O tempura, o mores


Rui Rocha,

Perguntamo-nos, desde tempos ancestrais, sobre o momento determinante para a humanidade. Terá sido a descoberta do fogo ou a invenção da roda? O século passado, não por acaso o do automóvel, parecia ter apresentado a resposta definitiva. O proclamado fim da história aparentava coincidir com a fase derradeira da evolução da espécie. O longínquo homo erectus teria levantado os membros dianteiros com um único propósito: o de milhares de anos depois os utilizar para assinar um pedido de empréstimo no BES e segurar um volante de uma viatura. Tudo corria, é um dizer, sobre rodas. Acontece que não só a história não acabou como Detroit faliu. E aquilo que parecia um triunfo claro e duradouro da roda não foi mais do que um episódio destinado a perder-se na poeira do tempo. O século XXI, sabemo-lo agora, trouxe a vitória inexorável do fogo. Isto é, da descendente directa do fogo que é, obviamente, a cozinha. E do seu principal protagonista: o chef. O chef  é o herói da contemporaneidade. As crianças já não brincam com carrinhos. Mas os seus olhos brilham quando lhes oferecemos um trem de cozinha. E já não querem ser cowboys, bombeiros ou astronautas quando forem grandes. Querem ser chefs. De cozinha. O adolescente do século XXI não precisa de sacar cavalos na lambreta ou de fazer piões com o carro do pai para impressionar as raparigas. Em contrapartida, será rigorosamente avaliado pela destreza com que pica o alho ou parte a cebola. Sejamos claros. O sucesso nos dias que correm não é revelado por teres uma bomba equipada com pneus Goodyear. O acesso ao clube dos eleitos depende agora de teres, ou não, uma estrela Michelin. Nos States, o status de ter um Corvette foi substituído pela forma como recheias a courgette. Na Europa, mais importante que teres um Ferrari, é a forma como preparas os fusili. A própria imagem do chef evoluiu. A pança do saudoso Chefe Silva já não cabe na cozinha do nosso tempo. Tão importante como temperar o anho de véspera é ter uma barba de três dias. Depilar as sobrancelhas e dominar a técnica de confecção das castanhas piladas são a cara e a coroa de um mesmo destino. O chef deve ser criativo, controlado, inspirador, sonhador, consistente, contido, desafiador, rebelde, original, tudo ao mesmo tempo. E  ter uma farda impecável, um jogo irrepreensível de facas com cabo preto e a bancada a brilhar. Note-se que a emoção estava outrora reservada ao cliente. Se as coisas corressem bem, era o cliente que comia e chorava por mais. Agora, é o chef que deve ser emotivo. O prato evocará memórias e lançará, simultaneamente, desafios em direcção ao futuro. Não é confusão. É fusão. O chef pode por isso derramar uma lágrima, se as memórias a isso obrigarem. Ponto é que não seja por causa da cebola. Claro que a confecção de um prato sublime, de um risotto, de uma ameixa confitada, de uma espuma agridoce, de uma crosta estaladiça, é um processo longo e trabalhoso. Todo esse trabalho, todavia, de nada vale, e o chef sabe-o, se falhar o momento fulcral: o de empratar. O homem do século XX devia ter umas noções básicas de mecânica para não ficar mal. Trocar um pneu, mudar umas velas, eram conhecimentos de que podia depender a reputação de qualquer um. No século XXI, a fasquia subiu. O homem contemporâneo pode não saber fazer mais nada, mas deve saber empratar. O empratamento é o momento coolminante de toda a obra coolinária. O sentido último da presença do homem no mundo pode muito bem ser empratar. É como se séculos e séculos de interrogação filosófica se sintetizassem num prato e no que pomos nele. Empratar é, pode dizer-se, um emprativo categórico. Mas se esta é a resposta, é urgente mudar a pergunta. De nada adianta, de agora em diante, interrogarmo-nos sobre de onde vimos e para onde vamos. Vimos, sabemo-lo, das cavernas e, antes disso, das profundezas dos cursos de água ou, para outros, de Adão e das suas costelas. E vamos, com total segurança o podemos dizer, para um curso de coolinária. Aprender a temperar costeletas e a empratar. A evolução da espécie conclui-se no conhecimento profundo das especiarias. A pergunta que faz agora sentido é sobre textura: consegues senti-la, Faustino? É óbvio que nos diferenciámos dos australopitecos há milhões de anos para chegarmos a ser chefs. Ainda que não o pudéssemos antecipar, era este o maravilhoso destino que estava guardado para o homem no dia seguinte àquele em que foi declarado pós-moderno. Resta-nos, portanto, enfiar o barrete.

Feliz 2014


Rui Rocha,

De acordo com várias opiniões, o novo ano incia-se com ligeiríssimos sinais de optimismo. Tendo a concordar. Se virmos bem, as exportações deram sinais positivos, o consumo interno apresenta alguma recuperação, os números do desemprego parecem iniciar uma lenta inversão de tendência, a espiral recessiva não se instalou e, a cada dia que passa, estamos mais perto de sermos governados pelo Tó Zé Seguro. Estou mesmo convencido que em 2014 teremos boas notícias: se precisarmos, não nos faltará sequer um guarda-chuva.

Mandela e a Esfinge


Rui Rocha,

Podemos, claro, tomar a lenda da  Esfinge pelo seu valor facial: o de desafio à solução de questões complexas. Mas, se voltarmos a Sófocles, há qualquer coisa aqui que não bate certo. A descrição de Édipo corresponde mais depressa à de um ignorante do que à de um ser genial ou particularmente inteligente. Édipo a quem Laio mandara pregar os pés. Édipo a quem os pastores encontraram de cabeça para baixo pendurado numa árvore e a quem deram o nome (Édipo, isto é, o dos pés inchados). Édipo, o coxo. Que, muito provavelmente, precisaria da ajuda de uma bengala para se locomover. A partir daqui é mais fácil encaixar as peças do quebra-cabeças. Para responder à adivinha, Édipo não precisou (nem seria capaz) de levantar a cabeça em busca de inspiração, de recorrer a raciocínios intrincados nem a uma especial sagacidade. Ter-lhe-á bastado olhar para baixo, ver os seus próprios pés, para responder o óbvio. Para Édipo, a solução era evidente. Tirésias lho disse no diálogo em que lhe procurou abrir os olhos: o mérito de Édipo foi decifrar o enigma a partir da sua própria perdição. A resposta foi para Édipo, e é quase sempre, o homem e, como nos ensinou Ortega, a sua circunstância. Agora que nos preparamos para a última despedida a Mandela, tudo se torna mais claro. O momento decisivo da sua existência foi aquele em que, ao contrário de Édipo, decidiu o dilema que se lhe colocava, raiva ou reconciliação, na contramão da tragédia escrita na sua própria biografia. Ali, quando recusou o óbvio, desviou os olhos dos pés que tivera agrilhoados e decidiu encarar o firmamento. 

A parede de Alcorcón


Rui Rocha,

Primeiro, imaginas a morte como uma fronteira. Daquelas com cancela e funcionário da alfândega e tudo. Ou estás do lado de cá, ou do lado de lá. E levas boa parte do tempo que dedicas ao tema imaginando se o que está do lado de lá é um precipício – a abstracção máxima que consegues alcançar do nada – ou uma qualquer outra coisa de que te deram o nome quando eras tão pequenino que nunca mais o conseguiste largar. O Céu. Que te disseram que pode ser e não ser esse onde, com os teus filhos no colo, viste estrelas em noites prometidas de Agosto. E é então, enquanto escondes uma lágrima do olhar furtivo do taxista, que te lembras das tuas próprias e primeiras conversas: papá, e o Céu como é? Imaginas esse campo que o teu pai te descreveu e que terá tomado de algum impressionista. Querias já então saber mais. Pormenores, cores, odores: alfazemas papá? Mas não perguntaste distraído que estavas a imaginar-te um herói no teu cavalo de pau. E agora o teu pai não está cá para te responder. Imagina-lo como podes a esse campo. Com música sacra de fundo. E com tantas delícias e nenhum pecado como já o viste representado. E não poderia ser, em lugar de um campo, uma marinha? Uma dessas paisagens nórdicas em tempos de Verão? Ou ser o Céu mais do que um lugar, um passeio pelo Paraíso ao longo do qual pudesses ir perguntando ao Criador essas coisas que te atormentam: como é então isto da fome, dos milhões de crianças que morrem e das que vivendo sabemos mortas de tudo quanto vivemos? Depois, és já capaz de esbater a fronteira. Dizes que só estão mortos os que morreram. E que não morreram aqueles de quem, estando mortos, temos ainda memória. E é certo que isto te conforta porque sabes exactamente quais são os que não esqueceste. Estás em tudo isto e sem dar por ela chegaste em Alcorcón, um bairro sem história nem bandeira nos arredores de Madrid. Não esperas nada dali. É talvez por isso que a pergunta fundamental, aquela que verdadeiramente importa, esboroada na parede, te apanha com as defesas em baixo. Já não consegues desviar os olhos, já tomou conta de ti: hay una vida antes de la muerte? Que sim, claro, dizes baixinho. Ponto é que alguém se lembre de ti.

Em busca do título perfeito


Rui Rocha,

A imagem do momento vale um título. Ocorrem-me alguns. What the Helle? ou Me, My Selfie And I não me parecem mal. Melhores, seguramente, do que Pesadelo Em Helle Thorning-Shmidt. Mas, de momento, fico-me com Um Casamento E Um Funeral. Gostava, todavia, de ouvir as vossas sugestões.

Macacos me mordam


Rui Rocha,

Diz uma lenda que um Deus, desses que proviam a algum povo primitivo, terá recebido um dia, em audiência, uma delegação de macacos. Traziam-lhe uma única reivindicação: queriam tornar-se homens. Viu-se assim o Deus em apertos pois, não querendo desagradar à macacada, também não via com bons olhos um tal desenlace. Conservador seria, pois que estava ainda preso a uma visão do mundo em que aos macacos correspondia o seu galho. E é possível até que existisse, que sabemos nós, uma cláusula de exclusividade da condição de humanidade, assinada pelo punho do próprio Deus, assegurada em contrapartida de todas as penas, provações, angústias e privações que em geral calham ao Homem pela tão simples razão de ser humano. Foi assim que o Deus, incómodo na cadeira, acabou por mandar a simiesca representação, é um dizer, pentear os outros macacos. Não com estas palavras, claro está, para não ferir susceptibilidades. Já então, nesses começos deste nosso mundo, a questão dos sentimentos dos animais era tratada com pinças. Até porque eram tempos em que eles próprios falavam, verbalizando quanto lhes fosse na alma, que já então a tinham e bem sabemos que é assim  porque entretanto não a perderam. Foi deste modo que o Deus, entalado como estava, prometeu aos macacos que estes se tornariam homens (e mulheres se fossem macacos fêmeas pois que, por esse então, as únicas questões fracturantes incluídas na agenda mediática diziam respeito ao divergir das placas tectónicas) logo que, passada a noite que já se avizinhava, raiassem os primeiros afagos de sol sobre aquela parte do planeta que, por direito próprio e natural, era também dos macacos. E assim foram os ditos à vida deles. Com o rabo entre as pernas, não porque a reunião lhes tivesse corrido mal, bem pelo contrário, mas porque era esse o lugar onde lhes era naturalmente mais confortável tê-lo. O certo é que assim que o Deus tirou os macacos de debaixo do nariz (tirá-los de dentro é coisa de homens, imprópria  da condição divina) pegou na trouxa onde guardava os prodígios, que eram basicamente trovoadas, aguaceiros e acentuado arrefecimento nocturno, e foi ganhar a vida para outras paragens estabelecendo-se, ao que se sabe, junto de uma tribo que vivia por alturas do local onde hoje é Roma. O certo é que os macacos, que mal pregaram olho, viram ao nascer do dia toda a sua ilusão defraudada. E começaram em guinchos angustiados e desesperados urros. Coisa que, por esse único e exacto motivo, ainda hoje fazem, tal como podemos comprovar, à falta de melhor, no zoológico mais próximo ou em qualquer filme do Tarzan. Ora, pelo que leio, têm por estes dias os juízes do Supremo Tribunal de Nova Iorque a oportunidade de, com uma só decisão, reporem a Justiça, substituindo-se ao Deus incumpridor e a Darwin. Basta para tal que reconheçam a um chimpanzé, representado pelo seu advogado, o direito de ser considerado pessoa jurídica. Isto é, ali onde o tal Deus não foi sequer capaz de escrever direito por linhas tortas, pode o bom Tribunal estabelecer uma linha recta entre o chimpazé, a ética e o fundamento ontológico. Se for assim, os macacos poderão finamente substituir os ontens que guincham e urram por manhãs em que cantam. Trata-se, se virmos bem, de um pequeno passo para a humanidade e de uma patada de gigante para os macacos. Temo, todavia, que os motivos para festejar sejam efémeros. Se está demonstrado que um macaco com um teclado acabará mais tarde ou mais cedo por escrever uma obra de Shakespeare, nada impede que um outro, mais peludo, descubra um dia, tal como Kant, os pressupostos tortuosos da culpa e da obrigação. A pessoa jurídica macaco, então já unanimemente reconhecida nos códigos legais, deixará de ser um mero portador de direitos para passar a ser também, tal como os homens e as mulheres, sujeito (por oportuníssima contraposição a objecto) a deveres e punições. Ora, ou me engano muito ou isso poderá significar, mais cedo do que tarde, o fim da macacada.

Isto para sermos contidos


Rui Rocha,

No futebol, filosofia é dialética. A tese foi enunciada por Parménides: o que é, é. A antítese devêmo-la a Jorge Jesus e aos seus percursores: futebol é futebol. A síntese tem duplo sentido. O ser é esférico e a verdade é redonda. A partir daqui é possível passar à conclusão sem mais premissas: estamos à frente, Carvalho!

O Oráculo de Nafarros


Rui Rocha,

Um tipo normal como eu, que não recolheu do seu próprio passado mais benefício do que ter passado por ele, preocupa-se sobretudo com o futuro. Mais agora que este traz cara de se apresentar imperfeito. Ora, nesta ânsia de saber o que me espera, afastada que está a hipótese de esperar sentado, e não possuindo a capacidade predictiva da FIFA que sabe agora já que algures em Junho do próximo ano vai fazer calor em Manaus, viro-me para onde posso. E se dizem que o passado é uma chave fundamental para interpretar o futuro, presumo que faço bem em ter em conta as previsões de Mário Soares para organizar a minha vida. Não há, sabemos, outro português vivo com passado tão glorioso à nossa frente. É assim desta forma que nos últimos tempos, na impossibilidade de me deslocar a Delfos, faço sempre preceder qualquer decisão fundamental da consulta do Oráculo de Nafarros. E estava, devo confessá-lo, egoisticamente descansado até há uns minutos atrás. É certo que o pitoniso, depois de ter previsto um assomo patriótico de violência com epicentro mais ou menos localizado no Alto do Pina, publicou na passada quarta-feira, na sua coluna do DN, um artigo com o sugestivo título: “As secas e os tufões”. E que a certa altura nos confronta com o nosso irremediável destino: “Reparem nos oceanos, que vão crescer muito – e inundar a Terra”. Perante isto, fui ver. Saí das minhas tamanquinhas (passei a usá-las porque são mais altas do que os sapatos e fico prevenido para o caso de o nível das águas subir), peguei no carro, e dirigi-me a Esposende. Aparentemente, estava tudo calmo. Quer junto do farol, quer do outro lado da ponte, já na praia de Ofir, a agitação marítima não apresentava sinais que despenteassem de pânico qualquer dos sucessores do catedrático Anthímio de Azevedo. O oceano Atlântico apresentava-se pacífico. Pelo sim, pelo não, pedi ao gerente do café Pé-no-Rio que me telefone se acaso vislumbrar sinais de catástrofe. E voltei a casa mais aliviado. A verdade é que, com o mar sob vigilância, a arrecadação atestada de garrafões de água para fazer face à seca prometida e as calças presas por suspensórios, um tipo sente-se muito mais seguro. O problema é que hoje li isto. Pelo visto, a questão dos Estaleiros de Viana vai arrasar o Minho. Ora bolas. Confesso que não estava a contar com este revés do destino. Mas há que saber enfrentar a adversidade. E uma coisa é certa. Em Braga é que não ficamos. Para onde vamos? Ainda não está decidido. Mas mentiria se não dissesse que uma das possibilidades mais fortes é fixarmo-nos em Idanha-a-Nova logo que o Tó Zé consiga outorgar o contrato prometido.

Os lados errados da história


Rui Rocha,

1 – Em 1987, a República Portuguesa, com Cavaco no Governo e com Mário Soares na Presidência da República, votou contra uma das resoluções da ONU que condenava o ignóbil regime sul-africano de então.

 

2 – Em 1975, Mário Soares recebeu em Lisboa o tirano Nicolae Ceausescu de quem se declarou amigo:

 

3 – Em 2007, José Sócrates recebeu em Lisboa o torcionário Khadafi:

Não faltam, como se vê, exemplos de opções pelo lado errado da história.  Não me parece, todavia, que Mandela, pelo exemplo radical da capacidade de perdoar que deixou ao mundo, mereça ver a sua morte instrumentalizada para sublinhar os eventuais erros de um político medíocre e mesquinho.