Caro Dr. Louçã,
A sua recente intervenção política revela uma vertigem. Não é propriamente uma surpresa, reconheça-se. Trata-se, sobretudo, de uma aceleração em direcção a um abismo que sempre se adivinhou no seu percurso político. Em rigor, este até não seria, em condições normais, um assunto com demasiada importância. Em democracia, o suicídio político é uma decisão livre que cada um pode tomar quando e como muito bem lhe aprouver. E creio até que não existe, neste particular, qualquer impedimento ético a que, tomada por si tal decisão, um vasto conjunto de almas caridosas o apoiassem por via de eutanásia. O problema, Dr. Louçã, é que o Senhor está empenhado em promover um suicídio colectivo. No Sábado passado, teve Vª Exa. a indistinta lata de afirmar que “Portugal é hoje um país mais desigual do que o Egipto”. Ora, isso é uma profunda falta de respeito para com os portugueses. O Senhor tem todo o direito de cavalgar a demagogia a Trotsky ou a galope. Mas, não lhe podemos admitir que compare uma democracia que, apesar de tudo, é a nossa realidade, com uma ditadura. Nem que cuspa no seu tom ressabiado sobre uma construção colectiva que, com todos os defeitos que possa ter, lhe permite a si dizer as maiores barbaridades. Muito menos se pode calar o protesto veemente contra um discurso cujo resultado final é cavar um fosso intransponível entre portugueses. O que o Senhor quer sei eu. O seu projecto político alicerça-se na exploração da perturbação social, da revolta, do conflito de gerações e, no limite, da irresponsabilidade e do ressentimento social. E isso, Dr. Louçã, precisamente porque não somos o Egipto, não lhe podemos admitir. A situação em que estamos resolve-se com os portugueses unidos em torno de um projecto de futuro. Mas, não tem solução a partir do dia em que nos voltarmos uns contra os outros. Por isso lhe digo, Dr. Louçã, que Portugal não pode enveredar pelo seu caminho sem retorno. E, se o que Vª. Exa. pretende é suicidar-se politicamente, então temos que exigir-lhe que vá morrer longe e sozinho.

O BLOCO É QUE PAGA
Somos inundados diariamente com a hipocrisia sarnosa do PS, de periféricos e do governo e preocupam-se com as aparições excomungadas do BE no matagal fedorento da nossa vida política. A comunicação social não deixa de ajoelhar aos pés dos instalados no poder e amparar-lhe os bornais de manhosos faz de conta, imagem de marca do paramentado pregador de serviço. Prontos a alinhar com a interrupção da democracia, já?! A BEM DA NAÇÃO, segundo Sócrates. Louçã lançado na fogueira da inquisição para purificação do rebanho de beatos pecadores. Fique por cá que não deslustra.
Penso que é prestar um bom serviço a Sócrates erigir Louçã como cavaleiro da virtude. A purificação pelo fogo está um bocado fora de moda. Sobretudo, quando o fogo é fatuo.
*fátuo
Alguma vírgula da minha conversa lhe permite imputar-me virtudes a Louçã? O que está na moda é cavalgar a onda.
Pois desta minha conversa ou de todas as outras também nada permite imputar-me virtudes a Sócrates, Amarques.
Nem uma vírgula do que alguma vez eu tenho dito carregou com tal sugestão.
Estamos então entendidos quanto ao assunto das vírgulas. Penso que podemos viver com a discordância quanto ao resto.
Bem… É uma carta… Se fosse um abaixo-assinado, podias contar comigo para subscritor.
Não me parece que a forma seja determinante, João. Nunca seremos demais para fazer frente a pirómanos disfarçados de bombeiros.
Se o dizes… sempre subscrevo e fico com o dia ganho!
“a Trostsky ou a galope” é muito bom, Rui. Para o Dr. Louçã todos os andamentos servem para dividir as hostes. Menos Passos, claro.
Não me fales em andamentos, que me lembro outra vez da linha Coimbra–Louçã…
Essa é aquela linha que segue sempre pela esquerda?
Pela ditadura moderada e boa de Mubarak é que não segue.
Claro, Ana.
Ou então arranje um Renato só pa ele!!
A democracia é isso. Em termos políticos, uns Teerão o Renato. Outros não.
Caro Rui Rocha:
O Prof. Francisco Louçã não disse que Portugal é um país menos democrático que o Egipto: disse que é mais desigual. Não sei se é ou se não é, mas tanto ele como você estão em posição de comprovar com números o que tiverem a dizer sobre esta matéria. E, como é você que acusa Louçã de mentir – “uma barbaridade”, escreve você – o ónus da prova recai sobre si.
Sobre a “irresponsabilidade” de Louçã: quem é responsável é sempre responsável perante alguém e por alguma coisa. Eu sei que agora é moda abusar desta palavra: por isso lhe peço que ajude a combater este abuso clarificando o seguinte: perante quem é responsável, no seu entender, o Prof. Louçã, e a que cláusula de que mandato o acusa de desobedecer ao chamar-lhe irresponsável.
Quanto ao ressentimento social, se é justificado – se o bem comum está a ser sacrificado a interesses particulares, como entende Louçã e muitos portugueses além dele – e se a responsabilidade de qualquer político consiste, por definição, em defender aquilo que é, no seu entendimento, o bem comum, então irresponsável seria Louçã se não o tivesse em conta.
Finalmente: não sei quem é esse “nós” que não admite a Louçã um projecto político que reconheça a existência dum conflito social e defenda uma das partes nesse conflito. Sei que não faço parte desse “nós”; e sei que não admito, porque já dei para esse peditório, um projecto político que precise de impor o unanimismo – a união nacional, dizem eles e diz você “no limite” – para se realizar.
Uma simples observação: ir buscar um regime ditatorial que revoltou um povo para compará-lo com a nossa (por muito defeituosa) democracia é, no mínimo, de muito mau gosto. E este torna-se uma barbaridade se parte de um líder partidário. E passa a insuportável se ele é de esquerda e parlamentar.
Fim.
João, tudo é comparável com tudo. Se assim não fosse, seria impossível dizer que o regime x é uma ditadura e o regime y uma democracia. Se alguém dissesse que o regime de Mubarak era mais democrático que o do PSD/PS, isso, sim, seria uma barbaridade (embora, com a maré da Democracia a subir no Norte de África e a descer na Europa, talvez deixe de o ser daqui a alguns anos).
Em tudo o que se possa exprimir por números – superfície, população, PIB, quilómetros de auto-estrada, mortalidade infantil, esperança de vida à nascença, níveis de escolaridade, igualdade ou desigualdade de rendimentos – não vejo qualquer impedimento racional ou moral a que um regime, qualquer regime, possa ser comparado com qualquer outro.
Se compararmos o Egipto de Mubarak com o Portugal do PSD/PS quanto ao número de presos políticos, o resultado será desonroso para o Egipto. Mas se os níveis de desigualdade forem de facto mais altos em Portugal, o facto de Portugal ser uma democracia não torna estes níveis menos desonrosos. Pelo contrário: a desigualdade extrema é mais desonrosa em democracia do que em ditadura.
Estou em total desacordo com o princípio, como é óbvio. Distinguir uma ditadura e uma democracia é pura definição e a (falsa) comparação possível serve apenas para notar as características que as definem. A partir daí, não há comparação séria possível, no terreno político.
Faço minhas as palavras do João Carvalho e acrescento apenas o seguinte: Uma democracia e uma ditadura são valores absolutos. Aquela com sinal positivo. Esta com sinal negativo. Comparar uma e outra, ainda por cima em favor da última, é o argumento mais totaliário que ouvi a um político português em muito tempo.
A democracia e a ditadura não são nem podem ser valores absolutos. Para que o fossem, teria que haver no mundo democracias perfeitas (que infelizmente não há) e ditaduras perfeitas (que felizmente também não há). Quer que eu compare uma democracia com uma ditadura em favor desta última? Aqui vai: os estudantes chineses sabem mais matemática que os estudantes americanos. Quer outra? Os Invernos na Coreia do Norte são menos rigorosos que na Finlândia. Quer outra? A vida cultural em Moscovo é mais rica do que em Copenhaga. Podia continuar indefinidamente, mas penso que já ilustrei o que queria ilustrar: dizer que determinada ditadura tem melhor desempenho, num aspecto particular, que determinada democracia não é dizer que tem melhor desempenho em todos os aspectos. Mas é um forte apelo à dita democracia para que melhore o seu desempenho no aspecto em causa.
José, temos a esse propósito uma divergência profunda e insuperável. A minha posição está suficientemente esclarecida no post e no comentário que já fiz. A sua também.
Concordo: a divergência é profunda e insuperável e tanto a sua posição como a minha já estão suficientemente esclarecidas. Vamos manter-nos atentos: pode ser que possamos convergir noutras matérias.