Pinto Monteiro propõe candidatura da dieta sucateira a Património Imaterial da Humanidade.
Não te imagino, Cesária, estrela, no céu, sempre a brilhar. Esse é o próprio lugar dos que sonhavam ou se faziam sonhar. Dos que pedem a contemplação que nunca soubeste reclamar. O teu não. Vejo-te, Cesária, estrela sim, mas estrela-do-mar. No vai e vem das vagas, das profundezas diurnas até à rebentação na mansa e morna madrugada de veludo, ali sempre descalça, das areias do teu lugar Mindelo, ali sempre a fumar.
A morte presumida é uma figura jurídica que permite decretar o óbito de um ausente depois de decorrido um determinado período de tempo (10 anos nosso ordenamento) sem que este tenha dado sinais de vida. Tendo em conta que, no melhor dos cenários (aquele em que não entra a explosão do Euro ou a bancarrota formal), Portugal está obrigado a reduzir a dívida pública dos mais de 100% do PIB actuais para 60% do PIB daqui a 24 anos (com juros, parcerias público-privadas e recessão pelo meio), penso que estará mais do que justificado que se declare a morte presumida do nosso Estado Social. Bem sei que nos habituámos a vê-lo em todo o lado, cheio de vida. Que houve tempos em que caprichava na educação e respirava saúde. Mas, todos sabemos que foi envelhecendo e perdendo o brilho. Fala-se até de uma vida desregrada e de muitos erros de percurso. O certo é que, de repente, começou a aparecer cada vez menos. Nos últimos tempos, já dificilmente o encontrávamos no abono de família e noutros locais que frequentava: escolas, universidades, transportes, hospitais, centros de saúde, pensões, prestações de desemprego ou rendimento mínimo. Lá no fundo, todos sabemos que o Estado Social morreu. Uns alegram-se porque nunca gostaram muito dele: um metediço, o gajo. Outros berram, esperneiam e gritam: não é possível viver sem ele. Muitos que o detestavam em vida vão sentir agora a sua falta. Outros que acreditavam estar completamente dependentes, vão descobrir que conseguem viver sem ele. A morte é sempre um facto dramático. Pior é prolongar a promessa de um regresso que nunca acontecerá. É claro que esta perda provoca um ambiente de comoção colectiva. É nestas alturas que as autoridades assumem um papel fundamental. Antes de mais, devem declarar o óbito do Estado Social. É duro, bem sei. Mas, só isso permitirá encarar a nova vida que nos espera, tomar pelo devido valor as palavras daqueles que prometem o seu regresso numa manhã de sol radioso e enquadrar as carpideiras. Depois, espera-se dessas mesmas autoridades a frieza necessária para extirpar da nossa sociedade os interesses que, a coberto do Estado Social, obtiveram um enriquecimento abusivo. Agora, sem que este possa funcionar como contrapartida do silêncio e do alheamento, a permanência de tais interesses seria ofensiva para a sua memória e intolerável face à nossa realidade. Ambas as tarefas provocarão reacções exacerbadas, mas só a segunda exige verdadeira coragem e diferenciará um governo que se limita a decretar factos consumados de um outro capaz de alterar estruturalmente o país. Também só a concretização desta última poderá acomodar, através da percepção de um mínimo de justiça e de equilíbrio, a espiral ascendente da conflitualidade social.
Merkel decidiu, Sarkozy fez a conferência de imprensa, Cameron assistiu pela janela e nós e outros como nós dissemos que sim com a cabeça (destes, alguns bateram palmas, outros engoliram em seco). Basicamente, o que ficou decidido foi que os países incumpridores, para além de levarem um par de pontapés nos irmãos Dupondt (quem diz irmãos Dupondt diz Tintins), serão obrigados a usar umas orelhas de burro e a ficar virados para a parede . É claro que tudo isto pode ficar em águas de bacalhau se a coisa for pelos ares (caso em que os irmãos Dupondt ficarão também muito mal tratados e teremos que cortar as orelhas: as nossas, não as de burro). Admitamos, entretanto, que a coisa se compõe. Que e os mercados acreditam, que o Cameron não se sente demasiado sozinho, que é possível matar o keynesianismo sem que a Europa morra da cura, que a trapalhada jurídica dos tratados, acordos e instituições é superada, que a soberania dos países envolvidos é minimamente respeitada, que os populismos nacionalistas se controlam, que as agências de rating enfim coiso, que os EUA não afundam, que a China não implode, que a Rússia não rebenta, que o mundo não acaba em 2012, que… e isto e aquilo e tal. Pois, eu sei… mas, admitamos, vá. Nesse cenário, o melhor será colocarmos já as orelhas de burro e pormos os irmãos Dupondt a jeito. Na verdade, enquanto os comentadores da nossa grande superfície (agora já não se vai à praça) evocam as inúmeras vantagens do parlamentarismo britânico ou a visão estratégica de Merkel, é bom que tenhamos presente que, para além de tudo o mais, estaremos um dia vinculados a isto: (…) A especificação do critério da dívida, em termos de valor numérico de referência para a redução da dívida (regra do 1/20) para os Estados-Membros com dívida pública superior a 60%, terá que ser consagrada nas novas disposições. Ou seja, se apesar de todas as indefinições e contratempos o clube da austeridade avançar, partindo em Portugal de uma dívida pública que já ultrapassa os 100% do PIB, teremos de chegar a um rácio de 60%, reduzindo anualmente 1/20 da diferença. Isto com parcerias público-privadas e tudo o mais pelo meio. Talvez estivesse na altura de os ditos comentadores e, se não fosse muito pedir, os governantes e os políticos responsáveis (é verdade, sou dado a oximoros) esclarecerem a exacta dimensão e as consequências do ajustamento com que estamos alegremente comprometidos enquanto nos preocupamos com a solidão do Cameron ou a cor dos vestidos de Merkel. É certo que, no longo prazo, estaremos todos mortos (esta é só para não virem dizer que tenho uma especial aversão pelo Keynes). Mas, no curto e no médio prazo pode haver alternativas. E se é verdade que, em termos colectivos, não encontrei na actazinha do Conselho Europeu nenhum capítulo sobre a última moda em cortes de cabelo (haircuts diria o bom velho Cameron) será sempre possível uma decisão individual que passe, lá para o fim do Inverno, por ir lavar pratos para Vancouver (sempre podemos dizer que somos amigos do Álvaro) ou servir fondue de queijos em Genebra. Trata-se, como diria o outro, de sair da zona de confronto.
Se não me engano, vivemos ainda num estado de direito. As forças policiais são fundamentais para assegurar a sua sobrevivência, assegurando o cumprimento da lei. Todavia, nada corrói mais a legitimidade democrática do que a actuação das polícias à margem da legalidade. É por isso que a actuação de eventuais agentes infiltrados nas manifestações ocorridas no dia da greve geral deve ser esclarecida de imediato (e já vai tarde), retirando-se todas as consequências institucionais e pessoais pertinentes. A derrota, se a ela houver lugar, não está em admitir erros e assumir responsabilidades, mas em permitir que a dúvida sobre os métodos utilizados permaneça. Por outro lado, este é um bom exemplo do que a polícia não deve fazer:
Como cidadão, não posso aceitar uma polícia de coitadinhos (os suspeitos do costume?) e que parece entender que todos os fins justificam os meios (difícil é passar pelos problemas e resolvê-los?). Lamentáveis ainda são as justificações apresentadas para este tipo de mensagem: desabafo, refrear os ânimos no Facebook da PSP, espicaçar a discussão, monitorizar quem escreve no mural… Ou, pior ainda: não é posição oficial da PSP (é a posição de quem, então?), frisando as diferenças óbvias de comportamentos e discursos entre os posts nas redes sociais e os comunicados oficiais ou conferências de imprensa dos responsáveis da polícia. O atascanço é de tal ordem que até podemos ser levados a admitir que alguém se infiltrou no Facebook da PSP para a descredibilizar. Estarei sempre ao lado de uma polícia discreta, eficaz, responsável e que actue nos limites da lei e em nome dela. Mas, defender a PSP é, antes de mais, recusar liminarmente toda a possibilidade de a ver envolvida em práticas próprias de estados securitários ou de a ver representada por papagaios dados à lamúria.

Programa:
Sessão de Homogeneização de Conhecimentos
9 de Dezembro de 2011
José Tordo – Lendas e magias de S. Cipriano;
João Pisco – Mezinhas e ervas;
Carlos Gaio – A castanha no imaginário popular;
Laura Canário – Frutos silvestres e plantas medicinais;
Paulo Tenório – Verdades e mentiras sobre as curandeiras.
O Pensamento Mágico em Política
10 de Dezembro de 2011
Professor Galamba – No princípio era o crédito;
Doutor Sócrates – A dívida na psicologia infantil;
Mestre Seguro – Excedente e castigo;
Carlos Zorrinho – Sonambulismo e aluguer operacional de veículos;
Mário Soares – Gerontologia e verborreia;
Isabel Moreira – Defesas impossíveis: a solidão dos guarda-redes sociais;
Dona Fernandinha – A igualdade de género no mundo das trevas ou nem mais uma bruxa com vassoura.
Os trabalhos decorrerão no Salão Paroquial de Vilar de Perdizes que, diz quem já lá esteve, é lugar aprazível e bem equipado. No final das sessões será servida a célebre Queimada Barrosã.
António José Faria de Barros foi o meu primeiro chefe. Transmontano, sisudo, teimoso, frio, áspero. Ou… nada disso. Antes de mais, um ser humano marcado pela vida. A mulher morreu prematuramente. Os dois filhos, deficientes profundos, sobreviveram um par de anos à mãe. Ao longo dos cinco anos em que trabalhámos juntos, os seus olhos só se iluminavam quando, depois de um dia de trabalho duro, contava algumas histórias de caça. Foi assim, pelos relatos de interposta pessoa, que conheci Adolfo Rocha. Eram amigos de longa data e caçavam juntos. As peripécias eram saborosas e bem contadas. Por vezes, imaginava-me com eles a comer achigãs na Foz do Sabor. Ou a caminhar ao seu lado, com os pés enterrados nas lamas transmontanas de Novembro. Um dia, disse-me: sabe, a minha mulher detestava o Torga… Mantive-me em silêncio, dando-lhe tempo para esconder o rosto atrás do monitor, enquanto uma lágrima de saudade lhe desfigurava a máscara gelada com que sempre se apresentava ao mundo. Pelo visto, em determinada altura, Torga teria tido um comentário mais frio sobre os filhos deficientes do casal: não podem viver só para eles. Nada de ofensivo ou brutal. Algo até muito natural para os ouvidos de qualquer outro interlocutor. Um punhal para o coração daquela mãe. E o Senhor Dr. como reagiu, perguntei-lhe. Sabe, eu li a Criação do Mundo, pisei com ele as pedras dos caminhos de São Martinho de Anta, estive com ele no sítio onde ele tratava do estrume enquanto os outros miúdos brincavam… por isso, percebo. Da obra de Torga, até então, tinha apenas suportado Os Bichos no ensino secundário. Por obrigação e com muito pouco entusiasmo e menos proveito. O tempo foi passando, mas aquela frase ficou: eu li a Criação do Mundo. A curiosidade foi crescendo e acabei por comprar o livro. Comecei a ler sem grande esperança ou entusiasmo. A memória do Corvo Vicente ainda estava demasiado presente… Depois, o assombro foi crescendo. Em termos estruturais, o livro divide-se em 6 partes, correspondendo cada uma delas a uma fase da vida de Torga. As duas primeiras (a infância em Trás-os-Montes e a adolescência e parte da juventude no Brasil) são relatadas em páginas que me marcaram como poucos livros o fizeram. É claro que, mais para a frente, perdi a magia. Digo que a perdi eu e não o livro porque é provável que seja assim. Se bem me lembro, desliguei-me do texto a partir do momento em que Torga descreve uma viagem em automóvel, por paragens de Espanha, e cai no auto-elogio. Agora, estou a relê-lo. É uma forma de recordar António José Faria de Barros e de agradecer tantos ensinamentos que não soube retribuir-lhe, sequer em palavras, em vida. De dizer-lhe que também eu percebo tudo, todos e nada ou nenhum deles. E, sobretudo, de tentar refazer a leitura a partir do episódio de Espanha. Se tiver a sorte de reaver a magia, direi que a Criação do Mundo é, no seu todo, um livro inesquecível.
Como deve ser, o melhor fica para o fim: em breve, a Teresa Ribeiro vai dar continuidade à série.
Já não me lembrava da extraordinária relação qualidade/preço das refeições servidas a bordo do serviço ALFA da CP. Creio que desta vez vou recordar-me durante muito tempo.
Já colocaste o Elmo, Zorrinho? Sim, chefe. Passa-me agora a cota de malha. Muito bem, chefe. Verificaste a fisga, Zorrinho? Verifiquei, chefe. Então, estamos prontos, Zorrinho. Estamos prontíssimos, chefe. E deixe-me que lhe diga que a armadura lhe fica a matar. Também me parece, Zorrinho, tenho aqui um joanete que, de tão apertado, ainda me vai engasgar. Já experimentou levantar a viseira, chefe? Boa ideia, Zorrinho, de facto já respiro melhor. Chefe? Diz, Zorrinho. Posso perguntar-lhe para onde vamos nestes preparos? Vamos castigar os países que têm excedentes financeiros que se recusam a dinamizar a economia. É uma ideia genial, chefe!