Livros de Cabeceira (24)


Rui Rocha,

Em rigor, o Casate y Sé Sumisa ainda não está na minha mesa de cabeceira e, se tudo correr bem, não ficará por ali muito tempo. O meu objetivo é, conto com a vossa discrição, comprá-lo o mais depressa possível e colocá-lo lá como quem não quer a coisa. Depois é só esperar que a curiosidade feminina faça a sua parte. Se tudo correr bem, em menos de duas horas o livro terá transitado para as mão da belíssima proprietária da mesa de cabeceira situada do lado de lá da cama. A partir daí, e com a ajuda da providência divina e da editorial Novo Início, ligada ao Arcebispado de Granada, os ensinamentos ali recolhidos começarão a produzir efeitos. Bem sei que são 16 euros de investimento e a vida não está para loucuras. Mas o livro, originalmente publicado em Itália por Constanza Miriano e ali recordista de vendas, contém de acordo com os editores a fórmula, dirigida exclusivamente ao elemento feminino do casal, da obediência leal e generosa: a submissão. Uma pechincha, portanto. Já antecipando o sucesso desta iniciativa, colocarei também na minha mesa de cabeceira, em jeito de reforço da mensagem, o nº 167 (Janeiro de 1948) da saudosa revista Menina e Moça. Mais uma vez, conto com a curiosidade feminina como cúmplice. Se assim for, a belíssima proprietária da mesa de cabeceira situada do lado de lá da cama estará em breve a ler passagens tão inspiradoras como esta:

(…) Por conseguinte, a mulher ideal deverá ser boa dona de casa mas sem massar os outros com os acontecimentos caseiros, compreensiva dos gostos e necessidades alheios, afectuosa para a família do marido, pontual, discreta, económica, sincera e leal, com bom génio, dócil, séria, pouco tagarela e sem usar baton. 

 

É certo que os tempos são outros. Será caso de aligeirar um pouco a nota e creio que a utilização do baton poderá admitir-se em certas e restritas ocasiões. Mas, em tudo o mais, estaremos de acordo que a mensagem tem ainda uma espantosa actualidade. Se tudo correr bem, a minha vida mudará radicalmente. É que, como dizia Brecht (este já tenho à cabeceira) em a Apologia da Dialéctica,  a continuação da opressão depende de nós. E eu, pela minha parte, conto com o sucesso deste plano genial para mudar as coisas cá por casa. Agora, se não se importam, vou indo. Está na hora de fazer uma máquina de roupa. Branca.

30 comentários em “Livros de Cabeceira (24)”

  1. Rui, espero que a belíssima proprietária tenha sentido de humor.
    Caso contrário arrisca-se a ficar com um “galo” de 16 euros na tola e a fazer mais umas máquinas, talvez de roupa escura ou delicada.
    Boa sorte e boas leituras!
    🙂
    Antonieta

        1. Sinto-me em todo o caso na obrigação de avisar que o próximo livro da autora a publicar pela Nova Iniciativa tem o sugestivo título de Dá a Vida por Ela…

  2. Traz o bendito livro, que eu ponho-o a rimar no masculino!
    E, então, hás-de declamá-lo para mim!

  3. Há homens de sorte, essa é que é essa: se a mim me desse para pousar na mesinha de cabeceira opúsculos de tão mimoso e pedagógico conteúdo, creio que: 1) a mesinha de cabeceira ia para lenha; 2) os voluminhos serviriam para ateá-la; 3) e eu passaria a ser a mesa de cabeceira ela própria da casota do cão. Vidas boas, as vossas…

  4. casate y sé sumisa: que grande frase…
    aquilo que qualquer mãe deveria dizer a uma filha.
    vou mandar fazer um azulejo para colocar junto a outro que tenho com esta frase: “mi suegra és encantadora; pero de serpientes.”
    claro que a parte do “pero de serpientes” está escrito a tinta invisível….

  5. O tema é um mimo e a capa muito jeitosa, num estilo a meio caminho entre Corín Tellado e Modas e Bordados. Acho que a Adélia vai tirar dele ensinamentos preciosos. E se for uma esposa que se preze, há-de agradecer-te o presente sorridente (mas calada, claro), de avental de folhos, chinelinho de pelúcia e um bolo acabado de sair do forno. Mas não facilites com o baton, olha que o pecado da insubordinação começa sempre com pequenas concessões. Nunca fiando.

    (Já agora, diz-me que “massar” é gralha tua e não está assim no livro. É que essa coisa já é suficientemente escabrosa sem erros ortográficos…) 🙂

    1. Esqueceste-te da vassoura sempre à mão. Quero dizer sempre a jeito. De resto, quadro perfeito, Ana!

  6. Caro Rui Rocha
    Devo-lhe dizer que tenho sérias dúvidas de que minha mesa de cabeceira suportasse o peso de tão “inspirada” leitura e a minha cara metade também não ousaria fazer tal investimento, pois que sabe bem que não sou curiosa… e não prescindo do meu baton…

  7. Sortudo. Eu, se tivesse sido apanhado num postal destes, já estaria proibido de blogar. E a dormir no sofá, sem mesa de cabeceira

  8. É curioso que alguns cristãos continuem a dizer que a religião cristã foi boa para a condição das mulheres, ao mesmo tempo que um arcebispado edita, ainda hoje, coisas destas.
    No Islão submissão há só uma, a Deus. Parece que no cristianismo ainda hoje é diferente.

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