Podemos, claro, tomar a lenda da Esfinge pelo seu valor facial: o de desafio à solução de questões complexas. Mas, se voltarmos a Sófocles, há qualquer coisa aqui que não bate certo. A descrição de Édipo corresponde mais depressa à de um ignorante do que à de um ser genial ou particularmente inteligente. Édipo a quem Laio mandara pregar os pés. Édipo a quem os pastores encontraram de cabeça para baixo pendurado numa árvore e a quem deram o nome (Édipo, isto é, o dos pés inchados). Édipo, o coxo. Que, muito provavelmente, precisaria da ajuda de uma bengala para se locomover. A partir daqui é mais fácil encaixar as peças do quebra-cabeças. Para responder à adivinha, Édipo não precisou (nem seria capaz) de levantar a cabeça em busca de inspiração, de recorrer a raciocínios intrincados nem a uma especial sagacidade. Ter-lhe-á bastado olhar para baixo, ver os seus próprios pés, para responder o óbvio. Para Édipo, a solução era evidente. Tirésias lho disse no diálogo em que lhe procurou abrir os olhos: o mérito de Édipo foi decifrar o enigma a partir da sua própria perdição. A resposta foi para Édipo, e é quase sempre, o homem e, como nos ensinou Ortega, a sua circunstância. Agora que nos preparamos para a última despedida a Mandela, tudo se torna mais claro. O momento decisivo da sua existência foi aquele em que, ao contrário de Édipo, decidiu o dilema que se lhe colocava, raiva ou reconciliação, na contramão da tragédia escrita na sua própria biografia. Ali, quando recusou o óbvio, desviou os olhos dos pés que tivera agrilhoados e decidiu encarar o firmamento.
Mandela e a Esfinge
Rui Rocha,

Rui, isso é deep ó man… mão dela, da ésfinge. Podia ser pior, da esfinja.
Édipo tinha a escola da vida… que um reaper lê de uma forma, mas um rapper lê como “és cola d’ávida”, sem perfumes Davidoff.
Quando organizas relações por um lado, elas reflectem na vida pelo outro. Se mantivermos só um olho aberto… como diria Atena, é melhor tirar as Pallas.
Agora para sacro, já basta o osso, e por Toutatis, ninguém quer medos de Abrirococcix, porque o céu está muito bem onde está, e as cabeças deviam olhar o chão que pisam, pois as torres dependem dos terrenos.
Deu ele testemunho não de si mesmo, mas de Quem o tornou assim.
Como diz, e bem, encarou o firmamento. E creio que uma das grandes cegueiras de todos os tempos reside no facto de quando o sábio aponta para a lua os idiotas olham para o dedo. Isto a propósito de outra verdade que aborda em seu texto: “o mérito de Édipo foi decifrar o enigma a partir da sua própria perdição” (eu utilizaria o termo condição, por ser comum).
Firmamento por sinal bem firme.