Bárbara escrava


Rui Rocha,

Ouvi contar, já não sei onde nem a quem, a história de uma mulher que saía todos os dias de casa para dar um passeio de táxi pelas ruas mais movimentadas de uma certa cidade. Ao taxista, sempre o mesmo quando não calhava estar estar de férias ou impedido por qualquer moléstia, afazer ou indisposição, caso em que ele próprio assegurava a substituição, pedia que circulasse devagar. Impondo calma à urgência do trânsito. Enquanto a viatura se distraía do ritmo urbano, a mulher, em pose majestática, sorria para todos os transeuntes, acenando-lhes com a mão aberta em suaves movimentos, tão laterais quanto abrangentes. Nos cerca de 30 minutos que durava cada viagem, mantinha-se em silêncio. Mas nunca parava de sorrir e de acenar, perante o espanto ou a indiferença daqueles com quem se cruzavam. No final da corrida, chamemos-lhe assim ainda que saibamos já que dificilmente a designação ficará bem a um percurso feito a tão baixa velocidade, pagava e regressava à sua casa real, modesta e frugal, levando para lá da porta a sua pose impassível, alheia a tudo. Dirão que esta é, obviamente, a crónica de uma falsa majestade. Respondo que o ponto essencial não é esse. Realmente, a pergunta a fazer  é aquela sobre a existência de verdadeiras histórias de princesas.

O regresso e o livro


Rui Rocha,

O homem terá, certamente, muitos defeitos. Há inclusivamente quem diga que a força sobre-humana que apresenta vem do consumo de substâncias ilícitas. Alguns encontram uma grande arrogância na autossuficiência e na forma como esmaga os adversários. Certos sectores criticam a pose de irredutibilidade perante os agressores estrangeiros. Não falta até quem desconfie da real natureza da relação que mantém com o seu leal companheiro de tantos momentos e episódios. Outros ainda criticam simplesmente a sua vida em França. Como se cada um não tivesse o direito de fixar residência onde bem entende. Enfim. Pela minha parte, declaro sem qualquer reserva que sou fã incondicional do seu estilo, bravura, coragem, determinação e inteligência. Por muito que custe a certas pessoas ouvir isto, é um dos meus heróis. Em meu entender, se houvesse muitos portugueses assim, não estaríamos como estamos. Por tudo isto, estou muito feliz pelo regresso. E agora que foi publicado o livro em Portugal, ainda por cima com um tema tão interessante, ficam já  a saber que vou a correr comprá-lo. Doa a quem doer.

I Convenção Anual dos Fantasmas e Assombrações do Passado Recente – Lisboa, 23 de Outubro de 2013


Rui Rocha,

“Prenda” de Roberto na Luz.

 

Vale e Azevedo expulso da ordem dos Advogados por conduta imoral.

 

Autoridades portuguesas ponderam reabrir investigação ao caso Maddie.

 

José Sócrates com Isabel Alçada, Jorge Lacão, Jorge Coelho, Mário Lino, Alberto Costa, Vera Jardim e Gabriela Canavilhas em lançamento de livro.

A redacção da vaca do boy


Rui Rocha,

O pássaro de que vos vou falar é o Teixeira dos Santos. O Teixeira dos Santos não vê nada de dia e à noite é mais cego que uma toupeira. Para ele não se magoar, coloquei-o numa gaiola durante dois anos. Um dia, deixei a porta aberta e o Teixeira dos Santos pôs-se a andar. O Teixeira dos Santos já não interessa nada e por isso vou continuar com outro tema de que quero falar – o PEC IV. O PEC IV era uma vaca que nos ia dar muito leite. A vaca tem seis lados. O da direita que é o dos filhos da mãe. O da esquerda que é só meu embora o Soares e os outros reumáticos pensem que é deles. O de cima, onde vivia a Fernanda. O de baixo, onde vivia o Diogo, que não sei quem é e com quem nunca me encontrei. Aliás, detesto que discriminem os homossexuais. Ser homossexual não tem mal nenhum. Agora percebo um bocado mais destas questões até porque já li coisas do Freud para aí umas quatro vezes. Mas ofende-me muito que digam que sou paneleiro. O último lado da vaca é o de trás que tem o rabo e é onde o Santana Lopes está pendurado. Com o Santana Lopes espantam-se as moscas para que não estraguem o leite. A cabeça serve para que lhe saiam os cornos (refiro-me à vaca e não ao Santana Lopes) e também para ter a boca que tem de estar em algum lado. A Merkel pensa que a vaca é dela, mas a vaca é da minha mãe que também é proprietária de terrenos, casas  e mansões em Cascais e em todo o lado com excepção das Ilhas Caimão. O que rima e é verdade. Só a CGD é que tem mais vacas que a minha mãe e por isso pôde fazer-me um empréstimo para eu passar uns meses em Paris a aprender coisas sobre a tortura. A tortura é má, magoa muito e faz mal às pessoas. Eu não gosto da tortura. Gosto da minha mãezinha, do PEC IV e do Lula. E do Stuart Mill e do Bentham. Do Kant não. Já li o Kant dez vezes e não gosto. O slogan do Obama era Yes, We Can. O meu é No, I Kant. E o marido da vaca é o boi. O boi não é um mamífero. O Schauble é um boi. A vaca não come muito, mas o que come, come duas vezes, ou seja: já tem bastante. Quando tem fome, muge; quando não diz nada, é porque está cheia de erva por dentro. As suas patas chegam ao chão. A vaca tem um olfacto muito desenvolvido, pelo que se pode cheirá-la desde muito longe. É por isso que o ar do campo e eu somos tão puros. Antes de terminar quero agradecer à minha professora Clarinha que me fez perguntas tão difíceis sobre a minha licenciatura ao Domingo e me deixou responder com o episódio da minha chegada a Coimbra. E ao Lula e à CGD e à mamã.

Toponímia e Pantomínia


Rui Rocha,

Concluídas as eleições autárquicas, está ainda por fazer um balanço global dos efeitos da reorganização administrativa das freguesias. É sobre o aspecto toponímico dessa reforma que as próximas linhas se debruçam. Antes de mais, importa sublinhar uma evidência. Se é crescente o número de portugueses que vive em união de facto, a verdade é que é agora muito maior o de cidadãos que vive em união de freguesias. Ora isto, só por si, pode levantar um conjunto de dificuldades. Repare-se que, com a tendência para simplificar e adoptar a lei do menor esforço de muitos dos compatriotas, não tardará que certas conversas se tornem perfeitamente atoleimadas. Álvaro e Lucílio, admitamos que algarvio um e transmontano o outro, poderão terminar um encontro fortuito em Lisboa convencidinhos que são vizinhos sem o serem: Então onde é que moras? Ai eu moro em União de Freguesias. Ah que coincidência, eu também. Eh pá, que estranho, nunca te vi por lá. Pois, eu também não. Então vá, vou indo… a ver se nos encontramos lá em União de Freguesias. Por outro lado, o papel do topónimo como elemento expedito de identificação ficou, em muitos casos, gravemente prejudicado. Tome-se por exemplo a situação de um qualquer residente na União das Freguesias de Vidago, Arcossó, Selhariz e Vilarinho das Paranheiras. Quem é que, no seu perfeito juízo, perguntado sobre o local onde reside, responderá ah, eu resido na União das Freguesias de Vidago, Arcossó, Selhariz e Vilarinho das Paranheiras? Isto não é um nome de um local, por amor de Deus. Maior só mesma a lista de cargos ocupados por Rui Machete antes de ir para o governo. Mais parece uma ladainha. Estou mesmo convencido que os padres em lugar de mandarem rezar avémarias ordenarão agora, por penitência, que os pecadores rezem uniões de freguesias. Ai disseste palavrões? Três uniões de freguesias. Um par de estalos no sogro? Sete uniões de freguesias. Roubaste a caixa de esmolas? Trinta e nove uniões de freguesias. Para ser assim, convenhamos, mais vale um tipo dizer as coordenadas GPS do sítio onde mora e sempre perde menos tempo. Adiante. Haverá então coisas que correram menos bem? Há, de facto. Não passa pela cabeça de ninguém, por exemplo, juntar na mesma freguesia Chamusca e Pinheiro Grande. É brincar com o fogo. Da mesma forma, não parece muito aconselhável juntar Jolda com Rio Cabrão. Ou Ancas com Paredes do Bairro. Também não é de bom tom colocar Rio de Moinhos e Cafede na mesma união de freguesias. Cafede junto a Rio de Moinhos cheira mal. Depois, há coisas que causam alguma perplexidade. Quando se une Freixo de Baixo com Freixo de Cima, em que é que ficamos? No meio? Há também contradições insanáveis. Em Castelo de Paiva, por exemplo, Raiva e Pedorido complementam-se bem. Um tipo pode imaginar-se a ficar com o Pedorido depois de dar uns pontapés num acesso de Raiva. O que não se percebe é o que é que Paraíso está a fazer numa freguesia que já tem Raiva e Pedorido. Creio que para dissonância cognitiva já tínhamos suficiente com Passos Coelho e Portas no mesmo governo. Mal comparado, é um pouco o que também se passa em Esposende onde juntaram Fonte Boa com Rio Tinto. Perplexidade causa também a União de Freguesias de Mealhada, Ventosa do Bairro e Antes. A última, por definição, deveria surgir antes e não depois de Mealhada e Ventosa do Bairro. É claro que em certos casos houve o cuidado de evitar situações embaraçosas. Em Celorico de Basto, por exemplo, Gémeos e Gagos podiam ter ficado na mesma freguesia. Mas não ficaram. E ainda bem. E também parece correcto juntar Gavião e Atalaia. Menos acertado foi colocar Cepões, Meijinhos e Melcões na mesma freguesia. No meio de Cepões e Melcões, é óbvio que os de Meijinhos não se safam. O certo é que aqui e ali caímos em redundâncias e exageros. Em Oliveira do Bairro não havia necessidade de juntar Bustos com Mamarrosa. E em Barcelos, nos tempos que correm, com tanta dificuldade, e depois de um verão tão quente, é quase ofensivo pensar que há gente que vive no resultado da União de Vila Boa com Vila Frescainha. Bem mais adequada aos dias que vivemos foi a opção de juntar Magrelos e Bem Viver. Entretanto, mais a sul, era motivo de grande expectativa saber quem ficaria com a Coina. Algumas das possibilidades de que se chegou a falar foram descartadas. Nabo, para não irmos mais longe, continua em Vila Flor. E Paião uniu-se à Borda do Campo que fica mesmo ali ao lado de Alhadas. Chegou ainda a estar sobre a mesa a possibilidade de a Coina ficar com Santo António. Da Charneca. Depois, lá prevaleceu o bom senso e acabou por unir-se a Palhais. Para dizer tudo, foi exactamente esse bom senso que faltou quando se decidiu juntar Ana Loura e S. Lourenço de Mamporcão.

O extraordinário sentido de humor do Jornal de Angola


Rui Rocha,

 

O Jornal de Angola topou-nos. Percebeu que sob esta capa de mesquinhez, provincianismo, razoável queda para o chico-espertismo e mediana trafulhice, somos é realmente vulneráveis à pilhéria. Vai daí, decidiu que a verdadeira luta dos angolanos, muito para lá de nos ficarem com as empresas, deve centrar-se num combate palmo a palmo pelas audiências do Inimigo Público. Daí que, entre outros bonecos com lugar na história que ali vão sendo publicados, esta tirinha de há dias constitua um marco inesquecível nessa batalha sem quartel para derrotar a nossa auto-estima à gargalhada. Tem um piadão esta bicada relativa ao papel dos velhos na nossa economia. Sobretudo se tivermos em conta que a graçola, o sarcasmo, a notinha de superioridade moral, vem de um órgão de comunicação conluiado com uma oligarquia política que conduz há dezenas de anos um país onde a esperança de vida à nasença (51,5) é das mais baixas do mundo  (inferior mesmo à do Níger, último classificado no ìndice de Desenolvimento Humano da ONU de 2012). Com tanta veia humorística é até surpreendente que esse baluarte do jornalismo livre e independente não tenha ainda feito uma graça que ponha em evidência que, sob a notável liderança de José Eduardo dos Santos, o país poucas preocupações terá com pensões de reforma. Aliás, é até muito pouco provável que nas próximas décadas existam velhos em Angola.

A caminho do céu


Rui Rocha,

A deslocação da imagem de Nossa Senhora de Fátima a Roma é bem o exemplo da complementaridade necessária entre ciência e religião. A viagem de avião propriamente dita está, convenhamos, bem mais dependente do efeito de Bernoulli do que de manifestações do Divino. Todavia, tratando-se de um voo da TAP, só mesmo a intervenção do Altíssimo poderá evitar que a estátua chegue significativamente atrasada.