O problema das novas declarações de Isabel Jonet não é o de estarem erradas em si mesmas. É evidente que há quem se aproveite das redes de solidariedade sejam elas públicas ou privadas e que faça disso o seu modo de vida. Só pode negar isto quem tenha o seu sentido crítico e indignação completamente amarrados às imposições do politicamente correcto. As questões são bem outras. Desde logo, impressiona que de entre os vários pontos de análise do problema da pobreza que são possíveis, Jonet escolha sistematicamente aquele que sublinha a existência dos que abusam do(s) sistema(s). São opções. Mas seria eventualmente muito mais útil colocar o dedo na ferida dos que se viram confrontados com situações de carência pela perda do emprego, pela disrupção familiar, pelo endividamento descontrolado. Aqueles que querendo genuinamente ter uma vida diferente, rebentam diariamente contra um muro dificuldades, bloqueios e falta de oportunidades. Por outro lado, a quem tem a responsabilidade de gerir uma instituição como o Banco Alimentar pede-se um altruísmo de olhos fechados. Ajudar sem ver a quem. Sem crítica e sem julgamento. Ainda que as situações concretas não justifiquem essa generosidade, deve prevalecer a generosidade sem pergunta e sem fundamento. Quando contribuo para o Banco Alimentar, espero que o que dou seja entregue a quem diz precisar. Sem inquéritos ou juízos de valor. No limite, ainda que não precise realmente. Nesta matéria, os actos têm que ficar estritamente com quem os pratica. Prefiro ser enganado a ser polícia ou inquisidor. Para além disso, numa análise global, os profissionais da pobreza de que fala Jonet são, seguramente, muito menos nocivos para a sociedade do que outros profissionais habituados a explorar, de colarinho branco, nos corredores e gabinetes, as debilidades das instituições. Por último, esta estratégia recorrente de Jonet não é sequer muito inteligente. A persistência na ideia da existência de abusos e abusadores levará, em última instância, a que os que dão venham a questionar o seu altruísmo, o que não deixará de afectar as campanhas do próprio Banco Alimentar.
Jonet, uma vez mais
Rui Rocha,

Se me permite, o BACF, para que tenho contribuido apesar de Jonet, não distribui géneros a pessoas. Distribui a instituições que, por sua vez, encaminham os géneros para pessoas que supostamente conhecem bem.
(já quanto a donativos em dinheiro, ignoro qual a metodologia seguida)
http://www.bancoalimentar.pt/article/11
É? E as contas do bacf, também podia mostrar? Donativos, relatórios, ando farto de procurar…
Recomendo que melhore a capacidade de efectuar pesquisas.
O Relatório anual de actividades de 2013 do BA de Lisboa pode consultar-se (e descarregar-se) aqui:
http://www.lisboa.bancoalimentar.pt/arti cle/25
Um relatório de actividades é informação bastante para si? Na minha terra isto faz-se em meia hora, geralmente para acompanhar uma exposição, para apoiar o que se ouve. Mas enfim, haja paciência…
Ainda assim deixe que lhe diga que até este ano, nem esta escassa informação existia – só até ao ano de 2009. Curiosamente aparece esta informação, supostamente completa, ao mesmo tempo que a Isabel xoné saiu do conselho de curadores do fundação soares dos santos.
Se calhar anda muita gente a abrir os olhos, sabe?
Donativos, relatórios, estão na net, basta pôr “banco alimentar contra a fome relatorios” na pesquisa do Google e tem lá muita coisa.
É por os ter ido ler que comentei ontem o que comentei e me cingi a dois aspectos de análise pessoal do que estava ali e que qualquer pessoa que não passou a vida sentada a uma secretária à espera da hora de ír para casa sabe.
Não falei da senhora nem do que penso dela ou do BACF.
Mas é mais fácil chegar aqui e lançar a dúvida, partindo desonestamente do princípio que os outros leitores são todos burros.
Porra que nem a criticar são bons.
Nem quero imaginar como seriam a fazer, mesmo mal…
Não foi apenas isso o que fez – basta ler – tratou também de me recomendar métodos de pesquisa, pelo caminho. Tal como agora vem falar das pessoas que não estão sentadas a uma secretéria à espera da hora de ir para casa, pelo caminho. Isto chama-se lançar a dúvida, não é? Se não for, nem percebo o que escreveu.
Eu não lancei dúvida nenhuma – o que escrevi é certo e positivo: não há, (ou não encontrei, vamos lá) nenhum relatório de contas (não é actividades) do bacf. Se o encontrar e quiser partilhar, muitíssimo agradecido. E a Isabel xoné foi mesmo curadora do fundação do pingo doce até este ano. É que para além da secretária e de casa, há outras coisas que me interessam nesta vida, sabe? O meu país, por exemplo. A fome no meu país preocupa-me – manias minhas, sei lá!…
E não abdico de levantar e lançar dúvidas, pelo simples facto de que não tenho certezas: e por isso penso, e pergunto, e duvido, e assim…
Não ataquei ninguém, se ler bem – curiosamente alguém se sentiu criticada…
Acho que vai por aí uma grande confusão, mistura coisas que eu disse com coisas que eu não disse, no habitual estilo de confiar que as outras pessoas se estão suficientemente borrifando para o que nós dissemos para não irem confirmar nada e, se o forem, pouco se ralarem, ficando assim assente que o último a berrar é o que tem mais razão, à boa maneira portuguesa.
Portanto, e se isso vale alguma coisa para si, reconheço que falou em contas e as contas não estão lá, pelo que lhe reconheço o direito de me vir chamar nomes e lhe peço desculpa.
Mas não me senti criticado (e não criticada) como qualquer pessoa inteligente percebe, eu dei uma opinião exclusivamente “técnica” por assim dizer e devidamente enquadrada.
Quanto à Fundação eu nunca falei disso e sei do que V. fala porque conheço bem a composição da dita.
Mas se já alguma vez me leu por aqui (“rmg”) ou por outros lados já devia saber que penso há muito tempo que a malta que vem para os blogs com a conversa das grandes preocupações com a fome e a miséria é porque pouco faz para as combater, para além da conversa da treta sentada ao computador.
Quantas pessoas viram a sua vida melhorada nem que fosse com uma sopa ou uma peça de fruta na altura em que precisavam deles (e não num amanhã que cantará graças e em que já morreram) graças à sua preocupação, à sua disponibilidade ou à sua generosidade pessoal?
Já aqui escrevi várias vezes que quem faz coisas e luta contra as dificuldades do seu semelhante não anda a anunciar por aí as suas nobres preocupações a tempo inteiro ao digno público: faz e pronto.
PS- Não gosto do estilo da senhora em causa, mas gozar com os nomes das pessoas diz muitíssimo de quem o faz, vá dar uma volta ao bilhar maior que encontrar até encontrar mais saídas de fino humor como essa(que aliàs nem é sua, é velha como tudo).
Concordo em absoluto consigo e direi mais: O Banco Alimentar deveria exigir às instituições onde incluo as Diaconias, o que e a quem entregam o que lhes é fornecido. Até Jonet poderia apanhar um susto com o que INFELIZMENTE é desviado e sobre isso nunca ninguém fala.
Sei do que falo porque vi o que nunca pensei ver quando levava uns vizinhos uma vez por mês ao “famoso cabaz”. Denunciei, reclamei e só sei que a coisa mudou um pouco de figura. Hoje já não vou, porque um dos casais faleceu e o outro já estão na terra de origem da minha doce amiga após quase quarenta anos de Portugal.
Peço desculpa pelo meu comentário…mas o que Jonet diz tem a sua dose de verdade daí ter concordado com o que disse!
Com licença: tanto quanto sei – e sei mesmo – é precisamente perante estas instituições que a jonet não fecha os olhos. Dá para “as dela”, e mais não. É uma rede diabólica de favores, acredite.
tirando uma ou outra virgula, revejo-me nas palavras do Rui.
talvez a senhora queira também chefiar uma “polícia de costumes”, dentro do próprio banco alimentar (ou já chefie sem a malta se aperceber…).
Não é novidade. Sempre houve e sempre haverá quem peça, mão estendida à caridade, sem que tal necessite. Tenho ideia de um pedinte que vivia numa barraca de tábuas, a quem se ajudava por solidariedade e até pela piedade que suscitava a falta do básico para subsistir condignamente. Lembro-me dele desde que me conheço, até ao seu passamento, vários anos depois, que veio a revelá-lo um homem de posses e conta bancária choruda. O ter e o não ter, mexe com a consciência das pessoas, que tendem a equilibrar a desigualdade na medida das suas possibilidade. Há-de ser sempre assim.
A Senhora em dividindo os carenciados em necessitados e necessitados profissionais, alarga ainda mais o fosso da desigualdade e não abona em nada, como diz e muito bem, as campanhas do Banco Alimentar.
Fica a pergunta que se impõe: quem e como se faz a triagem ?
O que eu leio ali é uma questão de gestão de recursos necessáriamente escassos face à procura, coisa a que qualquer pessoa que tenha tido responsabilidades nessas matérias conhece bem.
Neste caso particular (é a minha impressão) talvez haja alguma vontade de dar a entender que há que arranjar maneira de garantir que os donativos de menos abastados não vão parar a mais abastados que eles.
Não é esta a sua leitura, até aí tudo bem para mim.
Agora que podia ter feito um excelente post pois estão lá os ingredientes todos e não resistiu a misturar situações diferentes, é pena.
Esta é a minha leitura, até aqui espero que também tudo bem para si.
A destruição que isto causa – e refiro-me ao comportamento que o autor aceita – é imenso.
Lembro-me de um técnico a recibo verde que esteve em minha casa reparar um problema na ligação telefone/internet, na altura ao falarmos sobre empregos, trabalho, referiu-me que uns dias antes se tinha pegado com uma mulher num café na zona onde vivia porque ela tinha ido à junta ou a uma instituição e estava no café vangloriar-se de ter ganho um subsídio para não fazer nada.
E depois admiram-se da extrema direita ganhar votos.
A ajuda é tão perigosa como uma arma e deveria ser tratada com disciplina militar.
Sinceramente, não sei se existem profissionais da pobreza. Mas uma coisa eu sei, a existir, e sabendo-se, parece-me que os que sabem alimentam essa profissão.
Mas outra coisa eu sei, sei que em Portugal se fez da pobreza uma condição e atirou-se para a pobreza por umas condições de um não sei quê.
Mas ainda sei mais, sei que em Portugal a condição de pobre “financia” o emprego de muitos, sem que os anteriores deixem de ser pobres ou tenham oportunidade para o não ser mais.
E sei mais ainda, sei que há pobres em Portugal por não terem trabalho e que não menos pobres existem a trabalhar.
Mas também sei que há pobres que só não são miseráveis enquanto a família partilhar o que tem, pouco ou muito não interessa. E quando isto acabar continuarão, os que hoje ainda não são miseráveis mas são pobres, a “financiar” o trabalho de muitos e não deixarão de ser miseráveis pelo facto de receberem.
Mas também sei que há pobres desempregados que deixam de ser desempregados por fazerem uns cursitos de 25 ou 50 horas. E também sei que passaram por esta situação cerca de 162.000/168.000 até Julho. Sim, parece-me haver interesse em profissionalizar a pobreza.
Quando aqui me bati sobre a pobreza, o RSI e tantas outras situações ligadas a esta temática parece-me não ter sido compreendido. O tempo acaba por mostrar a verdade.
Eu hoje pronunciei-me sobre a pobreza profissionalizada, não profissionalizada e para-profissionalizada, não me pronunciei a respeito de ninguém que não os pobres e os miseráveis.
Concluo já, parece-me que para que a técnica seja perfeita anda-se a provocar a pobreza e a usá-la para a aumentar ainda mais, isto é, para lhes retirar as migalhas.
Hoje já compreendo aqueles que preferem roubar uns polvos a pedir ajuda. Parece-me que é mais digno roubar-se por necessidade a pedir pelos mesmos motivos.
Fui ver o que Jonet tinhadito, uma vez mais. E seguindo o seu link, encontrei isto:
“Em Portugal há aquilo a que chamamos a transmissão intergeracional da pobreza e temos que quebrar com essa transmissão. Há profissionais da pobreza habituados a andar de mão estendida, sem qualquer preocupação em mudar, e as instituições, por mais assistencialistas que sejam, têm que fazer o acompanhamento e a supervisão, para que se quebrem os ciclos de pobreza. Ou seja, quando se ajuda uma família pobre, deve-se procurar que essa família queira deixar de ser pobre e não encare a assistência como uma forma de vida”
É mesmo uma coisa assim tão aberrante, ou sequer, ofensiva? Existem ou não ciclos de pobreza? Existe ou não transmissão intergeracional da pobreza? É ou não obrigação de quem ajuda tentar fazê-lo da forma mais sustentável e eficaz possível? Ou a ideia é mesmo despejar uns cobres na mão estendida e virar costas?
Além disso, é profundamente falso que “entre os vários pontos de análise do problema da pobreza que são possíveis, Jonet escolha[e] sistematicamente aquele que sublinha a existência dos que abusam”. Já li muitíssimos outros comentários dela sobre a pobreza dos velhos por exemplo. Curiosamente, de há uns tempos a esta parte, deixaram de fazer títulos de notícias. O que me leva a crer que muita gente fica feliz quando as campanhas do Banco Alimentar têm menos sucesso do que já tiveram.
A única pessoa que conheço que faz da mendicidade profissão, é a própria. E bem pode dizer que é voluntária, que teve lugar cativo na fundação soares dos santos durante anos. É só o pingo doce – devia ser pro bono…
A ovelha Jonet depois dum chá, quis ter destaque com o seu próprio rebanho, fora da alçada da pastoral católica.
A ideia de contribuir através dos supermercados não necessita de ovelhinhas vestidas de branco a servir de intermediários.
O Estado a que isto chegou também é aqui ajudado com o IVA cobrado, e tudo isto traz à superfície uma gala na miserabilidade reinante.
Simplesmente, os supermercados deveriam estar obrigados a armazenar este tipo de contribuições solidárias, em qualquer altura, e as Misericórdias deveriam dirigir-se directamente a eles.
Isto aplicar-se-ia não apenas a estes, mas a outros peditórios. A lugar da caixinha dos peditórios é junto à caixinha dos supermercados. Esses seriam os legalmente autorizados, e aos supermercados pouco lhes custa serem obrigados a isso.
Intermediários para quê?
Para fazerem o que querem nos seus próprios armazéns?
Para protagonismo de qualquer Jonet?
O BA entrega a instituiçoes. Tem de ordenados um minimo de funcionarios pagos, portanto uma percentagem de 99,..de retorno do que lhe dão. Manda efectuar muitas vezes fiscalizaçoes quando se justificam e tem muito cuidado a detectar desvios (basta ver os milhares de voluntarios e de instituiçoes com que colabora para que os comentadores sejam prudentes a catalogar de … tudo o que pensam que está mal).
Com tanto aspecto a merecer comentario não escolhe com senso o que torna publico- e já sabemos que os criterios jornalisticos relevam o que polemiza.
Tanto desperdicio de recursos que o BA pela sua propria pratica podia ajudar a reduzir nas instituiçoes por todo o país -muito por culpa de deficiente formação e irrracionalidade de esforços, e tinha que ser logo os profissionais da pobreza que tinha que vir botar discurso N.R esperemos que não se ande a preparar para concorrer a um lugar com colher para o tacho publico =presidente, AR, camara