Em 11 de Fevereiro de 2011, não foi só um ditador que caiu. Várias ideias feitas foram também derrubadas. Entre estas destaco as seguintes: a) a democracia no médio oriente e nos países islâmicos impõe-se com a guerra: esta foi a linha de Bush e teve o seu tubo de ensaio no Iraque. Aqui, a ineficácia dos tanques para impor a paz. No Egipto, como na Tunísia, uma revolução pacífica a impor-se aos tanques de guerra; b) as revoluções são protagonizadas por líderes carismáticos: procurou-se em vão, nas ruas do Cairo, um sósia de Nasser. Em cada esquina, apenas um rosto anónimo, um protagonista tão improvável como o vendedor de fruta que se imolou pelo fogo em Tunis c) em países islâmicos, as revoluções são todas uma réplica da que ocorreu no Irão em 1979: até ver, nada mais falso. O único ponto real de contacto até à data é que o Irão e o Egipto eram governados por ditadores (Pahlevi e Mubarak). Tudo o mais tem decorrido de forma radicalmente distinta. O paralelo, se precisamos de algum, está em Berlim, em 1989 d) as novas tecnologias são o gatilho da revolução: não é tanto assim. Têm, é claro, muitíssima importância. Mas, não é possível esquecer o papel determinante de um meio de comunicação tradicional (a televisão) e de um canal (a Al Jazeera). Basta olhar para as imagens do Cairo para perceber que a maioria das pessoas que se manifestaram foram convocadas pela televisão e não pelo twitter e pelo facebook. O resultado final foi determinado pela confluência de ferramentas mediáticas e sociais (que potenciaram o efeito) e, sobretudo, pela justiça da mensagem. Quando os meios e a mensagem são poderosos o efeito é fortíssimo, mas não é infalível. Aí está a revolução verde no Irão a demonstrá-lo; e) as movimentações populares nos países islâmicos, e já agora, em outras paragens, devem ser analisadas a partir de uma posição de determinismo cultural: os cidadãos egípcios deram uma demonstração de civismo e de elevação. Aos ataques dos partidários de Mubarak (quem não recorda ainda a invasão da praça por jagunços montados em cavalos e camelos?) os manifestantes responderam de forma pacífica. À indiferença e hesitação do ocidente opuseram a paz (alguém viu bandeiras americanas queimadas?). Quando alguns gritaram ‘Le Islam’, a massa respondeu ‘La Nation’. Os democratas egípcios resistiram à tentação de lavar com sangue o sangue derramado. Pessoalmente, não sinto outra coisa que não seja humildade e gratidão face à lição que nos deram; f) a narrativa dos movimentos sociais deve ser sempre feita na óptica dos poderes: chegou a ser ridícula a análise táctica da revolução do Egipto feita por muitos comentadores encartados. O detalhe das solidariedades entre americanos e os seus parceiros, o papel de Israel, o perigo islâmico e ainda um par de botas. Entretanto, na rua, pessoas de carne e osso tinham medo, fome e sofrimento para gritar. A narrativa dos que são ninguém, sobrepôs-se, por uma vez e até ver, ao argumento escrito nos corredores diplomáticos.
Dirão alguns que falta ainda o mais difícil. Mas, creio que esta será mais uma ideia feita que vai ser derrubada. Quem conheceu o Egipto de Mubarak sabe que se tratava de um país anormal. Em qualquer lugar, uma presença militar ostensiva e maciça. Neste cenário, perante um ditador empedernido, o mais difícil foi enfrentar o medo na primeira manifestação (em 25 de Janeiro) e em todos os dias e noites que se seguiram. Nesse momento, o desfecho mais previsível apontava para o massacre, para a detenção e para a tortura de quantos ousaram levantar-se contra o tirano. O caminho espinhoso que se segue não tem comparação com o gesto de oferecer o peito à infinita probabilidade de receber uma bala.