Onde pára a esquerda das liberdades?


Rui Rocha,

De acordo com a cartilha oficial, existem algumas regras de trânsito político que são inquestionáveis. Entre elas, aquela que afirma que quem quiser encontrar a defesa intransigente da liberdade e da democracia deve circular pela esquerda do espectro partidário. Pois é isso que tenho feito. Para me orientar no meu percurso, parti de outro axioma. O de que o PS é um partido de esquerda. Assim, nessa viagem em busca de posições claras em defesa da liberdade, decidi iniciar a viagem no PCP e fazer do PS a última etapa. E, se parti com entusiasmo, confesso que me desiludi logo no princípio. Ali onde esperava uma ampla apologia das liberdades, eis que deparei com o apoio mais ou menos explícito às ditaduras cubana, chinesa ou coreana. Restava-me seguir viagem, renovando a esperança em cada uma das próximas paragens. Recordo ainda o entusiasmo com que me aproximei do Bloco. E a decepção que este constituiu logo que constatei que o único sítio onde o Bloco apoia a revolta é Portugal. Aos costumes ditatoriais de outras paragens, o Bloco diz nada. Ou pior do que isso. Ao que parece as luzes de Teerão exercem um estranho fascínio sobre certas personalidades próximas do BE. Não podendo tratar-se de desvelo pelo iluminismo iraniano, deve tratar-se de um estranho amor pelas iluminações de rua. Sobrava-me então o PS. E aqui, caro leitor, fiquei estupefacto. Mubarak, Ben Ali e Eduardo dos Santos eram ou ainda são companheiros de José Sócrates na Internacional Socialista. O mesmo José Sócrates que ontem fugiu aos jornalistas quando lhe perguntaram sobre a situação na Líbia. E que foi recentemente o menino de ouro de Khadafi na comemoração do 41º Aniversário da Revolução Líbia. O que encontrei foi então uma esquerda comprometida, prisioneira de interesses e comparsa de ditadores. Só me resta concluir que a defesa desinteressada e altruísta da liberdade não passa por ali.

O ministro Amado fala como se estivesse calado


Rui Rocha,

Ao fim de vários dias de ensurdecedor silêncio, o Ministro dos Negócios Estrangeiros veio hoje, ao final da tarde, pronunciar-se finalmente sobre o banho de sangue que Kadhafi está a infligir ao seu próprio povo. Os números apontam, até ao momento, para centenas de mortos e milhares de feridos. Os métodos utilizados incluem o recurso a mercenários, o assassinato e o bombardeamento de manifestantes. Perante este massacre, Luís Amado tem a dizer o seguinte:

“Esperamos que as autoridades líbias tenham a consciência da gravidade dos actos que estão neste momento a ocorrer e possam conter a dinâmica de violência que se tem vindo a instalar, pondo em causa os interesses do país, designadamente no âmbito das suas relações com os países vizinhos árabes e europeus”

Ou seja, o Ministro não condena o regime ou a violência. Não exige a suspensão imediata da repressão. Não perde um momento a apelar a uma transição para a liberdade. Simplesmente, espera.  E espera consciência. De quem tem as mãos manchadas de sangue derramado por inocentes ao longo de 42 anos. Ao crime chama Luís Amado dinâmica de violência. E isso demonstra bem que a posição do governo português sobre a questão da Líbia é estática. Na verdade, continua ancorada na hipocrisia e na subserviência aos interesses de um celerado que já não tem o apoio, sequer, dos seus próprios ministros e corpo diplomático.

E a estrela do 41º aniversário da revolução líbia foi…


Rui Rocha,

Sentado ao lado de Muammar Kadhafi, José Sócrates foi a estrela do 41º aniversário da revolução líbia, que foi celebrado nesta quarta-feira. Segundo o relato da agência Lusa, o primeiro-ministro português viu-se mesmo obrigado a fazer uma noitada para assistir a todas as festividades, depois de cumprido o breve encontro «5+5», que reuniu representantes de vários países do mediterrâneo.
Os principais momentos da reunião são revelados por imagens que mostram o primeiro-ministro português sentado ao lado de Kadhafi.
O líder líbio fez questão de ter Sócrates juntamente com o primeiro-ministro sérvio, Boris Tadic. no seu automóvel durante as celebrações, que tiveram lugar num hipódromo. José Sócrates e a comitiva do Governo português, composta também pelo ministro Luís Amado, abandonarem o local já depois das duas da madrugada.
Segundo informação da agência de notícias local, JANA, também estiveram presentes os presidentes da Serra Leoa, Guiné-Conacri, Malta, Tunísia e Argélia, para além dos primeiros-ministros da Croácia e da Eslovénia. Os vice-presidentes de Espanha, Grécia e Turquia, para além dos ministros dos negócios estrangeiros de Itália e Chipre também não faltaram.

Aleluia!


Rui Rocha,

Pela primeira vez em muito tempo, o Sporting vai apresentar-se na máxima força:

  • José Eduardo Bettencourt: demissionário;
  • Costinha: demitido;
  • Paulo Sérgio: castigado (ausente do banco).

Na pior nódoa está a cair o pano


Rui Rocha,

A moeda da governação de Sócrates tem duas faces. De um lado, a política interna. Ali estampada a incompetência e uma visão da política e da coisa pública que tem em Rui Pedro Soares a sua Vara de lança. O clientelismo socrático não é um exemplo. É, sobretudo, um sintoma. Do outro lado, a política externa. Esta, uma nódoa que nos envergonha estruturalmente. A incompetência e a videirice medem-se numa escala de reprovação técnica e moral (prática). As relações priveligiadas com déspotas e trucidários estão a um nível mais profundo de desrespeito por valores essenciais. A condenação que lhes deve ser dirigida tem raíz na ética. A mesma que fundamenta o carácter absoluto dos Direitos Humanos. Durão Barroso serviu de cicerone a Bush, Blair e Aznar. Sócrates pôs o nome do país nas lonas da tenda de Khadafi. Felizmente, esta é mais uma nódoa sobre a qual está a cair o pano. Do norte de África sopram ventos de liberdade. É um vento poderoso que tem a força de desmascarar as faces ocultas da hipocrisia a norte e a sul do Mediterrâneo. Aquele a quem Almeida Santos chamou o menino de ouro do PS está cada vez mais sozinho. Em Portugal e na frente externa, onde apenas lhe restam os abraços de Chávez para se acolher. Mais uma vez se comprova que nem tudo o que reluz é ouro. E hoje é o dia em que a agência do BES em Tripoli ainda não abriu.

SAP: saúde ausente das povoações (em exibição em Celorico de Basto)


Rui Rocha,

A população de Celorico de Basto saiu ontem à rua. Em causa, o encerramento do SAP a partir ds 24horas. Os utententes terão agora que fazer uma deslocação de cerca de 40km se tiverem necessidade de serviços de saúde durante a noite. O que está em questão, de acordo com o Presidente da Câmara, é a manutenção do serviço até que o novo Hospital de Amarante esteja pronto (a previsão aponta para o final do ano). Até lá, a autarquia está disposta a suportar os custos de funcionamento do SAP no período nocturno. Perante esta posição razoável, a Administração Regional de Saúde/Norte manteve a decisão de encerramento. Trata-se de uma medida cega que só poderá ter uma de duas justificações: ou constitui represália por vários diferendos que têm oposto a autarquia ao poder central, ou algum gestor de saúde está com muita vontade de cumprir à risca as ordens da tutela. Em qualquer caso, é a população que se vê privada de uma medida transitória e sensata. E o Estado que já deixou de ser social também é surdo aos interesses mais elementares das populações do interior, ainda  que estas falem a voz do bom-senso.

O discurso do filho do ditador


Rui Rocha,

 

O filho de Kadahfi, Saif El Islam, está neste momento a dirigir-se ao país, através da televisão. O discurso tem os contornos de um canto do cisne. Os tópicos principais são os inimigos externos, o fantasma de islamismo e uma súbita disponibilidade para mudar rumo à democracia. Neste caso, com 42 anos de atraso. O conjunto é, como aconteceu também com o último discurso de Mubarak, patético. Tudo isto enquanto circulam rumores que apontam para a fuga iminente de Kadahfi para a Venezuela (para onde havia de ser…) e surgem notícias de deserções no exército. Saif el Islam confirma entretanto que existem bases militares e equipamento de guerra na posse dos revoltosos. Aqui ficam alguns excertos de mais um discurso que pode marcar o princípio do fim de um regime ditatorial no norte de África (fonte: Al Jazeera):

“Citizens tried to attack the army and they were in a situation that was difficult. The army was not used to dealing with riots,” he says.

“Libyan citizens died and this was a tragedy.

“There is a plot against Libya. People want to create a government in Benghazi and others want to have an Islamic emirate in Bayda. All these [people] have their own plots. Of course Arab media hyped this. The fault of the Libyan media is that it did not cover this.

Libya is not like Egypt, it is tribes and clans, it is not a society with parties. Everyone knows their duties and this may cause civil wars. 

Libya is not Tunisia and Egypt. Libya has oil – that has united the whole of Libya.

“I have to be honest with you. We are all armed, even the thugs and the unemployed. At this moment in time, tanks are driven about with civilians. In Bayda you have machine huns right in the middle of the city. Many arms have been stolen.

“No one will come to Libya or do any business with Libya.

“We will call for new media laws, civil rights, lift the stupid punishments, we will have a constitution… We will tomorrow create a new Libya. We can agree on a new national anthem, new flag, new Libya. Or be prepared for civil war. Forget about oil.

“The country will be divided like North and South Korea, we will see each other through a fence. You will wait in line for months for a visa.

“The Libyans who live in Europe and USA, their children go to school and they want you to fight. They are comfortable. They then want to come and rule us and Libya. They want us to kill each other then come, like in Iraq.”

A situação na Líbia e o ensurdecedor silêncio de Portugal


Rui Rocha,

 

 

De acordo com várias fontes, está neste momento em curso um massacre na Líbia. A página online do La Reppublica, citando fontes hospitalares, fala em mais de 285 mortos e 700 feridos. Os acontecimentos mais graves terão acontecido em Benghasi, na sequência de intervenção de mercenários ao serviço do regime de Tripoli que terão aberto fogo, de forma indiscriminada, sobre manifestantes. Segundo a Al-Jazeera, a região de Benghasi pode ser agora considerada como palco de guerra e a gravidade da situação é tal que 50 líderes religiosos terão lançado um apelo desesperado aos comandos militares no sentido de não alvejarem civis. Perante o banho de sangue, importa ter presente que as últimas declarações conhecidas da diplomacia e do Governo português sobre o assunto são as do Embaixador em Tripoli, Rui Lopes Aleixo, há um par de dias. Destaco aqui as que foram recolhidas pela TSF:

«Não me parece que haja um protesto generalizado e que possa atingir uma grande área da população. A situação social da Líbia é muito melhor que nos países vizinhos e o grau de politização é muito diferente daquele que se verifica na Tunísia (…) não há uma insatisfação em relação ao regime como verifiquei em relação aos países vizinhos».

O silêncio do Governo português, reafirmo, é absolutamente inaceitável perante a gravidade da situação e traduz uma visão imoral da diplomacia e um completo desrespeito pelos direitos humanos. A Nação que se levantou contra a Indonésia perante a situação de Timor e episódios como o massacre de Santa Cruz não pode manter um silêncio cúmplice relativamente às atrocidades de Khadafi.

Não somos camelos


Rui Rocha,

 

Na Líbia, as forças de segurança governamentais mataram pelo menos 84 pessoas durante os três dias de manifestações, afirmou a organização Human Rights Watch (HRW), baseada em testemunhos de fontes hospitalares. Salvo erro, a única posição sobre o assunto do Governo português é a que consta da imagem. E, valha a verdade, não há palavras para a descrever. Todavia, é importante deixar claro que nesta, como noutras matérias, o Senhor que está à esquerda perdeu já qualquer legitimidade para representar o nosso país. E que, sendo assim, a posição legítima e oficial dos portugueses sobre o assunto é a que diz que é fundamental deitar uma mão ao ditador que está a direita. Para o derrubar. Chega de socrastisia diplomática. Permitimos que Sócrates e Teixeira dos Santos tenham consumado a co-incineração do futuro económico do país. Todavia, não podemos pactuar com o envolvimento  do nome de Portugal no apoio, explícito ou implícito, a cadastrados sanguinários.

Tabaco e liberdades


Rui Rocha,

Em dias seguidos, tropeço com discussões interessantes sobre aspectos que se relacionam com o consumo de tabaco. A primeira notícia (a Helena Matos já lhe fez referência), diz respeito a Espanha, onde El Observatorio para el Seguimiento de la Ley del Tabaco acaba de pronunciar-se no sentido de considerar que é proibido fumar em casa, durante o período de permanência de empregados domésticos. A segunda, diz respeito à prática já adoptada por empresas norte-americanas, nomeadamente hospitais, de recusar a admissão de pessoas que acusem o consumo de nicotina em testes realizados para o ofeito. Ora, devo dizer que a posição do Observatório espanhol me parece correcta. Em princípio, ninguém nos pode impedir de fumar em nossa casa. Todavia, quando esse é também o local de trabalho de um empregado doméstico, a situação altera-se. E, da mesma maneira que estamos vinculados a outros deveres (respeito, pagamento pontual da retribuição, etc.), o de proporcionar boas condições de trabalho e, em geral, de cumprir a lei, também deve ser assegurado. Entendimento diverso só pode partir, parece-me, de uma visão enviesada sobre o valor do trabalho em causa ou do facto de ser tipicamente desempenhado por mullheres. Ambas as situações são inaceitáveis. Não há nenhuma razão que justifique que um empregado doméstico não tenha direito a um ambiente sem fumo no seu local de trabalho e que tal seja garantido a um técnico de marketing de uma multinacional. No que diz respeito à prática das empresas americanas, considero que viola gravemente liberdades elementares. O consumo de tabaco nos EUA é, tal como em Portugal, permitido. Os testes em causa destinam-se a efectuar um juízo de probabilidade sobre a existência de doenças no futuro. Seleccionar candidatos com base nestes critérios (ou, no futuro, através de informação de ADN, por exemplo), é aplicar o princípio da eugenia, condenável em qualquer circunstância, numa questão tão essencial como o acesso ao emprego. Digo que o fumo e o tabaco continuam a ser bons pretextos a partir dos quais podemos testar o nosso entendimento sobre a liberdade e o modo como a queremos para nós ou a admitimos para os outros. Agora, se permitem, vou lá fora fumar um dos meus 30 cigarros anuais.