Soares e o bulliyng preventivo


Rui Rocha,

Agora que já passaram uns dias sobre as declarações de Mário Soares na Aula Magna talvez já seja possível discutir isto com alguma serenidade. Vejamos. Ou o intitulado pai da democracia sabe o que diz, ou nem por isso. Confesso que não tendo encontrado grande lucidez nas posições que foi assumindo desde que me interesso pelo debate político (a partir do início dos anos noventa, portanto), sou levado a considerar como pouco provável que tenha adquirido por estes dias uma renovada clarividência. Todavia, devo admitir que num país em que o primeiro-ministro é Passos Coelho e o líder da oposição é TóZé Seguro devemos estar preparados para todo o tipo de fenómenos. O certo é que devemos ser coerentes. Os que consideram que Mário Soares está mais lúcido do que nunca, devem também assumir integralmente o teor das suas afirmações. Com esse pressuposto, estas não podem ter duas interpretações. Desde logo, Mário Soares legitimou a utilização de violência. Aconselhar alguém a demitir-se para evitar uma eventual agressão sem condenar o comportamento agressivo não pode ter outro entendimento. Note-se que o conselho não é dirigido a potenciais agressores no sentido de não adoptarem uma conduta violenta, mas ao eventual agredido recomendando-lhe que adapte o seu comportamento face a uma eventual agressão. Mais do que isso, é óbvio que as palavras de Mário Soares incitam à violência. A antecipação de um evento violento como possível e legítimo por alguém como Mário Soares, nos termos descritos, certifica-o como desejável para um certo tipo de públicos. O ponto é assim o de considerar Mário Soares inimputável ou não. Se é responsável pelo que diz, as suas palavras podem ser objecto de repúdio ou de adesão e o acto fica, nesse caso, com que o pratica. Todavia, e curiosamente, foram sobretudo alvo de branqueamento: que não, que Mário Soares apenas pretendeu avisar os destinatários da mensagem (que amiguinho que está, não é verdade…). Ora isto é que é francamente inaceitável. Os defensores da tese do aviso colocam Mário Soares na posição do pai que pratica bullying preventivo em casa para preparar o filho para as agruras dos comportamentos agressivos dos colegas de escola. Convenhamos que isto, como conceito, é razoavelmente ridículo.

18 comentários em “Soares e o bulliyng preventivo”

  1. Além disso, ele pedir a demissão do PR e do governo é um disparate maior que o Mercedes em que costuma circular a 200km/h. Segundo o prof. Marcelo, haverá uma inconstitucionalidade qualquer, mas isso não será o essencial. O essencial é que sem PR nem governo isto “virava” um perfeito caos, onde, além do mais e obviamente, o dinheiro se acabava em três tempos.

    1. Quanto à tal inconstitucionalidade, tendo o prof. Marcelo referido o nº 2 do artigo 128, tive a curiosidade de ir ver e cheguei aqui:

      (Presidente da República)
      Artigo 128.º
      Mandato

      1. O mandato do Presidente da República tem a duração de cinco anos e termina com a posse do novo Presidente eleito.

      2. Em caso de vagatura, o Presidente da República a eleger inicia um novo mandato.

      De maneiras que não me parece que a eleição simultânea de governo e PR seja aqui proibida, mas será certamente limitação minha.

  2. O Mário Soares está gágá e toma todos os outros, ou por seus aliados, ou por burros.
    E a família não o avisa…

  3. Desta vez, foi bola para o pinhal, Rui. O Papa Francisco também faz bullying quando diz exactamente o mesmo que Soares?

  4. MS , o “Vingativo” nunca se esqueceu da tareia que levou na Marinha Grande ( lembram-se?)

    Por isso, quem avisa amigo é!

  5. Mermão,

    tou quase ciderado com esta questão do ti Mário. Mas as pessoas não têm mais nada para fazer senão comentar o que não é explicito no discurso do ti Mário?

    A violência a que assistimos tem uma origem bem definida e fundamentada: A incompetência do executivo e o laxismo do PR face a um executivo que nada mais executa que um plano com um resultado meramente imaginário em quem gosta de se entreter a simular voos em folhas de cálculo.

    O discurso do ti Mário, em quem nunca votei, sem dúvida que tem um carácter viril, em contraste com as “mariquices” de discursos que apelam a consensos depois da brasa arder e que enaltecem virtudes que não são correspondidas no dia-a-dia, mas que não deixam de querer, sempre com recuos, mostrar uma dureza de quem não a tendo quer parecer que tem.

    É óbvio que todos estavam conscientes que a austeridade seria um caminho a trilhar, mas o que não é correcto é trilhar um caminho que nunca a tirará daí. E isto é mesmo violento e desprovido de senso.

    Por último, todos nós sabemos que a violência está no ar; e uma coisa é desejá-la outra coisa é afirmar que está mesmo aí.
    Se não fosse certo isto, tampouco poderiamos afirmar que Portas tentou sair de um governo que em absoluto desgoverna.

  6. Mermão

    Você fala bem p’ra caramba. Puxa, Lula não discursava mió.

    Como vai a parada aí no Brasiu?
    Por aqui tudo numa boa, graças Nossa Senhora de Aparecida e Painho Pai de Cicero, não obstantemente a capitanada de Abril tá chamando a agente pa paulada.

    Tá chegando mermão… policia subiu degrau… comandante caiu!
    Felizmente que aqui não aconteceu coisa parecida com aquela anedota que conta aqui de policia brasileiro que invadiu o morro de Jacarandá, foi assim:

    . Oi nosso cabo Felizberto, como estão as coisas correndo por aí?
    — Meu comandante: Se o sangue cheira a merda… tou todo ferido!

    Inté mermão_

  7. “Os que consideram que Mário Soares está mais lúcido do que nunca, devem também assumir integralmente o teor das suas afirmações” Cada qual, é livre de achar aquilo que acha e cada um, acredita no que quer, ninguém tem é o direito de dizer que alguém é responsável pelo que outro diz ou disse. Sinceramente, cada qual interpreta as palavras e as emoções como quer ou lhe convém e na minha modesta opinião ele “Mário Soares” não apelou à violência, mas à sua prevenção. Todos somos humanos , todos temos direito ao mínimo do aconchego e a um mínimo de dignidade que já não há. Talvez ele, a quem dizem que está senil, ou que já não sabe o que diz, ainda consegue apelar, a que se mude esta política que só nos conduz à destruição e que parem de nos tratar como parvos alegres que acreditamos em tudo que eles dizem. Era bom que todos que apoiem estas políticas saíssem à rua e vivessem a amargura dos que já tiveram alguma coisa e hoje já nem os pais lhes valem porque até esses são expropriados. Resta-lhes a rua, o frio, a fome e olhar o firmamento na esperança que alguém se lembre deles e que o amanhã não seja, mais um, igual ao hoje e ao ontem. Não façamos comparações ridículas porque por mais que se amarrote a imagem de Mário Soares e quer queiramos ou não, jamais alguém apagará a sua pessoa da nossa história.

      1. É melhor estar conivente com estes políticos que só enterram o país. Até Victor Gaspar disse que tinha errado. Só posso concluir que estes ilustres comentadores acham que os que nos governam são uns santos e que podem destruir o país e o Mário Soares, quando apela à prevenção é o demónio. Que fazem estes governantes quando tiram tudo aos que já pouco têm e os ricos aumentam em catadupa? Isto não é violência? É amor ao próximo………

  8. Caro Rui,

    Que diria Mário Soares, enquanto Presidente da República, se o General Ramalho Eanes ou o Marechal Costa Gomes ousassem emitir declarações do mesmo teor?

    1. O seu comentário confirma que o conceito de vivência e de vivência em democracia que possímos é meramente formal e não substancial.
      Se fosse substancial não encontrariamos tanta hipócrisia nos relacionamentos diários.

      1. Talvez se tenha esquecido dos chaimites que MS, nos tempos em que foi PM, enviou contra os operários da Lisnave que se manifestavam. Nessa altura ele atacou logo a violência…a preceito!

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