Manual da Internacional Autoritária: impedir revoluções


Rui Rocha,

1 – Decretar o estado de excepção e mantê-lo pelo período mais longo que for possível;

2 – Impedir qualquer manifestação (caso não seja possível, passar para o ponto seguinte);

3 – Proibir a cobertura jornalística, sobretudo televisiva, de qualquer manifestação (caso não seja possível, passar para o ponto seguinte);

4 – Reprimir duramente qualquer manifestação (matar não é conveniente, mas às vezes tem que ser);

4 – Não renovar as acreditações de enviados especiais e recusar a aprovação de novos pedidos;

5 – Reduzir a velocidade da Internet, filtrar os conteúdos da rede e das ferramentas sociais ou, cancelar o serviço;

6 – Cortar o serviço de comunicações móveis: voz e sms;

7 – Em caso de dúvida sobre a dureza das medidas a aplicar, ter presente os recentes e maus exemplos da Túnisia e do Egipto. 

 

*A designação Internacional Autoritária é da autoria de Vitali Silitski e encontrei-a aqui, a partir daqui, sendo que recomendo vivamente a leitura de ambos os textos.

O Cãopadrio ganhou!


Rui Rocha,

Pois é, graças à participacão entusiástica dos e-leitores, o Cão de Sócrates já tem nome no Delito de Opinião. Com enorme estupefacão, cãostato que Cãopadrio ficou em primeiro lugar (não estava nada à espera). Cão o mesmo número de votos, ficou Cãocio. Nos termos do artigo 33º do Regulamento do Cãocurso, o primeiro lugar foi atribuído a Cãopadrio uma vez que Cãocio não dava um título tão bom. À vencedora, Fátima, e ao Javali Estafermo, apresentamos os parabéns pelo cãotributo de excepcão. Para o 3º cãossificado, Sócão, da Adélia, também um latido. É um nome cão pouca coisa lá dentro e isso é bem cãopaz de ser sinal dos tempos. A todos os outros e-leitores de quem recebemos participacão testemunhamos também o nosso recãonhecimento. O quadro da desonra classificacão ficou mais ou menos assim:

 Nome de Cão

Autor

Cãopadrio

Fátima

Cãocio

Javali Estafermo

Sócão

Adélia

Engenhocão

Helena F. de Gouveia

Cãoplex

Javali Estafermo

%#”&%$”!!! (se percebi bem…)

João Carvalho

Descãofiança

Álvaro Mendes

Morcão

Ana Vidal

Cãofisco

Licas

Silva Pereira

Alexandre C. Silveira

Magalhão

Francisco C. Branco

Cãoboy

Eduardo Louro

Aos participantes pedimos encãorecidamente que não apresentem reclamacão. É que o orçamento é curto e não temos Directores-Gerais a quem possamos demitir para sacudir a água do cãopote.

 

Nota: os incãodicionais poderão continuar a acompanhar a saga do Cãopadrio na respectiva página do Focinhobook. Entretanto, o Cãopadrio já chegou à Itália de Berluscão.

O Segredo da Socra-Cola


Rui Rocha,

Junte:

1 – Inflação de 3,6% em Janeiro de 2011;

2 – Juros da dívida em nível socratosférico;

3 – Desemprego de 11,1% no ultimo trimestre de 2010;

4 – PIB = -0,3 no último trimestre de 2010;

5 – Recessão (pode encontrar, por exemplo, aqui, mas jamais encontraria aqui);

6 – Irresponsabilidade m.m.q.b. (muito mais que o bastante) que pode encontrar por todo o lado mas, em caso de dúvida, pode procurar numas declarações do Ministro das Finanças (aqui, para dar um exemplo), ou do Valter Lemos (aqui, ou sempre que se pronuncia);

7 – Corte médio de 5% nos salários da função pública e outros sectores afins não excepcionados;

8 – Incompetência. Aqui, nem deixo sugestões. Difícil vai ser não tropeçar nela.

Atenção:  Não junte açúcar porque vai precisar muito dele quando tudo isto lhe provocar graves quebras de tensão (e de poder de compra e de nível de vida e de…).

 

Experimente. Primeiro, entranha-se. Depois, parece que nunca mais se desentranha. Tenho a certeza de que não vai gostar. É provável que pretenda deitar fora. Mas, nesse caso, vai ter de esperar pela moção de censura apropriada.

Cãocurso el pierrio de Sócraties – resultados provisórios (18h30)


Rui Rocha,

Descãofiança – 1 voto

Silva Pereira – 1 voto

Engenhocão – 2 voto

Cãofisco – 1 voto

Cãocio – 2 votos + 1 voto do vizinho da Fátima

Cãoboy – 1 voto da Fátima

Morcão – 1 voto

João Cãovalho #”$%&$%!!!! – 1 voto

Magalhão  – 2 votos (1 do Zecão, se bem percebi)

Cãopadrio – 3 votos do Javali Estafermo e 1 do Luís

Sócão – 3 votos (1 do Zecão, se bem percebi)

Cãoplex – 1 voto

 

Os e-leitores podem consultar os nomes a concurso e participar na votacão, até às 24h00, aqui.

Nota: a Cãomissão Nacional de Eleições pede ao Zeparafuso que se decida.

El pierrio de Sócraties – aberta a cãopeticão


Rui Rocha,

O Júri Independente (não, não faz parte o Olegário Bencãorença), reunido na Aldeia de Cãovadoude, no Distrito da Guarda, cãoposto por elementos com elevada cãopetência técnica em línguas saxónicas e não só, decidiu admitir a cãocurso as seguintes sugestões:

 Nome do Cão

Autor

Rececão

Rui Rocha

Cartão de Cidacão

José Prata

Cãorrilho

José Prata

Sócãoties (lyoncificado)

Virgínia

Ladrador

Amarques

Cãoplex

Javali Estafermo

Cãocio

Javali Estafermo

%#”&%$”!!! (se percebi bem…)

João Carvalho

Descãofiança

Álvaro Mendes

Mocão

Rui Rocha

Socatão

Ana

Loução

Artur Mendes

Cão-de-Cócoras

Palavrossaurus Rex

Cãopadrio

Fátima

Cãotraste

Fátima

Aquiágato

Amarques

Cãobada (ou Cãobadão)

Amarques

Morcão

Ana Vidal

Cãotado

Helena F. de Gouveia

Engenhocão

Helena F. de Gouveia

Horacão

Amarques

Aldracão

Nuno

Cãopromisso Europeu

João Carvalho

Cãofisco

Licas

Degradacão

Henrique Pontes

Buracão

Hugo Santos

Muhammad Al-Sarraf

Hugo Santos

Corrupcão

Betovsky

Dartacão

Ana Vidal

Silva Pereira

Alexandre C. Silveira

Santos Silva

Alexandre C. Silveira

Magalhão

Francisco C. Branco

Simplão

Francisco C. Branco

Cãotos Silvas

Fátima

Nacionalizacão

Fátima

Sócão

Adélia

Cãoboy

Eduardo Louro

A votacão está aberta até às 24h00 de hoje. Os e-leitores podem votar as vezes que quiserem, sem qualquer tipo de período de reflecão e em total incãosciência, e não é necessário saber o número de e-leitor. O vencedor, se insistir muito, receberá à cãobrança o texto que suporta a Mocão de Cãossura do Bloco. Que vença o pior!

Frases de 2011 (9)


Rui Rocha,

“Resultados errados grosseiramente, embora não pondo em causa quem é eleito e a sua legitimidade, dão origem a uma fotografia distorcida da realidade eleitoral e actuam, quando existe subcontagem, como é o caso, a prejuízo financeiro das candidaturas. A situação tem de ser corrigida”.

Jorge Miguéis, Membro da Comissão Nacional de Eleições e Director-Geral da Administração Interna.

 

“Estes números são suficientemente anómalos para não serem ignorados. […] Esta diferença de resultados entre o apuramento provisório e o apuramento geral vem não só desconsiderar o respeito que merecem os eleitores que votaram e cujos votos acabaram sem ser considerados como vem agravar a má imagem do processo eleitoral e contribuir para o distanciamento e alheamento dos cidadãos”.

José Vítor Cavaco, Membro da Comissão Nacional de Eleições.

 

* As transcrições dizem respeito aos votos dos identificados a propósito da discussão do mapa oficial de resultados das eleições Presidenciais. Informações adicionais podem ler-se aqui.

El pierrio de Sócraties – actualizaCão


Rui Rocha,

O cada vez mais famoso Cão de Sócrates já foi notícia no El Mundo. Em declarações ao periódico espanhol, el pierrio terá dito ao jornalista “Que te pongas em guardia, compañeiro, voy habliar espanhiol!”. Por cá, prossegue na página do Facebook um inquérito que tem como objectivo escolher um nome para o canídeo. Por mim, vou participar sugerindo Rececão. E os leitores, também têm sugestões?

 

Actualizacão: Tendo em conta a animacão que o assunto está a despertar, é oportuno fazer o ponto de situacão, atribuindo o nome do cão ao seu dono, identifcãondo os autores das sugestões recebidas até au au momento (ordem cãonológica):

 Nome do Cão

Autor

Rececão

Rui Rocha

Cartão de Cidacão

José Prata

Cãorrilho

José Prata

Sócãoties (lyoncificado)

Virgínia

Ladrador

Amarques

Cãoplex

Javali Estafermo

Cãocio

Javali Estafermo

%#”&%$”!!! (se percebi bem…)

João Carvalho

Descãofiança

Álvaro Mendes

Mocão

Rui Rocha

Socatão

Ana

Loução

Artur Mendes

Cão-de-Cócoras

Palavrossaurus Rex

Cãopadrio

Fátima

Cãotraste

Fátima

Aquiágato

Amarques

Cãobada (ou Cãobadão)

Amarques

Morcão

Ana Vidal

Cãotado

Helena F. de Gouveia

Engenhocão

Helena F. de Gouveia

Horacão

Amarques

Aldracão

Nuno

Cãopromisso Europeu

João Carvalho

Cãofisco

Licas

Degradacão

Henrique Pontes

Buracão

Hugo Santos

Muhammad Al-Sarraf

Hugo Santos

Corrupcão

Betovsky

Dartacão

Ana Vidal

Silva Pereira

Alexandre C. Silveira

Santos Silva

Alexandre C. Silveira

Magalhão

Francisco C. Branco

Simplão

Francisco C. Branco

Cãotos Silvas

Fátima

Nacionalizacão

Fátima

Sócão

Adélia

 

Adenda às 22h36: o quadro traduz a decisão final do júri relativamente aos nomes admitidos à cãopeticão.

Carta aberta a Francisco Louçã


Rui Rocha,

Caro Dr. Louçã,

A sua recente intervenção política revela uma vertigem. Não é propriamente uma surpresa, reconheça-se. Trata-se, sobretudo, de uma aceleração em direcção a um abismo que sempre se adivinhou no seu percurso político. Em rigor, este até não seria, em condições normais, um assunto com demasiada importância. Em democracia, o suicídio político é uma decisão livre que cada um pode tomar quando e como muito bem lhe aprouver. E creio até que não existe, neste particular, qualquer impedimento ético a que, tomada por si tal decisão, um vasto conjunto de almas caridosas o apoiassem por via de eutanásia. O problema, Dr. Louçã, é que o Senhor está empenhado em promover um suicídio colectivo. No Sábado passado, teve Vª Exa. a indistinta lata de afirmar que “Portugal é hoje um país mais desigual do que o Egipto”. Ora, isso é uma profunda falta de respeito para com os portugueses. O Senhor tem todo o direito de cavalgar a demagogia a Trotsky ou a galope. Mas, não lhe podemos admitir que compare uma democracia que, apesar de tudo, é a nossa realidade, com uma ditadura. Nem que cuspa no seu tom ressabiado sobre uma construção colectiva que, com todos os defeitos que possa ter, lhe permite a si dizer as maiores barbaridades. Muito menos se pode calar o protesto veemente contra um discurso cujo resultado final é cavar um fosso intransponível entre portugueses. O que o Senhor quer sei eu. O seu projecto político alicerça-se na exploração da perturbação social, da revolta, do conflito de gerações e, no limite, da irresponsabilidade e do ressentimento social. E isso, Dr. Louçã, precisamente porque não somos o Egipto, não lhe podemos admitir. A situação em que estamos resolve-se com os portugueses unidos em torno de um projecto de futuro. Mas, não tem solução a partir do dia em que nos voltarmos uns contra os outros. Por isso lhe digo, Dr. Louçã, que Portugal não pode enveredar pelo seu caminho sem retorno. E, se o que Vª. Exa. pretende é suicidar-se politicamente, então temos que exigir-lhe que vá morrer longe e sozinho.

A revolução do Egipto: derrubar um ditador e várias ideias feitas


Rui Rocha,

Em 11 de Fevereiro de 2011, não foi só um ditador que caiu. Várias ideias feitas foram também derrubadas. Entre estas destaco as seguintes: a) a democracia no médio oriente e nos países islâmicos impõe-se com a guerra: esta foi a linha de Bush e teve o seu tubo de ensaio no Iraque. Aqui, a ineficácia dos tanques para impor a paz. No Egipto, como na Tunísia, uma revolução pacífica a impor-se aos tanques de guerra; b) as revoluções são protagonizadas por líderes carismáticos: procurou-se em vão, nas ruas do Cairo, um sósia de Nasser. Em cada esquina, apenas um rosto anónimo, um protagonista tão improvável como o vendedor de fruta que se imolou pelo fogo em Tunis c) em países islâmicos, as revoluções são todas uma réplica da que ocorreu no Irão em 1979: até ver, nada mais falso. O único ponto real de contacto até à data é que o Irão e o Egipto eram governados por ditadores (Pahlevi e Mubarak). Tudo o mais tem decorrido de forma radicalmente distinta. O paralelo, se precisamos de algum, está em Berlim, em 1989  d) as novas tecnologias são o gatilho da revolução: não é tanto assim. Têm, é claro, muitíssima importância. Mas, não é possível esquecer o papel determinante de um meio de comunicação tradicional (a televisão) e de um canal (a Al Jazeera). Basta olhar para as imagens do Cairo para perceber que a maioria das pessoas que se manifestaram foram convocadas pela televisão e não pelo twitter e pelo facebook. O resultado final foi determinado pela confluência de ferramentas mediáticas e sociais (que potenciaram o efeito) e, sobretudo, pela justiça da mensagem. Quando os meios e a mensagem são poderosos o efeito é fortíssimo, mas não é infalível. Aí está a revolução verde no Irão a demonstrá-lo; e) as movimentações populares nos países islâmicos, e já agora, em outras paragens, devem ser analisadas a partir de uma posição de determinismo cultural: os cidadãos egípcios deram uma demonstração de civismo e de elevação. Aos ataques dos partidários de Mubarak (quem não recorda ainda a invasão da praça por jagunços montados em cavalos e camelos?) os manifestantes responderam de forma pacífica. À indiferença e hesitação do ocidente opuseram a paz (alguém viu bandeiras americanas queimadas?). Quando alguns gritaram ‘Le Islam’, a massa respondeu ‘La Nation’. Os democratas egípcios resistiram à tentação de lavar com sangue o sangue derramado. Pessoalmente, não sinto outra coisa que não seja humildade e gratidão face à lição que nos deram; f) a narrativa dos movimentos sociais deve ser sempre feita na óptica dos poderes: chegou a ser ridícula a análise táctica da revolução do Egipto feita por muitos comentadores encartados. O detalhe das solidariedades entre americanos e os seus parceiros, o papel de Israel, o perigo islâmico e ainda um par de botas. Entretanto, na rua, pessoas de carne e osso tinham medo, fome e sofrimento para gritar. A narrativa dos que são ninguém, sobrepôs-se, por uma vez e até ver, ao argumento escrito nos corredores diplomáticos. 

Dirão alguns que falta ainda o mais difícil. Mas, creio que esta será mais uma ideia feita que vai ser derrubada. Quem conheceu o Egipto de Mubarak sabe que se tratava de um país anormal. Em qualquer lugar, uma presença militar ostensiva e maciça. Neste cenário, perante um ditador empedernido, o mais difícil foi enfrentar o medo na primeira manifestação (em 25 de Janeiro) e em todos os dias e noites que se seguiram. Nesse momento, o desfecho mais previsível apontava para o massacre, para a detenção e para a tortura de quantos ousaram levantar-se contra o tirano. O caminho espinhoso que se segue não tem comparação com o gesto de oferecer o peito à infinita  probabilidade de receber uma bala.

Este (também) já não prende mais ninguém


Rui Rocha,

 

Hosni Mubarak nasceu em 1928 em Kufr el-Musailaha, uma aldeia situada no delta do Nilo. Filho de modestos agricultores, fez carreira no exército. Formou-se como piloto militar na ex-URSS e o seu desempenho na Guerra de Yom Kippur valeu-lhe o posto de Chefe da Força Aérea. Em 1975, Anuar el Sadat nomeou-o Vice-Presidente. Seis anos mais tarde, assumiu a Presidência na sequência do assassinato de Sadat. Assinou os acordos de Camp David, optando por um claro alinhamento com os EUA e foi, aos poucos, contornando o isolamento inicial que tal posição lhe valeu no mundo árabe. A sua permanência no poder ao longo de cerca de 30 anos resultou de sucessivos plebiscitos, apesar de ter prometido por várias vezes promover a realização de eleições livres. Durante as três décadas em que exerceu o poder montou um Estado totalitário, corrupto e militarizado. Mais de 50 milhões de egípcios nunca conheceram outro Presidente. E, de acordo com os planos de Mubarak, esperariam mais alguns anos até conhecer o próximo, o seu filho Gamal. Todavia, hoje, 11 de Fevereiro de 2011, como resultado da revolução que eclodiu nas ruas do Cairo e em confluência com os ventos de liberdade que sopraram da Tunísia, foi obrigado a abandonar o poder e a entregá-lo ao exército. Começa, assim, a história do novo Egipto. Esperemos que as páginas seguintes se escrevam em liberdade. E que se encerre definitivamente o capítulo da tortura, da opressão, do sangue e do sofrimento.

O canto da múmia: quando o ditador suspira pela democracia


Rui Rocha,

A declaração que Mubarak dirigiu ontem aos egípcios constitui um marco no processo revolucionário em curso. A mensagem transmitida é a de que o povo deve optar entre a democracia e a revolução. É claro que a via da democracia que foi proposta tem as suas particularidades. É a democracia Mubarak way. Lenta, controlada, de transição, protagonizada pelos escolhidos do déspota. Tudo isto em nome dos invocados superiores interesses do Egipto e com o objectivo de não permitir que o processo descambe para absolutismos (isso é que não pode ser!). Chega a ser comovente ver o coração empedernido do tirano a encher-se de entusiasmo pelo processo democrático. Mubarak afirma querer dar a democracia aos seus filhos. Acontece que, vá lá saber-se porquê, eles ainda não estão prontos para a desfrutar. A sociedade civil não está organizada, os partidos são imaturos, os cidadãos não atingiram o grau de civilidade necessário. Na verdade, neste preciso momento, os egípcios só estão preparados para a ditadura que Mubarak lhes proporcionou durante 30 anos. Felizmente, ele é um especialista no assunto da transição democrática e sabe exactamente como deve conduzir o processo de forma a atingir em 6 meses os resultados que não foram alcançados em três décadas. Perante isto, é bom de ver qual será a opção dos egípcios. A luta revolucionária vai continuar. À falta de preparação adequada para o processo democrático, o caminho terá que fazer-se ao andar. Se a revolução não pode ser feita por cidadãos integralmente formados, a revolução fará os cidadãos. Rapidamente, Mubarak vai perceber que não lhe será permitido despedir-se do poder ao  ritmo que pretendia impor. Pela simples razão de que já não o tem. O dia em que o ditador suspira pela democracia representa o canto da múmia. Resta esperar que o exército saiba usar o poder que realmente detém para evitar o banho de sangue.

O Bloco é porreiro, pá!


Rui Rocha,

As moções de censura analisam-se, para além do mais, pelo contexto,  pelo texto e pela oportunidade. O contexto apela ao juízo de censura propriamente dito. Refere-se a uma apreciação global do mérito da actuação do Governo. Sob este prisma, apenas os fundamentalistas negarão o desastre de um Governo sem programa e sem acção. O texto, por seu lado, diz respeito à moção, à fundamentação da censura e às alternativas propostas. Deste ponto de vista,  não existirá consenso. O Bloco focar-se-á em questões como o corte dos salários da função pública ou o aumento dos impostos, isto é, em medidas viabilizadas pelo PSD no Orçamento de Estado. Quanto a propostas, as do Bloco não serão, seguramente, as do PSD. Da mesma maneira, a oportunidade do PSD não é esta. Quem viabilizou o Orçamento de Estado de 2011 há uns meses não pode embarcar numa moção de censura quando ainda não se conhecem os primeiros dados da execução orçamental. O juízo de censura que existia no final de 2010 é o mesmo que existe agora. Se quisesse exercê-lo, o PSD deveria ter chumbado o orçamento. A percepção de que Sócrates é, cada vez mais, uma caricatura que lidera um Governo fantasma tem que ser provada objectivamente pelas contas públicas. Assim, para o PSD a oportunidade resultará de uma derrapagem da execução e/ou de uma intervenção externa em Portugal. É isto que o PSD deve dizer claramente aos portugueses. Da mesma maneira, deverá apresentar de imediato a sua moção de censura se alguma daquelas circunstâncias se verificar. Todavia, isto não significa que a moção do Bloco seja inócua. De momento, são previsíveis as seguintes consequências: i) o Governo vai continuar absolutamente paralisado, afastando-se inclusivamente a possibilidade de uma remodelação que se adivinhava iminente; ii) Sócrates vai poder usar o seu disfarce de Calimero no Carnaval, invocando a irresponsabilidade dos adversários e recebendo de graça um alibi para a degradação das condições de financiamento e, se vier a ser esse o caso, para a aceitação sem reservas de tudo quanto Merkel vier a impor; iii) esse alibi será invocado até à exaustão mesmo depois da votação da moção de censura como forma de quebrar o nexo de causalidade entre a responsabilidade política do Governo e uma intervenção externa ou a adopção de novas medidas duras que vierem a ser impostas por Merkel; iv) moções subsequentes criarão a ideia de uma oposição sedenta de poder e que não olha aos meios nem ao interesse do país. Assim, é bem possível que o Bloco consiga o seu objectivo: manter o governo ligado à máquina por mais uns meses. Sócrates continuará incapaz de governar mas, com os cordelinhos puxados por Louçã, poderá ir acenando. O que não é coisa pouca para alguém que está já em estado de cadáver político.

O Jogral


Rui Rocha,

É lamentável, mas o papel do actual Primeiro-Ministro de Portugal é o de um jogral. Depois de nos conduzir às imediações do abismo, Sócrates tenta animar os serões com números. Ontem, apresentou os do fuzilamento fiscal. Entretanto, os juros da dívida vão alternando entre o altíssimo e o insuportável. ‘Boas notícias’ berra, entre gargalhadas do público incrédulo, o tunante. Ao mesmo tempo, paga-se o bilhete da pantomina: cortes nos salários, enxurrada fiscal e inflação de 3,6% em Janeiro. Diz-se que não há tragédia sem comédia. O momento burlesco é assegurado por Sócrates. A parte dramática discute-se no centro da Europa. Em 11 de Março, os líderes europeus vão reunir-se para apreciar o novo modelo de governo económico. Existe um debate sério a propósito deste assunto que vai desde o método (ultrapassagem dos mecanismos institucionais e da competência da Comissão Europeia) ao conteúdo (as medidas propostas são adequadas aos objectivos?). Esta é uma discussão em que Portugal não vai participar. O Primeiro-Ministro (e com ele o país) está colocado na posição do jogador calaceiro que o treinador afastou da convocatória para o jogo decisivo. Todavia, o resultado não lhe é indiferente. Cada ataque da equipa que se opõe às medidas de Merkel faz tremer o castelo de cartas a que Sócrates amarrou o destino. Em contrapartida, uma vitória de Merkel pode salvar-lhe a pele por mais uns tempos. Do ponto de vista dos interesses de Portugal (que não se confundem com os de Sócrates), este é um jogo em que a soberania já está perdida. De forma conjuntural numa intervenção do tipo FMI. De forma estrutural no caso da solução Merkel. Mas, há mais. A preocupação dos decisores é a Espanha. A Portugal serão aplicadas, por tabela, medidas inadequadas à nossa realidade. Na semana passada Merkel deslocou-se a Madrid para abordar estes assuntos com Zapatero. A Sócrates terá enviado, quando muito, um sms. Estamos, assim, desapossados da decisão sobre o nosso futuro. Neste contexto, a esperança é daqueles que acreditam que é melhor sermos governados por terceiros do que por incompetentes acocorados em Lisboa. O melhor dos cenários é, portanto, um fundo de mal menor. Intragável, em todo o caso, para quem se recusa a acreditar que a imagem real do país corresponde à de um Primeiro-Ministro que se apresenta de calções e barrete nas reuniões de líderes europeus. Ou no prime-time das nossas televisões.