Com inteira justiça
Rui Rocha,
Um dia, o mais preguiçoso construiu o estádio da luz.
Ontem, prometeu reabrir os tribunais encerrados pelo governo com o novo mapa judiciário. E criar instâncias judiciais especiais para investidores estrangeiros. Hoje, quer impedir a subida do nível do mar. Pelo visto, a coisa tem solução bem simples. Basta assegurar uma gestão integrada da costa. Se bem percebi, quando o mar sobe, o fulano põe-se na areia a berrar a plenos pulmões gestão integrada e o mar dá às de vila diogo. E o mesmo se passa com o défice e o desemprego, que baixam quando o fulano se aproxima. E com a economia que cresce quando o vê. A seguir, se não fosse pedir muito, bem podia ocupar-se da descida do aquecimento global e da erradicação do nemátodo do pinheiro. No fundo, mais do que de um tribunal para estrangeiros, precisávamos de uma instância própria para julgar imbecis portugueses. Até lá, se ninguém lhe põe a mão, ainda acaba a prometer a reabertura das barras encerradas devido ao mau tempo.
Situação A
Um país arruinado descobre um dia que veio parar-lhe às mãos uma colecção com 85 quadros de Joan Miró. A venda das pinturas geraria, ao que parece, receitas não inferiores a 36 milhões de euros. A intenção de os vender provoca grande polémica. A indignação é tal que Gabriela Canavilhas ameaça nunca mais aceitar um cargo cultural de nomeação política se as obras forem a leilão e António José Seguro recusa respirar durante para aí três segundos.
Situação B
Imagine-se agora que o mesmo país arruinado não tem os quadros. São de um investidor privado e a Christie’s leva-os a leilão em Londres. O país arruinado inscreve-se, licita e arremata a colecção por 36 milhões de euros. O Secretário de Estado Barreto Xavier anuncia a vitória, de olhos arregalados, numa declaração emocionada ao país. Luís M. Jorge é convidado para conceber e concretizar um plano de atracção de turistas que virão a Portugal fruir da exposição das 85 pinturas. Embevecidos, todos estamos de acordo: investir os 36 milhões de euros na colecção Miró foi uma excelente decisão política. Certo? Ou não?
Nota: se as instâncias culturais do país me consultassem, coisa que insistem em não fazer sabe-se lá porquê, dir-lhes-ia na situação A para não vender e na situação B para não comprar. É lixado, não é? Agora, se não se importam, vou ali reler o Kahneman.
Certo. Tudo muito certo. Mas, nesse caso, nos países onde estes são uma minoria, exactamente que direitos dos católicos podem ser referendados? E, já agora, mesmo em Portugal e a título de exemplo, o grupo minoritário que se obriga ao celibato por exercer o sacerdócio está disponível para ver referendados quais dos seus direitos?
Pelo visto, as eleições europeias prometem tornar-se numa batalha sem tréguas. Isto dentro do PS, claro. Tó Zé Seguro acusou os últimos quatro governos, os de José Sócrates incluídos, de mentirem aos portugueses. E afirmou que com ele, ele Tó Zé Seguro, tudo será diferente. Palavras que disseste! A reacção dos prosélitos do utilitarista de Vilar de Maçada não se fizeram esperar. João Galamba mina a liderança socialista por dentro. No Câmara Corporativa ensaiam-se danças rituais e sacrificam-se cabras para espantar o espírito do actual secretário-geral do PS. No Aspirina B espetam-se finíssimas agulhas nos órgãos vitais de um boneco com cara apalermada que representa o Tó Zé. Entretanto, uma coisa parece evidente. José Sócrates e Seguro têm, de facto, perfis bem diferentes. O grande teorizador dos limites à utilização da tortura em estados democráticos tem memória de elefante. Recorda-se, como se fosse hoje ao pequeno-almoço, do que fez no dia em 23 de Julho de 1966. Já Tó Zé Seguro tem memória de peixinho vermelho. Acusa Sócrates de mentir sobre impostos. Esquece-se, no entanto, que essa é matéria sujeita a discussão e votação pela Assembleia da República em sede de aprovação do orçamento. E que enquanto deputado eleito pelo círculo de Braga nas legislaturas em que Sócrates chefiou o governo votou favoravelmente a mentira contra a qual agora tanto se indigna. Por isso, ou me engano muito, ou existe uma total incompatibilidade entre o Tó Zé das legislaturas passadas e o Tó Zé das promessas para legislaturas futuras. Na verdade, temo até que para acreditar num só desses Tó Zés tenhamos que nos colocar na posição do transeunte que, ouvindo dois oradores no Speakers Corner de Hyde Park apresentarem-se como Jesus Cristo, concluiu que um deles tinha por força de estar a mentir.
Há, mãe, nas manhãs da minha infância, esse quarto em Silvalde. Era 1977 e o Verão passava-se, como sempre nas paragens atlânticas, de nevoeiro e nortada. Em anos anteriores, quando vínhamos de Angola, em Agosto, o meu quarto em Silvalde era o vosso, no andar de cima. Para lá chegar, lembras-te mãe, era preciso passar pelo quarto de provas da alfaiataria do avô Adriano. A alfaiataria era um território de perigos. A máquina de costura onde se dizia que o Augusto tinha deixado cravado um dedo. As agulhas com que o próprio Augusto e o Cruz furavam o ar em velocidades vertiginosas, num tempo que tudo era tão lento como o pedalar do Cubatinha que vinha, duas vezes por dia, buscar rebuçados do Dr. Bayard à mercearia dos avós. O ferro a carvão sempre em brasa, numa das mãos do avô, que com a outra ia atirando, com pequenos farrapos, gotas de água sobre as fazendas já cortadas, marcadas a giz, cosidas, que eram agora um fato que algum cliente do Porto viria buscar ao final da tarde. Mas nada, nada prometia tantos perigos como o quarto de provas. Os manequins permaneciam inanimados quando por lá passava, rumo ao quarto de cima, pela tua mão. Já quando me calhava subir sozinho, havia sempre uma corrente de ar que os abanava, um raio de luz filtrado pela clarabóia que lhes iluminava a face, um silvo de vento que lhes punha um murmúrio nos lábios. Nas idas ao quarto de cima já depois do sol posto, prevenia-me. Podia, é claro, acender a luz das escadas e enfrentar o que o quarto de provas me reservasse: um manequim a dançar tresloucado, uns braços animados em direcção a mim, um olhar desvairado. Em vez disso, mantinha a luz apagada. Para não os acordar. Degrau atrás de degrau, subia em silêncio, encostado à parede, em peúgas compradas na feira de Espinho e cautelas. E se é verdade que eles nunca me apanharam, o certo é que senti o seu bafo quente e avinagrado antes de lhes fechar a porta do quarto de cima na cara, se é que ainda a tinham. Ocupar o quarto de baixo foi motivo de tanto orgulho, mãe. Já és um homenzinho, disseste-me. E de não menos alívio. A verdade, mãe, é que não era ainda homenzinho o suficiente para enfrentar os manequins sem ti. Lembras-te, mãe? Nesse Verão de 1977, as tardes passava-as no quintal, em jogos imaginários de futebol invencível. Ou pendurado na roda enorme que tirava a água do poço. Viste como a roda nunca me bateu no queixo, mãe? Ou a dar banhos e gemadas ao inseparável Preto, o rafeiro fiel e amigo que, por vezes, era também o meu cavalo. Ou sentado na soleira da porta, com o Norberto, a contar os carros que passavam na estrada cento e nove na direcção de Aveiro. Ou com o Monteiro a sulfatar as macieiras. Ou encavalitado num mocho, na mercearia, a ver o Oliveira e o Pescadinha a ganharem à sueca enquanto se perdiam no vinho. As manhãs não. Essas, passava-as no quarto, com o cobertor puxado até ao nariz. Há muito que estava acordado, mãe. Embora tu pensasses que não. Não queria era levantar-me enquanto não ouvisse a tua voz na cozinha. A mãe do Marco, mãe, tinha ido para a Argentina trabalhar. E eu tinha visto o Marco a correr no cais: não vás embora mamã, não me deixes aqui! E eu tinha medo, mãe. Tinha medo de sair do quarto e de não te encontrar. Mas tu estavas sempre lá, mãe. A tua voz na cozinha dizia-me sempre que sim. Estavas sempre lá nesse Verão e em tantos que vieram depois. Agora já não. Agora, mãe, já não estás aqui.
António José Seguro quer sair da forma mais digna possível do divórcio com a política de Hollande.
Que é como quem diz: pimenta na Filarmónica de Hamburgo é refresco.
Peço desculpas antecipadas. Sei que este post não vai ser bem recebido por muitas pessoas. Mas, em algum momento, alguém tinha que denunciar uma situação que me parece de gravidade extrema. Os taxistas jogam Candy Crush. Nos transportes públicos toda a gente joga Candy Crush. O Director de Auditoria da empresa onde trabalho foi apanhado a jogar Candy Crush enquanto se discutia o relatório de não conformidades do departamento de Controlo de Gestão. No aeroporto, toda a gente joga Candy Crush. Não tenho certezas, mas é possível que o Artur Soares Dias estivesse a jogar Candy Crush quando o Mangala deu com a mão na bola. Vamos ser sérios. Isto é uma epidemia. A dependência do Candy Crush só pode provocar graves consequências. Corremos o risco de viver numa sociedade de alienados que deixam cair o mundo à volta enquanto tentam passar mais um nível. Isto tem de parar e já. Faço aqui um apelo desesperado a essa horda de dependentes do Candy Crush. Por favor, cresçam! É tempo de perceber que jogar Candy Crush não pode ser o projecto de vida de ninguém. Por muito que vos custe, é preciso cortar a ligação com o Candy Crush e despertar de novo para a vida. Viver implica vontade de vencer novos desafios, abertura para novas aventuras. Perdoem-me, repito, se estou a usar de excessiva franqueza. Mas parece-me óbvio que chegou a hora de passarem para o Temple Run.
Agostinho Santa, deputado pelo PS, pronuncia-se sobre a vinculação extraordinária de professores. Não está com rodeios. Afirma que o Governo agiu sobre pressão. Sobre, senhores. É santa, é. Santa ignorância.
Penitenciando-me pela responsabilidade que me possa caber neste imbróglio, sinto-me obrigado a ajudar na solução. Devo sublinhar, por isso, que os próprios gauleses já tinham encontrado um método eficaz de calar o bardo.