Há, mãe, nas manhãs da minha infância, esse quarto em Silvalde. Era 1977 e o Verão passava-se, como sempre nas paragens atlânticas, de nevoeiro e nortada. Em anos anteriores, quando vínhamos de Angola, em Agosto, o meu quarto em Silvalde era o vosso, no andar de cima. Para lá chegar, lembras-te mãe, era preciso passar pelo quarto de provas da alfaiataria do avô Adriano. A alfaiataria era um território de perigos. A máquina de costura onde se dizia que o Augusto tinha deixado cravado um dedo. As agulhas com que o próprio Augusto e o Cruz furavam o ar em velocidades vertiginosas, num tempo que tudo era tão lento como o pedalar do Cubatinha que vinha, duas vezes por dia, buscar rebuçados do Dr. Bayard à mercearia dos avós. O ferro a carvão sempre em brasa, numa das mãos do avô, que com a outra ia atirando, com pequenos farrapos, gotas de água sobre as fazendas já cortadas, marcadas a giz, cosidas, que eram agora um fato que algum cliente do Porto viria buscar ao final da tarde. Mas nada, nada prometia tantos perigos como o quarto de provas. Os manequins permaneciam inanimados quando por lá passava, rumo ao quarto de cima, pela tua mão. Já quando me calhava subir sozinho, havia sempre uma corrente de ar que os abanava, um raio de luz filtrado pela clarabóia que lhes iluminava a face, um silvo de vento que lhes punha um murmúrio nos lábios. Nas idas ao quarto de cima já depois do sol posto, prevenia-me. Podia, é claro, acender a luz das escadas e enfrentar o que o quarto de provas me reservasse: um manequim a dançar tresloucado, uns braços animados em direcção a mim, um olhar desvairado. Em vez disso, mantinha a luz apagada. Para não os acordar. Degrau atrás de degrau, subia em silêncio, encostado à parede, em peúgas compradas na feira de Espinho e cautelas. E se é verdade que eles nunca me apanharam, o certo é que senti o seu bafo quente e avinagrado antes de lhes fechar a porta do quarto de cima na cara, se é que ainda a tinham. Ocupar o quarto de baixo foi motivo de tanto orgulho, mãe. Já és um homenzinho, disseste-me. E de não menos alívio. A verdade, mãe, é que não era ainda homenzinho o suficiente para enfrentar os manequins sem ti. Lembras-te, mãe? Nesse Verão de 1977, as tardes passava-as no quintal, em jogos imaginários de futebol invencível. Ou pendurado na roda enorme que tirava a água do poço. Viste como a roda nunca me bateu no queixo, mãe? Ou a dar banhos e gemadas ao inseparável Preto, o rafeiro fiel e amigo que, por vezes, era também o meu cavalo. Ou sentado na soleira da porta, com o Norberto, a contar os carros que passavam na estrada cento e nove na direcção de Aveiro. Ou com o Monteiro a sulfatar as macieiras. Ou encavalitado num mocho, na mercearia, a ver o Oliveira e o Pescadinha a ganharem à sueca enquanto se perdiam no vinho. As manhãs não. Essas, passava-as no quarto, com o cobertor puxado até ao nariz. Há muito que estava acordado, mãe. Embora tu pensasses que não. Não queria era levantar-me enquanto não ouvisse a tua voz na cozinha. A mãe do Marco, mãe, tinha ido para a Argentina trabalhar. E eu tinha visto o Marco a correr no cais: não vás embora mamã, não me deixes aqui! E eu tinha medo, mãe. Tinha medo de sair do quarto e de não te encontrar. Mas tu estavas sempre lá, mãe. A tua voz na cozinha dizia-me sempre que sim. Estavas sempre lá nesse Verão e em tantos que vieram depois. Agora já não. Agora, mãe, já não estás aqui.
O que nunca te disse sobre as manhãs do Verão de 1977
Rui Rocha,

Rui, belo texto, aqui estou eu de lágrima no olho. Bom domingo
Achei que esta música se adequava a este postal. Espero que goste…
http://www.youtube.com/watch?v=TNfnXxdhS Fk&list=PLM7PGAy0cMPcqx-P1wzfq5HM2HkTDNOH0
Precipitadamente, indiquei uma sequência quando pretendia limitar-me ao primeiro tema dela:
http://www.youtube.com/watch?v=TNfnXxdhS Fk
Não acredito. Rui. Depois deste texto estará sempre, como sempre esteve. Um abraço.
Um grande e comovido abraço, meu caro Rui.
Obrigada por este nó na garganta.
Permita um comovido abraço.
Ai Rui, que fiquei para aqui de coração apertado a relembrar os tempos da avó Dorotheia modista e dos manequins onde se penduravam os vestidos para prova (e sim, os ferros a carvão que já nem sei se são do meu tempo ou se acho que me lembro só por me terem falado disto tantas vezes).
Como sou muito mãe, posso-lhe afinaçar que as mães estão sempre cá. Eu vou estar sempre do lado de cá para os meus filhos e aposto que sua mãe tambem está. Mas só nós, as mães é que sabemos isto. É um segredo da confraria.
Rui, fiquei comovida com este teu texto, que mostra bem a importância da ligação afectuosa entre um filho e uma mãe. Eu sei muito bem do que tu falas, mas acredita, o meu filho continua diariamente comigo. Nem sempre te lembrarás, mas a tua mãe jamais se separará de ti.
Abraço
Comoveu-me, caro Rui. Muita força. Um abraço.
Um abraço, Rui. Força.
Abraço apertado e não gasto mais palavras, porque não há uma que sirva para dizer o que quero.
… e parece que ficamos sozinhos no mundo.
Um abraço!
Belíssimo texto.
Permita-me que lhe envie, um forte abraço.
David
Um abraço e isto
“…Pero es más triste todavía, mucho más triste.
Triste como la rama que deja caer su fruto para nadie.
Más triste, más. Como ese vaho
que de la tierra exhala depués la pulpa muerta.
Como esa mano que del cuerpo tendido
se eleva y quiere solamente acariciar las luces,
la sonrisa doliente, la noche aterciopelada y muda.
Luz de la noche sobre el cuerpo tendido sin alma.
Alma fuera, alma fuera del cuerpo, planeando
tan delicadamente sobre la triste forma abandonada.
Alma de niebla dulce, suspendida
sobre su ayer amante, cuerpo inerme
que pálido se enfría con las nocturnas horas
y queda quito, solo, dulcemente vacío.
Alma de amor que vela y se separa
vacilando, y al fin se aleja tiernamente fría….”
( V. Aleixandre, aproveitando a sugestão do Pedro Correia )
Um abraço Rui. Sei o que é isso. Não sei é escrevê-lo assim…
Um belo e comovente hino ao amor entre mãe e filho. Daqui vai afeto grande e sentido.
Permita-me um abraço. A si e à família.
Rui, tenho andado distante mas não quero deixar de te mandar um abraço.