Primeiro, imaginas a morte como uma fronteira. Daquelas com cancela e funcionário da alfândega e tudo. Ou estás do lado de cá, ou do lado de lá. E levas boa parte do tempo que dedicas ao tema imaginando se o que está do lado de lá é um precipício – a abstracção máxima que consegues alcançar do nada – ou uma qualquer outra coisa de que te deram o nome quando eras tão pequenino que nunca mais o conseguiste largar. O Céu. Que te disseram que pode ser e não ser esse onde, com os teus filhos no colo, viste estrelas em noites prometidas de Agosto. E é então, enquanto escondes uma lágrima do olhar furtivo do taxista, que te lembras das tuas próprias e primeiras conversas: papá, e o Céu como é? Imaginas esse campo que o teu pai te descreveu e que terá tomado de algum impressionista. Querias já então saber mais. Pormenores, cores, odores: alfazemas papá? Mas não perguntaste distraído que estavas a imaginar-te um herói no teu cavalo de pau. E agora o teu pai não está cá para te responder. Imagina-lo como podes a esse campo. Com música sacra de fundo. E com tantas delícias e nenhum pecado como já o viste representado. E não poderia ser, em lugar de um campo, uma marinha? Uma dessas paisagens nórdicas em tempos de Verão? Ou ser o Céu mais do que um lugar, um passeio pelo Paraíso ao longo do qual pudesses ir perguntando ao Criador essas coisas que te atormentam: como é então isto da fome, dos milhões de crianças que morrem e das que vivendo sabemos mortas de tudo quanto vivemos? Depois, és já capaz de esbater a fronteira. Dizes que só estão mortos os que morreram. E que não morreram aqueles de quem, estando mortos, temos ainda memória. E é certo que isto te conforta porque sabes exactamente quais são os que não esqueceste. Estás em tudo isto e sem dar por ela chegaste em Alcorcón, um bairro sem história nem bandeira nos arredores de Madrid. Não esperas nada dali. É talvez por isso que a pergunta fundamental, aquela que verdadeiramente importa, esboroada na parede, te apanha com as defesas em baixo. Já não consegues desviar os olhos, já tomou conta de ti: hay una vida antes de la muerte? Que sim, claro, dizes baixinho. Ponto é que alguém se lembre de ti.
A parede de Alcorcón
Rui Rocha,


O ponto que me parece principal é perceber a pergunta antes de a fazer…
RR já está falando como JJ. Quando tu ficas na bancada tu sentes uma grande impotência.
Mermão,
vai bem esgalhadita esta prosa. Deixe-me partilhar consigo que nunca fiz essas perguntas ao Criador. E não fiz por três motivos:
1 – Numa primeira fase, por desinteresse;
2 – Numa segunda fase, por desatenção;
3 – Na presente fase, porque penso que o Criador quer mais de nós para que tudo isso, esse mal, seja banido.
Aceite que eu transcreva um pequeno trecho do Evangelho de Mateus (Mt. 6,24-33) para que melhor comprenda o sentido da afirmação anterior:
“Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou odiará a um e amará o outro, ou dedicar-se-á a um e desprezará o outro.
Não podeis servir a Deus e às riquezas (riquezas têm os seguintes significados: mamona, luxo, dinheiro).
Portanto, eis que vos digo: Não vos preocupeis por vossa vida, pelo que comereis, nem por vosso corpo, com o que vestireis.
A Vida Não é Mais que o Alimento e o Corpo Não é Mais que as Vestes?
Olhai as aves dos céus: Não semeiam nem ceifam, nem recolhem nos celeiros e Vosso Pai Celeste as alimenta.
Não Valeis Vós Muito Mais que Elas?
(…)
E porque vos inquietais com as vestes?
Considerai como crescem os lírios do campo; não trabalham nem fiam. Entretanto, eu vos digo que o próprio Salomão no auge de sua glória não se vestiu como um deles.
Se Deus veste assim a erva dos campos, que hoje cresce e amanhã será lançada ao fogo, quanto mais a vós homens de pouca fé?
Não vos aflijais, nem digais: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos? São soa pagãos que se preocupam com tudo isso.
Ora, vosso Pai Celeste sabe que necessitais de tudo isto.
(Aqui, mermão, é que se centra também o buzilis, repare)
BUSCAI EM PRIMEIRO LUGAR O REINO DE DEUS E SUA JUSTIÇA E TODAS ESTAS COISAS VOS SERÃO DADAS EM ACRÉSCIMO.
Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã: o dia de amanhã terá suas próprias preocupações. A cada dia basta o seu cuidado.”.
Mermão, Tolstoi, no seu livro Ressurreição, acrescentou algo a estas afirmações: “Mas nós buscamos o acréscimo e é natural que não cumpramos o Reino”.
Gostaria também de chamar a sua atenção para o facto dos versículos ora reproduzidos deverem ser lidos segundo o sentido intrínseco e não de uma forma literal, em particular no que respeita à seguinte afirmação/interrogação: ” A Vida Não é Mais que o Alimento e o Corpo Não é Mais que as Vestes?”.
Todavia, todo o texto deve ser profundamente meditado, e por várias vezes, para que se compreenda todo o seu sentido.
Bom trabalho.
Deixe-me acrescentar que o texto é de Mateus do capítulo 6 e versículos 24 a 34 e não 24 a 33 como referi por lapso (Mt. 6, 24-34).
Ao de Vento que passa… o que passou, passou para nós, para noz, de nova semente. E podemos nos enredar no belo novelo, e vê-lo no elo, fundeando a ilha na memória, mas não esquecendo o mar que a erode, com novas ilhas por encontrar. Não se ancora o batel, temos o nosso cais, para novas tripulações, e novas tribulações. Serei… as sereias cantam, e encantam, mostrando nas raias o plano que foram, e no canto convidam à última fronteira, a última raia, que sempre se escapará no horizonte.
Aterra, a tempo de consolidar a terra, para que vejamos este farol antes de zarpar de novo… porque se o mar e o amar nos chama, a terra nos constrói.
Abraço,
da Maia
Meu caro da Maia,
Grato por suas palavras. Mesmo no meio das tempestades, ou quando estas ocorrem, devemos sempre aterrar de emergência para salvar (n)a terra (n)o que no céu não é possível (mas sempre recorrendo ao céu para que os milagres aconteçam):
http://www.youtube.com/watch?v=zqfsmT_3S vc
Finalmente, a semente só produz se morrer (diz-nos S. Francisco que é quando morremos – entenda-se a morte do egoísmo – que conhecemos a Vida):
http://www.youtube.com/watch?v=-rou1poE-7 Q
Abraço
Meu caro,
pode o vento saber o que o move sem descer à terra?
Isso lembra-me uma frase comum: “there are no free lunches”, que é bastante diferente de “no free lunches”… para quem é free.
Sempre me perguntei se saberia a diferença, mas compete a cada um descobrir.
Boa sorte.
O vento não desce nem sobe, está aí e toca a terra.
Procurar saber de onde vem e para onde vai é tarefa inglória.
Todavia não é a vela enfunada que faz andar o barco, mas o vento que não se vê.
Por outro lado, da Maia,
quando pomos os freios na boca dos cavalos, para que nos obedeçam, governamos também o seu corpo.
E é isto que por vezes devemos fazer a “nós” mesmos quando não dominamos o sentido das coisas.
Na matéria em apreço a liberdade tem um preço, mas o custo da mesma não se faz através de um prato cheio de nada que para nada serve.
Eu conheço bem o trono dos homens livres, a Cruz. E a recompensa para esta liberdade é fazer o que tem de ser feito. “Recebestes de graça, dai de graça!”.
Claro, o vento toca-nos, e por isso é… sem tocar em nada não é.
Quer ver homens como cavalos com freio?… ora esse freio é colocado numa máquina, e os cavalos são outros.
O sentido das coisas está no que é sentido, com todos os “sentidos”, e não apenas com olhos que se julgam mais que barriga, que usam os consentidos.
Eu não usaria essa frase final, porque conjuga com outra: “Recebeste desgraça, dai desgraça”.
Da Maia,
é-me sempre útil apreciar a dimensão do que me é oferecido. Na realidade, ninguém pode dar mais para além do que tem. Mas também ninguém pode comer mais para além do que o estômago lhe permite.
Na carta aos hebreus, S. Paulo, escreve:
“(…) Mas o alimento sólido é para os adultos, para aqueles que a experiência já exercitou na distinção do bem e do mal”. (recomendo m particular a leitura da carta aos Hebreus do capítulo 5 aos versículos 11 a14).
Meu caro,
já há muito me disse que os seus comentários não são para mim, e como não se encadeiam como numa conversa normal, são apenas apontamentos desconexos com mais ou menos citações, eu abstenho de partilhar o seu desejo de comer o que quer que seja.
Cumprimentos.
Se não são para si, porque aje como se eles fossem?
Cump.
LOL … talvez porque escreveu “da Maia”, dirigindo-se a mim, ou que brincadeira é afinal a sua?
Mas eu não gosto de deixar de pensar na razão para a pergunta, e dado algum possível encadeamento na sua mitologia, presumo que esteja implicitamente a julgar que através de mim fala com outra entidade qualquer…
Portanto, trata-se de mais um exercício sobre o vazio, no qual se parece ter especializado. Creio que ainda não percebeu que a matéria que recebe de mim são apenas palavras, com uma assinatura comum.
Tudo o resto são projecções na sua cabeça, mas que reportam à mesma matéria – um desconhecido que tanto o assusta, quanto lhe dá esperança para os seus medos.
A mim, o desconhecido não me assusta, apenas o respeito como tal.
Para si o sobrenatural existe sem fundações, para mim não. E como tal, se me deparo com algo ilógico, procuro saber a sua sustentação fundacional… ou tem raízes, razão, ou não tem. Se não tem, é apenas uma ilusão ocasional.
Cumprimentos.
Da Maia,
Tanto que você se esforça para justificar-se; e tanto que você projecta nos outros os seus conflitos existênciais.
Eu sei que o da Maia não perde pitada para deambular/projectar suas cogitações, e vê pretexto em qualquer vírgula para o fazer. Mas, por se sentir ameaçado, usa esses pretextos para ver se é capaz de se sobrepôr ao que os outros são, e isto é prova de medo e de insegurança.
Ainda sobre o medo, só fala dele quem o conhece; e sim, se virmos bem a matéria há razão para ter medo, isto é, não saber o que há para cumprir. E este medo gira em torno da própria morte, a ontológica. Por isto mesmo faz todo o sentido afirmar: “Segue-me e deixa que os mortos enterrem seus mortos”.
Na realidade o medo é companheiro do Homem, e só é mau se prevalecer sobre ele. Liberte-se.
Ainda não compreendeu que o sobrenatural é matéria natural, por ser realidade humana. É esta a fundação e a fundamentação para o dito sobrenatural. Contudo, ao classificá-lo como tal, esquecendo-o enquanto natural e disfarçando-o em torno do respeito, você só revela que a dimensão do medo que a outros atribui é bebida do seu cálice.
Mas para que tal pareça ser o que não é, adiciona-lhe uma pitada de condimento intelectual com diversões semânticas fingindo dizer o que não diz, mas, mais grave ainda, acredita ter dito alguma coisa.
Ainda não percebi se quer ser o último ou o primeiro, já que não lhe basta ser…
Vejo bem quando há uma não-conversa, e pode ficar à vontade com a primeira e a última palavra, e até ter todas para si, já que não compreende o absurdo que debita.
Cumprimentos.
Obrigado, da Maia,
Foi muito útil este nosso encontro.
Cump.