O Conselho Europeu e um conselho meu


Rui Rocha,

Merkel decidiu, Sarkozy fez a conferência de imprensa, Cameron assistiu pela janela e nós e outros como nós dissemos que sim com a cabeça (destes, alguns bateram palmas, outros engoliram em seco). Basicamente, o que ficou decidido foi que os países incumpridores, para além de levarem um par de pontapés nos irmãos Dupondt (quem diz irmãos Dupondt diz Tintins), serão obrigados a usar umas orelhas de burro e a ficar virados para a parede . É claro que tudo isto pode ficar em águas de bacalhau se a coisa for pelos ares (caso em que os irmãos Dupondt ficarão também muito mal tratados e teremos que cortar as orelhas: as nossas, não as de burro). Admitamos, entretanto, que a coisa se compõe. Que e os mercados acreditam, que o Cameron não se sente demasiado sozinho, que é possível matar o keynesianismo sem que a Europa morra da cura, que a trapalhada jurídica dos tratados, acordos e instituições é superada, que a soberania dos países envolvidos é minimamente respeitada, que os populismos nacionalistas se controlam, que as agências de rating enfim coiso, que os EUA não afundam, que a China não implode, que a Rússia não rebenta, que o mundo não acaba em 2012, que… e isto e aquilo e tal. Pois, eu sei… mas, admitamos, vá. Nesse cenário, o melhor será colocarmos já as orelhas de burro e pormos os irmãos Dupondt a jeito. Na verdade, enquanto os comentadores da nossa grande superfície (agora já não se vai à praça) evocam as inúmeras vantagens do parlamentarismo britânico ou a visão estratégica de Merkel, é bom que tenhamos presente que, para além de tudo o mais, estaremos um dia vinculados a isto: (…) A especificação do critério da dívida, em termos de valor numérico de referência para a redução da dívida (regra do 1/20) para os Estados-Membros com dívida pública superior a 60%, terá que ser consagrada nas novas disposições. Ou seja, se apesar de todas as indefinições e contratempos o clube da austeridade avançar, partindo em Portugal de uma dívida pública que já ultrapassa os 100% do PIB, teremos de chegar a um rácio de 60%, reduzindo anualmente 1/20 da diferença. Isto com parcerias público-privadas e tudo o mais pelo meio. Talvez estivesse na altura de os ditos comentadores e, se não fosse muito pedir, os governantes e os políticos responsáveis (é verdade, sou dado a oximoros) esclarecerem a exacta dimensão e as consequências do ajustamento com que estamos alegremente comprometidos enquanto nos preocupamos com a solidão do Cameron ou a cor dos vestidos de Merkel. É certo que, no longo prazo, estaremos todos mortos (esta é só para não virem dizer que tenho uma especial aversão pelo Keynes). Mas, no curto e no médio prazo pode haver alternativas. E se é verdade que, em termos colectivos, não encontrei na actazinha do Conselho Europeu nenhum capítulo sobre a última moda em cortes de cabelo (haircuts diria o bom velho Cameron) será sempre possível uma decisão individual que passe, lá para o fim do Inverno, por ir lavar pratos para Vancouver (sempre podemos dizer que somos amigos do Álvaro) ou servir fondue de queijos em Genebra. Trata-se, como diria o outro, de sair da zona de confronto.

6 comentários em “O Conselho Europeu e um conselho meu”

  1. ropositadamente ainda não fiz nenhum comentário à cimeira europeia do passado fim de semana.
    Decidi dar tempo ao tempo e procurar analisar as diferentes reações, comparando-as com as minhas.

    Estou desiludido. Com o resultado da cimeira e com as reações.
    No encontro dos líderes europeus decidiu-se rever o Tratado de Lisboa, aumentar o poder das instituições europeias, aprovar um limite incumprível de défice de 0,5%, inscrevendo-o numa revista Constituição, e sanções para o prevaricadores, leia-se Portugal.

    O nosso representante teve a importante e ousada tarefa de dizer:
    Bééééé!

    Que é como um carneiro diz sim e que aqui se coloca como figura de estilo.

    Trocando por miúdos, Pedro Passos Coelho comprometeu-se a subjugar Portugal aos interesses europeus ultrapassando todos os obstáculos, até a própria Constituição.

    Sem perguntar nada aos portugueses.
    A orientação política de uma pessoa vinculará 10 milhões de portugueses sem que estes se possam pronunciar.

    Não existe um limite para a representatividade de um político?
    Só porque venceram democraticamente as eleições legislativas devemos reconhecer legitimidade total a qualquer decisão que estes cavalheiros se lembrem de tomar?

    Ninguém se insurge contra este aberrante abuso de poder?
    Ninguém exige um referendo em que o Povo possa manifestar a sua vontade?
    Ninguém se exalta?
    Ninguém… nada?
    Rasga-se a Carta que rege a nossa República porque dá jeito à Sra. Merkel, com um sorriso cunícula nos lábios?
    Felizes?!

    Está bem.
    Depois não se queixem.

    Rui, informo que tomei a liberdade de “levar” o seu brilhante texto para o meu blogue, com as devidas vénias.
    Obrigado.

    Cumps.

  2. “É certo que, no longo prazo, estaremos todos mortos (esta é só para não virem dizer que tenho uma especial aversão pelo Keynes).”

    Se isso fosse verdade não deveríamos ter todos morrido entre 2010 e 2011 ?
    Eu diria que chegámos ao longo prazo.

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