, hã? Ah pois é. E quando pararem de rir, ainda vem o melhor. Temos não um texto isolado, fruto de uma inspiração momentânea, mas uma saga. Está prometido que amanhã a ideia de base será retomada, confrontando-a com as posições do Tribunal Constitucional e do Presidente da República. Nem mais, nem menos. Esperemos que o facto de a tese da intencionalidade de Machete ser razoavelmente incoerente com o resto do texto não faça esmorecer este esforço titânico de esclarecimento da opinião pública. É que, para além de lançar luz sobre as intenções de Machete, ainda há neste mundo de Deus outras muitas questões carecidas de explicação. Ou também vos passou despercebida a questão das pizzas? Pois, pois. Quer dizer então que nunca desconfiaram de nada mesmo sabendo que esta é transportada em caixas rectangulares, tem a forma de uma circunferência e é cortada em porções triangulares? Desculpem, mas não passam de uns meninos.

Goodfatellas


Rui Rocha,
Uma determinada “organização” decidiu contratar um cobrador surdo-mudo para receber o dinheiro das suas “atividades”. Assim, se alguma coisa desse para o torto, manter-se-ia calado. Na primeira semana, o cobrador conseguiu recolher uma quantia apreciável mas decidiu ficar com ela e escondeu-a em lugar seguro. Dias depois, percebido o desvio, o “pessoal” da organização encontrou o surdo-mudo mas não lhe conseguiu arrancar uma palavra. Desesperados, recorreram a um intérprete de linguagem gestual. Pergunta-lhe  onde está a dinheiro, ordenaram-lhe. Por gestos, o intérprete fez a pergunta ao surdo-mudo. O homem respondeu, também por gestos: não sei do que estás a falar. O intérprete traduziu. Um dos membros da “organização” puxou uma 38, apontou-a à cabeça do surdo-mudo e disse, dirigindo-se ao intérprete: pergunta novamente! O intérprete fez a pergunta. Assustado, o surdo-mudo respondeu por gestos: desculpem, foi um momento de fraqueza, o dinheiro está num buraco junto da terceira árvore a contar do portão da Quinta do Montado. O intérprete virou-se para os membros da “organização” e disse-lhes: ele continua a insistir que não sabe do que estão a falar, diz que vocês são um bando de meninas e que ninguém aqui é machão o suficiente para puxar o gatilho.

Francisco: eis o homem


Rui Rocha,

Têm razão os mais ortodoxos quando referem que Francisco não mudou nada no essencial das posições dogmáticas da Igreja Católica, nomeadamente no que diz respeito às questões ditas fracturantes. O que temos é uma mudança radical de atitude, que não nos princípios. Não questionando de momento o essencial do ponto de partida, Francisco revaloriza o ponto de chegada. O Papa que pergunta, o Papa que acolhe, o Papa do exemplo da humildade sobre a ostentação, da valorização do perdão sobre a condenação, o Papa da compaixão ainda e sempre, mesmo e sobretudo para os que não escolheram o caminho que a Igreja Católica prega. O Papa dos tresmalhados, dos desiludidos, dos esquecidos, dos doentes, dos pecadores, dos perdidos, dos imigrantes, dos sem pátria, dos inocentes. O Papa a quem o míudo quer roubar a cadeira. O Papa que abraça e beija os disformes. Este é um Papa próximo de Cristo e pouco ou nada preso à norma teológica. O risco é evidente. Francisco pode vir a ser o exemplo humano e vivo da viabilidade de um último reduto de redenção e de esperança das mulheres e dos homens. Todavia, é possível acreditarmos em Francisco sem que nos seja urgente redimirmos a Igreja Católica. Como se Francisco estivesse aqui para nos recordar que Cristo veio primeiro e só depois vieram a(s) sua(s) igreja(s).

Entretanto, algures na Nazaré, à espera de uma vaga de fundo


Rui Rocha,

– Então pá, já se vê a vaga de fundo?

– Deixa ver… não… espera aí, vem ali uma, vem ali uma! Ah, bolas…

– O que foi?

– O McNamara apanhou-a.

– Pulha, bandalho, filho da m…

– Tem calma, Zéeeee! Tem calma, Zéeee! As pessoas ouvem-te assim e depois irritam-se contigo. Aproveita e vai ler o tal texto do Voltaire que te vai ajudar muito. Aquele pequeno texto que fala de um velho filósofo e de uma jovem senhora, ela numa grande infelicidade por causa de um amor não correspondido. Aquele que disseste à Clarinha que tinhas lido. Que sacana…

– Pá não, não me apetece. Vou antes ler o texto do Ascenso Simões sobre o meu regresso.

– Se fosse a ti não fazia isso…

– Então? O gajo não apela ao meu regresso? Não descreve este tempo histórico como uma imensa manhã de nevoeiro que só a minha luz própria, natural e incandescente pode dissipar? Eu, eu, eu, a estrela maior do firmamento!

– Olha, Zé. Eu bem te disse que o gajo era um bocado trapalhão. Ou a ligação telefónica estava manhosa e o gajo não percebeu, não sei… O certo é que confundiu firmamento com parlamento e eu, eu, eu com europeu. Para ajudar ainda te puseste a falar de estrelas…

– Então…

– É, o Ascenso propôs o teu regresso para o Parlamento Europeu. É uma espécie de vá para fora cá dentro. Mas ao contrário.

– Bandalho, pulha, filho da m…

– Ihihih…

– Han?

– Nada, nada. Ocorreu-me uma coisa tipo Ascenso e Queda. Nada, nada, deixa lá.

– Então e o livro?

– Fraquito. As vendas não arrancam.

– E aquela coisa do Zorrinho no twitter não ajudou?

– Olha, Zé… francamente, acho que o caminho não é por aí. Já pareces o Maduro da Venezuela. Cara de Chávez aparece em parede do metro. Livro de Sócrates aparece em mão de taxista. Naa, não me parece.

– Então…

– Pá não sei, deixa-me pensar um bocadinho. Temos que inovar. Não sei, não sei… talvez um jogo de tabuleiro. Depois do livro, lançavas um jogo de tabuleiro. Sócrates, o jogo de tabuleiro.

– Tipo gamão?

– Naa. Deixa lá. Não é boa ideia. Podia ser um livro de colorir. Ou um porta-chaves. Ihihih…

– Han?

– Nada, nada. Ocorreu-me uma coisa tipo porta-chávez. Nada, nada, deixa lá.

– Bah! Assim não vamos lá…

– Podias vender cuecas, como o Ronaldo. Mas depois daquela conversa de ter lido quatro livros do Freud a coisa pode descambar.

– Bah! O Freud é um pulha.O Kant é um bandalho e podem ir todos com o Santana para o…

– Calma, Zéeeee! Calma, Zéeee! Ou ainda acabas a dar palestras sobre a síndroma de Tourette financiadas pelo Lula.

– Pois, pois. Eu gostava era de ouvir soluções. Isso é que era.

– Deixa-me pensar, Zé. Deixa-me pensar. Olha lá… Tu sabes fazer twerking?