Soares, o oráculo de Nafarros, a estrelinha que nos guia, o farol da esquerda, só não acerta no euromilhões


Rui Rocha,

Ora, François Hollande, como bom socialista e com uma formação académica e política excecionais, antes e depois do seu discurso de vitória, declarou, sem papas na língua, que com a austeridade não se vai a lado nenhum, como se tem visto na Grécia e por todo o lado, incluindo Portugal. É, pois, urgente mudar de paradigma, para pôr termo à crise, como tenho vindo a dizer ao longo destas crónicas, restabelecendo a confiança das pessoas, dos Estados e das instituições europeias, na medida do possível, pondo os mercados na ordem, acabando com os “paraísos fiscais” – como já foi prometido pelo Governo português, mas não cumprido – e restabelecendo o Estado social solidário e o estado de bem-estar para todos. 

 

No DN, em 15 de Maio de 2012, em artigo premonitoriamente intitulado “A Surpresa Hollande”. Bem pode dizê-lo.

 

 

Se é que me entendem


Rui Rocha,

Pelo visto, uns bravos congressistas do CDS queixam-se de lhes ter sido cobrado mais do que o que era devido na “Meta dos Leitões”. Mais, afirmam ainda que, apresentada reclamação, terão obtido do responsável do restaurante a seguinte resposta: por serem do CDS e como tal apoiantes desse governo que nos rouba, então para me defender eu também os roubo a vocês. Solidário com os espoliados congressistas, só posso desejar, do fundo do coração, que a decisão da “Meta dos Leitões” seja irrevogável.

Safamo-nos de boa


Rui Rocha,

De acordo com opiniões avisadas, a atribuição da Bola de Ouro a Ronaldo é muito importante para o país porque puxa pela auto-estima dos portugueses. Eu, que mesmo com o prémio do Ronaldo não me sinto particularmente entusiasmado por estes dias, nem quero imaginar o que seria de mim se calha de a Bola de Ouro ter ido parar às mãos do Messi ou do Ribéry. Livra!

Um Panteão só para estrangeiros


Rui Rocha,

Sejamos francos. Nós, os portugueses, não gostamos da generalidade dos portugueses. Isso deve-se, se não estou enganado, a duas circunstâncias fundamentais. Somos portugueses há muito tempo e o país é pequeno. Ah e tal temos oito séculos de história ou lá o que é. Pois temos. É por isso que estamos fartinhos uns dos outros. Ao longo dos últimos séculos, a maior parte dos outros povos foram variando. Invasões, domínios, alianças, secessões, federações, independências, fronteiras partilhadas com vários países. Nós não. Temos fronteira terrestre com um único país e fomos invadidos e dominados poucas vezes. E por períodos curtos de tempo. Para além disso, para dizer tudo, tivemos o azar de sermos invadidos por espanhóis e franceses o que é, convenhamos, do piorzinho que nos podia ter calhado. De tal forma que, mal por mal, e apesar de não gostarmos de portugueses, acabámos por preferir ficar sozinhos. Por outro lado, estamos demasiado juntos. Num país normal, uma distância de trezentos quilómetros é poucochinha coisa. Em Portugal, quem fizer essa distância atravessa o país de norte a sul. Ou vice-versa. E se não travar a tempo ainda bate com os queixos no Algarve ou em Valença. É assim dessa longevidade histórica e da excessiva proximidade geográfica que decorre o nosso estado actual de saturação. Que não, agitam-se alguns sectores da plateia, que estou a tirar conclusões sem qualquer fundamentação. Pois testemos a tese. Gostamos ou não dos portugueses que estão no estrangeiro? Gostamos, claro. São portugueses, é certo. E isso, aos nossos olhos, prejudica-os à partida. Mas, como estão longe, não se verifica a segunda condição necessária para não gostarmos deles: a proximidade territorial. Outra situação evidente é a dos turistas estrangeiros. Caramba, como gostamos deles. Fazemos um esforço danado para falar a língua deles e tudo. Estão próximos? Estão. Mas, como não são portugueses, gostamos mesmo deles e, no fundo, até queríamos que ficassem mais tempo desde que não se tornassem portugueses. Ora, vem isto a propósito da momentosa discussão que envolve o Panteão. A pergunta, creio, não deve ser se Eusébio deve ir para o Panteão. A questão fundamental é se devemos ter um Panteão. Nos actuais termos, parece-me que não. E justifico. Face ao nosso pouco apreço pelos portugueses que vivem em Portugal, só há duas soluções que assegurariam um fluxo relativamente pacífico e com volume aceitável de inquilinos para o Panteão: manter o Panteão no sítio onde está e reservar o direito de acesso apenas  a nacionais de outros países (altos e loiros de preferência) ou, se insistirmos que só portugueses devem ir para o Panteão, promover a deslocalização do edifício e do conceito para outro país, reservando nesse caso o acesso a portugueses na diáspora. É claro que também nos poderíamos deixar de histórias e, simplesmente, acabar com o Panteão.

La grandeur


Rui Rocha,

Os portugueses sofrem de sebastianismo? Pois os franceses têm la grandeur. Que, no fundo, é a nostalgia de Luís XIV. Devemos provavelmente ao General Schwarzkopf  a definição mais lapidar da França e de la grandeur:  ir para uma guerra sem os franceses é como ir caçar sem acordeão.  Quando Churchill afirmou que nunca tantos deveram tanto a tão poucos, a maior parte dos devedores eram franceses. E nenhum deles tinha verdadeira intenção de pagar. Sim, porque la grandeur é também o patriotismo e a resistência de Sartre numa tainada com os amigalhaços enquanto os aliados invadiam a Normandia. La grandeur é a eloquência nas proclamações, a frugalidade nos actos e a míngua dos resultados. O francês médio é um homem destinado a grandes feitos não fosse dar-se o caso de ter as mãos nos bolsos. Liberté, égalité, fraternité é o mote nacional de França. Mas o certo é que os franceses que o gritam chegam à última palavra já bastante cansados. La grandeur é a mediocridade feita parangona, é a visão ampla de pequenos espaços. La grandeur é Hollande e é por isso que Tó Zé Seguro gosta tanto dele. Seguro nasceu na Beira Interior devido a uma lamentável imperfeição da natureza. Se o local de nascimento devesse ser coerente com a índole, Seguro teria nascido na margem esquerda do Sena. E passaria a vida por lá a prometer cenas de esquerda a torto e a direito. La grandeur é uma dimensão escondida que a generalidade dos franceses acredita que tem embora, em geral, não saibamos exactamente onde. No caso de Hollande, todavia, a situação é ligeiramente diferente. À falta de outras evidências que o distingam de um pascácio encartado, e perante a recorrência de certos episódios, devemos  ser humildes: sabemos exactamente onde a única grandeza de Hollande está localizada.

Eram o conhecimento e a informação, estúpidos


Rui Rocha,

A memória de Sócrates sobre o jogo da reviravolta contra a Coreia provocou o regresso das redes sociais aos velhos tempos. De um lado, artilharia pesada, escrutínio ao pormenor, argumentos esticados e estocada satírica. Do outro, fogo de barragem e manobras de diversão. No fulgor da batalha, regista-se o testemunho de Fernando Moreira de Sá sobre o tema. Noutra encarnação, Moreira de Sá, especialista em comunicação cujos escritos raramente entendo (coisa que é naturalmente da minha total responsabilidade), dedicou-se de acordo com o próprio depoimento a criar perfis falsos no facebook, a intervir em programas radiofónicos para queimar adversários políticos e a outras variadíssimas campanhas negras. Desta vez, todavia, elabora sobre a melhor forma de combater a manipulação. Nada mais nada menos do que conhecimento e informação, revela-nos o mestre enquanto nós lhe agradecemos com voz trémula, embargada pela comoção da descoberta. Logo de seguida, Moreira de Sá levanta ligeiramente as vestes e, enquanto se prepara para caminhar sobre as águas com um portátil da Apple na mão (só não cofia a longa barba branca porque tanto quanto sei não a tem), afirma: 

Era tão simples saber que nesses anos os estudantes tinham aulas ao sábado. Era tão simples primeiro procurar a informação e só depois comentar. Mas não. A lógica nas redes sociais é primeiro atirar e perguntar depois. Como no velho oeste.

 

Entretanto, várias testemunhas garantem que, depois de publicar o post, Moreira de Sá acenou a familiares e amigos com a mão que mantinha livre e dirigiu-se a um mosteiro budista, dedicando-se agora a uma vida de recolhimento e oração. 

Desapareceu de sua casa


Rui Rocha,
Desapareceu de sua casa, na Covilhã, na tarde de 23 de Julho de 1966.  Tinha oito anos e respondia pelo nome de Zito ou Zezito. De acordo com alguns testemunhos, terá sido visto em diferentes locais: a caminho da escola, no pátio da mesma e, mais tarde, já de regresso, a gritar pelo Eusébio e a festejar a reviravolta no jogo de Portugal contra a Coreia. Dão-se alvíssaras a quem confirmar tais paradeiros.

Degenerando


Rui Rocha,

Juan Belmonte foi um dos nomes maiores da tauromaquia. Para além de ter imposto, nas primeiras décadas do século passado, um estilo de toureio que rompeu com os cânones da lide de então, ficou conhecido por ser um leitor entusiasta, tendo entre os seus autores preferidos Stendhal e Doistoievsky. Para além de dominar a arte do temple na arena, tinha também um refinado sentido de humor. Certo dia, Valle-Inclán, figura maior da literatura espanhola, entusiasmado com determinada actuação, ter-lhe-á dito que para ser considerado o maior de todos os tempos só faltaria morrer na praça. Ao que Belmonte terá respondido, templando cada palavra: far-se-á o que for possível, Don Ramón. Num outro episódio, Belmonte, acompanhado de um amigo, assistia a uma corrida de touros com fins de beneficência. A presidir ao evento encontrava-se o Governador Civil daquelas paragens. A certa altura, este terá localizado Belmonte entre o público e foi ao seu encontro, ali o submetendo a uma calorosíssima recepção. Passados longos minutos, e tendo o Governador Civil finalmente regressado ao palanque presidencial, o amigo interpelou-o: Don Juan, e de onde vieram tais conhecimentos? Belmonte terá explicado que, em tempos, o agora frondoso Governador Civil, tinha sido seu bandarilheiro. O amigo, algo céptico, insistiu: e como é, D. Juan, que alguém que foi um simples bandarilheiro chegou a Governador Civil? Não foi preciso outro pretexto para Belmonte desferir uma das suas mais célebres estocadas: degenerando, caríssimo companheiro, degenerando. É nesta monumental faena de Belmonte que não posso deixar de pensar perante o triste espectáculo a que temos assistido a propósito da morte de Eusébio. A começar nas intervenções de Assunção Esteves, passando pelas declarações de Mário Soares e acabando na desconchavada colagem de José Sócrates à figura do futebolista, temos tido episódios maus de mais. Como terá esta gentinha chegado, em diferentes momentos, aos mais altos cargos da Nação? Confesso que só me ocorre a explicação de Belmonte. Degenerando, caríssimos companheiros. Degenerando.

A mais louca corrida do mundo


Rui Rocha,

 

Se bem percebo, no último ano e picos, os defensores mais aclamados das bandeiras da esquerda foram um alegado consultor da ONU, entretanto indiciado pela prática de crime de  usurpação da identidade, um filósofo de pacotilha que antes de converter-se às correntes do utilitarismo e do consequencialismo conduziu o país a uma monumental bancarrota e um velhote balelas que, quando não estava entretido a contar os whiskeys pedidos pelo Eusébio, prognosticava com periodicidade bi-semanal a explosão iminente de fenómenos extremos de violência social, o descontrolo de massas ululantes, a inundação de toda a Terra pela subida do nível dos oceanos e a extinção das baleias. Aproveitando que o Tó Zé Seguro foi ali ao lado comprar um pacote de sugus, deixem-me que lhes diga que sempre precisávamos de um bocadinho mais. 

Ode a Cake Minuesa


Rui Rocha,

Diz-se que um desses mestres do jornalismo que andará por estes dias a assombrar redacções pois, por feitio, não lhe será suficiente ficar a dar voltas na tumba com tanto que por aí se ouve e vê,  deu a um novato um daqueles conselhos sem preço: nunca te esqueças, fulano, que o segredo da profissão consiste em não fazer literatura; jornalismo é jornalismo e literatura é coisa bem diferente. Algo atarantado, o neófito não perdeu o pé e fez uma pergunta: e se, mestre, algum dia, por azar, coincidência ou distracção, acabar fazendo literatura em lugar de jornalismo em algum texto que me calhar escrever? O decano, com mais paciência do que a que costumava ter em situações semelhantes, não se negou a prosseguir a lição. Não creio, fulano, que corras esse risco. Se continuares a fazer perguntas e a utilizar o gerúndio, como ainda agora fizeste, ninguém te acusará de fazer mau jornalismo nem, devo dizer-to, nada que se pareça com literatura. Não sei se Cake Minuesa se terá cruzado alguma vez com esse velho mestre do jornalismo espanhol. Desconheço, igualmente, se Cake Minuesa recorre ao gerúndio para evitar que os seus textos se confundam com literatura. Sei que, há um par de dias, mais de cinquenta magarefes se juntaram em Durango, no País Basco, num espaço que é hoje um teatro, mas que já foi um matadouro, para levar a cabo mais uma cerimónia pública de branqueamento da actividade criminosa da ETA. Não se pode pedir melhor metáfora: ali estavam, os magarefes, no teatro que já foi matadouro, a encenar mais uma peça com que pretendem distrair-nos da carnificina de que foram protagonistas. O porta-voz, Kubati, com sangue nas mãos de pelo menos 13 das 309 vítimas inocentes provocadas pelos presentes e seus companheiros, dera por terminada a sessão. Os demais facínoras aplaudiam-no. São todos ex-prisioneiros. Mas assim como não há ex-vitimas, também não há ex-criminosos. E criminosos é o que são todos eles. Mataram cobardemente com bombas, rajadas e tiros na nuca e querem matar agora pela segunda vez, já sem a força das armas mas com a afronta da falta de vergonha, os que morreram. Ali está Cake Minuesa e ao seu lado estão outros vendo e ouvindo , renunciando a cada momento que passam calados à sua própria profissão. Cake Minuesa, porém, é um verdadeiro jornalista. E faz o que deve ser feito. Levanta-se e faz perguntas. Quer saber se os terroristas não vão pedir perdão. Atira-lhes à cara as 309 vítimas. Quer saber o que ganharam os magarefes matando como mataram. Mais tarde, confessará que teve medo. Dos terroristas dentro da sala e dos familiares e amigos que os esperavam cá fora. Mas Cake Minuesa sabe que fazer jornalismo é perguntar e que só a existência do medo abre espaço ao exercício da valentia.