O Jogral


Rui Rocha,

É lamentável, mas o papel do actual Primeiro-Ministro de Portugal é o de um jogral. Depois de nos conduzir às imediações do abismo, Sócrates tenta animar os serões com números. Ontem, apresentou os do fuzilamento fiscal. Entretanto, os juros da dívida vão alternando entre o altíssimo e o insuportável. ‘Boas notícias’ berra, entre gargalhadas do público incrédulo, o tunante. Ao mesmo tempo, paga-se o bilhete da pantomina: cortes nos salários, enxurrada fiscal e inflação de 3,6% em Janeiro. Diz-se que não há tragédia sem comédia. O momento burlesco é assegurado por Sócrates. A parte dramática discute-se no centro da Europa. Em 11 de Março, os líderes europeus vão reunir-se para apreciar o novo modelo de governo económico. Existe um debate sério a propósito deste assunto que vai desde o método (ultrapassagem dos mecanismos institucionais e da competência da Comissão Europeia) ao conteúdo (as medidas propostas são adequadas aos objectivos?). Esta é uma discussão em que Portugal não vai participar. O Primeiro-Ministro (e com ele o país) está colocado na posição do jogador calaceiro que o treinador afastou da convocatória para o jogo decisivo. Todavia, o resultado não lhe é indiferente. Cada ataque da equipa que se opõe às medidas de Merkel faz tremer o castelo de cartas a que Sócrates amarrou o destino. Em contrapartida, uma vitória de Merkel pode salvar-lhe a pele por mais uns tempos. Do ponto de vista dos interesses de Portugal (que não se confundem com os de Sócrates), este é um jogo em que a soberania já está perdida. De forma conjuntural numa intervenção do tipo FMI. De forma estrutural no caso da solução Merkel. Mas, há mais. A preocupação dos decisores é a Espanha. A Portugal serão aplicadas, por tabela, medidas inadequadas à nossa realidade. Na semana passada Merkel deslocou-se a Madrid para abordar estes assuntos com Zapatero. A Sócrates terá enviado, quando muito, um sms. Estamos, assim, desapossados da decisão sobre o nosso futuro. Neste contexto, a esperança é daqueles que acreditam que é melhor sermos governados por terceiros do que por incompetentes acocorados em Lisboa. O melhor dos cenários é, portanto, um fundo de mal menor. Intragável, em todo o caso, para quem se recusa a acreditar que a imagem real do país corresponde à de um Primeiro-Ministro que se apresenta de calções e barrete nas reuniões de líderes europeus. Ou no prime-time das nossas televisões.

2 comentários em “O Jogral”

  1. Isto é de facto doloroso, Rui. E já percebemos que teremos de aguentar isto tudo até ao final do ano, até ao orçamento. O que as brincadeiras das moções de censura fazem é prolongar este agonia até ao fim do ano.

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