Agora que as temperaturas altas já nos vão abandonando, que o argumento já não ferve no calor que também traz a preguiça, talvez tenhamos o momento para organizar as ideias. Chamar-lhe burkini é, por si, uma traição. O bikini é arejado, fresco e liberal. A burka é um sarcófago pensado para sepultar em vida. A burka ou se tem ou se tira, não se bikiniza. Chamem-lhe, se quiserem, burka de banho. Mas não metam qualquer partícula libertadora de “bikini” na burka que é só radical e assim deve ficar. Aliás, a tentativa de bikinização da burka não é inocente. Só pode ser mal intencionada. Quer passar subrepticiamente a ideia de que tudo, bikini e burka, islão e ocidente, é comparável. Que tudo vale o mesmo. Não vale. A burka não é um bikini de gola alta ou de manga comprida. É outra coisa. Por isso devíamos, antes de mais, introduzir rigor na semântica. Se não designarmos as coisas correctamente, não seremos capazes de pensar correctamente sobre elas. Entendamo-nos: burka de banho e nunca burkini. Depois, logo vemos se a proibimos ou não.