

Se bem percebo, o imbróglio da colocação de professores contratados deixou de ser uma questão técnica para tornar-se um problema político. Há, obviamente, uma diferença fundamental entre um erro grosseiro numa fórmula matemática e o não cumprimento desavergonhado de uma promessa assumida por um Ministro. Os 150 professores que tinham sido colocados e que agora viram a situação revertida sofrem naturalmente um prejuízo que Nuno Crato tinha garantido que não aconteceria. Na falta de uma correcção urgente da situação, Crato atira-se de forma deliberada para o abismo da mentira. Nada que surpreenda, no final de contas. A cara-de-pau com que tem gerido o Ministério da Educação, desdizendo e contrariando tudo quanto afirmara antes de ser Ministro, permite já uma conclusão definitiva: os Cratos não têm vertigens.
Na Champions os adversários do Benfica acabam os jogos com onze.
Costa está disponível para prescindir do sigilo bancário?
RR – João, obrigado por nos ajudares a perceber alguns dos aspectos relacionados com o processo Passos Coelho/Tecnoforma.
JM – Hã, ok, sem problema. Um gajo também não pode passar a vida a fazer gráficos sobre o salário mínimo.
RR – Bem visto. Então, antes de mais, gostava de perceber o que pensas sobre a situação de Passos Coelho e a presunção de inocência.
RR – Distingues então o plano político e o plano judicial?
RR – Defendes então que quando existe uma suspeita sobre o primeiro-ministro é a este que cabe o ónus da prova no âmbito da sua relação com o soberano?
RR – Não podias ser mais claro, João. E deixa-me dizer que concordo integralmente contigo. Chame-se o primeiro-ministro Sócrates, Pato ou Coelho.
JM – Er… claro. Nem podia ser de outra maneira. Queres que te fale agora dos efeitos nocivos do salário mínimo?
RR – Não, deixa estar. Tenho mesmo de ir andando.
* hat tip Mr. Brown
– Sou Aragorn, filho de Arathorn, herdeiro de Isildur.
– E eu sou Isabel dos Santos, filha de José Eduardo dos Santos.
– Pois calo-me.
– O novo Iphone vai ser um tremendo sucesso!
– Achas?
– Aposto que sim. Singelo contra dobrado.
Não posso confiar num primeiro-ministro que demora uma semana a lembrar-se se cumpriu ou não cumpriu a lei. Não confio num primeiro-ministro que diz ter recebido despesas de representação mas se recusa a revelar o respectivo valor. Passos Coelho teve tempo e condições para esclarecer integralmente a sua relação com a Tecnoforma e a ONG adjacente. Não o fez. Recuso ver o meu direito à opinião e ao sentido crítico prescrito por manobras infantis de ilusionismo e ocultação. Só posso presumir que seja culpado.
Será talvez o dia 17 de Setembro de 1788. Um exército composto por cerca de 100.000 homens fiéis ao Imperador José II está estacionado nas imediações da cidade de Karánsebes. Combate-se a enésima guerra entre os impérios austro-húngaro e otomano. O exército dito austríaco é, a bem da verdade, uma sociedade das nações. Integra, para além de austríacos, contingentes das diversas nacionalidades e regiões que compõem o Império. A maior parte do efectivo não fala alemão, circunstância que, como se verá, trará trágicas consequências. Antecipando a evolução do exército no terreno, vários batedores partem do acampamento com a missão de detectar a presença do inimigo. O certo é que turcos nem vê-los. Encontram, isso sim, um grupo de saltimbancos que vende schnapps. O calor do Verão despede-se por estes dias e puxa pela sede. Os batedores compram vários barris e vão bebendo para entreter o tempo enquanto esperam pelo grosso do exército. As horas passam e chega finalmente ao local um contingente de infantaria composto por lombardos, eslavos, austríacos e romenos. E se é uma lei da vida que o sol, quando nasce, é para todos, não é menos verdade que a sede também não escolhe gargantas. Se os batedores têm para beber, os de infantaria não querem beber menos. O problema é que, e mantemo-nos ainda no domínio das leis imutáveis que regem as humanas existências, o consumo de álcool raramente permite aclarar critérios e decisões. Os de infantaria querem a sua parte, os batedores recusam e barricam-se à volta das barricas. O que vale por dizer que se barricam duas vezes. Argumento puxa argumento, empurrão leva a empurrão, até que, de uma das partes, um soldado dá um tiro, instalando-se definitivamente a confusão. Com borracheira, porrada, algaraviada e tiro à mistura, uma parte dos contendentes, provavelmente a menos sóbria, presume que chegaram os turcos. Rompem a gritar Turcii, Turcii, Turcii, o pânico instala-se, correm em todas as direcções. Um oficial austríaco vai de gritar Halt, Halt, Halt, coisa que até se compreende pois impõe-se, nestas circunstâncias, uma voz de comando curta e directa. Mas o diabo é tendeiro. Os lombardos, eslavos e romenos não percebem alemão e, ali onde o oficial diz Alto, percebem Alá, grito de guerra do inimigo. O caos é total, mas as coisas vão ainda piorar. Aproxima-se do local novo contingente de tropas do exército austríaco. Perante a confusão que vê ao longe, um oficial de cavalaria convence-se de que os seus companheiros de armas estão a ser atacados pelos otomanos. Sem demora, ordena uma carga, de sabre em riste, contra aqueles que acredita serem os inimigos. Esta mesma carga é observada, entretanto, desde um outro ponto próximo, por um contingente de artilharia que também integra o exército austríaco. Nenhuma dúvida, pensa outro oficial: a cavalaria turca está a investir contra os nossos. Diligente, manda abrir fogo contra cavalos e cavaleiros. Completamente aterrorizados, os soldados disparam, investem e carregam já contra tudo e contra todos. Na debandada final, uma última humilhação. O cavalo do próprio José II espanta-se e o Imperador vê-se subitamente a exercer o império, de cócoras e encharcado, no meio de um riacho. Várias horas depois, fazem-se as contas. O exército austríaco sofre dez mil baixas provocadas exclusivamente por fogo amigo e sem os otomanos terem mexido uma palha. Durante anos e anos, esta foi justamente considerada a batalha mais estúpida da história. Só alguns séculos depois se realizaram os debates entre os candidatos às primárias do PS.
Regressemos então a Piaget e aos seus estudos sobre o sentido moral nas crianças, submetendo-os a nova análise à luz de factos recentes. De acordo com o epistemólogo suiço, no primeiro estádio de desenvolvimento, até aos 2 anos, a criança não é capaz de perceber a existência da moral e não tem a capacidade para fazer julgamentos (anomia). A partir dos 2 anos, a criança já é capaz de conformar-se e agir de acordo com regras. Mas a moral é heterónoma. A criança precisa que alguém, uma autoridade, lhe diga o que está certo e errado. A partir dos 12 anos a criança passa por um conjunto amplo de transformações e passa a ser denominada de adolescente. É o período em que deve chegar ao estágio cognitivo denominado operatório-formal, no qual se torna apta a alcançar o estádio do raciocínio moral denominado autonomia. Ao alcançar o estádio da autonomia, o indivíduo torna-se responsável por suas própria escolhas, que passam a ser avaliadas de acordo com um referencial interno e não pela imposição de terceiros. É claro que as idades de transição entre estádios identificadas por Piaget teriam sempre de ser entendidas como meramente indicativas e dependentes, obviamente, da maturidade de cada um. Mas uma coisa é uma variação de meses, outra coisa é um desvio de décadas. Tomemos então o caso de Pedro Passos Coelho, primeiro-ministro de um país da Europa dita civilizada. De acordo com informações não desmentidas, precisa, aos 50 anos de idade, da intervenção de uma autoridade (no caso, a Procuradoria-Geral da República) para esclarecer se agiu bem ou mal no caso das remunerações eventualmente recebidas da Tecnoforma. Ora convenhamos: se Piaget não estivesse completamente errado, Passos Coelho deveria ter abandonado, no mínimo há um bom par de anos, a fase da heteronomia.
A investigação do Público torna o assunto ainda mais premente. E as questões são muito simples. Recebeu Passos Coelho, ou não, contrapartidas económicas pelos serviços prestados à Tecnoforma? Em caso afirmativo, declarou, ou não, tais importâncias em sede de imposto sobre o rendimento? E, ainda em caso afirmativo, omitiu ou não tais rendimentos para obter algum tipo de benefício cuja atribuição estivesse dependente do exercício de funções de deputado em regime de exclusividade? Independentemente da aplicabilidade ou não do regime de prescrição, dos registos mais ou menos fiáveis do Parlamento ou de quaisquer outras questões administrativas ou burocráticas, há uma pessoa que sabe, tem de saber, a verdade dos factos. Essa pessoa é Passos Coelho. O primeiro-ministro de Portugal, o mesmo que pediu sacrifícios sem precedentes aos portugueses, que usou e abusou da imagem da frugalidade, que prometeu cortar gorduras e resquícios, que introduziu na discussão política um discurso baseado na ética e numa suposta superioridade moral em ruptura com o passado recente, não pode ficar calado sobre este assunto. Não pode escudar-se em dificuldades de memória, nem remeter esclarecimentos para terceiros. A situação do país é demasiado grave, a vida dos portugueses está demasiado difícil, foram já quebradas demasiadas promessas eleitorais, para que seja possível manter em funções um primeiro-ministro (ainda mais) ferido na sua credibilidade. Passos Coelho nunca poupou nas palavras. Dos rótulos de piegas aos conselhos sobre emigração, nada ficou por dizer. Pois bem. Agora é o momento de falar claro. Recebeu ou não recebeu? Declarou ou não declarou? Omitiu ou não omitiu em benefício próprio? Em resumo, abusou ou não abusou do sistema? É só isto que Passos Coelho tem de dizer. É a tudo isto que Passos Coelho tem urgentemente de responder.
A chamada salsicha educativa portuguesa apresenta dimensões adequadas.
Pretende-se então esclarecer se o Dr. Passos Coelho, um dos mais extraordinários produtos da universidade de Verão do PSD, recebeu, ou não, uma determinada importância (ao que parece o equivalente a 150.000€) não declarada quando se encontrava a exercer funções de deputado em regime de exclusividade. Tal pagamento, a ter sido efectivamente realizado, constituiria a contrapartida, entre outros prestimosos serviços, da promoção de indispensáveis acções de formação para funções que não existiam em diversos aeródromos espalhados por este venturoso país fora. Perguntado sobre o recebimento da simpática remuneração que teria sido paga em confortáveis prestações mensais de 5.000€, o Dr. Passos Coelho respondeu “não ter presente todas as responsabilidades que desempenhou há 15 anos, 17 e 18”. Deixando de lado o facto de aparentemente se recordar das exercidas há 16 anos, não pode deixar de sublinhar-se que o que está em causa não são propriamente as responsabilidades mas as contrapartidas financeiras que terão (ou não) sido recebidas. Não sendo a primeira vez que o caso Tecnoforma vem à praça pública, ou o actual primeiro-ministro é um idiota chapado, hipótese que não é de excluir para já, ou é evidente que já teria arranjado tempo na preenchidÍssima agenda para reunir informação e factos que lhe permitissem ter presente, a dias de hoje, se recebeu ou não tais importâncias. Eu, por exemplo, lembro-me sem grande esforço de não ter recebido 5.000€ em todos os meses da minha vida laboral em que não os recebi. Daí que uma resposta deste teor perante um caso desta natureza nos obrigue a colocar como possíveis apenas duas, e não mais, possibilidades. Ou o Dr. Passos Coelho é um idiota chapado com necessidade urgente, para além do mais, de tomar Memofante, ou tem o rabo trilhado. O que é certo, em qualquer circunstância, é que o Dr. Passos Coelho, não tendo presente se recebeu ou não o que não devia ter recebido, tem pouco ou nenhum futuro daquele resto que ainda lhe sobrava.
Os bancos novos envelhecem cada vez mais depressa.
O problema das novas declarações de Isabel Jonet não é o de estarem erradas em si mesmas. É evidente que há quem se aproveite das redes de solidariedade sejam elas públicas ou privadas e que faça disso o seu modo de vida. Só pode negar isto quem tenha o seu sentido crítico e indignação completamente amarrados às imposições do politicamente correcto. As questões são bem outras. Desde logo, impressiona que de entre os vários pontos de análise do problema da pobreza que são possíveis, Jonet escolha sistematicamente aquele que sublinha a existência dos que abusam do(s) sistema(s). São opções. Mas seria eventualmente muito mais útil colocar o dedo na ferida dos que se viram confrontados com situações de carência pela perda do emprego, pela disrupção familiar, pelo endividamento descontrolado. Aqueles que querendo genuinamente ter uma vida diferente, rebentam diariamente contra um muro dificuldades, bloqueios e falta de oportunidades. Por outro lado, a quem tem a responsabilidade de gerir uma instituição como o Banco Alimentar pede-se um altruísmo de olhos fechados. Ajudar sem ver a quem. Sem crítica e sem julgamento. Ainda que as situações concretas não justifiquem essa generosidade, deve prevalecer a generosidade sem pergunta e sem fundamento. Quando contribuo para o Banco Alimentar, espero que o que dou seja entregue a quem diz precisar. Sem inquéritos ou juízos de valor. No limite, ainda que não precise realmente. Nesta matéria, os actos têm que ficar estritamente com quem os pratica. Prefiro ser enganado a ser polícia ou inquisidor. Para além disso, numa análise global, os profissionais da pobreza de que fala Jonet são, seguramente, muito menos nocivos para a sociedade do que outros profissionais habituados a explorar, de colarinho branco, nos corredores e gabinetes, as debilidades das instituições. Por último, esta estratégia recorrente de Jonet não é sequer muito inteligente. A persistência na ideia da existência de abusos e abusadores levará, em última instância, a que os que dão venham a questionar o seu altruísmo, o que não deixará de afectar as campanhas do próprio Banco Alimentar.